sábado, 18 de dezembro de 2010

Solaris - Stanislaw Lem (parte 16)


Atravessamos vastos salões, cada um deles com a capacidade de dez unidades Kronecker, e arrastamo-nos como formigas, agarrando-nos aos rebordos das galerias que respiram e esticamos os pescoços para observar o voo de arrojadas vigas mestras, opalescentes à luz das lanternas, e as elásticas cúpulas que se entrecruzam e contrabalançam sem o mínimo erro — a perfeição de um momento, visto que tudo aqui passa e desvanece. A essência desta arquitetura é o movimento sincronizado com vista a um objetivo preciso. Observamos apenas uma fração do processo, que é como ouvir a vibração de uma única corda numa orquestra de super-gigantes. Sabemos, mas não conseguimos aprender, que acima e abaixo, para além dos limites da percepção ou da imaginação, estão a decorrer milhares e milhões de transformações simultâneas, interligadas por um contraponto metálico, tal como uma partitura de música.
Tem sido descrita como uma sinfonia em geometria, mas faltam-nos os ouvidos para a podermos ouvir.

Só observando a longa distância poderíamos abranger todo o processo, mas a camada externa da simetríade esconde a colossal matriz interior, onde a criação é incessante, o criado torna-se o criador e “gêmeos” absolutamente idênticos nascem em pólos opostos, separados por estruturas gigantescas à milhas de distância. A sinfonia cria-se a si própria e escreve a sua própria conclusão, o que é terrível de ver. Cada observador sente-se como um espectador de uma tragédia ou de um massacre público, quando, depois de duas ou três horas — nunca mais—, o Oceano vivo encena o seu próprio assalto. A superfície polida do Oceano redemoinha e encrespa-se, começa a borbulhar, e legiões de vagas, vindas de todos os pontos do horizonte, convergem para o centro, as bocarras abertas muito mais maciças que os lábios que envolvem o mimóide em embrião. A base submersa da simetríade é comprida, e o colosso eleva-se como se a ponto de ser cuspido para fora da força de gravitação do planeta. As camadas superiores do Oceano redobram a sua atividade e as vagas erguem-se cada vez mais altivas, para depois embater contra os lados da simetríade. Envolvem-na, endurecem e tapam todas as aberturas, mas o seu ataque nada é em comparação com a cena que se passa no interior. Primeiro, o processo de criação fica momentaneamente petrificado; depois, há o “pânico”. A suave interpenetração de formas em movimento e o jogo harmonioso de planos e linhas aceleram e não se pode deixar de ter a impressão de que a simetríade, em face do perigo, se apressa a completar uma tarefa qualquer. O temor que nos inspiram as metamorfoses e a dinâmica de simetríade intensifica-se quando o orgulhoso arco das cúpulas cede, as galerias são abaladas e desfalecem, e umas “notas erradas” — formas incompletas e mutiladas— fazem a sua aparição. Como um suspiro de agonia, um poderoso ronco moribundo brota das profundezas invisíveis, ecoa pelos estreitos funis e ressoa pelas cúpulas a desmoronar-se.

Apesar da crescente violência destrutiva destas convulsões, o espectador está pregado ao seu lugar. Só a força do furacão que jorra das entranhas e ribomba pelos milhares de galerias mantém ereta a grande estrutura. Breve colapsa e começa a desintegrar-se.
Há uns estremecimentos finais, contorções e espasmos cegos e ao acaso. Corroído e minado por baixo, o gigante afunda lentamente e desaparece, e o espaço onde se erguia fica coberto de redemoinhos de espuma.
E o que significa tudo isto?

Recordei um incidente que data do tempo em que fui assistente de Gibarian.
Um grupo de estudantes escolares de visita ao Instituto Solarista em Aden passava pelo salão principal da biblioteca e olhava para as prateleiras de microfilme, que ocupavam todo o lado esquerdo do salão. O guia explicava que, entre outros fenômenos imortalizados pela imagem, aqueles microfilmes continham aspectos fragmentários de simetríades há muito desaparecidas — não simples fotografias, mas rolos completos, mais de noventa mil!
Uma menina gorda (parecendo ter cerca de quinze anos e olhando inquiridora por cima dos óculos) perguntou abruptamente:
— E para que servem?
No embaraçoso silêncio que se seguiu, a professora da escola contentou-se com lançar um olhar reprovador à sua pouco dócil aluna. Dentre os solaristas que tinham por missão servir de guias (e eu era um deles) ninguém conseguiu apresentar uma resposta.

Cada simetríade é única em si mesma, e os fenômenos que se dão no seu âmago são, de modo geral, imprevisíveis. As vezes não há qualquer som. Algumas vezes o índice de refração aumenta ou diminui. Por vezes há pulsações rítmicas que são acompanhadas de alterações locais de gravidade, como se o coração da simetríade batesse por gravitação. Outras vezes ainda as bússolas dos observadores giram de um modo louco, e vêem-se jorrar camadas ionizadas, que depois desaparecem.
A lista podia continuar indefinidamente.
De qualquer modo, mesmo que um dia se viesse a descobrir o enigma das simetríades, teríamos ainda de nos haver com as assimetríades!

As assimetríades nascem do mesmo modo que as simetríades, mas acabam diferentemente e nada se consegue ver dos seus processos internos além de tremores, vibrações e centelhas bruxuleantes. Sabemos, contudo, que o seu interior abriga espantosas operações realizadas a uma velocidade que desafia todas as leis da física, e a que se deu o nome de “fenômenos quânticos gigantes”. A analogia temática com certos modelos tridimensionais do átomo é tão instável e transitória que alguns comentaristas classificam a semelhança sendo de importância secundária, se não mesmo puramente
acidental.

As assimetríades têm um tempo de vida muito curto, de quinze a vinte minutos, e a sua morte é ainda mais impressionante que a das simetríades: acompanhando a ventania ululante que ruge através da sua substância, um fluido denso jorra para fora, borbulha de um modo horrendo e tudo submerge sob uma espuma borbulhante e malcheirosa. Depois, coincidindo com uma erupção de lama, uma explosão lança para o ar um jato de entulho, que vai cair lentamente como chuva sobre o Oceano revoltoso. Este entulho é por vezes encontrado a grande número de milhas do foco da explosão, seco, amarelo e achatado, como panquecas de cartilagem.

Algumas outras criações do Oceano, as quais são muito mais raras e de duração muito variável, separam-se por completo do corpo que as gerou. As primeiras descobertas destas “independentes” foram consideradas —erradamente, como mais tarde se provou — restos de criaturas que vivem nas profundezas do Oceano. As formas de dimensão variável, quando saem como dardos dos troncos móveis do agilus, muitas vezes fazem lembrar pássaros com muitas asas; mas os conceitos da Terra não oferecem qualquer ajuda para desenredar os mistérios de Solaris. Nas saliências rochosas de uma ilha aparecem ocasionalmente estranhos corpos semelhantes a focas, estendidos ao sol ou arrastando-se preguiçosamente até voltarem a fundir-se com o Oceano.

Não havia processo de escapar às impressões nascidas da experiência do homem na Terra. As probabilidades de contato sofreram um recuo.

Muitos exploradores penetraram a centenas de milhas no interior de simetríades e instalaram aparelhos de medição e câmaras fotográficas de controlo remoto.
Satélites artificiais captavam o nascimento de mimóides e extensores e reproduziam fielmente as imagens do seu desenvolvimento e destruição.
As bibliotecas ficaram a abarrotar, os arquivos cresceram, e muitas vezes o preço pago por toda essa documentação era muito pesado.

Um desastre notório custou a vida a cento e seis pessoas, entre elas o próprio Giese: enquanto estudavam o que era indubitavelmente uma simetríade, a expedição foi subitamente destruída por um processo típico das assimetríades. Em dois segundos, uma erupção de lama glutinosa engoliu setenta e nove homens e todo o seu equipamento. Foram também apanhados na erupção vinte e sete observadores, que a bordo de uma nave e de helicópteros vigiavam a área. Em seguida à erupção dos Cento e Seis, e pela primeira vez na história dos estudos solaristicos, fizeram-se petições exigindo um ataque termonuclear ao Oceano. Tal resposta teria sido mais crueldade que vingança, pois significaria destruir aquilo que não se compreendia. O ultimato de Tsanken, que nunca chegou a ser oficialmente reconhecido, contribuiu provavelmente para que o resultado da votação fosse negativo. Ele estava no comando da equipe de reserva de Giese, e sobreviveu graças a um erro de transmissão que o fez desviar da rota, só chegando à área do desastre alguns minutos após a explosão e quando a nuvem negra em forma de cogumelo era ainda visível. Quando foi informado da proposta de um ataque nuclear, ameaçou explodir a Estação, juntamente com os dezenove sobreviventes que nela se abrigavam.

Hoje estamos apenas três pessoas na Estação.
A sua construção foi controlada por satélites e foi uma proeza técnica de que a raça humana tem o direito de se orgulhar, mesmo que o Oceano construa, no espaço de poucos segundos, estruturas muito mais impressionantes. A Estação é um disco com um raio de cem metros e tem quatro pisos na parte central e dois na periferia. É mantida a uma altura de quinhentos a mil metros acima do Oceano por meio de gravitadores programados para compensar o campo de atração do Oceano. Além de toda a maquinaria existente nas estações comuns e nos grandes satélites artificiais que estão na órbita de outros planetas, a Estação de Solaris está equipada com uma aparelhagem de radar especial, sensível à mínima flutuação da superfície do Oceano e que liga circuitos auxiliares poderosos, capazes de lançar o disco de aço para a estratosfera ao mínimo sinal de novas sublevações plasmáticas.

Mas hoje, apesar da presença dos nossos fiéis “visitantes”, a Estação estava estranhamente deserta. Desde que os robôs tinham sido encarcerados no piso inferior —por uma razão que eu ainda não tinha descoberto —, era possível uma pessoa andar de um lado para o outro sem encontrar um único membro da tripulação da nossa nave fantasma.

Quando voltei a colocar o nono volume de Giese na prateleira, o assoalho de aço recoberto de plástico pareceu estremecer sob os meus pés.
Fiquei imóvel, mas a vibração já tinha parado.
A biblioteca estava completamente isolada das outras divisões, e a única fonte possível de vibração devia ser qualquer nave de apoio a sair da Estação. Este pensamento fez-me voltar à realidade. Ainda não decidira se ia aceitar a sugestão de Sartorius e sair da Estação. Ao fingir aprovar o seu plano, pretendia mais ou menos adiar o começo das hostilidades, pois estava decidido a salvar Rheya.

Em todo o caso, Sartorius tinha certas probabilidades de ser bem sucedido. Ele tinha certamente a vantagem de ser um físico qualificado, ao passo que eu estava na irônica posição de ter de contar com a superioridade do Oceano. Durante uma hora estudei textos em microfilme e obriguei-me a lutar com a linguagem pouco familiar da física dos neutrinos. A princípio, o empreendimento parecia absolutamente sem esperança: havia nada menos que cinco teorias correntes que tratavam de campos de neutrinos, sinal evidente que nenhuma delas era definitiva. Finalmente, encontrei uma parte mais prometedora, e estava atarefado a copiar equações quando bateram à porta.

Levantei-me rapidamente, abri-a alguns centímetros e vi a cara suada de Snow e, por trás dele, um corredor vazio.
— Sim, sou eu. — A voz estava rouca e tinha papos sombrios por baixo dos olhos injetados de sangue. Trazia um avental anti-radiações de borracha lustrosa e as mesmas calças velhas, arregaçadas e presas com braçadeiras elásticas.
O olhar de Snow percorreu toda a sala circular e iluminou- ao se deparar com Rheya, de pé junto a uma cadeira de braços, no lado oposto da sala. Depois voltou a fixar-se sobre mim e eu baixei imperceptivelmente as pálpebras.
Snow anuiu com a cabeça e falei em tom casual:
— Rheya, venha cá para que eu te apresente o Dr. Snow... Snow, a minha mulher.
—  Eu... sou apenas um membro menor da tripulação. Não ando muito por aí... — Vacilou, mas conseguiu dizer: — Por isso ainda não tive o prazer de encontre-la...
Rheya sorriu e estendeu-lhe a mão, que ele apertou algo surpreendido. Piscou várias vezes os olhos e ficou ali a olhar para ela, incapaz de falar, até que lhe peguei no braço.
— Perdoe-me — disse ele a Rheya. — Preciso falar contigo Kelvin...
— Claro. — (A minha compostura era uma farsa, mas que outra coisa poderia fazer?) — Não se importe conosco, Rheya. Vamos só falar de trabalho...
Guiei Snow até às cadeiras que havia do outro lado da sala e Rheya sentou-se na cadeira que eu antes ocupara, fazendo-a rodar até poder ver-nos quando levantasse os olhos do livro. Baixei a voz:
— Novidades?
— Estou divorciado — segredou ele. Se, uns dias antes, alguém me tivesse dito esta frase como abertura de conversa, teria desatado às gargalhadas, mas a Estação embotara-me o sentido de humor. — Parece que passaram anos desde ontem de manhã — continuou. — E você?
— Nada. — Não sabia o que dizer. Gostava de Snow, mas não confiava nele, ou melhor, desconfiava da intenção da sua visita.
— Nada? Certamente...
— O quê? — Fingi não perceber.
De olhos semicerrados, inclinou-se até ficar tão próximo que podia sentir sua respiração em minha cara:
— Esta história está deixando a todos confusos, Kelvin. Não consigo estabelecer contato com Sartorius. Tudo o que sei é o que lhe escrevi, e foi o que ele me disse depois da nossa pequena conferência.
— Ele desligou o videofone?
— Não, houve um curto-circuito naquele terminal. Pode tê-lo feito de propósito, mas há também... — cerrou o punho e imitou uma pessoa a dar um murro, ao mesmo tempo em que retorcia os lábios numa careta desagradável. — Kelvin, vim cá para... O que é que você pretende fazer?
— Você quer a resposta à sua carta. Muito bem, eu faço a viagem, não há razão para recusar. Só estou preparando-me...
— Não — interrompeu. — Não é isso.
— O quê então? Diga.
— Sartorius pensa que talvez esteja na pista certa — disse num murmúrio. Não tirava os olhos de cima de mim, e senti-me obrigado a ficar imóvel e a tentar manter com um ar descontraído. — Tudo começou com aquela experiência de raios X que ele organizou com Gibarian, como se recorda. Isso poderia ter provocado uma alteração ...
— Que espécie de alteração?
— Eles dirigiram os raios diretamente para o Oceano. A intensidade foi regulada de acordo com um programa preestabelecido.
— Eu sei. Já foi feito também por Nilin e muitos outros.
— Sim, mas os outros trabalharam com baixa intensidade. Desta vez eles empregaram o nosso máximo.
— Isso pode trazer complicações... é uma violação à convenção dos quatro poderes e às Nações Unidas...
— Ora, Kelvin, você sabe tão bem quanto eu que isso agora já não interessa. Gibarian está morto.
— Então Sartorius faz dele o bode expiatório, hem?
— Não sei. Não falamos disso. Sartorius está intrigado com as horas das visitas. Só aparecem quando acordamos, o que sugere que o Oceano está especialmente interessado nas nossas horas de sono e que é nessa altura que ele localiza os seus modelos. Sartorius quer enviar os nossos eus acordados, os nossos pensamentos conscientes. Percebe?
— Pelo correio?
— Deixe de brincadeiras. A ideia é regular os raios X, ligando a eles um eletro encefalograma tirado de um de nós.
— Ah! — Começava a ver a luz. — E esse um de nós sou eu?
— Sim, Sartorius estava pensando em si.
— Diga-lhe que me sinto lisonjeado.
— Você aceita?
Hesitei. Snow lançou um olhar para Rheya, que parecia absorta no livro.
Senti a face empalidecer.
— Então?
— A ideia de utilizar raios X para pregar sermões a respeito da grandeza da humanidade parece-me absolutamente ridícula. Não acha?
— Está falando sério?
— Sim.
— Certo — disse sorrindo, como se eu tivesse ido ao encontro de qualquer ideia sua. — Então, opõe-se ao plano?
A sua expressão dizia-me que, por qualquer razão, ele estiver a todo o tempo um passo à minha frente.
— Muito bem — continuou. — Há um segundo plano, construir um aparelho Roche.
— Um aniquilador?
— Sim. Sartorius já fez os cálculos preliminares. É realizável, e nem mesmo vai exigir grande dispêndio de energia. O aparelho gera um campo negativo durante as vinte e quatro horas do dia e por período ilimitado.
— E o seu efeito?
— Simples. Será um campo de neutrino negativo. A matéria comum não será por ele afetada. Só as... estruturas de neutrinos serão destruídas. Percebe?
Snow lançou-me um sorriso satisfeito. Permaneci imóvel e de boca aberta, a tal ponto que ele deixou de sorrir, olhou para mim de cenho franzido e esperou um momento antes de falar:
— Abandonamos então o primeiro plano, o plano da “Onda Cerebral”, não é? A esta mesma hora, Sartorius está já trabalhando no outro. Chamamos de “Projeto Libertação”.
Precisava, tomar uma decisão rápida. Snow não era físico, e o videofone de Sartorius estava desligado ou arrebentado. Resolvi arriscar-me:
— À segunda ideia eu prefiro dar o nome de “Operação Matadouro”.
— E você sabe disso! Não me diga que ultimamente não tem tido alguma prática do assunto. Só que desta vez haverá uma diferença radical: nunca mais haverá visitantes, nunca mais, as criaturas Phi serão desintegradas no momento em que apareçam.
Acenei concordando e tentei o que eu esperava que fosse um sorriso convincente:
— Você não percebeu bem o sentido. A moralidade é uma coisa, mas a auto-preservação... Só não quero ver-nos a todos mortos Snow.
Olhou-me com suspeita quando lhe mostrei as equações que escrevera.
— Tenho andado a trabalhar dentro das mesmas linhas. Não me olhe tão espantado. A teoria dos neutrinos foi primeiro ideia minha, lembra-se? Olhe. É certo que se podem criar campos negativos. E a matéria comum não é afetada. Mas o que acontece à energia que mantém a estrutura de neutrinos quando esta se desintegrar? Deve haver considerável libertação de energia. Partindo do princípio de que um quilograma de matéria comum representa 10 ergs, para uma criação Phi obtemos 5? multiplicado por 10. Isso significa o equivalente a uma pequena bomba atômica a explodir dentro da Estação.
— Está querendo me dizer que Sartorius não deve ter tomado isso em consideração?
Foi a minha vez de sorrir com malícia:
— Não necessariamente. Sartorius segue a escola de Frazer-Cajolla. As suas teorias dizem que a energia potencial seria libertada sob a forma de luz, poderosa sim, mas não destrutiva. Mas essa não é a única teoria que há a respeito de campos de neutrinos. Segundo Cayatte, Avalov e Sion, o espectro de radiação seria muito mais amplo. No seu máximo, haveria uma forte explosão de radiações gama. Sartorius tem fé nos seus mentores. Não digo que não possamos respeitar isso, mas há outros mentores e outras teorias. E outra coisa, Snow — podia ver-se que começava a hesitar—, não podemos esquecer o próprio Oceano! Pode bem ter usado o melhor meio para as suas criações. Parece-me que não podemos dar-nos ao luxo de apoiar Sartorius tanto contra o Oceano como contra as outras teorias.
— Dê-me esse papel, Kelvin.
Entreguei-lho e vi-o estudar as minhas equações.
— Que é isto? — Apontou para uma linha de cálculos.
— Isso? O tensor de transformação do campo magnético.
— Ficarei com isto.
— Por quê?  (Eu já sabia a resposta.)
— Tenho de mostrar para Sartorius.
— Se prefere — encolhi os ombros. — É claro que pode levar, mas não pode esquecer que estas teorias nunca foram postas à prova experimentalmente. Até hoje, as estruturas de neutrinos têm sido meras abstrações. Sartorius se apóia em Frazer, e eu segui a teoria de Sion. Ele vai dizer que eu não sou físico e que Sion também o não é, pelo menos sob o seu ponto de vista. Vai pôr os números em dúvida e não me vou deixar envolver numa discussão em que ele tentará intimidar-me apenas para sua própria satisfação. Você eu posso convencer. Sartorius, nem de longe, nem tenciono tentar.
— Então, o que quer você fazer? Ele já começou a trabalhar...
Toda a sua anterior animação desapareceu, e falava em tom monocórdio. Não sabia se ele confiava em mim, nem me importava.
— Que é que eu quero fazer? O que faz qualquer pessoa quando a sua vida está em perigo. Vou tentar contatá-lo. Talvez ele descubra uma espécie de engenho de segurança... E depois, há o nosso primeiro plano. Você estaria disposto a cooperar? Sartorius estaria de acordo, tenho a certeza. Pelo menos, vale a pena tentar.
— Pensa que sim?
— Não — retorquiu abrupto. — Mas, o que temos a perder?
Não tinha pressa de aceitar. Do que eu precisava era de tempo, e Snow podia ajudar-me a prolongar o prazo:
— Vou pensar no assunto.
— Bem, vou andando. — Quando se levantou, os ossos gemeram. — Teremos de começar com o encefalograma — disse, esfregando a bata como que para tirar uma nódoa invisível.
Sem uma palavra para Rheya, foi até à porta, e quando esta se fechou depois de ele sair, levantei-me e amarrotei a folha de papel que tinha na mão. Não tinha falsificado as equações, mas duvido que Sion tivesse concordado com o modo como alargara a sua teoria.

Tive um sobressalto quando a mão de Rheya me tocou no ombro.
— Kris, quem é ele?
— Já te disse, o Dr. Snow.
— Como é ele?
— Não o conheço muito bem... por quê?
— Lançava-me um olhar tão estranho...
— Você é uma mulher atraente...
— Não, este olhar era diferente... era como se... — Estremeceu, olhou para mim de esguelha e voltou a baixar os olhos. — Vamos voltar para a cabine.




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