domingo, 19 de dezembro de 2010

A Ciência da Ficção - O que é Ficção Científica?



O debate sobre uma definição adequada para a Ficção Científica (FC) é antigo.

A edição de 1979 da Enciclopédia da Ficção Científica tinha mais de vinte definições.
Em 1993, a equipe editorial baixou para onze. O livro de referência da FC cita sessenta e oito definições.
A maioria insatisfatórias, algumas irrelevantes e deixam escapar algo crucial.

Não se pode dizer que a FC é realista, porque não é limitada aos seus métodos, e pela mesma razão não pode ser classificado como naturalismo.

Definir FC como "narrativas do futuro" também é equivocado. Como disse o escritor e teórico de FC, Philip K. Dick, "não é o trabalho da ficção científica, fazer previsões". Dick dá também uma outra razão muito simples pela qual a FC não pode ser definida como uma ficção do futuro, ou seja, pode haver ficção científica no presente, ou em um mundo alternativo.

Hugo Gernsback (considerado o 'Pai da FC') definiu como "um romance com fatos científicos e visão profética entremeadas".

Na visão do croata Darko Suvin, estudioso e crítico de FC, esta definição identifica apenas "estágios primários de desenvolvimento da FC", como qualquer definição que se  concentra na tecnologia, ao invés do âmbito social onde estes avanços tiveram origem.

"Fornecer detalhes técnicos corretos" não é, de acordo com o professor Patrick Parrinder, o elemento definidor da FC. Isso porque os escritores lidam também com extrapolações não tecnológicas, como aspectos sociais, normas de comportamento sexual, cultos religiosos, formas de arte do futuro, etc.

Williams corrobora no mesmo ponto, quando afirma que a FC, além de explorar novas tecnologias, pode explorar um novo conjunto de leis, tais como novas relações abstratas - o que ele chama de "novo máquinário social".

O escritor de FC Kurt Vonnegut, falando sobre seu alter ego, o também escritor de FC, Kilgore Trout, declara que "se Kilgore Trout pode ser um escritor de FC, e ainda assim, não saber quase nada sobre ciência, então qual é a relação entre ciência e ficção científica?"

Outros escritores, como Ben Bova, Burroughs e Damien Broderick, definem a FC como "a ficção que trata de mitos modernos". Essa definição é equivocada, na minha opinião, e explicarei o por que mais tarde.

Se FC não pode ser definida como sendo sobre narrativas do futuro, nem como ficção tecnológica, e se não é o naturalismo, realismo ou mito, então o que exatamente é?

Os compiladores da edição de 1993 da Enciclopédia da Ficção Científica concluíram que uma definição única, que englobe tudo, é provavelmente impossível. No entanto, na introdução de "The Last Frontier: Imaging Other Worlds From the Copernican Revolution to Modern Science Fiction"  (A Última Fronteira: Imaginando Outros Mundos - Da Revolução de Copernico à Ficção Científica Moderna), o professor e historiador Karl Guthke, explora uma definição que julgo que revela os princípios filosóficos por detrás das obras de ficção científica. Um dos defensores mais proeminentes desta definição de FC é também Darko Suvin, que insiste que: "A FC é um gênero literário, cujas condições necessárias e suficientes são a presença e a interação de estranhamento e cognição, e cujo principal dispositivo formal é uma plataforma alternativa imaginada à partir do ambiente empírico do autor."

Embora não haja estranhamento ou "deslocamento", em toda a ficção de FC, o que distingue de outros gêneros é o fato de que seus estranhamentos são cientificamente possíveis ou acredita-se serem cientificamente possíveis.

Suvin dá uma definição do que se entende por literatura de estranhamento cognitivo: "A FC se distingue pela dominância narrativa ou a hegemonia de um 'novum' (novidade,  inovação), validado pela lógica cognitiva".

O 'novum' central de qualquer trabalho de FC, de acordo com Suvin, tem que estar dentro dos limites da razão científica. Se uma obra contém um ‘novum’ fora da "lógica cognitiva", não seria correto então, classificar como um exemplo de FC.

Fundamentalmente, não é a mera presença de um 'novum' que distingue a FC do resto da literatura, pois como diz Brian McHale (teórico e estudioso de literatura): "Qualquer ficção, de qualquer gênero, envolve pelo menos um 'novum', um personagem que não existe no mundo empírico, um evento que realmente não ocorreu.”

O que distingue a FC é o tipo de 'novum' que ela utiliza.

A FC se preocupa com 'novum's baseados em nossa compreensão da lógica e da ciência. Os mundos criados pelos livros de FC não são empíricos, no sentido em que eles estão de acordo com o mundo externo que conhecemos, e são empíricos, no sentido em que o escritor constrói seu mundo alternativo.

Obras de FC não são empíricas, porque descrevem o mundo exterior, como o escritor o experimenta, eles são empíricos em sua metodologia: são construídos de modo com que sejam compatíveis com um mundo cientificamente plausível, um mundo onde a investigação científica é possível e frutífera.

"É uma premissa da FC que, em princípio, tudo deve ser interpretável, empírica e racionalmente", afirma o também escritor de FC, Stanislaw Lem.

Isso quer dizer que uma história de ficção científica deve ser escrita a partir do espírito do conhecimento empírico, com aquilo que Eric S. Rabkin (professor de literatura e escritor de FC&F)  chama de "os hábitos científicos da mente."

O filósofo R.H.Popkin, prescreve que a única fonte de "informação sobre o mundo disponível, são as impressões que obtemos através dos nossos sentidos".

A ficção que o escritor de FC cria deve ser empírica para os seres dentro dela.

Para a escritora premiada Joanna Russ, a FC "se dirige à mente, não ao olho. Não somos  apresentados a uma representação daquilo que sabemos ser verdade, através da experiência direta, ao invés disso, nos é dado aquilo que sabemos ser, ao menos possível."

Uma outra característica que define a FC é o papel que o 'novum' científico desempenha na narrativa, que deve funcionar como o núcleo de todo o projeto, da qual fluem o enredo, estrutura e até mesmo o estilo. O 'novum', Suvin formula, "é tão importante e significativo que determina a lógica narrativa inteira."

Philip K. Dick, define a ficção científica da mesma forma que Suvin. Dick argumenta que se, uma preocupação com o futuro e com a tecnologia não são suficientes para definir a FC, então o que é?

"O que podemos chamar de FC? Temos um mundo fictício, que é o primeiro passo: Uma sociedade que de fato não existe, mas está baseada em nossa própria sociedade, isto é, a sociedade é o ponto de partida para isso; e avança para além da nossa própria, de alguma forma, talvez ortogonalmente, como acontece em um mundo alternativo. 
É o nosso mundo deslocado por algum tipo de esforço mental, por parte do autor, o nosso mundo transformado no que ainda não é. Este mundo deve ser diferente em pelo menos um modo, e esse deve ser suficiente para dar origem a eventos que não poderiam ocorrer em nossa sociedade, ou em qualquer outra sociedade conhecida, presente ou passada."

Dick, como Suvin e Robert E. Scholes (teórico e crítico de FC), vê como fator crucial a maneira pela qual o mundo ficcional é diferente da nossa, ou seja, o tipo de 'novum' que é usado.

"Deve haver uma idéia coerente envolvida neste deslocamento. Ou seja, o deslocamento deve ser conceitual, não apenas uma questão trivial ou bizarra"

O tripé da definição Suvin-Dick de FC, portanto, se apóia em 3 premissas:

   1. Temos um mundo que de uma ou mais formas é diferente do mundo real. (Ficção)
   2. Essa diferença (deslocamento, 'novum', etc) tem de ser concebível dentro da filosofia científica moderna. (Empírica)
   3. Esse deslocamento cognitivo tem de agir como o coração da narrativa. (Central)

Muitos outros escritores e críticos definem a FC da mesma maneira, mesmo com uma terminologia um pouco diferente.
Rabinn diz que: "Uma obra pertence ao gênero FC se o seu mundo narrativo é pelo menos um pouco diferente do nosso, e essa diferença é aparente contra o pano de fundo do conhecimento".

Outros teóricos cujas definições de ficção científica são semelhantes ao estranhamento cognitivo incluem Thomas Pavel, Annie Dillard, William Gass e Frank L. Cioffi, que afirmam que em obras de ficção científica a "base da ordem social", é diferente da nossa "realidade empírica" própria.

Stanislaw Lem escreveu: "FC é a arte de colocar premissas hipotéticas em um fluxo muito complicado de ocorrências psicossociais".

Como Suvin e Dick, Lem é seletivo quanto ao tipo de premissas hipotéticas que podem ser usadas: elas não podem ser de qualquer tipo, como um conto de fadas, por exemplo.

O que Dick se refere como um "deslocamento bizarro" Suvin chama de "estranhamento não cognitivo metafísico". O que Dick define como "deslocamento trivial", Suvin define como "naturalista".

Como o filósofo David Hume apontou em seu famoso livro ‘An Enquiry concerning Human Understanding’; Empirismo e ciência só podem trabalhar em um mundo que é suscetível às leis observáveis. Um universo que não é suscetível à lógica, à razão, um mundo sem causa e efeito, um mundo governado pela magia é um anátema que para o empirismo equivale a uma admissão de derrota. Temos que acreditar que o mundo (qualquer mundo) é compreensível em algum nível.

"Lógica", como diria o filósofo Nietzsche, "por sua natureza, é uma questão de otimismo".

Para Lem, "na ficção científica, não pode haver maravilhas inexplicáveis, transcendências, nem demônios."

A proibição de Lem a demônios é idêntica ao que Dick diz: "a religião nunca deve aparecer em FC, exceto como perspectiva sociológica."

Suvin também só permite aspectos religiosos se for examinada “como um fenômeno humano cientificamente observável". Não se deve "brincar com a religião para além do seu interesse puramente histórico ou antropológico".

Tudo isso sugere que no centro da definição Suvin-Dick de FC, há um compromisso muito sério de alguma espécie com a ciência, e é esse compromisso que torna a FC diferente de todas as outras formas literárias.

O professor Gerald Prince resume a situação assim: "a ficção científica está ligada à ciência, e mesmo sendo frágil esta ligação, que forneça um cenário privilegiado para a razão se aventurar, com suas derrotas e vitórias".

Mas do que se trata esta ligação entre Ciência e Ficção Científica?

O termo criado por Lem, "premissa hipotética" sugere que o escritor de FC é semelhante ao cientista. FC é uma ficção escrita a partir de uma maneira científica de olhar para o universo(s).

O que a FC tem da ciência, segundo a definição Suvin-Dick, é a sua metodologia.
Afirma Suvin que 'novum's de FC são "postulados validados pelos métodos científicos pós-cartesiano e pós-baconiano".

Narrativas de FC, narrativas sérias de FC, são escritas dentro do espírito da ciência.
FC não é ficção sobre ciência, mas ficção através do método científico.

A noção central da ciência para Albert E. Moyer (estudioso da ciência na sociedade), é que "regras metodológicas operam e se desenvolvem independentemente do background  social e cultural do cientista", e que tais regras metodológicas de "funcionamento universal" devem ser apreendidas por escritores de FC, já que a FC é um "experimento mental" (termo de Suvin) a partir de dados científicos, ou seja, cognitivo, da lógica.

Rabkin engloba tudo maravilhosamente ao dizer que: "O que é importante na definição de ficção científica não são os acessórios, as armas de raios, mas o hábito científico da mente do autor" (http://www.columbia.edu/ccnmtl/projects/frontiers/habits.html).

A base do método científico de experimentação é o controle de todas as variáveis, excluindo aquela sob investigação. Este é o que precisamente a FC, de acordo com Suvin-Dick faz, ela imagina o mundo como ele é, com uma diferença (novum) significativa e cientificamente plausível (cognitiva, ou não-trivial, não bizarra), e imagina que mudanças isso provocaria ao fluxo de "ocorrências psicossociais".

Para Rabkin, "Uma boa obra de ficção científica faz apenas uma suposição sobre o seu mundo narrativo e que viola nosso conhecimento sobre o nosso próprio mundo e extrapola toda a narrativa a partir desta diferença."

Se aceitarmos que a FC está edificada sobre a crença no método científico, algo mais importante se torna visível. Algo que se soma ao termo de Lem, o "fluxo de ocorrências  psicossociais". Ver o mundo social, psicológico e físico, a partir de uma perspectiva científica, é vê-lo como um determinado conjunto de variáveis. A perspectiva científica é uma visão profundamente cinética do mundo, uma visão de um mundo predisposto a mudanças. Tal perspectiva, que vê paradigmas como transitórios, é diametralmente oposta à certeza ao absoluto. Não se dá devido aos escritores de FC usarem a metodologia científica, eles a utilizam como sua perspectiva filosófica sobre o mundo.

Dentro da FC há um compromisso filosófico, uma crença no método racional.

Parrinder se refere à dívida dos escritores de FC com a "ideologia" científica, o que Aldous Huxley chamou de "espírito ético" da ciência, ou o que Tanner chamou de "a moralidade da flexibilidade".

Para Huxley, um escritor ou é um propagandista da "ciência pura e da filosofia analítica" ou da "idolatria nacionalista, da mentira organizada [por exemplo: a religião] e de um número sem fim de distrações".

É por este motivo que a FC não pode ser classificada como um mito moderno: o mito é estático, eterno: "O caráter ontológico do mito é antiempírico... vive na ficção mas se esforça para sair deste estado antinômico de ser", disse Lem.

“A ficção tradicional compartilha as ilusões (os mitos) da sociedade que a produz.
Já a FC se esforça, por vezes com bastante sucesso, para ficar de fora" diz Nicholls.

Broderick descreve a FC como principalmente um meio diacrônico, um histórico de mudanças acumulativas, em que cada passo é diferente do último. O mito, pelo contrário, opera normalmente e, principalmente, numa sincrônica ou “dimensão atemporal".

O trabalho da FC, de acordo com Bachard, é por abaixo intuições imediatas e desconstruir um universo de "clichés arquetípicos".

Cioffi acredita que "A FC é uma expressão inteligível de uma sociedade em que as visões do mundo podem mudar", e Campbell afirma que "ao contrário de outras literaturas, a FC assume que a mudança é parte natural da ordem das coisas."

Há muito se tem uma associação óbvia entre o ceticismo e o empirismo.

O filósofo racionalista Anthony Flew atesta sobre a relação entre os dois: "O empirismo caracteristicamente está voltado para a aquisição do conhecimentos, um processo lento e fragmentado, repleto de auto-correção e limitada pelas possibilidades de experimentação e observação, e tem sido caracteristicamente cético quanto a abraçar sistemas metafísicos."

Este espírito cético, que acompanha a defesa do método científico, insiste em que tudo pode ser descentralizado, e respeita a crença de que a verdade absoluta é cognoscível como errônea e anacrônica. “Os cientistas não talham verdades na pedra e nem devem os escritores de FC fazê-lo”, pois como adverte Broderick, “a metodologia a qual se filiaram, não permite isso, a virtude está em destruir a pedra e disseminar as palavras."

O professor de literatura Robert M. Philmus reduz a um simples ponto ao afirmar que enquanto a FC requer e permite a explicação científica, a fantasia (o mito, a metafísica) não pode permitir isso. O mito é antiempírico, precisamente porque não vê o Universo como um conjunto de variáveis, mas como algo absoluto. As visões do mundo mítico não aceitam o  método científico, o processo racional, não clama por um universo razoável. O Mito reside no aforismo de Nietzsche: "O inexplicável deve ser completamente inexplicável, o inexplicável dever ser completamente sobrenatural, miraculoso como assim exigem todos os religiosos e metafísicos... apesar do homem de ciência ver nesta exigência o princípio de todo mal."

Suvin coloca a dicotomia entre o mito e método científico, assim: "Matematicamente falando, o mito é orientado para as constantes, enquanto a FC, para as variáveis."

FC é, portanto, como sugere Nicholls, "a literatura da mudança", e como Suvin conclui, "ela enxerga a ilusão da identidade mítica estática, geralmente como fraude, na melhor das hipóteses, apenas como uma realização temporária de contingências potencialmente ilimitadas."


Bo Fowler (New Humanist Articles - Volume 116 - Primavera de 2001)







Uma lista do que é e do que não é FC, segundo Darko Suvin.