sábado, 8 de janeiro de 2011

Solaris - Stanislaw Lem (parte 19)


 CONVERSA

Na manhã seguinte recebi outra nota mandada por Snow.
Sartorius deixara de trabalhar no aniquilador e estava preparando tudo para uma experiência final com raios X em alta voltagem.
— Rheya, querida, tenho que ir visitar Snow.
A madrugada vermelha, cujo fulgor entrava pela janela, dividia o quarto em duas partes. Nós estávamos na zona da sombra azul. Tudo o que ficava para além desta zona de sombra parecia de cobre polido: se um livro caísse de qualquer prateleira, o meu ouvido ficaria instintivamente à espera de um barulho metálico.
— É sobre a experiência. Só que não sei o que farei a esse respeito. Compreende, por favor, eu preferiria...
— Não precisas se justificar Kris. Espero que não leve demasiado tempo.
— É provável que seja demorado. Olha, você acha que poderia esperar no corredor?
— Vou tentar. Mas, e se perder o controle?
— O que está sentindo agora? Não pergunto por simples curiosidade, acredite, mas se discutirmos como isso funciona, talvez encontremos uma maneira de manter o controle.
Rheya empalideceu, mas tentou explicar:
— Sinto medo, não de qualquer coisa ou de qualquer pessoa... não há foco, só a  sensação de estar perdida. E sinto-me terrivelmente envergonhada comigo mesma. Depois, quando você volta, tudo acaba. Foi isso que me fez pensar que talvez estivesse  doente.
— Talvez isso só funcione dentro dessa maldita Estação. Vou organizar as coisas de modo a partirmos logo que possível.
— Acha que pode?
— Por que não? Não sou prisioneiro. Terei de falar com Snow. Tem alguma ideia a respeito do tempo que consegue ficar só?
— Depende... Se puder ouvir a tua voz, penso que poderia agüentar.
— Preferia que não escutasse. Não que tenha algo a esconder, mas nunca se sabe o que Snow poderá dizer.
— Não precisa dizer nada. Eu compreendo. Ficarei apenas perto o suficientemente para ouvir o som da tua voz.
— Vou até a sala de operações telefonar. As portas ficarão abertas.
Rheya acenou em sinal de acordo.

Passei a zona vermelha. Por contraste, apesar da iluminação, o corredor parecia estar às escuras. Do lado de dentro da porta aberta da sala de operações, sob uma fileira de tanques de oxigênio líquido, viam-se brilhar fragmentos de uma garrafa, os últimos indícios dos acontecimentos da noite anterior. Quando tirei o auscultador do descanso, a tela acendeu-se e marquei o número o da cabina de rádio. Por trás do vidro opaco apareceu um ponto de luz azulado, cresceu e arrebentou, e surgiu Snow a olhar para mim, sentado na beira da cadeira.
— Recebi o seu recado e quero falar contigo. Posso ir aí?
— Agora mesmo?
— Sim.
— Desculpe, mas você vem sozinho ou... acompanhado?
— Sozinho.
A testa enrugada e a face magra e bronzeada encheram a tela quando se inclinou para a frente para me estudar através do vidro convexo. Depois pareceu chegar a uma decisão abrupta:
— Ótimo, ótimo; te espero.

Voltei à cabina, onde mal podia distinguir a forma de Rheya para além da cortina de luz vermelha. Estava sentada numa poltrona, com as mãos crispadas nos braços da cadeira. Não deve ter ouvido os meus passos, e, por um momento, vi que lutava contra a inexplicável compulsão que dela se apoderava, debatendo-se com violentas contrações de todo o corpo, que logo pararam mal me viu chegar.
Engoli um sentimento de raiva cega e de piedade.
Seguimos em silêncio pelo longo corredor com as suas paredes multicolores; o intuito dos decoradores fora o das variantes de cor tornarem a vida mais tolerável dentro da concha blindada que era a Estação.
Uma faixa de luz vermelha à nossa frente significava que a porta da cabina de rádio estava aberta e olhei para Rheya. Totalmente absorvida nos seus preparativos para a batalha contra si própria que se aproximava, não fez qualquer tentativa para me responder ao sorriso. Agora que a dura prova ia começar, sua face estava contraída e branca. A quinze passos da porta parou e, quando ia voltar-me para trás, empurrou-me suavemente para frente com as pontas dos dedos.
De repente senti que Snow, a experiência, até mesmo a própria Estação, não valiam o terrível preço que Rheya estava pronta a pagar, tendo eu como ajudante na tortura.
Preparava-me para voltar, mas apareceu uma sombra através da porta da cabina e apressei-me a entrar.
Snow ficou em pé à minha frente, e o sol vermelho por trás dele transformava o seu cabelo grisalho num halo de luz purpúrea. Nos encaramos sem falar e pôde examinar-me à vontade sob a luz do sol que me ofuscava os olhos a tal ponto que quase o não podia ver. Passei junto dele e encostei-me a uma secretária alta, com microfones presos na extremidade das suas hastes flexíveis.
Snow rodou lentamente sobre si próprio e continuou a olhar-me com o habitual sorriso sem energia, em que não havia qualquer divertimento, só uma fadiga avassaladora. Sempre com os olhos nos meus, abriu caminho por entre os montes de objetos espalhados pela cabina — caixas térmicas, instrumentos, peças sobressalentes para o equipamento eletrônico —, encostou um banco à porta de um armário de aço e sentou-se.

Pus-me ansiosamente à escuta, mas do corredor não vinha qualquer som.
Por que é que Snow não falava? O prolongado silêncio estava tornando-se exasperante.
Limpei a garganta:
— Quando é que você e Sartorius estarão prontos?
— Podemos começar hoje mesmo, mas a gravação vai levar algum tempo.
— Gravação? Refere-se ao encefalograma?
— Sim; você concordou. Existe algum problema?
— Não, nada.
Outro longo silêncio. Snow interrompeu:
— Tinha algo para me dizer?
— Ela já sabe — segredei.
Franziu a sobrancelha, mas tive a impressão de que não estava verdadeiramente surpreendido. Então, para quê fingir? Perdi toda a vontade de lhe fazer confidências. Mesmo assim, tinha de ser honesto:
— Ela começou a suspeitar depois do nosso encontro na biblioteca. O meu comportamento, vários outros indícios. Depois, encontrou o gravador de Gibarian e ouviu a fita.
Snow estava atento e imóvel. Em pé junto à secretária, a minha vista sobre o corredor ficava bloqueada pela porta meio aberta. Baixei mais a voz:
— Na noite passada, enquanto eu dormia, ela tentou se matar. Bebeu oxigênio líquido...  Ouviu-se um leve roçar, como papéis sacudidos pelo vento. Parei e pus-me à escuta de qualquer ruído vindo do corredor, mas o barulho não vinha dali. Um rato na cabina? Fora de questão; era Sartorius. Lancei um olhar a Snow.
— Continue — disse calmamente.
— Não deu resultado, claro. De qualquer modo, ela sabe quem é.
— Por que me conta isso?
Por um momento, fiquei mudo de espanto, depois gaguejei:
— Para o informar, para o manter a par da situação...
— Avisei-o.
— Quer dizer que já sabia? — Minha voz elevou-se involuntariamente.
— O que acaba de dizer? Claro que não! Mas expliquei-lhe a posição. Quando chega, o visitante está quase em branco, apenas um fantasma feito de recordações e imagens vagas pescadas na... sua fonte. Quanto mais tempo fica com uma pessoa, mais humana se vai tornando. Até certo ponto, vai-se tornando também mais independente. E quanto mais tempo isso dura, tanto mais difícil torna... — Snow interrompeu-se, olhou-me de cima a baixo e continuou com relutância: — Ela sabe de tudo?
— Sim, é o que acabo de lhe dizer.
— Tudo? Ela sabe que tinha aparecido antes e que você...
— Não!
— Ouça, Kelvin — sorriu tristemente—, se é assim, o que quer fazer? Sair da Estação?
— Sim.
— Com ela?

O silêncio que reinou enquanto ele considerava a resposta que ia dar revelou também uma outra coisa. De novo, de qualquer ponto próximo, e sem que lhe conseguisse descobrir a origem, ouvi na cabina o mesmo leve roçar, como se vindo através da delgada divisória.

Snow remexeu-se no assento.
— Muito bem. Por que me olha assim? Pensa que seria capaz de ficar no seu caminho? Pode fazer o que quiser, Kelvin. Já temos problemas suficientes, sem necessidade de fazermos pressão um sobre o outro. Sei que seria impossível tentar convencê-lo, mas há uma coisa que preciso dizer-lhe: você está fazendo tudo o que pode para continuar humano numa situação que não o é. Talvez seja muito nobre da sua parte, mas não o leva a parte nenhuma. E não tenho a certeza de que seja assim tão nobre... não o é, se for simultaneamente idiota. Mas isso é da sua conta. Voltemos ao que interessa. Você nega a experiência e leva ela  consigo para longe. Ainda não percebeu que apenas vai embarcar numa espécie diferente de experiência?
— Que quer dizer? Se quer saber se ela agüenta enquanto estou com ela, não vejo... — fiz uma pausa.
Snow suspirou:
— Todos temos a cabeça enterrada na areia, Kelvin, e sabemos disso. Não precisa fingir.
— Não estou fingindo coisa alguma.
— Perdão, não queria ofendê-lo. Retiro o que disse, mas continuo pensando que está imitando os avestruzes, numa versão do jogo particularmente perigosa. Engana a si próprio, engana a ela e persegue a sua própria cauda. Sabe quais são as condições necessárias para estabilizar um campo de neutrinos?
— Não, nem você. Ninguém sabe.
— Exato. Tudo o que sabemos é que a estrutura é inerentemente instável e pode apenas ser mantida por meio de contínua alimentação de energia. Sartorius disse-me isso. Essa energia cria um campo de estabilização rotativa. Mas essa energia virá de fora do “visitante” ou será gerada internamente? Está percebendo a diferença?
— Sim. Se for externa, ela...
Snow acabou a frase em meu lugar:
— Longe de Solaris, a estrutura desintegra-se. É apenas uma teoria, claro, mas uma teoria que você pode verificar, pois já começou uma experiência. O veículo que você lançou para o espaço continua em órbita. Nos meus momentos vagos, até calculei a sua trajetória. Você podia levantar voo, interceptá-lo e descobrir o que aconteceu à sua passageira...
— Você está louco! — gritei.
— Acha? E se fizéssemos voltar o veículo? Não há qualquer problema, está ligado para controle à distância. O fazemos sair da órbita e...
— Cale-se!
— Também não adianta? Há outro método, um método muito simples. Não nos obriga a fazer retornar a nave, apenas a estabelecer contato pela rádio. Se estiver viva, ela responde e...
— O oxigênio já acabou há dias.
— Ela pode não precisar dele. Vamos tentar?
— Snow... Snow...
Zangado, imitou o meu tom de voz:
— Kelvin... Kelvin... Pense um pouco! Você é um homem ou não é? A quem está tentando agradar? A quem quer salvar? A si? A ela? E a qual das versões dela? Esta ou a outra? Não tem coragem para enfrentar ambas? Certamente se apercebe de que não estudou bem o assunto. Deixe-me dizer pela última vez: estamos numa situação que ultrapassa a moralidade.

O ruído roçante voltou, e desta vez pareciam unhas a raspar um muro.
De repente fui dominado por absoluta indiferença. Via a mim, via a ambos, como se à distância, como se pela extremidade errada de um telescópio, e tudo parecia sem interesse, trivial e ligeiramente ridículo.
— Então que sugere? Lançar outra nave de apoio? Amanhã ela estaria de volta. E no dia seguinte, e no dia a seguir a esse. Quanto tempo quer que continue? De que vale livrarmo-nos dela se sempre regressa? De que modo isso poderá me ajudar ou a você ou a Sartorius ou à Estação.
— Não, a minha sugestão é a seguinte: parta com ela. Será testemunha da transformação. Passados alguns minutos, verá...
— O  quê? Um monstro, um demônio?
— Não, irá vê-la morrer, é tudo. Não pense que são imortais, garanto-lhe que morrem. E depois, que vai fazer? Regressar... para uma nova edição? — olhava-me com  condescendência e escárnio.
— Basta! — exclamei cerrando os punhos.
— Oh, sou eu quem tem de se calar? Olhe, não fui eu quem começou esta conversa e, pelo que me diz respeito, ela já se prolongou mais que o suficiente. Deixe-me apenas sugerir-lhe uma maneira de você se divertir. Podia chicotear o Oceano, por exemplo. Meteu na cabeça que é um traidor se... — Acenou com a mão em sinal de despedida e levantou a cabeça como se para observar o voo de uma nave imaginária. — Sorrir, quando lhe apetece gritar, fingir-se alegre, quando lhe apetece bater com a cabeça nas paredes, isso não é ser traidor? E se for obrigado a ser traidor? Que fará? Vingar-se na besta do Snow, que é a causa de tudo isto? Nesse caso, Kelvin, você limita-se a pôr uma cobertura sobre o resto dos seus problemas e age como um idiota drogado!
— Você fala do seu próprio ponto de vista. Eu amo essa mulher!
— Quer dizer, a memória dela?
— Não, ela mesma. Já lhe contei o que tentou fazer. Quantos “verdadeiros” seres humanos teriam tal coragem?
— Então admite...
— Pare com sofismas.
— Certo. Então, ela o ama. E você quer amá-la. Não é bem a mesma coisa.
— Engana-se.
— Perdão, Kelvin, mas foi ideia sua vir contar-me tudo isso. Você não a ama. Você ama-a. Ela está pronta a dar a sua vida. Você também. É comovente, é maravilhoso, tudo o que você quiser, mas aqui está deslocado, está no ambiente errado. Não vê? Não vê porque não quer ver. Você anda em círculos para satisfazer a curiosidade de um poder que não compreendemos e não podemos controlar, e ela é um aspecto, uma manifestação periódica desse poder. Se ela fosse... se você estivesse a ser incomodado por uma velha bruxa apaixonada, não pensaria duas vezes antes de se ver livre dela, certo?
— Suponho que sim.
— Bom, então isso provavelmente explica por que ela não é uma velha bruxa! Sente-se de mãos atadas? E é esse o caso, estão mesmo atadas!
— Você limita-se a acrescentar mais uma teoria aos milhões de teorias que há na biblioteca. Deixe-me em paz, Snow, ela é... Não, não vou dizer mais nada.
— Isso é problema seu. Mas lembre-se de que ela é um espelho que reflete uma parte da sua mente. Se ela é bela, é porque as suas memórias o são. Você é quem fornece a fórmula. Só você pode acabar com o que começou, não se esqueça disso.
— Que espera que faça? Mandá-la embora? Já lhe perguntei por que e não me respondeu.
— Vou lhe dar uma resposta. Foi você quem quis esta conversa, não eu. Não me meti nos seus assuntos e não vou lhe dizer o que deve ou não deve fazer. Mesmo que tivesse esse direito, não o faria. Você vem aqui de livre vontade e atira com tudo para cima de mim. Sabe por quê? Para tirar o peso das suas próprias costas. Bom, eu já experimentei esse peso, não tente fazer-me calar, e deixo-o livre para encontrar a sua própria solução. Mas, você quer oposição. Se me atravessasse no seu caminho, você poderia lutar comigo, algo de tangível, um homem como você, com a mesma carne e o mesmo sangue. Lutava comigo e podia sentir que também era um homem. Como não forneço uma desculpa para lutar, você discute comigo ou, antes, consigo próprio. A única coisa que você não me disse é que morreria de desgosto se ela subitamente desaparecesse... — Por favor, já ouvi o suficiente! Retorqui, um pouco sem jeito: — Vim contar-lhe porque achei que devia saber que pretendo partir com ela para longe da Estação.
Ainda a bater na mesma tecla — Snow teve um encolher de ombros. — Apenas lhe dei a minha opinião porque percebi que você estava perdendo a noção da realidade. E quanto mais longe for, maior será a queda. Pode se encontrar com Sartorius amanhã, por cerca das nove?
— Sartorius? Julgava que ele não deixava ninguém entrar. Você disse-me que nem telefonar eu podia.
— Ele parece ter chegado a uma espécie de acordo. Nunca discutimos os nossos problemas domésticos. Com você o caso é outro. Amanhã de manhã?
— Está bem — resmunguei.
Reparei que Snow enfiara a mão esquerda para dentro do armário. Há quanto tempo  estava a porta aberta? Provavelmente há já algum tempo, e no calor da discussão não notara que a posição da sua mão não era natural. Era como se estivesse a esconder alguma coisa ou a segurar a mão de alguém.
Passei a língua pelos lábios.
— Snow, que diabo você...
— Agora, é melhor você sair — disse calmamente.

Fechei a porta na altura em que brilhava o último fulgor do crepúsculo vermelho.
Rheya estava aninhada junto à parede do corredor, à distância de alguns passos.
De um salto, pôs-se imediatamente de pé:
— Viu? Consegui Kris! Sinto-me muito melhor... Talvez fique cada vez mais fácil...
— Sim, claro... — respondi ausente.

Voltamos para os meus aposentos.
Continuava a pensar naquele armário e no que poderia estar escondido lá, ouvindo talvez toda a nossa conversa.
Minha face começou a arder de tal modo que involuntariamente passei por ela as costas da mão.
Que encontro idiota! E onde nos levara? A parte alguma!
Mas havia ainda a manhã seguinte...
Fui atravessado por um arrepio de medo. O meu encefalograma, um registro completo do funcionamento do meu cérebro, ia ser lançado para o Oceano, sob a forma de radiação.
Que tinha dito Snow? Que eu sofreria terrivelmente caso Rheya partisse?
Um encefalograma registra todos os processos mentais, conscientes e inconscientes. Se quiser que ela desapareça, será que isso acontece mesmo? E se eu quisesse me ver livre dela, ficaria assim tão perturbado com a ideia da sua iminente destruição?
Sou responsável pelo meu subconsciente? Mas ninguém o é, logo, eu também não.

Que estupidez ter concordado em deixá-los fazer isso. É claro que poderei examinar a gravação antes de ser utilizada, mas não serei capaz de interpretá-la. Ninguém seria.
Os peritos conseguem apenas identificar tendências mentais gerais.
Por exemplo, podem dizer que o indivíduo está a pensar em qualquer problema matemático, mas são incapazes de especificar os termos exatos. Afirmam que têm de limitar-se às generalizações porque o encefalograma não consegue descriminar por entre a amálgama de impulsos simultâneos, dos quais só alguns têm “contraparte” psicológica, e recusam terminantemente a arriscar qualquer comentário sobre os processos do subconsciente. Como se poderia então esperar que decifrassem memórias que tenham sido mais ou menos reprimidas?
Então, por que tinha tanto medo? Ainda nessa manhã dissera a Rheya que a experiência não podia dar resultado. Se os neurologistas da Terra eram incapazes de interpretar o registro, que hipóteses poderia haver para aquela grande criatura extraterrena...?
Contudo, tinha-se infiltrado na minha mente sem meu consentimento e pusera nu o meu ponto mais vulnerável. Isso era inegável. Sem qualquer ajuda ou transmissões radioativas, abrira caminho pela concha blindada da Estação, localizara-me e saira com os despojos...

— Kris? — sussurrou Rheya.
Em pé junto à janela, com olhos que não viam, não notara a chegada da escuridão.
Um tênue véu formado por uma nuvem alta tinha um brilho ligeiramente prateado, devido à luz do sol agora desaparecido, e obscurecia o céu.
Se Rheya desaparecer depois da experiência, isso significa que eu queria que desaparecesse — que a matei. Não, não irei ver Sartorius. Não podem me forçar a cooperar. Mas não posso contar-lhes a verdade; vou ter de dissimular e mentir e continuar sempre a fazê-lo... Porque na minha mente podem existir pensamentos, intenções e esperanças cruéis de que nada sei, por ser talvez um assassino, sem ter consciência disso. O homem lançou-se à procura de outros mundos e outras civilizações, sem antes ter explorado o seu próprio labirinto de caminhos sombrios e câmaras secretas e sem descobrir o que há para lá de portas que ele mesmo selou.
Iria abandonar Rheya por causa de uma falsa vergonha ou porque me faltava coragem?
— Kris — disse Rheya ainda mais docemente.
Estava agora muito perto de mim. Fingi não ouvir.
Nesse momento queria isolar-me. Ainda não tinha resolvido nada ou chegado a qualquer decisão. Permaneci imóvel a olhar para o céu sombrio e para as frias estrelas, pálidos fantasmas das estrelas que brilhavam na Terra. A minha mente estava vazia. Tudo o que tinha era a triste certeza de ter ultrapassado um  ponto sem possibilidade de regresso. Recusava-me a admitir que me encaminhava para algo que não podia alcançar. A apatia roubava-me até a força para desprezar a mim próprio.



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