segunda-feira, 21 de março de 2011

O futuro, segundo Monteiro Lobato: Eugenia e Utopia na obra O presidente negro (1926)




O presente texto consiste em uma reflexão acerca do tema da eugenia e seu contexto histórico e social na Modernidade, a partir da leitura da ficção científica de autoria do escritor brasi-leiro José Bento Monteiro Lobato (1882-1948), intitulada O presidente negro, lançado em 1926 como O choque das raças na America no anno de 2228.

A partir da concepção de que o homem é um ser essencial-mente histórico e social, nosso propósito neste texto é questio-nar o caráter histórico das concepções eugênicas, ou seja, por que os ideais eugênicos parecem estar em consonância com a Modernidade e o capitalismo? E qual seria o papel da Eugenia neste contexto?

A busca por seres humanos melhores, mais fortes, bonitos e inteligentes pode ser encontrada nos textos dos filósofos gregos da antiguidade, ideal este retomado na Modernidade. A cunhagem do termo eugenia no século XIX, derivado do grego, e que vem a significar boa (eu) geração (genus), como uma nova ciência, desenvolvida pelo biólogo inglês Francis Galton (1822-1911), significa não apenas a busca por homens melho-res, mas homens mais aptos para as novas demandas sociais, que eram os desafios do progresso.

O questionamento acerca de como o ideal eugênico se fez presente na história (inclusive nas artes e na literatura, como é o caso da obra de Monteiro Lobato) é fundamental para o cientista humano que busque o entendimento sobre os rumos e projetos da modernidade e sua expansão em termos ideológi-cos, através do capitalismo. A eugenia está ancorada com os fundamentos modernos que também foram os ideais que fundaram o pensamento liberal, que justifica a política e a economia capitalista, principalmente em sua concepção de homem e natureza. Quando vemos, no texto O presidente negro, de Lobato, o imaginário futuro de uma sociedade que resolve seus conflitos e se torna harmônica pela eugenia, esta visão é o transplante de um ideário amplamente cultivado na Europa Ocidental e que, a partir do fim do século XIX e até a primeira metade do século XX foi praticamente hegemônica.

Desta forma, nosso trabalho estrutura-se da seguinte forma: no primeiro momento, buscaremos a raiz da eugenia, através do questionamento da concepção de homem e natureza para os modernos, a partir de do ideal de sociedade exposta na obra Utopia, publicada em 1516, por Thomas More (1478-1535), nos moldes platônicos. Buscaremos então as origens do pensamento eugênico no século XIX e como ele foi propagado no Brasil, e como Monteiro Lobato expõe tais ideais em sua ficção O presidente negro.
Para compreender o significado histórico de uma determi-nada idéia, há a necessidade de apreendê-la em seu curso histórico, mas não como uma sucessão de idéias que geram outras, mas nas relações sociais dos homens que produzem sua existência real e que serão condicionadoras dos ideais que estes mesmos homens reais defenderão, seja para manter sua forma de vida, seja para modificar as situações sociais que não condizem com aquilo que acreditam. Devemos, assim, buscar a materialidade histórica das relações sociais, materialidade esta entendida como a produção da vida através do trabalho. Para compreendermos o ideal da eugenia, de gerar um Homem melhor a partir da seleção biológica das “raças” humanas, devemos compreender como aquela sociedade organizava e produzia sua vida, e o que a levou a produzir tal entendimento.


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Rafael Egidio Leal e Silva
Universidade Estadual de Maringá, Programa de Pós-graduação em Psicologia (UEM/PPI).
Anais do V Fórum de Pesquisa e Pós-Graduação em História da UEM