sábado, 22 de janeiro de 2011

Solaris - Stanislaw Lem (parte 21)



 Descemos a rampa que levava à biblioteca. Havia três portas que davam para o pequeno átrio de entrada e ao longo das paredes viam-se globos de cristal com flores. Abri a porta do meio, que era almofadada de couro sintético de ambos os lados. Quando entrava na biblioteca, sempre evitava tocar nesse material de estofo. Fomos recebidos por agradável lufada de ar fresco.

Apesar do sol estilizado pintado no teto, o grande salão circular continuava fresco.
Passando um dedo preguiçoso pelas lombadas dos livros, escolhi, entre os clássicos solaristas, o primeiro volume de Giese, como que para refrescar a lembrança do retrato da capa, quando deparei com um livro em que antes não reparara, um volume de encadernação já arrebentada. Era o Compendium de Gravinsky, usado principalmente pelos estudantes para fazer colas.

Sentado numa poltrona com Rheya a meu lado, folheei a classificação, por ordem alfabética, de Gravinsky, das várias teorias solarísticas. O compilador, que nunca pusera pé em Solaris, passara a pente fino todas as monografias, relatórios de expedições, descrições provisórias e esboços fragmentários, incluindo até enxertos de comentários acidentais sobre Solaris em obras planetológicas a respeito de outros mundos. Fizera um inventário de formulações simplistas, que roubavam grosseiramente a sutileza das ideias que resumia.

Destinado originalmente a ser um relatório global, o livro de Gravinsky era hoje em dia pouco mais que uma curiosidade. Tinha sido publicado há apenas vinte anos, mas, desde essa data, tinha-se acumulado num único volume.
Percorri o índice, praticamente uma lista obituária, pois poucos dos autores citados eram ainda vivos e, entre os sobreviventes, nenhum tinha já parte ativa em estudos solarísticos. Ao ler todos aqueles nomes, e fazendo a soma de todo o esforço intelectual que representavam em todos os campos de pesquisa, tinha-se a tentação de pensar que certamente uma das teorias citadas devia ser correta e que cada uma das milhares de hipóteses coligidas devia conter um grão de verdade, não podia estar totalmente desligada da realidade.

Na introdução, Gravinsky dividiu em períodos os primeiros sessenta anos de estudos solarísticos. Durante o período inicial, que começou com a nave de reconhecimento que estudou o planeta a partir de uma posição em órbita, ninguém apresentou teorias, no sentido restrito da palavra. O “senso comum” sugeria que o Oceano era um
aglomerado químico sem vida, uma massa gelatinosa que, através da sua atividade “quase vulcânica”, produzia criações maravilhosas e estabilizava a sua excêntrica órbita por meio de um processo mecânico de geração própria, tal como um pêndulo que, depois de posto em movimento, se mantém dentro de um âmbito fixo.
Para ser mais exato, Magenon surgira com a ideia três anos depois da primeira expedição, mas segundo o Compendium, o período de hipóteses biológicas só começava nove anos depois, quando as ideias de Magenon tinham já adquirido numerosos seguidores. Os anos seguintes pululavam de relatórios teóricos sobre o Oceano vivo, extremamente complexos e todos justificados com análises biomatemáticas.
Durante o terceiro período, a opinião científica, até aí praticamente unânime, tornou-se dividida.

O que se seguiu foram guerras entre inúmeras novas escolas de pensamento.
Foi a era de Panmaller, Strobel, Freyus, Le Greuille e Osipowicz: todo o legado de Giese foi submetido a um exame impiedoso. Apareceram os primeiros atlas e inventários, e novas técnicas de controle à distância, permitiram a criação de instrumentos que transmitiam estereofotografias do interior das assimetríades, outrora consideradas impossíveis de explorar.

No calor da controvérsia, as hipóteses “secundárias” eram desdenhosamente postas de lado: mesmo que o tão ansiado contato com o “monstro racional” se não materializasse, defendia-se que valia a pena investigar as cidades de cartilagem dos mimóides e as montanhas em balão que se erguiam acima do Oceano, pois ganharíamos valiosas informações químicas e fisioquímicas e alargaríamos a nossa compreensão da estrutura de moléculas gigantes.

Ninguém se deu ao trabalho nem mesmo de refutar as ideias daqueles correligionários desta linha de pensamento tão derrotista. Os cientistas dedicaram-se a elaborar listas das metamorfoses típicas, obras essas que ainda hoje são usadas, e Frank desenvolveu a sua teoria bioplasmática dos mimóides, a qual, desde então, se provou não estar certa, mas que continua a ser um soberbo exemplo de audácia intelectual e construção lógica.

Os trinta e tal anos dos primeiros três “períodos de Gravinsky”, com a sua certeza plena e romantismo irresistivelmente otimista, constituem a infância dos estudos solarísticos. Depois, um ceticismo crescente anunciava já a idade da maturidade.
Para os fins do primeiro quarto de século, as primeiras teorias colóidomecânicas tinham encontrado um descendente distante no conceito de um “oceano apsíquico”, uma ortodoxia nova e quase unânime que reduzia a pó a opinião de toda a geração de cientistas que acreditavam serem as suas observações a evidência de uma vontade consciente, processos teológicos e uma atividade motivada por uma necessidade íntima do Oceano. Este ponto de vista era agora determinantemente repudiado, e abriu-se caminho para a equipe encabeçada por Holden, Ionides e Stoliva, cujas especulações lúcidas e analiticamente baseadas se concentravam num exame escrupuloso de um crescente corpo de dados.

Foi a época dos arquivistas. As bibliotecas lotadas com documentos; expedições, algumas com mais de mil pessoas, eram equipadas com a mais requintada aparelhagem que a Terra podia fornecer — gravadores robôs, sonar e radar, toda a gama de espectrômetros, contadores de radiação, etc.
Acumulava-se material a um ritmo acelerado, mas o ímpeto essencial da pesquisa esmoreceu, e no decurso deste período, ainda otimista apesar de tudo, começou o declínio.

A primeira fase da solarística fora modelada pela personalidade de homens como Giese, Strobel e Sevada, que sempre mantinham o seu espírito aventureiro que defendessem quer atacassem uma posição teórica. Sevada, o último dos grandes solaristas, desapareceu próximo do pólo sul do planeta, e a sua morte nunca foi explicada de modo satisfatório. Caiu, vítima de um erro que nem um novato teria feito. Voando a baixa altitude, à vista de inúmeros observadores, a sua nave mergulhou no interior de um agilus que nem estava diretamente no seu caminho. Houve especulações a respeito da possibilidade de um súbito ataque de coração ou um desmaio ou uma falha mecânica, mas, pessoalmente, sempre pensei que este tivesse na realidade sido o primeiro suicídio na história de Solaris, provocado pela primeira crise abrupta de desespero.
Houve outras “crises”, não mencionadas em Gravinsky, de cujos pormenores me recordava enquanto olhava para as páginas impressas em letra miúda e já amareladas.
Em todo o caso, as posteriores expressões de desespero foram menos dramáticas, na medida em que as personalidades excepcionais foram rareando. O recrutamento de cientistas para qualquer campo particular de estudo numa época dada nunca foi estudado como um fenômeno de direito próprio. Todas as gerações produzem um número mais ou menos constante de homens brilhantes e decididos; a única diferença está na direção por eles escolhida.
A presença ou ausência de tais indivíduos num particular ramo de estudo é provavelmente explicável em termos das novas perspectivas que se oferecem. Podem variar as opiniões a respeito dos investigadores da fase clássica dos estudos solarísticos, mas ninguém poderá negar a sua estrutura, até o seu gênio. Durante várias décadas, o misterioso Oceano atraíra os melhores matemáticos, físicos e os principais especialistas em biofísica, teoria da informação e eletrofisiologia.
Depois, sem aviso prévio, o exército de pesquisadores encontrou-se sem chefe. Ficou apenas uma amálgama sem face de industriosos colecionadores e compiladores. Ainda se planeava uma ocasional experiência original, mas a sucessão de vastas expedições montadas à escala mundial tinha acabado e o mundo científico não retumbava já com teorias ambiciosas e controversas.

A maquinaria da solarística caiu em desuso e enferrujou, com hipóteses que só nos pormenores se diferenciavam e que eram unânimes na sua concentração sobre o tema da degeneração, regressão e introversão do Oceano. Uma vez ou outra talvez emergisse um conceito mais audacioso e interessante, mas sempre se resumia a uma espécie de acusação contra o Oceano, considerado como o produto último de um desenvolvimento que há muito tempo, milhares de anos atrás, passara por uma fase de organização superior e agora nada mais tinha que uma unidade física. Baseavam-se no argumento de que as suas muitas criações inúteis e absurdas eram as cobertas mortuárias — embora impressionantes —, que se arrastavam há séculos. Assim, por exemplo, os extensores e mimóides eram considerados tumores, e todos os processos à superfície do gigantesco corpo fluido, como expressões de caos e anarquia. Esta maneira de ver o problema tornou-se uma obsessão. Durante sete ou oito anos, a legislatura acadêmica produziu uma imensidão de afirmações, as quais, se bem que expressas em termos polidos e cautelosos, pouco mais eram que insultos, a vingança de uma turma de admiradores sem líder, quando se aperceberam de que o objeto das suas mais prementes atenções continuava indiferente, ao ponto de obstinadamente ignorar todos os seus avanços.

Um grupo de psicólogos europeus lideraram a opinião pública por um período de vários anos. Os seus relatórios não estavam diretamente ligados a estudos solarísticos e não foram incluídos na coleção da biblioteca, mas eu os tinha lido e tinha ainda uma lembrança clara a respeito das suas descobertas. Os investigadores tinham demonstrado, de modo impressionante, que as alterações na opinião leiga estavam intimamente relacionadas com as flutuações de opinião que se registravam nos círculos científicos.
Essa alteração notava-se até no comitê coordenador do Instituto de Planetologia, que controla os subsídios financeiros para a pesquisa, traduzindo-se numa progressiva redução dos orçamentos dos institutos e organizações dedicados aos estudos solarísticos e também em restrições na dimensão das equipas de exploração.

Alguns cientistas adotaram uma posição no extremo oposto e reclamavam no sentido de se tomarem medidas mais vigorosas. O diretor administrativo do Instituto Cosmológico Universal aventurou-se a afirmar que o Oceano vivo não desprezava os homens nem um pouco, mas que não reparava neles, tal como um elefante também não vê nem sente as formigas que correm nas suas costas. Para atrair e manter a atenção do Oceano, seria necessário inventar estímulos mais poderosos e máquinas gigantescas desenhadas à medida de todo o planeta.
Comentaristas maliciosos não perderam tempo para fazer notar que o diretor bem se podia permitir ser generoso, pois era o Instituto de Planetologia quem teria de pagar a conta.

Mas as hipóteses continuavam a chover — hipóteses velhas e “ressuscitadas”, superficialmente modificadas, simplificadas ou complicadas ao extremo—, e a solarística, uma disciplina relativamente bem definida apesar do seu âmbito, tornou-se um labirinto cada vez mais confuso, onde cada saída aparente levava a um beco sem saída. Neste desalento, o Oceano de Solaris ia submergindo sob um oceano de papel impresso.

Dois anos antes de eu começar o meu estágio no laboratório de Gibarian, estágio esse que acabou quando obtive o diploma do Instituto, a Fundação Mett-Irving ofereceu um prêmio enorme a qualquer pessoa que conseguisse descobrir um método viável de medir a energia do Oceano. A ideia não era nova. No passado, já várias camadas de geléia  plasmática tinham sido trazidas para a Terra e vários métodos de preservação tinham sido pacientemente experimentados: temperaturas altas e baixas, microatmosferas e microclimas artificiais, radiação prolongada. Tinha-se percorrido toda a gama de processos físicos e químicos, apenas para obter sempre o mesmo resultado, um gradual processo de decomposição, que passava por fases bem definidas, começando com um enfraquecimento, maceração, depois uma liquefação de primeiro grau (primária) e depois final (secundária). As amostras tiradas das excrescências e criações plasmáticas sofriam o mesmo destino, com algumas variações nas fases de decomposição. O produto final era sempre uma leve cinza metálica.

Logo que os cientistas reconheceram que era impossível manter vivo, ou até em estado “vegetativo”, qualquer fragmento do Oceano, grande ou pequeno, dissociado do organismo no seu todo, desenvolveu-se uma crescente tendência (sob a influência da escola de Meunier-Proroch) para isolar este problema, como sendo a chave do mistério. Foi considerado como um caso de interpretação — resolvam-no, e todo o resto se lhe seguirá.

A procura desta chave, a pedra filosofal dos estudos solarísticos, absorveu o tempo e a energia de toda a espécie de pessoas com pouco ou nenhum treino científico. Durante a quarta década da solarística, a loucura espalhou-se como uma epidemia e proporcionou terra fértil aos psicólogos. Um número desconhecido de loucos e fanáticos ignorantes labutavam nas suas desajeitadas pesquisas com um entusiasmo maior do que aquele que animou os velhos profetas que pregavam o movimento perpétuo ou a transformação do circulo em quadrado. A loucura gastou-se em poucos anos, e na altura em que fiquei pronto para partir para Solaris, desaparecera dos cabeçalhos dos jornais e das conversas e o próprio Oceano estava praticamente esquecido pelo público.

Tive o cuidado de colocar de novo o Compendium na correta posição alfabética e, ao fazê-lo, desloquei um delgado panfleto da autoria de Grastrom, um dos mais excêntricos autores na literatura solarística. Eu lera já o panfleto, que fora ditado pela necessidade de compreender o que há para além do alcance da humanidade e que ataque em particular o indivíduo, o homem, a espécie humana.
Era o trabalho abstrato e ácido de um autodidata que anteriormente tinha feito uma série de contribuições pouco comuns a vários ramos marginais e diversificados da física quântica. Neste livrinho de quinze páginas (a sua obra magna), Grastrom propôs-se demonstrar que as mais abstratas realizações da ciência, as mais avançadas teorias e vitórias das matemáticas, nada mais representavam que um tropeçante avanço de um ou dois passos na rude, pré-histórica e antropomórfica compreensão do universo que nos rodeia. Apontou correspondências com o corpo humano — as projeções dos nossos sentidos, a estrutura da nossa organização física e as limitações fisiológicas do homem— nas equações da teoria da relatividade, no teorema dos campos magnéticos e nas várias teorias dos campos unificados. A conclusão de Grastrom foi que nunca houvera, nem nunca poderia haver, qualquer hipótese de “contato” entre a humanidade e qualquer civilização não humana.

Este ataque contra a humanidade não fazia menção específica ao Oceano vivo, mas a sua presença constante e o seu silêncio cheio de desprezo e vitorioso podia sentir- -se por entre as linhas, pelo menos tal fora a minha impressão pessoal. Foi Gibarian quem para ele me chamou a atenção e deve ter sido Gibarian quem o acrescentou à coleção da Estação. Por sua própria conta, visto o panfleto de Grastrom ser considerado mais uma curiosidade que verdadeira contribuição para a literatura solarística.

Com estranho sentimento, quase de respeito, pus cuidadosamente o delgado panfleto na prateleira apinhada e, com as pontas dos dedos, acariciei a encadernação verde e bronze do Anal de Solaris. No espaço de poucos dias, tínhamos inegavelmente ganho informações positivas acerca de várias das questões básicas que tinham feito correr rios de tinta e dado origem a inúmeras controvérsias, tendo porém continuado estéreis por falta de argumentos. Hoje, o mistério tinha-nos praticamente sitiados, e já tínhamos poderosos argumentos.

O Oceano seria uma criatura viva? Dificilmente alguém poderia continuar a duvidar, salvo se fosse amante do paradoxo ou da obstinação. Já não era mais possível negar as funções “psíquicas” do Oceano, fosse qual fosse o sentido em que se definisse o termo. Era certamente mais do que óbvio que o Oceano tinha “reparado” em nós. Este fato bastava para invalidar toda a classe das teorias solarísticas que afirmavam que o Oceano era um mundo “introvertido”, uma “entidade eremita”, que, devido a um processo de degeneração, estava privada dos órgãos pensantes que outrora possuíra, inconsciente da existência de objetos e acontecimentos externos, prisioneiro de um vórtice gigantesco de correntes mentais criadas e confinadas nas profundezas desse monstro que girava entre dois sóis.

Mas não só isso, tínhamos também descoberto que o Oceano era capaz de reproduzir aquilo que nós próprios nunca tínhamos conseguido criar artificialmente — um corpo humano perfeito, modificado na sua estrutura subatômica para fins que não conseguíamos adivinhar.

O Oceano vivia, pensava e agia. O “problema Solaris” não tinha sido aniquilado pelo seu próprio absurdo. Estávamos verdadeiramente a lidar com a criatura viva. A faculdade “perdida” não estava nada perdida. Tudo isso parecia agora provado sem sombra de dúvida. Quer gostem quer não, os homens terão de dar atenção a este vizinho, á distância de vários anos luz, mas um vizinho situado dentro da nossa esfera de expansão e mais inquietante que todo o resto do universo.

Talvez tivéssemos chegado a um ponto crítico. Qual iria ser a decisão a alto nível? Receberíamos a ordem de desistir e regressar à Terra imediatamente ou num futuro próximo? Seria até possível que nos mandassem liquidar a Estação? Pelo menos não era de todo improvável. Eu não apoiava a solução pela retirada.

Era bem possível que a existência do colosso pensante continuasse a perseguir a mente dos homens. Mesmo depois de o homem ter explorado todos os recantos do cosmo e estabelecido relações com outras civilizações fundadas por criaturas semelhantes a nós próprios, Solaris continuaria a ser um eterno desafio.




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