sábado, 25 de dezembro de 2010

Solaris - Stanislaw Lem (parte 17)


O OXIGÊNIO LÍQUIDO

Não tenho ideia do tempo que fiquei deitado na escuridão a olhar para o mostrador luminoso do meu relógio de pulso. Ouvindo-me respirar.
Sentia uma vaga surpresa, mas o meu sentimento fundamental era de profunda indiferença, tanto para com aquele anel de algarismos fosforescentes como para com a minha própria surpresa.
Disse para comigo que aquele sentimento era provocado pela fadiga.
Quando me voltei, a cama pareceu-me maior do que o costume. Suspendi a respiração; o silêncio não era quebrado por nenhum som. Devia ouvir-se a respiração de Rheya. Estendi a mão, mas não encontrei nada. Estava só.

Ia chamá-la quando ouvi o som de pesadas passadas que se aproximavam de mim.
Caiu sobre mim uma calma entorpecente:
— Gibarian?
— Sim, sou eu. Não acenda a luz.
— Não?
— Não há necessidade disso, e é melhor que fiquemos às escuras.
— Mas você está morto...
— Não se preocupe com isso. Reconhece a minha voz, não reconhece?
— Sim. Por que se matou?
— Não tinha por onde escolher. Você chegou com quatro dias de atraso. Se tivesse vindo mais cedo, não teria sido forçado a matar-me. Porém, não se preocupe com isso; não lamento.
— Está mesmo ai? Não estou dormindo?
— Oh, pensa que está sonhando comigo? Como fez com Rheya?
— Onde está ela?
— Como posso saber?
— Tenho o pressentimento de que sabe.
— Guarde os seus pressentimentos para você. Digamos que estou agindo em nome dela.
— Quero-a aqui também.
— Não é possível.
— Por que não? Sabe muito bem que você não é o seu eu real, apenas à minha...
— Não, eu sou o verdadeiro Gibarian, apenas numa nova encarnação. Mas não percamos tempo com tagarelices inúteis.
— Vai novamente embora?
— Sim.
— E nesse momento ela volta?
— Para que se importar com isso?
— Ela me pertence.
— Você tem medo dela.
— Não.
— Ela enoja-o.
— Que quer de mim?
— Guarde a sua piedade para si, tem direito a ela, mas não para Rheya. Ela sempre terá vinte anos. Já deve saber isso.
De repente, por nenhuma razão aparente, voltei a sentir-me à vontade, pronto para ouvir até ao fim. Parecia ter se aproximado mais, embora não o pudesse ver no escuro.
— Que quer?
— Sartorius convenceu Snow de que você estava enganando-o. Neste exato momento estão tentando dar-lhe o mesmo tratamento. A construção de um aparelho de raios X é um disfarce para construir um destruidor de campos magnéticos.
— Onde ela está?
— Não sei. Tenha cuidado. Precisa arranjar uma arma. Não pode confiar em ninguém.
— Posso confiar em Rheya.
Abafou uma risada.
— Claro, pode confiar em Rheya, até certo ponto. E pode sempre seguir o meu exemplo, se tudo mais vier a falhar.
— Você não é Gibarian.
— Não? Então quem sou? Um sonho?
— Não, é apenas um boneco. Mas não se apercebe de que o é.

Tentei levantar-me, mas não consegui mover-me.
Embora Gibarian continuasse a falar, não lhe percebia as palavras; ouvia apenas o ruído da sua voz. Lutei para recuperar o domínio do meu corpo, senti um puxar súbito e... acordei e aspirei grandes sorvos de ar. Estava escuro e tinha tido um pesadelo.
Ouvi então uma voz monótona e distante:
—... um dilema que não estamos equipados para resolver. Somos a causa do nosso próprio sofrimento. Os Políteres agem estritamente como uma espécie de amplificador dos nossos próprios pensamentos. Qualquer tentativa para compreender a motivação destas ocorrências é bloqueada pelo nosso próprio antropomorfismo. Onde não há homens, não podem existir motivos acessíveis a homens. Antes de podermos prosseguir com as nossas pesquisas, terão de ser destruídos os nossos pensamentos ou as suas formas materializadas. Destruir os nossos pensamentos é coisa que não está dentro do nosso poder. Quanto à hipótese de destruir as suas formas materiais, poderia assemelhar-se a cometer um crime.

Reconheci imediatamente a voz de Gibarian.
Quando estendi os braços, vi que estava só. Voltara a adormecer. Isto era outro sonho.
Chamei Gibarian pelo nome, e a voz parou a meio de uma frase.
Houve o som de uma exclamação surda, depois uma corrente de ar.
— Bem, Gibarian — bocejei —, parece que me segue de um sonho para o outro...
Ouvi um roçar perto de mim e chamei novamente o nome dele.
As molas da cama estalaram, e uma voz segredou-me ao ouvido:
— Kris... sou eu...
— Rheya? É você? E Gibarian?
— Mas... disse que ele estava morto, Kris.
— Pode estar vivo num sonho — disse-lhe desanimadamente, embora não estivesse completamente certo de que tinha sido um sonho. — Ele falou comigo... Esteve aqui...
Deixei cair a cabeça de novo na almofada.
Rheya disse algo, mas eu já estava caindo de sono.


À luz vermelha da manhã, voltaram-me à memória os acontecimentos da noite anterior. Tinha sonhado que conversara com Gibarian. Mas, mais tarde, poderia jurar que lhe ouvira a voz, embora não conseguisse recordar o que dissera, e não fora uma conversa — era mais um discurso.

Rheya tomava um banho. Espreitei para debaixo da cama onde escondera o gravador uns dias antes. Já não estava lá.
— Rheya! — Passou a face pela fresta da porta. — Viu um gravador que estava debaixo da cama, um aparelho pequeno de bolso?
— Havia um monte de coisas debaixo da cama. Coloquei tudo ali. — Apontou para uma prateleira junto ao armário dos remédios e desapareceu no banheiro.
Não havia nenhum gravador na prateleira, e quando Rheya saiu, pedi-lhe que pensasse novamente no assunto. Sentou-se penteando o cabelo e não respondeu. Só então notei como estava pálida e como me observava atentamente no espelho.
Voltei ao ataque:
— O gravador Rheya.
— É só isso que tem para me dizer?
— Desculpa. Tem razão, é estupidez ficar tão preocupado por causa de um gravador.
Tudo para evitar uma discussão.
Mais tarde, no café da manhã, a alteração no comportamento de Rheya era evidente, mas não a conseguia definir. Não me olhava nos olhos e estava freqüentemente de tal modo perdida nos seus pensamentos que nem me ouvia.
Uma das vezes levantou a cabeça e tinha a face molhada.
— Que aconteceu? Está chorando.
— Deixa-me em paz — rebentou Rheya. — Não são lágrimas reais.
Talvez não devesse ter deixado passar uma resposta assim, mas uma “conversa honesta” era a última coisa que desejava. De qualquer modo, tinha outros problemas na mente; sonhara que Snow e Sartorius conspiravam contra mim e, embora tivesse a certeza de que não passara de um sonho, perguntava-me se haveria algo na Estação que pudesse usar para me defender. Ainda não chegara ao ponto de decidir o que faria com uma arma, se a encontrasse.

Disse a Rheya que tinha de fazer uma inspeção e seguiu-me silenciosa.
Revistei malas e cápsulas, quando cheguei ao piso inferior eu fui incapaz de resistir e ir espreitar no frigorífico. Como não queria que Rheya entrasse, passei a cabeça pela porta e olhei em volta. A figura jacente continuava tapada com a mortalha negra, mas da minha posição na entrada não podia distinguir se a mulher negra dormia ainda junto ao corpo de Gibarian.
Tive o pressentimento de que lá não estava.

Vagueei de uma área para a outra, incapaz de localizar o que quer que fosse que pudesse servir de arma, com um crescente sentimento de depressão.
De repente, notei que Rheya não estava comigo. Depois reapareceu; deixara-se ficar para trás no corredor. Apesar do sofrimento que sentia quando não me podia ver, tentara manter-se afastada. Deveria ter ficado espantado: em vez disso, continuei a agir como se tivesse sido ofendido —  mas quem me ofendera? —, e amuado como uma criança.

A cabeça latejava-me e percorri todo o conteúdo do armário dos remédios sem encontrar nem mesmo uma aspirina. Não queria voltar à enfermaria.
Não queria fazer nada.
Nunca me sentira com disposição mais sombria.
Rheya andava na ponta dos pés pela cabina, como uma sombra.
De vez em quando saía para qualquer lado. Não sei para onde; não lhe prestava atenção; depois, voltava a entrar.

Naquela tarde, na cozinha (acabávamos de comer, embora na verdade Rheya não tivesse tocado na comida e eu não tivesse tentado persuadi-la), Rheya levantou-se e veio sentar-se ao meu lado. Senti-lhe a mão sobre a manga e resmunguei:
 — Que é?
Pretendia ir ao piso de cima, porque os canos fizeram o agudo som crepitante que significava que estava em serviço a aparelhagem de alta voltagem, mas Rheya teria de ir comigo. Fora já bastante difícil justificar a sua presença na biblioteca; junto à maquinaria havia a hipótese de Snow deixar escapar qualquer comentário desagradável. Desisti da ideia de ir investigar.

— Kris — sussurrou —, o que está acontecendo?
Dei um involuntário suspiro de frustração perante tudo o que acontecera desde a noite anterior:
— Está tudo bem. Por quê?
— Quero falar contigo.
— Muito bem, sou todo ouvidos.
— Assim, não.
— O quê? Sabe que estou com dor de cabeça e que essa é a menor das minhas preocupações...
— Não está sendo justo.
Forcei-me a sorrir; deve ter sido uma pobre imitação.
— Vai querida, diz logo, por favor.
— Me dirá a verdade?
— Para que haveria de mentir? — Era um começo de mau agouro.
— Pode ter as suas razões... poderia ser necessário... Mas, se quiser... Olha, vou contar-lhe uma coisa e depois é a tua vez. Só que nada de meias verdades. Promete! — Não tive coragem para a olhar nos olhos. — Já te disse que não sei como vim parar aqui. Talvez você saiba. Espera, talvez não saiba. Mas, se sabe e não me pode dizer agora, promete dizer-me um dia, mais tarde? Não posso ficar pior do que estou e mereço uma oportunidade.
— Do que está falando, criança? — titubeei. — Que oportunidade?
— Kris, seja eu o que for, criança é que certamente não sou. Prometeu-me uma resposta.
“Seja eu o que for...”
Minha garganta contraiu-se e fiquei a olhar para Rheya e a abanar a cabeça como um imbecil, como que para me proibir de ouvir mais.
— Não estou pedindo explicações. Precisa apenas me dizer que não é permitido dizer-me.
— Não estou escondendo nada — disse em voz rouca.
— Muito bem.

Levantou-se. Eu queria dizer alguma coisa. Não podíamos abandonar o assunto naquele ponto. Mas não me vinham as palavras.
Rheya...
Ela estava junto à janela, de costas voltadas.
O Oceano azul-escuro estendia-se sob um céu sem nuvens.
— Rheya, se acredita em mim... Sabe muito bem que te amo...
— A mim?
Aproximei-me para a enlaçar com os braços, mas afastou-se para trás.
— É muito amável — disse-me. — Diz que me ama? Preferia que me batesse.
— Rheya, querida!
— Não, não, não digas mais nada.

Voltou para junto da mesa e começou a levantar os pratos.
Eu olhava para o Oceano.
O Sol estava a se pôr e a Estação lançava uma sombra alongada que dançava sobre as vagas.

Rheya deixou cair um prato no chão. Ouvi água a cair na pia.
Um halo cor de ouro velho sublinhava o horizonte.
Se ao menos eu soubesse o que fazer... se ao menos... De repente fez-se silêncio.
Rheya estava por trás de mim.
— Não, não se vire — murmurou. — Não é culpa sua, eu sei. Não se atormente.
Estendi a mão, mas ela fugiu para o lado oposto da sala e agarrou numa pilha de pratos.
— É uma pena que sejam inquebráveis. Queria parti-los todos, um a um.
Por um momento pensei que iria atirá-los ao chão, mas olhou para mim e sorriu.
— Não te aflija, não vou fazer cena.

No meio da noite acordei de repente.
O quarto estava às escuras e a porta estava aberta para trás e via-se uma luzinha fraca a brilhar no corredor. Ouvia-se um assobio agudo cortado por um bater pesado e surdo, como se um objeto pesado estivesse a bater contra uma parede.
Um meteoro tinha atravessado is escudos da Estação!
Não, um meteoro não, mas uma nave de apoio, pois ouvia-se um horrível e doloroso lamento...

Estremeci. Não era um meteoro, nem uma nave.
O som era produzido por alguém que estava no fundo do corredor.
Corri até ao lugar onde saía luz da porta da pequena oficina e precipitei-me lá dentro.
O quarto estava cheio de vapor gelado, a minha respiração parecia neve, e viam-se flocos brancos a esvoaçar sobre um corpo coberto com um roupão e que estremecia debilmente e voltava a bater no chão.
Mal se podia ver através da neblina gelada.
Levantei-a, agarrei-a nos braços, e o roupão queimou-me a pele.
Enquanto a levava aos tropeções pelo corredor fora, não sentindo mais o frio, só a sua respiração no meu pescoço a queimar como fogo, Rheya continuava a fazer aquele mesmo ruído louco.

Pousei-a na mesa de operações e abri o roupão.
A face estava contorcida de dor, os lábios cobertos por uma espessa camada negra de sangue gelado, a língua uma massa de luzentes cristais de gelo.
Oxigênio líquido... As garrafas que estavam na oficina continham oxigênio líquido. Quando saíra com Rheya nos braços, lascas de vidro se esmagavam sob os pés.
Quanto teria engolido? Não interessava agora. A traquéia, a garganta e os pulmões deviam estar completamente queimados — o oxigênio líquido corrói a carne mais eficazmente que fortes ácidos. A respiração estava cada vez mais difícil, com um som seco como o papel a rasgar-se. Os olhos continuavam fechados.
Estava morrendo.

Olhei para os grandes armários de portas de vidro, atulhados de instrumentos e drogas. Uma traqueotomia? Uma intubação? Mas ela não tinha pulmões! Fiquei a olhar para as prateleiras cheias de frascos coloridos e caixas de cartão. Ela continuava a ofegar roucamente, e da sua boca aberta saía um fio de vapor.
Termóforos...
Comecei a procurá-los. Mudei de opinião, corri a outro armário e tirei uma caixa de ampolas. Agora, uma agulha hipodérmica — onde estão?, aqui—, precisa ser esterilizada. Lutei com a tampa do esterilizador, mas os meus dedos entorpecidos tinham perdido toda a sensibilidade e não conseguia dobrá-los.

O rouco estertor subiu de tom, e os olhos de Rheya estavam abertos quando cheguei junto à mesa. Abri a boca para dizer o seu nome, mas desaparecera-me a voz e os lábios não me obedeciam. A cara era como se me não pertencesse; era uma máscara de gesso.
Sob a pele branca, viam-se as costelas de Rheya a subir e a descer. Os cristais de gelo tinham derretido e os cabelos molhados estavam emaranhados sobre o apoio da cabeça. E olhava para mim.

— Rheya! — Foi tudo o que consegui dizer. Fiquei ali paralisado, as mãos caídas e inúteis, até que uma sensação de queimadura me subiu pelas pernas e me chegou aos lábios e às pálpebras.

Uma gota de sangue derreteu e escorregou-lhe pela bochecha.
A sua língua estremeceu e recuou. O doloroso arquejar continuou.
Não sentia seu pulso e encostei o ouvido ao peito gelado. Muito tênue, por trás da terrível camada de gelo, o coração batia tão rápido que não conseguia contar seus batimentos, e permaneci ali agachado junto dela, de olhos fechados.
Algo me tocou na cabeça — era a mão de Rheya no meu cabelo.
Levantei-me.

— Kris! — Um suspiro rouco.
Peguei-lhe na mão, e a pressão que tive em resposta fez os meus ossos estalarem. Depois, a face contorceu-se em agonia e perdeu novamente a consciência.
Os olhos reviraram, um sibilar gutural rasgava-lhe a garganta e o corpo arqueava em convulsões. Precisava de todas as minhas forças para segurá-la em cima da mesa de operações; conseguiu soltar-se, e a cabeça foi embater de encontro a uma bacia de porcelana.

Arrastei-a de novo para o lugar e lutei, para mantê-la deitada, mas violentos espasmos continuamente a faziam saltar do meu amplexo. Estava alagado em suor e sentia as pernas como se fosse gelatina. Quando as convulsões começaram a acalmar, tentei fazê-la ficar deitada e plana, mas o seu peito atirava- se para cima, para tragar o ar.
De súbito vi os seus olhos a olharem para mim detrás da pavorosa máscara manchada de sangue que era a sua face.

— Kris... quanto tempo... quanto tempo?
Engasgou-se. Apareceu-lhe uma espuma rosada na boca e as convulsões voltaram a atacá-la. Com a minha última reserva de forças segurei-a pelos ombros de encontro à mesa e ficou deitada.
Ouvia seus dentes a bater.

— Não, não, não — soluçou de repente, e pensei que a morte estava próxima.
Mas os espasmos continuaram, e de novo tive de segurá-la para baixo. De tempos a tempos ela engolia em seco, e as suas costelas elevavam-se. Depois as pálpebras semicerraram-se sobre os olhos, que nada viam, e ficou rígida. Isso devia ser o fim.

Nem tentei limpar-lhe a espuma que tinha na boca.
Uma campainha distante zumbia-me na cabeça.
Esperava o seu último suspiro antes que me faltassem as forças e desfalecesse no chão.

Rheya continuava a respirar, e o seu ofegar era agora apenas como um ligeiro suspiro.
O peito, que deixara de se arquear para fora, movia-se de novo ao compasso rápido do bater do coração. Voltava-lhe a cor às faces.
Contudo, eu ainda não me apercebera do que estava a acontecer.
As minhas mãos estavam pegajosas, e ouvia como se através de várias camadas de algodão, mas aquele tinido continuava.




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