sábado, 19 de fevereiro de 2011

Solaris - Stanislaw Lem (parte 25)


 O VELHO MIMÓIDE

Estava sentado junto da janela panorâmica e olhava para o Oceano.
Nada mais havia a fazer, agora que o relatório, que levara cinco dias a preparar, não passava de um padrão de ondas viajando no espaço. Iam se passar meses antes que um padrão semelhante partisse da Terra para criar a sua própria linha de turbulência no campo gravitacional da galáxia, em direção aos dois sóis gêmeos de Solaris.

Sob o sol vermelho, o Oceano estava mais sombrio que nunca e o horizonte estava obscurecido por uma neblina avermelhada. O tempo estava estranhamente cerrado e parecia estar preparando um daqueles terríveis furacões que surgiam duas ou três vezes por ano à superfície do planeta, cujo único habitante, é racional supor-se, controla o clima e cria as tempestades a seu bel-prazer.

Se passariam vários meses antes de eu poder partir. Do meu ponto de vantagem no observatório, veria o nascer dos dias — um disco cor de ouro pálido ou de púrpura esbatida. Uma vez por outra iria me deparar com a luz da madrugada saltitando por entre as formas fluidas de qualquer edifício surgido do Oceano, observaria o Sol refletido na esfera prateada de uma simetríade, acompanharia as oscilações dos graciosos agilus que vergam sob o vento e iria me distrair observando velhos e poeirentos mimóides.
E um dia as telas de todos os videofones começariam a piscar e todo o equipamento de comunicação ganharia vida de novo, ressuscitado por um impulso cuja origem estava à bilhões de milhas d distância, e que anunciaria a chegada de um colosso de metal.
O Ulisses, ou talvez o Prometheus, aterraria na Estação, acompanhado pelo ruído sibilante dos seus gravitadores, e eu sairia para o telhado plano para observar os regimentos dos brancos robôs dos serviços pesados, em completa inocência prosseguindo com as suas tarefas, não hesitando em se destruir ou destruir qualquer obstáculo imprevisto, em estrita obediência às ordens registradas nos cristais que formam a sua memória. Depois a nave se elevaria sem ruído, mais rápida que o som, deixando um estrondo sônico para trás, por sobre o Oceano, e a face de todos os passageiros se iluminaria com a ideia de voltar para casa.
Que significava essa palavra para mim? A Terra? Lembrei as grandes e ruidosas cidades por onde iria vaguear e onde me iria perder e pensei nelas como pensara no Oceano na segunda ou terceira noite, quando me quisera atirar para as suas sombrias ondas.

Vou misturar-me por entre os homens. Ficarei calado e atento, um companheiro que sabe apreciar. Farei muitos conhecimentos, amigos, mulheres — talvez até arranje uma esposa. Durante uns tempos terei de fazer um esforço consciente para sorrir, acenar com a cabeça, ficar parado e executar os milhares de pequenos gestos que constituem a vida sobre a Terra, e mais tarde esses gestos voltarão a ser menos reflexos. Encontrarei novos interesses e ocupações e não me entregarei a eles por completo, tal como também nunca mais me entregarei por completo a nada nem a ninguém. Talvez à noite olhe para a escura nebulosa que tapa a luz dos sóis gêmeos e recorde tudo, até o que agora estou a pensar.

Com um sorriso condescendente e levemente infeliz, relembrarei as minhas loucuras e as minhas esperanças. E esse Kelvin do futuro não terá menos valor que o Kelvin do passado, o qual, em nome de um ambicioso empreendimento chamado Contato, estava preparado para tudo. E nenhum homem terá o direito de me julgar.

Snow entrou na cabina, olhou em volta e olhou de novo para mim.
Fui até junto da mesa:
— Andava à minha procura?
— Não tem nada para fazer? Podia dar-lhe algum trabalho... uns cálculos. Não seria nada particularmente urgente...
— Obrigado — sorri —, não precisava ter-se incomodado.
— Tem a certeza?
— Sim. Estive pensando em certas coisas e...
— Gostaria que pensasse um pouco menos.
— Mas você não sabe o que eu estava pensando! Diga-me uma coisa. Você acredita em Deus?
Snow lançou um olhar apreensivo na minha direção:
— O quê? Quem é que, nos dias de hoje, ainda acredita...
— Não é assim tão simples. Não me refiro ao tradicional Deus da religião da Terra. Não sou perito em histórias das religiões e talvez isto não seja nada de novo... você por acaso não saberá se alguma vez existiu uma crença num... deus imperfeito?
— Que quer dizer com esse imperfeito? — E Snow franziu a sobrancelha. — De certo modo, todos os deuses das velhas religiões eram imperfeitos, tendo em conta que os seus atributos eram apenas os atributos humanos ampliados. O Deus do Velho Testamento, por exemplo, exigia uma submissão humilde e sacrifícios e tinha ciúmes dos outros deuses. Os deuses gregos tinham faniquitos e querelas de família e eram tão imperfeitos como os mortais...
— Não — interrompi. — Não estou pensando em um deus cuja imperfeição é fruto da candura dos seus criadores humanos, mas um deus cuja imperfeição represente a sua característica essencial: um deus limitado na sua onisciência e poder, falível, incapaz de prever as conseqüências dos seus atos e criando coisas que conduzem ao horror. Ele é um deus... doente, cujas ambições excedem os seus poderes e que, a princípio, não perceba este fato. Um deus que criou os relógios, mas não o tempo de que estes são a medida. Criou sistemas e mecanismos que serviam fins específicos, mas agora os ultrapassou e traiu. E criou a eternidade, que deveria ser a medida do seu poder e que afinal é a medida da sua infinita derrota.
Snow hesitou, mas a sua atitude não mostrava já nada daquela reserva cautelosa das últimas semanas:
— Houve o Maniqueísmo...
— Não tem nada a ver com o princípio do Bem e do Mal — interrompi imediatamente. — Este deus não tem qualquer existência fora da sua matéria. Gostaria de libertar-se dessa matéria, mas não pode...
Snow ponderou o problema durante algum tempo:
Não conheço nenhuma religião que corresponda à sua descrição. Essa espécie de religião nunca foi... necessária. Se bem o compreendo, e temo que sim, o que você tem em mente é um deus em evolução, que se desenvolve com o decurso do tempo, cresce, continua sempre a aumentar em poder, ao mesmo tempo em que tem consciência da sua impotência. Para o seu deus, a condição divina é uma situação sem objetivo. E, compreendendo essa verdade, ele entra em desespero. Mas, Kelvin, esse seu deus desesperado não será a humanidade? É do homem que você está falando, e isso é uma falácia, não só em termos filosóficos como também místicos.
Insisti:
— Não, nada tem a ver com o homem. O homem pode talvez corresponder, sob certos pontos de vista, à minha definição provisória, mas isso acontece porque a definição tem imensas lacunas. Apesar das aparências, não é o homem que cria os deuses. São os tempos, a época, que os impõem. O homem pode seguir de acordo com a sua época ou rebelar-se contra ela, mas a essência da sua cooperação ou rebelião vem do exterior. Se existisse apenas um único ser humano, aparentemente ele poderia tentar a experiência de criar, em inteira liberdade, os seus próprios fins... mas só aparentemente, porque um homem que não cresceu junto a outros seres humanos não poderá tornar-se um homem. E o ser (o ser que tenho em mente) não pode existir no plural, entende?
— Oh, então nesse caso... — Apontou para fora da janela.
— Não, o Oceano também não. Durante o seu desenvolvimento ele chegou provavelmente muito próximo do estado divino, mas regressou a si próprio demasiado cedo. É mais semelhante a um eremita do cosmo, do que um deus. Ele repete-se, Snow, e o ser em que estou a pensar nunca faria tal coisa. Talvez já tenha nascido num canto qualquer da galáxia, e em breve venha a ter um entusiasmo infantil qualquer que o leve a apagar uma estrela e a acender outra. Passado um tempo, acabaremos por reparar nele...
— Já reparamos — disse Snow com sarcasmo. Novas e supernovas . De acordo com as suas ideias, são velas sobre o altar desse deus.
— Se pretende entender literalmente o que digo...
— E talvez Solaris seja o berço da sua criança divina — continuou Snow, com um sorriso crescente, que aumentava o número de rugas que tinha em volta dos olhos. — Solaris podia bem ser a primeira fase do deus desesperado. Talvez a sua inteligência venha a crescer enormemente. Todo o conteúdo das nossas bibliotecas solaristicas podia ser apenas um registro dos seus problemas de dentição...
—... e nós não teríamos passado de um brinquedo com que o bebê brincou durante algum tempo. É possível. E sabe o que você acaba de fazer? Apresentou uma hipótese inteiramente nova a respeito de Solaris! Meus parabéns! De súbito tudo tem o seu lugar: a impossibilidade de estabelecer contato, a ausência de respostas, várias... como direi, várias peculiaridades no seu comportamento em relação a nós. Tudo é explicável se o considerarmos em termos de comportamento de uma criança pequena.
— Renuncio à paternidade da teoria — resmungou Snow, em pé junto à janela.
Por muito tempo continuamos a olhar para as sombrias ondas. Na neblina que obscurecia o horizonte, uma longa mancha pálida começou a surgir no oriente.
Sem desviar os olhos do fulgente deserto, Snow perguntou abruptamente:
— O que lhe deu essa ideia de um deus imperfeito?
— Não sei. A mim parece-me perfeitamente possível. É o único deus em quem imagino poder acreditar, um deus cuja paixão não é redenção, que nada salva, que não serve a nenhum propósito... um deus que se limita a ser.
— Um mimóide — sussurrou Snow.
— O quê? Ah, sim, já notei. Um mimóide muito velho.

Ambos olhamos para o nebuloso horizonte.
— Vou lá fora — disse eu abruptamente. — Ainda nunca saí da Estação, e esta é uma boa oportunidade. Voltarei daqui a meia hora.
Snow abriu interrogativamente os olhos.
— O quê? Vai lá fora? Aonde vai?
Apontei em direção à mancha cor de carne que ficava semi escondida pela neblina:
— Ali. O que poderia me deter? Levo um helicóptero dos pequenos. Quando regressar à Terra, não quero ser obrigado a confessar que sou um solarista que nunca pôs o pé em Solaris!

Abri um armário e pus-me a escolher um traje atmosférico enquanto Snow olhava em silêncio. Por fim, este disse:
— Não estou gostando disso.
Escolhi um traje. Voltei-me então para ele:
— O quê? —  Fazia tempo que não me sentia tão excitado. — Com o que se preocupa? Confesse! Você está com medo que eu... garanto que não tenho qualquer intenção... sinceramente nunca me passou pela cabeça.
— Vou com você.
— Obrigado, mas prefiro ir sozinho. — Enfiei o traje. — Já reparou que será o meu primeiro voo por sobre o Oceano?
Snow resmungou qualquer coisa, mas não consegui entender o quê.
Eu estava ansioso por reunir o resto do equipamento.
Acompanhou-me à base de lançamento e ajudou-me a puxar o aparelho para fora e a colocá-lo no disco do elevador. Estava verificando o meu traje quando me perguntou de repente:
— Posso confiar na sua palavra?
— Continua preocupado? Sim, pode. Onde estão os tanques de oxigênio?

Não trocamos mais palavra. Fiz deslizar e fechei o telhado transparente, fiz-lhe sinal e ele pôs o elevador em funcionamento. Emergi no telhado da Estação; o motor ganhou vida; as três lâminas giraram e o aparelho elevou-se —estranhamente leve— no ar. Depressa a Estação ficou para trás.

Sozinho por cima do Oceano, o vi com outros olhos.
Estava voando muito baixo, a cerca de uns cem pés, e pela primeira vez senti uma sensação muitas vezes descrita pelos exploradores, mas que, da altura que estava a Estação, nunca notara pessoalmente: o movimento alternado das luzentes ondas em nada se assemelhava à ondulação do mar ou a um amontoar de nuvens. Era como a pele de um animal a rastejar — as contrações incessantes e lentas de tecido muscular a segregar uma espuma carmesim.
Quando voltei o aparelho na direção do mimóide que seguia à deriva, o sol acertou-me nos olhos e lampejos vermelho-sangue batiam na cabine abaulada.
O negro Oceano, relampejando em sombrias chamas, estava tingido de azul.
O aparelho deu uma volta pelo largo e o vento empurrou-nos para uma boa distância do mimóide, uma silhueta longa e irregular que se erguia acima do Oceano.
Emergindo da neblina, o mimóide já não era rosado, antes de um cinzento-amarelado. Perdi-o momentaneamente de vista e pude avistar a Estação, que parecia sentada sobre a linha do horizonte e cujo traçado exterior fazia lembrar um antigo zepelim.
Mudei de direção e o corpo total do mimóide foi crescendo na minha linha de visão — uma escultura barroca. Tive medo de ir de encontro às saliências bulbosas e fiz o aparelho subir de modo tão abrupto que perdeu a velocidade e começou a capotar; mas a minha cautela fora desnecessária, pois os picos arredondados dessas torres fantásticas estavam baixando.

Voei junto à ilha e, lentamente, metro a metro, baixei até ao nível dos picos desgastados pela erosão. O mimóide não era grande. De ponta a ponta media cerca de três quartos de milha e tinha poucas centenas de metros de largura. Em alguns pontos estava quase a partir-se. Era óbvio que este mimóide era um fragmento de uma formação muito maior. Pela escala de Solaris, era apenas minúscula lasca, com semanas ou talvez meses de idade.

Por entre os penhascos sarapintados junto ao Oceano, encontrei uma espécie de praia, uma superfície inclinada mas bastante plana, de vários metros quadrados, e para lá me dirigi. Os rotores quase bateram num penhasco que subitamente me surgiu no caminho, mas aterrei em segurança, desliguei o motor e fiz deslizar o teto para trás. Em pé sobre a fuselagem, assegurei-me de que não havia hipótese do aparelho deslizar para dentro do Oceano. As ondas lambiam a margem dentada a cerca de quinze metros de distância, mas o aparelho estava solidamente apoiado sobre as suas pernas; saltei para o “solo”.

O penhasco em que quase batera era uma gigantesca membrana ossuda, atravessada por várias aberturas e cheia de saliências nodosas. Uma fenda com a largura de vários metros cortava-o no sentido da diagonal, o que me permitiu examinar o interior da ilha, interior esse que já espreitara pelas aberturas que havia na membrana.
Caminhei cuidadosamente pela borda mais próxima, mas as minhas botas não mostravam qualquer tendência para deslizar e o traje não prendia os movimentos, e continuei subindo até que cheguei a uma altura como de quatro andares acima do Oceano e pude ver uma vasta paisagem petrificada, que se estendia sem fim até desaparecer de vista nas profundezas do mimóide.
Era como olhar para as ruínas de uma antiga cidade, uma cidade marroquina com dezenas de séculos de idade, arrasada por um terremoto ou qualquer outra calamidade: descobri uma emaranhada teia de ruelas serpenteantes, atulhadas de escombros, e vastas alamedas caindo abruptamente em direção à espuma oleosa que flutuava junto à praia.

A uma certa distância, grandes edifícios continuavam intactos, sustentados por arcos  ossificados. Viam-se negras aberturas nas paredes inchadas e imersas — vestígios de janelas ou postigos. Toda a cidade flutuante descaía ora para um lado ora para o outro, tal como um navio a naufragar, depois assentava e rodava lentamente e o sol provocava sombras sempre em movimento, as quais se estendiam pelas fileiras de ruínas. De vez em quando, uma superfície polida apanhava e refletia a luz.
Arrisquei-me a subir mais acima, depois parei; riachos de fina areia começaram a escorrer pelos rochedos acima da minha cabeça, caindo em cascata pelas ravinas e alamedas e ricocheteando em rodopiantes nuvens de pó.
O mimóide não é feito de pedra, e para desfazer a ilusão basta que apanhemos um pedacinho dele: é mais leve que pedra-pomes e é composto por pequenas células muito porosas.

Eu estava agora suficientemente alto para sentir a oscilação do mimóide. Este movia-se para diante, propulsionado para um destino desconhecido pelos músculos sombrios do Oceano, mas a sua inclinação variava. Balouçava de um lado para o outro, e a lânguida oscilação era acompanhada pelo suave murmúrio de espuma amarela e cinzenta que brotava da praia imersa. O mimóide adquirira o seu movimento balouçante há muito tempo já, provavelmente na altura do seu nascimento, e mesmo depois de crescer, e apesar de começar já a partir-se, mantinha o padrão original.
Só nesse momento me apercebi de que não estava nem um pouco interessado no mimóide e que voara até ali não para explorar a formação, mas para conhecer melhor o Oceano.

Com o helicóptero poucos passos atrás de mim, sentei-me na praia áspera e cheia de fissuras. Uma densa onda negra quebrou de encontro à beira da margem e espraiou-se, não preta mas de um verde-sujo. A onda ao recuar, deixou viscosos riachinhos que deslizaram trementes de volta ao Oceano. Aproximei-me mais, e quando veio a onda seguinte, estendi a mão.
O que se seguiu foi a reprodução fiel de um fenômeno que fora analisado um século antes: a onda hesitou, retraiu-se, depois envolveu a minha mão sem lhe tocar, de modo que uma delgada camada de “ar” separava a minha luva dentro de uma cavidade que um minuto antes fora um fluido e tinha agora uma consistência carnuda.
Levantei lentamente a mão, e a onda, ou antes, uma excrescência da onda ergueu-se ao mesmo tempo, envolvendo a minha mão num casulo translúcido com reflexos esverdeados. Levantei-me para poder erguer a mão ainda mais alto, e a substância gelatinosa esticou como uma corda, mas não quebrou. O corpo principal da onda permanecia imóvel na praia, rodeando os meus pés sem lhes tocar, como um estranho animal pacientemente à espera que a experiência acabasse.

Do Oceano nascera uma flor, e o seu cálice era moldado com o feitio dos meus dedos. Recuei. O caule tremeu, oscilou de modo incerto e caiu de novo na onda, que o absorveu e recuou.

Repeti várias vezes a brincadeira, até que —como já o primeiro observador verificara — uma onda me ignorou, cheia de indiferença, como se aborrecida com uma sensação demasiado conhecida. Eu sabia que para reavivar a “curiosidade” do Oceano teria de esperar várias horas. Perturbado pelo fenômeno que eu próprio estimulara, de novo me sentei. Embora tivesse lido numerosas descrições do caso, nenhuma me preparara para a experiência como a vivi e senti-me até certo ponto mudado.
Em todos os seus movimentos, considerados em conjunto ou separadamente, cada um desses braços que saiam do Oceano parecia exibir uma espécie de alerta, cautelosa mas não feroz, uma curiosidade ávida por apreender rapidamente uma forma nova e inesperada e lastimando ter de recuar, incapaz de exceder os limites estabelecidos por alguma misteriosa lei. Era impossível descrever o contraste entre essa viva curiosidade e a brilhante imensidão do Oceano, que se estendia a perder de vista... Nunca sentira tão fortemente a sua gigantesca presença ou o seu poderoso e imutável silêncio ou as forças secretas que davam às ondas a sua subida e descida regular.

Sentei-me sem nada ver e mergulhei num universo de inércia, deslizei por uma encosta irresistível e identifiquei-me com o mudo colosso fluido; era como se, sem o mínimo esforço de palavras ou pensamentos, lhe tivesse perdoado tudo.

Durante aquela última semana tinha-me comportado de modo tão normal que Snow deixara de me vigiar constantemente. À superfície eu estava calmo; em segredo, sem realmente o admitir, aguardava algo. O regresso dela? Como podia esperar tal coisa? Todos sabemos que somos criaturas materiais, sujeitos às leis da fisiologia e da física e nem mesmo a força de todos os nossos sentimentos combinados pode vencer essas leis. Podemos apenas detestá-las. A fé, velha como a vida, dos amantes e dos poetas no poder do amor, que é mais forte que a morte, que “finis vitae sed non amo ris”, é uma mentira inútil e nem mesmo divertida.

Teremos, pois, de nos resignar a ser um relógio que mede a passagem do tempo, umas vezes a funcionar bem, outras a precisar de reparação, cujo mecanismo gera o desespero e o amor logo que é posto em funcionamento pelo seu fabricante? Teremos de nos habituar à ideia de que todos os homens revivem velhos tormentos, tormentos esses que ficam cada vez mais profundos porque se vão tornando cômicos com a repetição? Que a existência humana tenha de repetir-se, está bem, mas que se repita como uma música em voga ou um disco que um bêbedo faz continuamente tocar, enquanto vai metendo moedas na máquina dos discos...

Aquele gigante líquido causara a morte de centenas de homens.
Toda a raça humana tentara em vão, estabelecer com ele até a mais tênue das ligações, e agora agüentava ali com o meu peso, sem reparar mais em mim do que repararia num grão de pó. Eu não acreditava que ele pudesse reagir à tragédia de dois seres humanos. Contudo, as suas atividades tinham um propósito... Certo que eu não tinha uma certeza absoluta, mas partir significaria desistir de uma probabilidade, talvez infinitesimal, talvez apenas imaginária... Deverei então continuar a viver aqui, entre objetos em que ambos tocamos, no ar que ela respirou? Em nome de quê? Na esperança do seu regresso? Eu não esperava nada. E, contudo vivia na expectativa.

Desde que ela partira, era tudo o que me restava. Não sabia que empreendimentos, que brincadeiras, até que torturas me aguardavam ainda.

Não sabia nada, mas persistia na fé de que a era dos milagres cruéis ainda não acabara.



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