sábado, 15 de janeiro de 2011

Solaris - Stanislaw Lem (parte 20)



 OS PENSADORES

— Kris, é na experiência que anda pensando?
O som da sua voz fez-me dar um salto de surpresa. Há horas que estava deitado às escuras, de olhos abertos e sem poder dormir. Como não ouvia a respiração de Rheya, tinha esquecido dela e deixara-me arrastar numa vaga de especulações ao acaso.
O sonho acordado tinha-me feito esquecer a medida e o sentido da realidade.
— Como sabia que eu não estava dormindo?
— Quando você dorme a sua respiração é diferente — disse docemente, como se a desculpar-se da pergunta. — Não queria intrometer-me... Se não puder, não responda.
— Por que não iria te contar? De qualquer modo, você acertou; estou pensando na experiência.
— Que esperam conseguir?
— Eles próprios não sabem. Algo. Seja lá o que for. Não é “Operação Onda Cerebral”, é “Operação Desespero”. Na verdade, um de nós devia ter a coragem de desistir da experiência e tomar sobre si a responsabilidade da decisão, mas a maioria das pessoas pensa que essa espécie de coragem seria sinal de covardia e o primeiro passo de uma retirada. Pensam que isso significaria uma capitulação indigna da parte da humanidade, como se pudesse haver qualquer dignidade em nos debatermos e afogarmos no que não compreendemos, nem nunca viremos a compreender. — Parei, mas um novo ataque de fúria em breve se apoderou de mim. —Argumentos é que não lhes falta. Afirmam que, mesmo que não se consiga estabelecer contato, não teremos perdido o nosso tempo no que diz respeito ao estudo do plasma e que eventualmente acabaremos por descobrir o segredo dessa matéria. Sabem muito bem que estão enganando a si próprios. É como vagar por uma biblioteca onde todos os livros estão escritos numa língua que não se consegue decifrar. A única coisa que nos é familiar é a cor das encadernações!
— Não há outros planetas como este?
— É possível. Mas este é o único que atravessou no nosso caminho. De qualquer modo, está numa categoria extremamente rara, ao contrário do que acontece com a Terra. A Terra é do tipo comum, no universo é mato! E orgulhamo-nos dessa universalidade. Não há lugar onde não possamos ir; fiados nessa crença, nos lançamos, transbordando de confiança, à procura de outros mundos. E que íamos fazer com eles? Dominá-los, ou ser por eles dominados: era essa a única ideia que tínhamos nos nossos patéticos espíritos! Que desperdício inútil...
Saí da cama e rebusquei no armário dos remédios. Os meus dedos reconheceram o formato do grande frasco dos comprimidos para dormir, e, na escuridão, voltei-me para  Rheya:
— Vou dormir, querida.
Lá em cima no teto, o ventilador zunia. — Preciso dormir um pouco...


De manhã acordei sentindo-me calmo e refrescado.
A experiência parecia-me coisa sem importância e não podia perceber por que levava o encefalograma tão a sério. Nem estava muito preocupado por ter de levar Rheya para o laboratório.
Apesar de todos os seus esforços, ela não agüentava ficar mais de cinco minutos longe da vista e da possibilidade de me ouvir, por isso eu tinha abandonado a ideia de novos testes (ela estava até pronta para isso), convidei-a a vir comigo e aconselhei-a a trazer algo para ler.

Sentia-me particularmente curioso com respeito ao que iria encontrar no laboratório. Nada havia de estranho no aspecto da grande sala pintada de azul e branco, com exceção das prateleiras e armários destinados a conter instrumentos de vidro, que agora pareciam nus. O painel de vidro de uma porta estava rachado e em algumas outras tinha desaparecido por completo, sugerindo que houvera ali recentemente uma briga e que alguém fizera o melhor possível para apagar os sinais dessa briga.
Snow estava ocupado com o equipamento e comportou-se de modo muito educado, não mostrando qualquer surpresa perante a aparição de Rheya e cumprimentando-a com um rápido aceno de cabeça.

Eu estava deitado, e Snow passava-me uma solução salina nas têmporas e na testa, quando uma pequena porta se abriu e Sartorius emergiu de uma sala sem iluminação.  Vestia uma bata branca e um negro avental anti-radiações, que lhe descia até aos tornozelos, e o seu cumprimento foi autoritário e muito profissional.
Era como se fôssemos dois investigadores em qualquer grande instituto na Terra continuando um trabalho no ponto onde o tínhamos largado na véspera. Não usava dos óculos escuros, mas notei que tinha lentes de contato e calculei que fosse esta a explicação da sua falta de expressão.

Sartorius ficou olhando de braços cruzados, enquanto Snow colocava os elétrodos e me passava uma cinta em volta da cabeça. Olhou várias vezes em volta da sala, ignorando Rheya, que estava sentada num banco, com as costas apoiadas na parede, e que fingia ler.
Snow deu um passo para trás e eu movi a cabeça, que estava cheia de discos e de fios de metal, para vê-lo ligar o interruptor.
Nesse ponto, Sartorius levantou a mão e iniciou um floreado discurso:
— Dr. Kelvin, peço a sua atenção e concentração por um momento, por favor. Não pretendo ditar-lhe qualquer seqüência precisa de pensamentos, pois isso iria invalidar a experiência, mas insisto em que deixe de pensar em si próprio, em mim, no nosso colega Snow ou em qualquer outra pessoa. Faça um esforço para eliminar toda a intrusão de personalidades e concentre-se no assunto de que tratamos. Terra e Solaris; os cientistas, considerando como uma entidade única, embora as gerações se sucedam umas às outras, e o homem como indivíduo, tenha apenas um curto tempo de vida; as nossas aspirações e a nossa perseverança na tentativa de estabelecer contato intelectual; a longa marcha histórica da humanidade, a nossa certeza de que progrediremos nesse avanço e a nossa determinação em renunciar a todos os sentimentos pessoais com o fim de realizar a nossa missão; os sacrifícios que estamos dispostos a fazer e as dificuldades que estamos prontos a vencer... São estes os temas que devem ocupar a sua consciência. A associação de ideias não depende inteiramente de você e de sua própria vontade, mas o próprio fato da sua presença aqui é testemunho da autenticidade da progressão para a qual lhe chamei a atenção. Se não tiver a certeza de ter cumprido a sua tarefa, peço-lhe que confesse, e o nosso colega Snow fará outro registro. Temos muito tempo.

Um débil sorriso atravessou-lhe a face quando proferiu estas últimas palavras, mas a sua expressão continuou morosa. Tentei decifrar a pomposa fraseologia que tecera com a máxima das gravidades.
Snow quebrou o silêncio, que se prolongava:
— Pronto, Kris?
Apoiava-se com o cotovelo no painel de controle do aparelho do eletroencefalograma e tinha um ar completamente relaxado. O seu tom confiante deu-me a sensação de segurança, e fiquei-lhe grato por ter-me chamado pelo primeiro nome.
— Vamos a isso. — Fechei os olhos.

Depois de Snow ter fixado os elétrodos e se ter dirigido para os controles, tinha-se apoderado de mim um pânico louco e súbito: neste momento desapareceu de modo igualmente repentino. Pelas pálpebras semicerradas podia distinguir as luzes encarnadas que piscavam sobre o negro painel de controle. Já não sentia o contato úmido e desagradável da coroa de pegajosos elétrodos. A minha mente era uma arena sem cor e vazia, rodeada por uma multidão de espectadores invisíveis, amontoados em fileiras de assentos, atentos, silenciosos e traduzindo no seu silêncio um desprezo irônico por Sartorius e pela missão. Que poderia improvisar para estes espectadores?... Rheya... Introduzi o seu nome cautelosamente, pronto a retirá-lo de imediato, mas não surgiu nenhum protesto e continuei. Estava como que bêbedo de dor e ternura, pronto a sofrer pacientemente prolongados sacrifícios. Tinha o espírito cheio de Rheya, sem corpo ou face, mas viva dentro de mim, real e imperceptível.

De repente, como que impressa sobre essa presença sem esperança, vi nas sombras cinzentas a face erudita e professoral de Giese, o pai dos estudos solarísticos e dos solaristas. Não estava a visualizar a nauseabunda erupção de lama que engolira os óculos de ouro e o bigode cuidadosamente escovado. Estava vendo a gravura da capa da sua obra clássica e as pinceladas muito juntas que o artista usara para fazer sobressair a sua cabeça — tão parecida com a do meu pai, aquela cabeça, não nas feições, mas na expressão de sabedoria fora de moda e honestidade, que por fim fiquei incapaz de dizer qual deles estava a olhar para mim, se o meu pai ou Giese. Estavam ambos mortos e nenhum deles enterrado, mas também nos nossos tempos, mortes sem enterro são coisa comum.

A imagem de Giese desapareceu e, por momentos, esqueci a Estação, a experiência, Rheya e o Oceano. As memórias recentes foram obliteradas pela avassaladora convicção de que esses dois homens, o meu pai e Giese, hoje só cinzas, tinham um dia enfrentado a totalidade da sua existência, e essa convicção proporcionou-me uma profunda calma, que aniquilou a assembléia sem forma amontoada em redor da arena cinzenta, na expectativa de uma derrota.

Ouvi o clique de interruptores de circuito, e uma luz atravessou-me as pálpebras, que piscaram e se abriram. Sartorius não se movera da posição anterior e olhava para mim. Snow estava voltado de costas para operar o painel. Tive a impressão de que se divertia a bater com as sandálias no soalho.
— Pensa que a fase 1 foi bem sucedida, Dr. Kelvin? — perguntou Sartorius naquela voz anasalada que eu aprendera a detestar.
— Sim.
— Tem a certeza? — insistiu, obviamente muito surpreso e talvez até suspeitoso.
— Sim.
A minha certeza e a secura das minhas respostas fizeram-no, por um momento, perder a compostura.
— Oh... bom — gaguejou.

Snow aproximou-se de mim e começou a tirar-me a cinta da cabeça.
Sartorius recuou um passo, hesitou, depois desapareceu na sala escura.
Estava massageando as pernas para restabelecer a circulação, quando ele saiu de novo, segurando o filme já revelado. Umas linhas em ziguezague traçavam um desenho arrendado ao longo de cinqüenta pés de reluzente fita negra.
A minha presença já não era necessária, mas permaneci lá e vi Snow inserir a fita na moduladora. Sartorius fez um exame final, pleno de suspeitas, aos últimos pés de fita, como se estivesse a tentar decifrar o conteúdo das linhas ondulantes.
A experiência continuou sem a mínima complicação.
Snow e Sartorius estavam sentados cada um no seu banco de controle e pressionavam botões. Através do assoalho reforçado ouvia-se o rugido da energia a acumular-se nas turbinas. Dentro dos indicadores, as luzes iam descendo a compasso, com a descida do grande emissor de raios X até ao fundo do seu compartimento. Ambos pararam quando foi atingido o nível mais baixo dos indicadores.

Snow ligou a energia, e a agulha branca do voltímetro descreveu um semicírculo da esquerda para a direita. Agora, o zumbido da corrente mal se ouvia, ao mesmo tempo em que o filme se ia enrolando, invisível por trás de duas tampas redondas. No indicador do comprimento da fita passada iam correndo os números.

Fui até junto de Rheya, que nos observava por cima do livro. Ergueu para mim os olhos cheios de interrogações. A experiência acabara e Sartorius dirigia-se para a pesada cabeça cônica da máquina.
— Podemos ir? — articulou Rheya silenciosamente.
Respondi com um aceno, Rheya levantou-se e saímos da sala sem nos despedirmos dos meus colegas.
Pelas janelas do corredor do piso superior fulgia um soberbo pôr do sol.
Geralmente a esta hora, o horizonte apresentava-se avermelhado e triste. Desta vez estava de um rosado reluzente, entrelaçado de prata. Sob o suave fulgor da luz, os sombrios vales do oceano brilhavam num tom de violeta-pálido. Apenas no zênite o céu estava encarnado.
Chegamos ao fundo da escada e parei, relutante em emparedar-me novamente na cela da prisão que era a cabine.
— Rheya, quero ver uma coisa na biblioteca. Se importa?
— Claro que não — exclamou numa tentativa de mostrar boa disposição. — Talvez arranje alguma coisa para ler...

Eu sabia demasiado bem que desde o dia anterior um abismo se abrira entre nós. Deveria ter agido com mais consideração e tentado dominar a minha apatia, mas não conseguia reunir forças para tanto.



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