sábado, 29 de janeiro de 2011

Solaris - Stanislaw Lem (parte 22)



Mal arrumado entre os espessos volumes do Anal, descobri um pequeno livro encadernado em pele de cabra, e por um momento estudei a capa esmurrada e gasta. Era a Introduction to Solaristics de Muntius, publicado muitos anos atrás. Tinha-o lido numa única noite, depois de Gibarian, sorridente, me ter emprestado a sua cópia pessoal; e, quando voltara a última página, pela minha janela via-se a luz de uma nova madrugada na Terra.

Segundo Muntius, a solarística é, para a era espacial, o equivalente à religião: a fé disfarçada em ciência.

O “contato”, a meta declarada da solarística, não é menos vaga ou obscura que a comunhão dos santos ou a segunda vinda do Messias. A exploração é uma liturgia que emprega a linguagem da metodologia; a enfadonha tarefa dos solaristas é desempenhada apenas na esperança de realização, de uma Anunciação, pois não há, nem pode haver, qualquer ponte entre Solaris e a Terra. A comparação é reforçada através de vários paralelos óbvios: os solaristas rejeitam argumentos — nada de experiências em comum, nada de noções comunicáveis —, tal como antigamente os fiéis rejeitavam os argumentos que minassem os alicerces da sua fé. E também, que pode a humanidade ter a esperança de conseguir com uma “troca de informações” com o Oceano vivo? Uma lista das vicissitudes ligadas a uma existência de duração tão infinita que provavelmente já se não recorda das suas origens? Uma descrição das aspirações, paixões e sofrimentos que se exprimem na perpétua criação de montanhas vivas? A apoteose da matemática, a revelação da plenitude no isolamento e renúncia? Mas tudo isto representa um conjunto de conhecimentos incomunicáveis. Transpostos para qualquer língua humana, os valores e significados envolvidos perdem todo o seu conteúdo; não podem transpor intactos essa barreira. Em todo o caso, os “adeptos” não esperam tais revelações — mais dentro da poesia que da ciência—, uma vez que, inconscientemente, é a própria Revelação que esperam, e esta revelação é que lhes seja explicado o significado do destino do homem! A solarística é o ressurgimento de mitos há muito desaparecidos, a expressão de místicas nostalgias que os homens não têm a coragem de confessar abertamente. A pedra de esquina está profundamente enraizada nos alicerces do edifício: é a esperança da Redenção.

Os solaristas são incapazes de reconhecer esta verdade, e por isso têm o cuidado de evitar qualquer interpretação de contato, o qual é apresentado nos seus escritos como a meta última, ao passo que originalmente tinha sido considerado como um começo e como um passos para um novo caminho de entre vários outros caminhos possíveis.
Com o decorrer dos anos, o contato tornou-se santificado.
Tornou-se o paraíso da eternidade.

Muntius analisa esta “heresia” da planetologia de um modo muito simples e cortante. Desfaz brilhantemente o mito solarístico, ou antes, o mito da Missão da Humanidade.
A voz de Muntius foi a primeira que se elevou em protesto e foi recebida pelo silêncio cheio de desprezo dos peritos, numa época em que tinham ainda uma romântica confiança no desenvolvimento da solarística. Afinal de contas, como poderiam aceitar uma tese que atingia os alicerces dos seus heróicos feitos.

E a solarística continuou à espera de um homem que a restabelecesse numa base sólida e definisse com precisão as suas fronteiras. Cinco anos depois da morte de Muntius, quando o seu panfleto se tinha tornado uma peça rara de colecionadores, um grupo de investigadores noruegueses fundou uma escola com seu nome. Em contato com a personalidade dos seus diversos herdeiros espirituais, o calmo pensamento do mestre sofreu profundas alterações; levou à corrosiva ironia de Erle Ennesson e, num plano mais mundano, à solarística “utilitária” e “utilitarianística” de Faleng, que defendia a opinião de que a ciência se devia satisfazer com as vantagens imediatas oferecidas pela exploração e não se preocupar com qualquer comunhão intelectual entre as duas civilizações ou com qualquer ilusório contato.

Comparadas com a análise impiedosa e lúcida de Muntius, as obras dos seus discípulos pouco mais são que compilações e por vezes degradações, com exceção dos ensaios de Ennesson e talvez dos estudos de Takata. O próprio Muntius já tinha definido todo o desenvolvimento dos conceitos solarísticos. À primeira fase dava o nome de era dos “profetas”, entre os quais incluía Giese, Holden e Sevada; à segunda, chamada o “grande cisma” — a fragmentação da igreja única solarística em várias seitas antagônicas; e antecipara uma terceira fase, que se estabeleceria quando já nada houvesse para investigar e que se manifestaria num dogmatismo acadêmico e obscuro. Contudo, a profecia viria a provar-se inexata. Em minha opinião, Gibarian tinha razão em classificar as críticas de Muntius como monumentais simplificações, que ignoravam todos aqueles aspectos da solarística que nada tinham em comum com um credo, pois o trabalho de interpretação baseava-se apenas sobre a evidência concreta de um globo que girava em órbita à volta de dois sóis.

Entre duas páginas do panfleto de Muntius descobri uma revista trimestral Parerga Solariana, que afinal era um dos primeiros escritos de Gibarian, do tempo antes de ser nomeado diretor do Instituto. O artigo tinha o título “Por que sou solarista?” e começava com uma breve resenha de todos os fenômenos materiais que confirmavam a possibilidade de contato. Gibarian pertencera à geração de investigadores que tinham sido suficientemente ousados e otimistas para querer regressar à época áurea e que não escondiam a sua própria versão de uma fé que ultrapassava as fronteiras impostas pela ciência, mantendo-se porém concreta, pois pressupunha o sucesso da perseverança.

Gibarian tinha sido influenciado pela obra clássica em bioeletronica que tornou famosa a escola Eurasiana de Cho Enmin, Ngyalla e Kawakadze. Os estudos destes tinham estabelecido uma analogia entre a atividade elétrica registrada do cérebro e certas descargas que ocorriam nas profundezas do plasma, por exemplo, antes da aparição de polimorfos elementares ou solaríades gêmeos. Gibarian opunha-se a interpretações antropomórficas e às mistificações das escolas psicanalítica, psiquiátrica e neurofisiológica, que tentavam ver no Oceano os sintomas de doenças humanas, entre elas a epilepsia (que supunham corresponder às erupções espasmódicas das assimetríades). Foi um dos mais cautelosos e lógicos proponentes do contato e não via qualquer vantagem na espécie de sensacionalismo que, em todo o caso, se estava a tornar cada vez mais raro em relação a Solaris.


A minha própria tese de doutoramento recebera razoável dose de atenção, e nem toda bem-vinda. Baseava-se nas descobertas de Bergmann e Reynolds, que tinham conseguido isolar e “filtrar” os elementos das mais poderosas emoções — desespero, sofrimento e prazer — dentre a massa dos processos mentais gerais. Comparando sistematicamente os registros deles com as descargas elétricas do Oceano, observara oscilações em certas partes das simetríades e na base de mimóides a nascer que eram suficientemente análogas para merecerem uma investigação mais aprofundada. Os jornalistas lançaram-se sobre a minha tese, e em alguns jornais o meu nome vinha associado a grotescos cabeçalhos — “A Gelatina em desespero”, “O planeta em orgasmo”. Mas esta fama duvidosa teve a feliz conseqüência (ou assim pensei até há uns dias) de atrair a atenção de Gibarian, que naturalmente não podia ler todas as novas publicações que tratavam de Solaris.

A carta que me mandou acabou um capítulo da minha vida e encerrou outro...



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