segunda-feira, 7 de março de 2011

Ficção científica como uma Igreja (1/5) - Thomas M. Disch



Exorto-vos a meditar comigo sobre o tema da Ficção Científica (FC), como uma experiência religiosa e como uma igreja.

É domingo de Páscoa, estamos reunidos para celebrar nossos ritos peculiares, e por isso começarei o serviço agora.

A primeira vez que eu tentei elaborar algo assim, foi em Minneapolis, na primavera de 1973, quando fui a uma pequena convenção de Ficção Científica (deve ter sido por volta da Páscoa).

Duas ou três pessoas discursavam antes de mim. Enquanto falavam, ocorreu-me que esta era uma reunião religiosa, algo que nunca entendi sobre as convenções até então. Não se assemelhava ao catolicismo no qual fui criado (cresci na época em que as missas eram em Latim), mas havia uma grande semelhança entre a convenção de FC em Minneapolis e certos cultos pentecostais que eu tinha presenciado na Guatemala.

Agora que tenho o gancho, vou fazer uma digressão para falar sobre as minhas experiências na Guatemala.

Eu estava viajando com Tony Clark, um vigarista profissional que vendia relógios de ouro maciço na sua van, e a van ficou presa na lama. A única maneira para chegar onde eu queria ir, era tomar um avião que, por razões políticas parou na fronteira das Honduras Britânicas, e eu não consegui ir adiante. Não havia transporte público da fronteira para a única cidade, Belize. Então comecei a pegar carona, e não havia muito trânsito no interior das Honduras Britânicas, quando finalmente um Land Rover veio e parou para mim. O motorista era muito simpático, e eu estava muito amigável também. Acontece que ele estava lá como missionário do Evangelho Pentecostal, e achava que a Divina Providência colocara-me lá na estrada para ele me encontrar. Eu não poderia contradizer isso. Levou-me para sua casa e participei de seu trabalho. E foram horas muito agradáveis. Eles cantavam e dançavam e estavam convencidos de sua natureza especial ali: do fato de que, das poucas pessoas da raça humana que iriam ser salvas nos tempos vindouros, estavam aqueles da região central das Honduras Britânicas, os privilegiados que não iriam para o inferno, mas para o céu.

Esse é o paralelo que eu observei com Minneapolis.

Bendito é o texto, bem-aventurados são aqueles que lêem FC, porque eles herdarão o futuro.

Também há sugestões de poderes secretos, que algumas poucas pessoas possuem, sugerindo que estes poderes secretos mentais, de vários tipos, são relacionados com quem lê FC. Tais poderes, não raramente, estão associados também com a experiência religiosa. Há também a revelação feita a Noé. Como Noé, muitos escritores de FC e seus fãs, se consideram sabedores sobre a catástrofe que se aproxima (o que quer que possa ser), e estão contando em estar entre os poucos felizardos que sobreviverão.
Necessita citar capítulo e versículo?

Depois há a questão da cura e aqui vou entrar em outra digressão.

Minha primeira grande conferência de FC foi a Conferência dos Escritores de Milford (Connecticut), em 1964. Eu não conhecia ninguém em Milford de antemão e ninguém lá nunca tinha ouvido falar de mim, porque eu estava lá como convidado de Dobbin Thorpe. Dobbin havia publicado uma história surpreendente e Damon Knight gostou dela e foi assim que Dobbin foi convidado.

Eu ficaria hospedado com Walt e Leigh Richmond, proprietários da Red Fox Inn, a cerca de dez quilômetros fora de Milford. Na pousada participei de uma cena com a qual estava pouco familiarizado.
Walt Richmond estava examinando um escritor jovem de FC que também fora convidado. Ele tinha uma doença em seu joelho, relacionada com um trauma de infância e que Walt estava investigando. Acontece que este companheiro tivera todo tipo de problemas não resolvidos com seu pai, e todos eles se concentravam em engrams (conceito de neuropsiquiatria) em seu joelho. Eu não sabia sobre a teoria por trás de tudo isto, mas fiquei impressionado com o fato de que ambos entendiam o que estavam fazendo e que eles esperavam que eu também soubesse. Eu era tímido e eu não deixei Walt elucidar sobre meus engrams.Mas eu tive que contar esta história porque os Richmonds estão entre aquelas pessoas que possuem poderes psíquicos de algum tipo estranho. Escreviam livros, e Leigh explicou o método da sua colaboração.

É comum quando você escreve em colaboração com outros, as pessoas quererem saber como você realmente o faz. Walt e Leigh tinham encontrado uma técnica muito incomum e eficaz. Ele pensava no que iriam escrever e projetava isso psiquicamente. Ela sentava-se na máquina de escrever e escrevia a história que ele havia projetado para ela. Nunca tiveram que trocar uma palavra sequer!

Isto foi o mais perto que cheguei dos arcanos interiores do templo da Verdade.

Acreditar em Ficção Científica.

Os Richmonds compreendiam todo tipo de coisas sobre a Atlântida. Eles escreveram livros sobre ela, livros que eram visões de coisas que tinham realmente acontecido. Claro que ficaram um pouco irritados quando as pessoas consideravam os livros como ficção, porque sabiam que não era ficção. Mas por outro lado, eles tinham que ganhar a vida, e assim era publicada, como ficção.



Ficção científica como uma Igreja (2/5)