sábado, 5 de fevereiro de 2011

Solaris - Stanislaw Lem (parte 23)



OS SONHOS

Quando passaram seis dias sem qualquer reação da parte do Oceano, decidimos repetir a experiência. Até essa data, a Estação estivera localizada na intersecção do paralelo 43 com o meridiano 116. Nos mudamos para o sul, mantendo uma altitude constante de 1200 pés acima do Oceano — o nosso radar confirmou as observações automáticas enviadas pelo satélite artificial, que indicavam uma concentração da atividade do plasma no hemisfério sul.

Quarenta horas mais tarde, um feixe de raios X modulados com os meus padrões cerebrais bombardeava, a intervalos regulares, a superfície quase imóvel do Oceano.
No final desta jornada de dois dias, tínhamos chegado próximos da zona polar.
O disco do sol punha-se num dos lados do horizonte, enquanto que amontoados de nuvens purpúreas anunciavam a madrugada do sol vermelho.
No céu, chamas ofuscantes e chuva de centelhas verdes chocavam-se com o sombrio fulgor púrpura. Até o Oceano participava nesta batalha entre as duas estrelas, reluzindo aqui com lampejos mercuriais, ali com reflexos carmesins.
A menor nuvem que se lhe passasse por cima enchia de iridescência a luzente espuma na crista das ondas.
Mal o sol azul se tinha posto e logo, no ponto de encontro entre o sol e o céu, indistinta e mergulhada numa neblina encarnada cor de sangue (imediatamente sinalizada pelos detectores), uma simetríade brotou qual gigantesca flor de cristal. A Estação manteve o rumo e passados quinze minutos, o colossal rubi, que pulsava em moribundos lampejos, mais uma vez ficou escondido abaixo do horizonte. Alguns minutos mais tarde, uma delgada coluna jorrou a milhares de metros de altura na atmosfera, ficando a sua base oculta à vista pela curvatura do planeta. Esta árvore fantástica, que continuava a crescer e a cuspir sangue e mercúrio, marcava o fim da simetríade: os emaranhados ramos no topo da coluna derreteram, formando um gigantesco cogumelo, iluminado simultaneamente por ambos os sóis e arrastado pelo vento, enquanto que a parte de baixo inchava, se fendia em pesados torrões e emergia lentamente. Os estertores da morte duraram bem mais de uma hora.

Mais dois dias passaram.
Os nossos raios X tinham irradiado uma vasta extensão do Oceano e fizemos uma última repetição da experiência. Do nosso posto de observação avistamos uma cadeia de ilhotas a duzentas e cinqüenta milhas para sul — seis promontórios rochosos, recobertos por uma substância semelhante a neve, que era afinal um depósito de origem orgânica, o que provava que a formação montanhosa fizera outrora parte do leito do Oceano.

Seguimos então para sudoeste e rodeamos uma cadeia de montanhas coroadas por nuvens que se amontoavam durante o dia vermelho e depois desapareciam.
Tinham decorrido dez dias depois da primeira experiência.

À primeira vista, nada de especial estava a acontecer na Estação. Sartorius programara a experiência de modo a haver repetições automáticas a determinados intervalos. Eu nem sabia se alguém verificava o aparelho para ver se funcionava corretamente. Na realidade, porém, a calma não era tão completa como parecia, mas isso não se devia a qualquer atividade humana.
Eu temia que Sartorius não tencionasse realmente abandonar a construção do aniquilador. E como iria Snow reagir quando descobrisse que lhe tinha escondido informações e exagerado os perigos Que poderíamos correr numa tentativa para aniquilar as estruturas de neutrinos? Contudo, nenhum dos dois voltou a falar no projeto, e me perguntava repetidamente por que se mantinham tão calados. Suspeitava vagamente que me escondiam qualquer coisa — talvez andassem a trabalhar em segredo — e todos os dias inspecionava a sala onde estava o aniquilador, uma cela sem janelas situada diretamente abaixo do laboratório principal.
Nunca encontrei ninguém na sala, e a camada de pó que havia sobre a armação e os cabos do aparelho era a prova que há semanas ninguém lhe tocava.

Na verdade, não encontrava ninguém em parte nenhuma e já não conseguia entrar em contato com Snow: ninguém respondia quando tentava telefonar para a cabine de rádio. Alguém tinha de estar controlando os movimentos da Estação, mas quem? Não tinha qualquer ideia a esse respeito e, por estranho que pareça, considerava a pergunta fora da minha alçada. A ausência de resposta da parte do Oceano deixava-me igualmente indiferente, a tal ponto que, passados dois ou três dias, deixara de ter esperanças ou receios e desligara-me por completo da experiência e seus possíveis resultados.

Durante dias seguidos ficava sentado na biblioteca ou na minha cabine, acompanhado pela sombra silenciosa de Rheya. Tinha a consciência de que havia um mal-estar entre nós e de que o meu estado de negligente suspensão não poderia prolongar-se para sempre. Obviamente era a mim que competia por fim a esta situação, mas até a ideia de qualquer espécie de alteração me incomodava: estava incapaz de tomar qualquer decisão, por mais trivial que fosse. Tudo o que havia no interior da Estação, e a minha relação com Rheya em particular, me parecia frágil e sem substância, como se a mínima alteração pudesse perturbar o perigoso equilíbrio e tudo fazer ruir. Não sabia dizer de onde me vinha esse sentimento, e o mais estranho de tudo era que também Rheya sentia algo semelhante.

Quando hoje volto a recordar esses momentos, fico fortemente convencido de que essa atmosfera de incerteza e suspense e o meu pressentimento de um desastre iminente eram provocados por uma presença invisível que se apoderara da Estação. Creio também poder afirmar que essa presença se manifestava de modo igualmente forte em sonhos. Nunca antes tivera visões dessa espécie, nem voltei a ter depois, por isso decidi anotá-las e transcrevê-las aproximadamente, na medida em que meu vocabulário o permita, dado que posso apenas descrever aspectos fragmentários, quase que por completo despidos de um horror impossível de comunicar.

Uma região obscura, no coração da vastidão, longe do céu e da terra, sem chão por baixo nem abóbada de céu por cima, nada. Sou prisioneiro de uma matéria extraterrestre e o meu corpo está revestido de uma substância morta e sem forma — ou antes, não tenho corpo, eu sou essa matéria extraterrestre. Nebulosos glóbulos rosa pálido rodeiam-me, suspensos num meio mais opaco que o ar, pois os objetos só se tornam nítidos quando vistos de muito perto, embora quando se aproximam fiquem anormalmente distintos e a sua presença se revele com uma nitidez sobrenatural. A convicção da sua realidade substancial e tangível é no momento tão dominadora que mais tarde, quando acordo, tenho a impressão de ter acabado de abandonar um estado de verdadeira percepção e tudo o que vejo depois de abrir os olhos me parece nebuloso e irreal.

É assim que o sonho começa.
Em redor de mim algo aguarda o meu consentimento, a minha íntima aquiescência, e sei, ou antes, existe o conhecimento de que não posso ceder a uma tentação desconhecida, pois quanto mais o silêncio parece prometer, tanto mais terrível será o resultado obtido. Contudo, em essência, eu nada sei disso, pois se soubesse teria medo, e não sinto o mínimo temor.
Aguardo. Da névoa rósea que me envolve emerge um objeto invisível e toca-me. Inerte, aprisionado na matéria que me recobre, não posso recuar nem desviar-me, e sou tocado, a minha prisão é tocada, e sinto esse contato como uma mão, e essa mão recria-me. Até esse momento pensava que via, mas não tinha olhos: agora tenho olhos! Sob a carícia dos dedos hesitantes, os meus lábios e faces emergem do vazio e, à medida que a carícia prossegue, passo a ter uma face, sinto o peito a respirar — existo. E, uma vez recriado, é a minha vez de criar: aparece à minha frente uma face que nunca vi antes, simultaneamente misteriosa e conhecida. Luto para fixar o olhar, mas não consigo orientar a direção dos meus olhos, e, num silêncio absorvido, para além de qualquer esforço da vontade, descobrimo-nos mutuamente um ao outro. Estou de novo vivo e sinto-me como se as minhas capacidades não tivessem qualquer limitação. Esta criatura — uma mulher? — permanece junto de mim e ambos estamos imóveis. Os nossos corações batem em uníssono, e de repente, do vazio que nos rodeia e onde nada existe nem pode existir, surge uma presença de uma crueldade indefinível e inimaginável. A carícia que nos criou e nos envolveu num manto dourado transforma-se agora no rastejar de inúmeros dedos. Os nossos corpos nus e brancos dissolvem-se num enxame de coisas negras e rastejantes e sou — somos— uma massa de vermes glutinosos e enovelados, sem fim, e nessa infinidade, não, eu sou infinito, e grito sem que se ouça qualquer som, implorando a morte, um fim. Mas simultaneamente sou dispersado em todas as direções, e a minha dor expande-se num sofrimento mais agudo que qualquer estado acordado, uma dor penetrante e espalhada que chega aos distantes pretos e encarnados, dura como rocha e sempre crescente, uma montanha de dor visível na ofuscante luz de um outro mundo.

Este sonho foi um dos mais simples. Não posso descrever os outros por me faltarem as palavras para traduzir o horror. Nesses sonhos não tinha consciência da existência de Rheya, nem havia qualquer eco de acontecimentos passados ou futuros.
Tinha também sonhos sem visões, durante os quais, num silêncio imóvel e granuloso, sentia que era lenta e minuciosamente explorado, embora nenhuma mão ou instrumento me tocassem. Contudo, sentia-me invadido até ao âmago, ficava despedaçado e desintegrava-me, e só o nada ficava. A aniquilação total era seguida de um tal terror que a mera lembrança dele ainda hoje me põe o coração a bater mais apressado.
E assim passavam os dias, cada dia igual ao anterior. Tudo me era indiferente e apenas temia as noites, e não conseguia encontrar maneira de escapar aos sonhos.
Rheya nunca dormia. Deitava-me junto dela lutando contra o sono, e a ternura com que a abraçava era apenas um pretexto, um modo de evitar o momento em que seria forçado a fechar os olhos. Não lhe contava os meus pesadelos, mas deve tê-los adivinhado porque a sua atitude traduzia involuntariamente um sentimento de profunda humilhação.
Como já disse, há bastante tempo que não via Snow ou Sartorius, mas Snow dava ocasionalmente sinal de vida. Deixava-me um recado à porta, chamava-me pelo videofone para me perguntar se notara qualquer novo acontecimento ou alteração ou qualquer outra coisa que pudesse ser interpretada como uma resposta aos repetidos bombardeamentos de raios X.
Dizia-lhe “Não” e fazia-lhe a mesma pergunta, mas Snow, no pequeno écran, limitava-se a negar com um gesto de cabeça.


No décimo quinto dia depois da conclusão da experiência, acordei mais cedo que de costume, exausto devido ao sonho da noite anterior. Todos os meus membros estavam semi entorpecidos, como se emergissem dos efeitos de poderoso narcótico.

Os primeiros raios do sol vermelho brilhavam pela janela, uma manta de chamas encarnadas varria a superfície do Oceano e apercebi-me de que a vasta expansão, que nos últimos quatro dias não fora perturbada pelo mínimo movimento, começava a agitar-se. O sombrio Oceano ficou abruptamente coberto por tênue neblina, a qual parecia, ao mesmo tempo, ter uma consistência muito palpável. Aqui e ali essa neblina agitava-se e os seus tremores transmitiam-se em todas as direções até à linha do horizonte. Depois, o Oceano desapareceu por completo sob umas membranas espessas e enrugadas, com saliências róseas e depressões cor de pérola, e estas estranhas ondas suspensas sobre o oceano puseram-se de súbito a girar e aglutinavam-se formando grandes bolas de espuma azul esverdeada. Uma tempestade de vento levantou-se até a altura da Estação, e para onde quer que se olhasse, víamos imensas asas membranosas planando no céu vermelho. Algumas dessas asas de espuma, as que encobriam o Sol, eram negras como piche, enquanto outras, porque estavam expostas obliquamente à luz desse sol, brilhavam com focos luminosos cor de púrpura. E o fenômeno continuava, como se o Oceano estivesse em mutação ou a descascar uma velha pele escamosa.
De vez em quando podia aperceber-se a negra superfície do Oceano através de uma abertura, que num instante voltava a ser tampada pela espuma.
Asas de espuma planavam à nossa volta,.apenas a poucos metros da janela, e uma caiu e roçou pelo vidro, parecendo seda. E, enquanto o Oceano continuava a produzir estes fantásticos pássaros, os primeiros a voar dissipavam-se já bem no alto, decompondo-se no zênite em filamentos transparentes.


A Estação permaneceu imóvel durante todo o tempo que o espetáculo durou — cerca de três horas, até que a noite surgiu. E mesmo depois de o Sol se pôr e as sombras se terem espalhado sobre o Oceano, o brilho pálido de miríades de asas podia ainda aperceber-se a subir para o céu, pairando em densas massas e elevando-se, sem esforço, em direção à luz.

Este espetáculo aterrorizou Rheya, mas para mim não foi menos desconcertante, embora a novidade não nos devesse ter perturbado, visto que duas ou três vezes por ano, ou mais, se a sorte lhes sorria, os solaristas observavam formas e criações nunca antes registradas.

Na noite seguinte, uma hora antes do nascer do sol azul, fomos testemunhas de outro fenômeno: o Oceano estava a tornar-se fosforescente. Manchas de luz cinzenta subiam e baixavam ao ritmo de invisíveis vagas. Isoladas a princípio, depressa essas manchas cinzentas se espraiaram e ligaram umas às outras e em breve formaram um tapete de luz espectral que se estendia até onde a vista podia alcançar. Durante quinze a vinte minutos a intensidade da luz foi aumentando progressivamente, até que o fenômeno teve um final surpreendente. Uma cortina de sombra aproximou-se vinda de ocidente, estendendo-se ao longo de uma frente de várias centenas de milhas. Quando esta sombra em movimento chegou à Estação, a parte fosforescente do Oceano, recuando para leste, parecia estar tentando escapar ao gigantesco extintor. Era como uma aurora posta em fuga e recuando até ao horizonte, que ficou orlado de um fulgor que ia esmorecendo, até que finalmente a escuridão venceu. Pouco depois o Sol ergueu-se acima das vastidões do Oceano, que eram atravessadas por algumas vagas solidificadas, cujos reflexos mercúricos bailavam sobre a minha janela.

A fosforescência era um efeito já registrado, observado por vezes antes da erupção de uma assimetríade, e sempre indicativa de um aumento local da atividade do plasma.
Porém, no decurso das duas semanas seguintes, nada aconteceu, nem no interior nem no exterior da Estação, exceto numa ocasião em que, no meio da noite, ouvi o som de um grito lancinante, que não podia ter saído de nenhuma garganta humana. O uivo agudo e prolongado acordou-me no meio de um pesadelo, e a princípio pensei que era o começo de outro. Antes de adormecer tinha ouvido uns ruídos abafados vindos do lado do laboratório, parte do qual ficava diretamente acima da minha cabine. Pareciam objetos  pesados e máquinas a serem arrastados para outro lugar. Quando me apercebi de que não estava sonhando, decidi que o grito também viera de cima, mas não pude perceber como conseguira atravessar o teto à prova de som. Os horríveis ruídos continuaram durante quase meia hora, até que os meus nervos ficaram em frangalhos e eu alagado em suor. Preparava-me para ir investigar quando os gritos cessaram e foram substituídos por sons abafados, como um arrastar de objetos pelo soalho.

Rheya e eu estávamos sentados na cozinha, dois dias mais tarde, quando Snow apareceu. Estava vestido como se vestem as pessoas na Terra depois de um dia de trabalho e parecia outra pessoa, mais alto e mais velho. Não olhou para nós nem puxou uma cadeira, mas ficou em pé junto à mesa, abriu uma lata de carne e começou a engoli-la, intercalada com grandes nacos de pão. A manga do casaco roçava no tampo gorduroso da lata.

— Cuidado, Snow, a manga!
— O quê? — resmungou e continuou a entupir-se de comida, como se há dias não comesse. Encheu um copo de vinho, bebeu-o de um só trago, deu um suspiro profundo e limpou a boca. Depois olhou para mim com os olhos injetados de sangue e balbuciou:
— Ah, você deixou de fazer a barba?...
Rheya tirou a mesa. Snow balançava sobre os calcanhares, depois fez uma careta e chupou ruidosamente os dentes, deliberadamente exagerando a ação. Fixava-me com insistência:
— Decidiu, então, deixar de se barbear? — Não dei resposta. —Acredite em mim — continuou —, está cometendo um erro. Foi assim que ele começou...
— Vá deitar-se.
— Por quê? Quando me sinto com disposição para conversar? Ouça, Kelvin, talvez o Oceano nos queira bem... talvez nos queira agradar e não saiba muito bem como fazê-lo. Espia os desejos que temos no cérebro, e só dois por cento dos processos mentais são conscientes. Isso significa que ele nos conhece melhor que nós próprios nos conhecemos. Temos de conseguir entender-nos com ele. Está me escutando? Não quer? Por quê? — neste ponto pôs-se a soluçar. — Por que você não fez a barba?
— Cale a boca!... Você está bêbado!
— Eu, bêbado! E se estivesse? Só porque vagueio de uma ponta à outra do espaço e ando a meter o nariz no cosmo, acha que não me é permitido embebedar-me? Por que não? Você acredita na missão da humanidade, não acredita, Kelvin? Gibarian falou-me sobre você antes de começar a deixar crescer a barba... Foi uma ótima descrição. Mas não vá ao laboratório, se não quiser perder a fé. Aquilo pertence a Sartorius. O Fausto, ao invés... anda à procura de uma cura para a imortalidade! Ele é o último cavaleiro do Sagrado Contato, o homem de quem precisamos. A sua última descoberta também é bastante boa... uma morte prolongada. Nada mal, hem? “Agonia perpétua”... da palha... dos chapéus de palha... e você continua a não querer beber, Kelvin?
Ergueu as pálpebras inchadas e olhou para Rheya, que estava encostada à parede e absolutamente imóvel. Depois começou a cantarolar:
— Oh, bela Afrodite, filha do Oceano, a tua mão divina — Engasgou-se com o riso.
— Condiz, hem, Kel... vin. — Parou com um ataque de tosse.
— Cale a boca e saia daqui! — rugi por entre os dentes cerrados.
— Está me expulsando? Você também? Você não faz a barba e me expulsa? E o que me diz dos meus avisos, dos meus conselhos? Colegas interestelares devem ajudar-se uns aos outros! Ouça, Kelvin, vamos lá embaixo, abrimos as comportas e os chamamos. Talvez eles nos ouçam. Mas qual é o nome dele? Demos nomes a todas as estrelas e planetas, embora talvez já tivessem os seus próprios nomes. Que descaramento! Venha, vamos lá abaixo. Vamos gritar-lhe, talvez ele se comova. Fará para nós simetríades de prata, irá orar em forma de cálculos, nos enviará os seus anjos ensangüentados. Partilhará os nossos problemas e terrores e nos pedirá que o ajudemos a morrer. Já está  pedindo, implorando. Com cada uma das suas criações está implorando que o ajudemos a morrer. Você não está achando graça... mas já sabe que sou um brincalhão. Se as pessoas tivessem mais humor, talvez as coisas tivessem corrido de modo diferente. Sabe o que ele quer fazer? Quer castigar o Oceano, ouvi-lo gritar do topo de todas as suas montanhas ao mesmo tempo. Se pensa que ele nunca terá a coragem de apresentar o seu plano àquele punhado de velhos tremelicantes que nos mandaram para cá, para nos redimirmos de pecados que não cometemos, tem razão, ele tem medo. Mas tem medo apenas do pequeno chapéu, ele não ousará, Fausto não...

Nada respondi. A agitação de Snow aumentava. As lágrimas escorriam-lhe pela cara abaixo e caíam-lhe na roupa. Continuou:
— Quem é responsável? Quem é responsável por esta situação? Gibarian? Giese? Einstein? Platão? Todos criminosos... Repare, numa nave espacial uma pessoa corre o risco de arrebentar como um balão, de congelar ou assar ou de cuspir todo o seu sangue numa única golfada, antes mesmo de poder gritar, e tudo o que sobra são ossinhos a flutuar dentro de cascos blindados, de acordo com as leis de Newton, corrigidas por Einstein, dois marcos milenários do nosso progresso. Seguimos pela estrada afora, cheios de fé, e vemos aonde nos conduz. Pense no nosso sucesso, Kelvin; pense nas nossas cabines, nos pratos inquebráveis, nas pias imortais, legiões de fiéis guarda-roupas, dedicados armários... Se não estivesse bêbedo, não estaria falando desta maneira, porém mais cedo ou mais tarde alguém tinha de dizer estas coisas, não é? Você fica ai sentado como um cordeiro num matadouro e deixa a barba crescer... De quem é a culpa? Descubra você mesmo.

Deu lentamente a volta e saiu, estendendo um braço para se segurar à porta. Depois os seus passos morreram ao longo do corredor.

Tentei não olhar para Rheya, mas os meus olhos foram atraídos para ela, mesmo contra minha vontade. Queria levantar-me, tomá-la nos braços e acariciar-lhe o cabelo.
Não me mexi.





Solaris - Stanislaw Lem (parte 23) [ Download ]