quarta-feira, 30 de março de 2011

O Nome do Vento - Patrick Rothfuss



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NO INÍCIO DE MEU SEGUNDO PERÍODO, Kilvin me deu permissão para estudar siglística. Isso fez algumas sobrancelhas se levantarem, mas nenhuma na Ficiaria, onde eu me revelara um operário trabalhador e um estudante dedicado.

A siglística, dito em termos simples, é um conjunto de instrumentos para canalizar forças. Como simpatia em forma sólida. Por exemplo, se você entalhasse um tijolo com a runa ule e outro com a runa doch, as duas runas fariam os tijolos se grudarem um ao outro, como se tivessem sido fixados com argamassa.
Mas não é tão simples assim. O que realmente acontece é que as duas runas racham os tijolos com a força de sua atração. Para que isso não aconteça, você tem que acrescentar uma runa aru a cada tijolo. Aru é a runa do barro; ela faz os dois pedaços de barro se grudarem, resolvendo o seu problema.

No entanto, aru e doch não se encaixam, têm o formato errado. Para fazê-las se encaixarem você tem que acrescentar runas de ligação: gea e teh. Depois, para equilibrar as coisas, também tem que acrescentar gea e teh ao outro tijolo. Desta forma, eles se colam um ao outro sem quebrar.
Isso só acontece, porém, se forem feitos de barro. A maioria não é. Por isso, em geral, é melhor misturar ferro à cerâmica do tijolo antes de levá-lo ao forno, o que, é claro, significa que você tem de usar fehr em vez de aru. Depois, precisa trocar teh e gea de lugar para que as pontas se encaixem direito...
Como vê, usar argamassa é o caminho mais simples e mais confiável para juntar tijolos.

Estudei siglística com Cammar. Esse homem de um olho só, cheio de cicatrizes, era o guardião dos portões de Kilvin. Só depois de conseguir provar um domínio sólido da siglística é que o aluno podia passar para uma posição meio informal de aprendiz de um dos artífices mais experientes. Ele os ajudava em seus projetos e, em troca, eles lhe mostravam as minúcias refinadas da arte.

Existiam 197 runas. Era como aprender uma nova língua, porém, eram quase 200 letras desconhecidas, e tínhamos que inventar nossas próprias palavras, em grande parte do tempo. A maioria dos alunos fazia pelo menos um mês de estudos antes de Cammar considerá-los aptos a seguir adiante. Alguns levavam um bimestre inteiro.

Do começo ao fim, precisei de sete dias.
Como?

Primeiro, estava motivado. Outros alunos podiam se dar ao luxo de passear com indolência por seus estudos. Seus pais ou padrinhos arcavam com as despesas. Eu, por outro lado, precisava subir depressa na hierarquia da Ficiaria para poder ganhar dinheiro trabalhando em meus próprios projetos. Minha prioridade máxima já não era a taxa escolar; era Devi.

Segundo, eu era brilhante. E não era só aquele brilhantismo corriqueiro que se vê por aí.
Eu era extraordinariamente brilhante.

Por último, tive sorte. Pura e simples. 

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