sábado, 1 de janeiro de 2011

Solaris - Stanislaw Lem (parte 18)



 As pálpebras de Rheya moveram-se e os nossos olhos encontraram-se.
A máscara que era agora a minha face não me deixava pronunciar-lhe o nome.
Tudo o que podia fazer era olhar para ela.
Voltou a cabeça e olhou em redor da sala. Em algum lugar atrás de mim, num outro mundo, uma torneira pingava.
Rheya ergueu-se sobre um cotovelo. Recuei, e os nossos olhos voltaram a encontrar-se.

— Não... não resultou — titubeou. — Por que me olha assim? — Depois gritou: — Por que me olha assim?
Mas eu continuava a não poder dizer nada. Ela examinou as mãos, mexeu os dedos...
— Sou eu mesma?
Os meus lábios formaram o seu nome, e repeti-o em forma de pergunta:
— Rheya?

Deixou-se escorregar para fora da mesa de operações, cambaleou, recuperou o equilíbrio, deu alguns passos. Movia-se como se em sonho e olhava para mim sem parecer ver-me.
— Rheya? Mas... eu não sou Rheya. Então, quem sou? E você? — Os olhos se abriram e fulguraram e um sorriso de espanto iluminou-lhe a face. — E você, Kris? Talvez também...
Eu tinha recuado até chegar à parede. Seu sorriso apagou-se.
— Não. Você está com medo. Não suporto mais isto, não posso... Eu não sabia, ainda não compreendo. Não é possível. — Batia no peito com os punhos cerrados. — Que outra coisa posso pensar, se não que eu era Rheya? Talvez pense que tudo é fingimento!? Não é, juro que não é.
Algo estalou na minha mente, e fui enlaçá-la com os braços, mas lutou para se libertar:
— Não me toques! Deixa-me em paz! Tem nojo de mim, sei que tem. Afasta! Eu não sou Rheya...
Gritamos um com o outro e Rheya tentava afastar-me com os braços.
Não cedi, e finalmente deixou cair a cabeça sobre o meu ombro.
Ambos estávamos de joelhos, ofegantes, exaustos.

— Kris... o que tenho de fazer para acabar com isto?
— Cale a boca!
— Não sabe! — Ergueu a cabeça e fitou-me. — Não é possível, não é?
— Por favor...
— Eu bem que tentei... Não, afasta. Eu te dou nojo... e a mim também. Se ao menos soubesse como...
— Se mataria?!
— Sim.
— Mas a quero viva. Quero você aqui comigo, mais do que qualquer outra coisa.
— Está mentindo.
— Me diz o que devo fazer para te convencer. Você está aqui. Você existe. Além disso, nada mais posso ver.
— Não pode ser de verdade, porque eu não sou Rheya.
— Então, quem és?

Seguiu-se um longo silêncio. Depois deixou cair a cabeça e murmurou:
— Rheya... Mas sei que não sou a mulher que outrora amou.
— E verdade. Mas isso foi há muito tempo já. Esse passado já não existe, mas você sim, aqui e agora. Não percebes?

Abanou a cabeça:
— Sei que foi por bondade que agiu deste modo comigo, mas não há nada mais a fazer. Naquela primeira manhã em que fiquei junto de ti na tua cama, esperando que acordasse, eu nada sabia. Me custa a crer que tenha sido há apenas três dias. Comportei-me como uma louca. Estava tudo nebuloso. Não me lembrava de nada, não me surpreendia com nada. Era como se estivesse a restabelecer-me de um sono provocado por droga ou de uma longa doença. Chegou a ocorrer-me que talvez tivesse estado doente e que não me quisesses dizer. Depois aconteceram umas coisas que me levaram a pensar... sabe ao que me refiro. Por isso, depois que se encontrou com aquele homem na biblioteca e de se recusou a dizer-me o que quer que fosse, decidi ouvir aquela gravação. Foi essa a única vez que menti para você Kris. Quando você andava à procura do gravador, eu sabia onde ele estava. Tinha-o escondido. O homem que gravou a fita... como se chamava?
— Gibarian.
— Sim, Gibarian... ele explicava tudo. Embora eu continue a não perceber. A única coisa que faltava era o fato de eu não poder... de não haver um fim. Não mencionava isso, ou, se mencionou, foi depois de você ter acordado e de eu ter sido obrigada a desligar. Mas ouvi o suficiente para perceber de que não sou um ser humano, só um instrumento.
— Do que está falando?
— É isso mesmo que eu sou. Para estudar as suas reações, ou algo do gênero. Cada um de vocês tem um... um instrumento como eu. Emergimos da sua memória ou imaginação, não sei ao certo. De qualquer modo, sabe melhor do que eu. Ele falou coisas terríveis... tão pouco naturais... que se não estivessem a condizer com tudo o mais, certamente eu teria me recusado a acreditar.
— Tudo o mais?
— Oh, coisas como não precisar dormir e ser obrigada a ir onde quer que você vá. Quando me lembro que ainda ontem me sentia tão infeliz porque pensava que me detestava! Que estupidez! Mas, como poderia ter imaginado a verdade? Ele, Gibarian, não detestava aquela mulher, aquela que lhe apareceu, mas refere-se a ela de um modo horrível. Só então me percebi de que nada podia fazer e que não podia evitar te torturar. Pior do que isso, um instrumento de tortura é passivo, como a pedra que cai em cima de alguém e mata. Mas um instrumento de tortura que te ama e só te deseja bem... era demais para mim. Queria te contar o pouco que tinha compreendido. Dizia para comigo que talvez fosse útil. Até tentei escrever...
— Daquela vez em que acendeu a luz?
— Sim. Mas não consegui escrever. Estudei-me, à procura de... sabe, qualquer sinal de “influência”... Senti que enlouquecia. Sentia como se não houvesse qualquer corpo sob a minha pele e, em lugar dele, houvesse outra coisa qualquer: como se fosse apenas uma ilusão destinada a te enganar. Entende?
— Entendo.
— Quando se não consegue dormir de noite e a nossa cabeça começa a vagar, podemos ir muito longe; sentimo-nos seguir rumos estranhos...
— Sei o que queres dizer.
— Mas ouvia o meu coração bater. Depois recordei que tinha feito uma análise do meu sangue. O que descobriu? Agora já pode me dizer a verdade.
— O teu sangue é como o meu.
—Verdade?
— Dou minha palavra.
— O que isso indica? Dizia para mim mesmo que a... força desconhecida podia estar escondida  dentro de mim e que talvez não ocupasse muito espaço. Mas não descobri  seu paradeiro. Penso que estava fugindo do verdadeiro problema, porque não tinha a coragem de tomar uma decisão. Estava com medo e procurei uma saída. Mas Kris, se o meu sangue é como o teu... se verdadeiramente... não, é impossível. Já estaria morta, não é? Só pode significar que há de fato algo de diferente, mas onde? Na mente? Contudo, parece que penso como qualquer ser humano... e não sei nada! Se essa coisa estranha estivesse pensando na minha cabeça, eu saberia tudo. E não te amaria. Estaria  fingindo e consciente de que fingia. Kris, tem de me contar tudo o que sabe. Talvez, nós dois pudéssemos descobrir uma solução.
— Que tipo de solução? — Ficou calada. — É a morte o que procura?
— Sim, penso que sim.
Novo silêncio. Rheya estava sentada no chão, os joelhos junto ao queixo. Olhei em redor para os móveis esmaltados de branco e para os instrumentos reluzentes, talvez para ver se não se materializaria qualquer pista de que até aí não suspeitara.
— Rheya, tenho também algo a te dizer. — Esperou calmamente. — É verdade que não somos exatamente iguais, Mas não há nisso nada de mal. De qualquer modo, pensemos dela o que quisermos, essa... diferença... salvou a sua vida.

Um sorriso dolorido atravessou-lhe a face.
— Isso significa que sou imortal?
— Não sei. Em todo o caso, é muito menos vulnerável do que eu.
— É horrível...
— Talvez não seja tão horrível assim.
—Mas não tenha inveja de mim.
— Rheya, não sei qual será o seu destino. Ninguém pode predizer, assim como também não posso predizer o meu próprio ou o de qualquer membro da Estação. A experiência vai continuar e tudo pode acontecer...
— Ou nada.
— Ou nada. E devo confessar que preferia que nada acontecesse. Não porque esteja com medo, embora seja indiscutível que o medo é um dos elementos deste caso, mas porque não pode haver qualquer solução final. Estou absolutamente certo disso.
—Solução? Referente ao Oceano?
— Sim, contato com o Oceano. Da maneira que vejo as coisas, o problema é basicamente muito simples. Contato significa troca de conhecimentos específicos, ideias, ou pelo menos descobertas, fatos definidos. Mas, e se não é possível qualquer troca? Se um elefante não é um micróbio gigante, o Oceano não é um cérebro gigante. É óbvio que podem existir vários sistemas de aproximação, e a conseqüência de um deles é o fato de estar agora aqui comigo. E estou tentando o melhor que posso para te fazer compreender que te amo. O simples fato de você estar aqui compensa os doze anos da minha vida gastos no estudo de Solaris e quero guardar você comigo.
— Talvez você tenha sido enviada para me atormentar ou para tornar a minha vida mais feliz ou como um instrumento ignorando a sua função, utilizado como um microscópio, comigo de lamela. Talvez esteja aqui em sinal de amizade ou como sutil castigo ou até como brincadeira. Poderia ser tudo isto junto ou, o que é mais provável, algo completamente diferente. Se disser que o nosso futuro depende das intenções do Oceano, não posso negar. Não posso mesmo jurar que sempre te amarei. Depois de tudo o que já aconteceu, podemos esperar seja lá o que for. Supõe que amanhã ele me transforma numa medusa verde? Está fora do nosso controle. Vamos decidir permanecer juntos? O que dizer?
— Ouve Kris, há outra coisa que preciso perguntar... Sou... pareço muito com ela?
— A princípio parecias. Agora já não sei.
— Não compreendo.
— Agora, só vejo a ti.
— Tem certeza?
— Sim. Se realmente fosse ela, talvez não fosse capaz de te amar.
— Por quê?
— Por causa daquilo que fiz.
— A tratou muito mal?
— Sim, quando...
— Não me conte mais nada.
— Por que não?
— Para que não esqueça que sou eu quem está aqui, e não ela.


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