sábado, 12 de fevereiro de 2011

Solaris - Stanislaw Lem (parte 24)


VITÓRIA

Mais três semanas.
Os escudos subiam e desciam sempre nas mesmas horas. Eu continuava prisioneiro dos meus pesadelos, e todas as manhãs o fingimento recomeçava. Mantinha uma compostura fingida e Rheya fazia o mesmo teatro. O engano era mútuo e deliberado e o nosso acordo contribuía para a nossa última evasão. Falávamos do futuro, da nossa vida na Terra nos arredores de qualquer grande cidade. Passaríamos o resto da vida entre árvores verdes e um céu azul e não voltaríamos a sair da Terra. Juntos fizemos o projeto da casa e do jardim, e discutíamos por causa de pormenores, tais como a localização de uma sebe ou de um banco.

Não creio que, nem por um instante, estivesse sendo sincero.

Nossos planos eram impossíveis, e eu sabia, pois mesmo que Rheya pudesse abandonar a Estação e sobreviver à viagem, como poderia eu passar pelos inspetores da imigração com a minha passageira clandestina? A Terra só admite seres humanos, e mesmo desses só os que são portadores dos devidos papéis. Rheya seria detida para uma verificação de identidade logo na primeira barreira, seríamos separados e ela logo se trairia.

A Estação era o único lugar onde podíamos viver juntos. Rheya devia saber disso.

Uma noite ouvi Rheya sair silenciosamente da cama. Queria fazê-la parar; na escuridão e no silêncio, conseguíamos por vezes afastar o desespero por um momento, ajudando-nos mutuamente a esquecer. Rheya não notou que acordei. Quando estendi a mão ela estava fora da cama e seguia descalça em direção à porta. Sem ousar elevar a voz, sussurrei o seu nome, mas ela já estava do lado de fora, e pela porta aberta vinha uma estreita faixa de luz do corredor.

Houve um som de sussurros. Rheya falava com alguém... mas, quem? Quando tentei levantar-me, o pânico apoderou-se de mim e não consegui mover as pernas. Pus-me à escutar, mas nada ouvi. O sangue latejava-me nas têmporas. Comecei a contar, e estava a chegar aos mil quando houve um movimento junto à porta e Rheya regressou. Ficou um segundo parada sem se mexer e obriguei-me a respirar de modo regular.

— Kris? — sussurrou.

Não respondi.
Entrou rapidamente na cama e deitou-se, tendo o cuidado de não me incomodar. Zumbiam-me perguntas na cabeça, mas não queria ser o primeiro a fazer qualquer movimento e não o fiz. O interrogatório silencioso continuou por uma hora, talvez mais. Depois adormeci.

A manhã foi como outra qualquer. Observei furtivamente Rheya, mas não vi qualquer alteração no seu comportamento. Depois do café nos sentamos junto à grande janela panorâmica.
A Estação pairava entre nuvens cor de púrpura.

Rheya lia e enquanto olhava para fora notei subitamente que, pondo a cabeça num certo ângulo, podia ver-nos a ambos refletidos na janela. Retirei a mão da grade. Rheya não fazia ideia de que a estava observando. Olhou para mim, obviamente convencida, pela minha posição, de que eu estava olhando para o Oceano, depois inclinou-se e beijou o lugar onde a minha mão pousara. No minuto seguinte estava novamente lendo.

— Rheya — perguntei docemente —, onde foi ontem à noite?
— Ontem à noite?
— Sim.
— Deve... deve ter sonhado, Kris. Não fui a lugar nenhum.
— Não saiu da cabine?
— Não. Deve ter sido um sonho.
— Talvez... sim, talvez tenha sonhado.
Nessa mesma noite comecei a falar novamente do nosso regresso à Terra, mas Rheya me fez parar:
— Não volte a falar da viagem, Kris. Não quero mais ouvir falar disso, sabe muito bem...
— O quê?
— Não, nada.
Depois de irmos para a cama, disse-me que tinha sede:
— Tem um copo de suco de fruta naquela mesa. Pode me dar? — Bebeu metade e estendeu-me o copo.
— Não tenho sede.
— Então bebe à minha saúde — sorriu.
Tinha um gosto um pouco amargo, mas eu tinha a cabeça noutras coisas. Rheya apagou a luz.
— Rheya... Se não quer falar da viagem, falemos de outra coisa qualquer.
— Se eu não existisse, você se casaria?
— Não.
— Nunca?
— Nunca.
— Por que não?
— Não sei. Estive dez anos sozinho e não me casei. Não falemos disso... — Estava um pouco tonto, como se tivesse bebido demais.
— Não; vamos falar nisso. E se eu te pedisse?
— Que voltasse a me casar? Não seja boba, Rheya. Não preciso de ninguém a não ser você.
Sentia a sua respiração na cara e os seus braços em volta de mim:
— Diz isso de outra maneira.
— Te amo.
A cabeça dela caiu-me sobre um ombro e senti-lhe as lágrimas.
— Rheya, que foi?
— Nada... nada... nada... — Ecoou a sua voz no silêncio, e os meus olhos fecharam-se.

Acordei com a madrugada vermelha e sentia a cabeça a ponto de estourar e o pescoço tão rígido que parecia ter os ossos soldados uns aos outros. Tinha a língua inchada e um gosto horrível na boca. Estendi então a mão para Rheya, mas senti apenas o lençol frio.

Sentei-me de supetão.
Estava só — só na cama e só na cabina. A janela côncava refletia uma fileira de sóis vermelhos. Arrastei-me para fora da cama e cambaleei até ao quarto de banho, balançando como um bêbedo e batendo contra a mobília. Estava vazio.

— Rheya!
Sempre a chamar, corri de uma ponta à outra do corredor.
— Rheya! — gritei uma última vez e depois a minha voz calou-se. Já sabia a verdade...
Não recordo a exata seqüência dos acontecimentos depois disso, enquanto, meio nu, percorri toda a Estação, tanto no sentido do comprimento como no da largura. Parece-me que cheguei até a ir à seção de refrigeração, busquei nos depósitos com os punhos fechados em portas trancadas, depois voltava atrás, para de novo me atirar contra as portas que tinham resistido. Quase cai escada abaixo, voltava a levantar-me e seguia sempre para a frente. Quando cheguei às portas duplas e blindadas que davam para o Oceano, continuava ainda a chamar, tinha ainda a esperança de que fosse tudo um sonho. Alguém apareceu junto de mim. Umas mãos agarraram-me e puxaram-me para longe.

Recobrei os sentidos deitado numa mesa de metal na pequena oficina e a ofegar.
A garganta e as narinas ardiam-me devido a um vapor alcoólico qualquer, tinha a camisa ensopada em água e o cabelo colado de encontro ao crânio.

Snow estava atarefado junto a um armário de remédios, remexendo em instrumentos e vasos de vidro, que tilintavam com insuportável clamor. Depois a sua face apareceu, fitando-me gravemente nos olhos.
— Onde está ela?
— Não está aqui.
— Mas... Rheya...
Inclinou-se para mim, aproximou bem a face e falou lenta e claramente:
— Rheya morreu.
— Ela voltará — sussurrei.
Em lugar de temer o seu regresso, desejava-o. Não tentei recordar por que tinha eu próprio tentado uma vez afastá-la, nem por que tanto receio tivera do seu regresso.
— Beba isto.
Snow estendeu-me um copo e atirei-lhe à cara. Recuou cambaleante a esfregar os olhos, e quando voltou a abri-los eu estava de pé, dominando-o sobre ele. Como era pequeno...
— Foi você!
— Que quer dizer com isso?
— Ora, Snow, você sabe muito bem do que estou falando. Foi você quem se encontrou com ela na outra noite. Disse-lhe para me dar um comprimido para dormir... Que aconteceu a Rheya? Diga-me!
Procurou no bolso da camisa e tirou um envelope. Arranquei-o de sua mão. Estava lacrado e não tinha qualquer nome. Dentro tinha uma folha de papel dobrada duas vezes e reconheci a letra, grande e bastante infantil:

“Meu querido, fui eu quem lhe pediu. Ele é um bom homem. Peço perdão por ter sido obrigada a mentir para você. Te peço que me faça uma última vontade — ouve o que ele tem para te dizer e não atente contra si. Você foi maravilhoso.”

Havia mais uma palavra, que ela riscara, mas podia-se ainda ver que tinha assinado “Rheya”.
A minha mente estava agora inteiramente lúcida. Mesmo que tivesse querido gritar histericamente, a voz tinha sumido e nem forças tinha para gemer.
— Como?
— Mais tarde, Kelvin. Precisa acalmar-se.
— Já estou calmo. Conte-me como foi.
— Desintegração.
— Mas... que usaram...
— O aparelho Roche não servia. Sartorius construiu uma outra coisa, um novo desestabilizante. Um instrumento miniatura, com um alcance de poucos metros.
— E ela...
— Desapareceu. Um estalido e um sopro de ar. E é tudo.
— Um instrumento de pequeno alcance...
— Sim, não tínhamos recursos para construir uma coisa maior.
As paredes pareciam cerrar-se sobre mim e tive de fechar os olhos.
— Ela vai voltar.
— Não.
— O que você sabe sobre isso?
— Lembra-se das asas de espuma? Desde esse dia que já não voltam.
— Você a matou — murmurei.
— Sim... Se estivesse no meu lugar, que outra coisa teria feito?
Afastei-me dele e comecei a percorrer a sala de um lado para o outro. Nove passos até ao canto. Meia volta. Mais nove rígidos passos e de novo estava em frente a Snow.
— Ouça, vamos escrever um relatório. Vamos pedir ligação imediata com o Conselho. É possível e eles aceitam, não têm outro remédio. O planeta não ficará mais sujeito à convenção dos quatro poderes. Seremos autorizados a utilizar todos os meios ao nosso dispor. Podemos mandar vir geradores antimatéria. Nada poderá se opor, nada...
Falava aos gritos, e as lágrimas cegavam-me os olhos.
— Quer destruí-lo? Por quê?
— Vá embora, deixe-me em paz!
— Não, não vou embora.
— Snow? — Fulminei-o com o olhar, mas limitou-se a abanar a cabeça. — Que quer? Que pretende que eu faça?
Voltou até junto da mesa.
— Ótimo, vamos fazer um relatório.

Recomecei a andar de um lado para o outro.
— Sente-se.
— Faço o que me der vontade!
— Há dois pontos absolutamente distintos. Um, os fatos. Dois, as nossas sugestões.
— Precisamos falar disso agora?
— Sim, agora.
— Não vou lhe ouvir, entende? Não estou interessado nas suas distinções.
— Enviamos a nossa mensagem há cerca de dois meses, antes da morte de Gibarian. Teremos de estabelecer com exatidão como funciona o fenômeno dos “visitantes”...
Agarrei-lhe no braço.
— Quer calar essa boca?!
— Me dê uma surra se quiser, mas calar eu não calo.
— Oh, então fale, se isso lhe dá prazer... — e soltei-o.
— Bem, então ouça. Sartorius vai querer esconder certos fatos. Estou quase certo disso.
— E você? Não vai esconder nada?
— Não. Agora não. Este assunto ultrapassa as nossas responsabilidades individuais. Sabe-o tão bem como eu. “Ele” deu uma demonstração de atividade racional. É capaz de realizar uma síntese orgânica ao nível mais complexo, uma síntese que nós próprios nunca conseguimos realizar. Ele conhece a estrutura, microestrutura e metabolismo dos nossos corpos...
— Certo... Mas, por que parar aí? O Oceano realizou conosco uma série de... experiências. Uma vivisseção psíquica. Utilizou conhecimentos que roubou dos nossos espíritos sem o nosso consentimento.
— Isso não são fatos, Kelvin. Não são nem mesmo proposições. São teorias. Poderia igualmente dizer que ele tomou em consideração os desejos escondidos em recantos das nossas mentes. Talvez nos estivesse a enviar... dádivas.
— Dádivas! Meu Deus! — Estremeci com incontrolável ataque de hilaridade.
— Calma! — Snow agarrou-me na mão e apertei a sua até ouvir ossos a estalar. Continuou a olhar para mim sem qualquer alteração na expressão.
Soltei-o e fui até ao canto da sala.
— Vou tentar me controlar.
— Sim, claro. Compreendo. Que lhes pedimos?
— Deixo isso com você... Neste momento estou incapaz de raciocinar direito. Ela disse alguma coisa... antes?
— Não, nada. Se quer saber a minha opinião, de hoje em diante já temos uma possibilidade.
— Uma possibilidade? Que possibilidade? — Olhei para ele e, de súbito, fez-se luz. — Contato? Continua com essa história do contato? Não está farto desta casa de doidos? Que mais precisa? Não, é absolutamente impossível. Não conte comigo!
— Por que não? — perguntou calmamente. — Você próprio o trata como um ser humano, agora mais do que nunca. Odeia-o.
— E você não?
— Não, Kelvin. Ele é cego. — Pensei que talvez não tivesse ouvido corretamente. — ...ou antes, ele “vê” de modo diferente de nós. Para ele não existimos no mesmo sentido em que existimos para cada um de nós. Reconhecemo-nos uns aos outros pelo aspecto da face e pelo corpo. Essa aparência, para o Oceano, é como uma janela transparente. Ele introduz-se diretamente no cérebro.
— Certo, e depois? Aonde quer chegar? Ele conseguiu recriar um ser humano que existe apenas na minha memória, e com tanta exatidão que os seus olhos, gestos, voz...
— Não pare. Fale.
— Estou a falar... A sua voz... por que pode nos ler como num livro aberto. Vê o que quero dizer?
— Sim, ele poderia fazer-se compreender.
— Não é o corolário evidente?
— Não, não necessariamente. Talvez tenha usado uma fórmula que não possa ser expressa em termos verbais. Pode ter partido de uma gravação impressa nas nossas mentes, mas a memória do homem é arquivada em termos de ácidos nucléicos que gravam cristais assíncronos de moléculas grandes. “Ele” retirou a impressão mais profunda e mais isolada, a estrutura mais “assimilada”, sem necessariamente saber o que significava para nós. Suponha que eu sou capaz de reproduzir a arquitetura de uma simetríade, que conheço a sua composição e que disponho.da tecnologia exigida... Crio uma simetríade e atiro-a para dentro do Oceano. Mas não sei por que procedo assim, não sei a sua função e não sei o que a simetríade representa para o Oceano.
— Sim. Talvez tenha razão. Nesse caso, não nos desejava qualquer mal e não estava a tentar nos destruir. Sim, é possível... e sem qualquer intenção...
A boca começou a tremer-me.
— Kelvin!
— Está bem, não se preocupe. Você é bom, o Oceano é bom. Todos são bons. Mas, por quê? Explique-me. Por que fez ele isso? O que você lhe disse... a ela?
— A verdade.
— Perguntei-lhe o que você disse.
— Você sabe muito bem. Venha comigo até à cabine e vamos escrever o relatório.A
— Espere. Não pode estar pensando em continuar na Estação.
— Sim, quero ficar.


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