sábado, 19 de março de 2011

Os Genocidas - Thomas Disch (Parte 2)




Os baldes estavam cheios e Buddy agarrou as alças  e fez o caminho de volta para o campo. Pela centésima vez naquele dia, passou por cima do tecido canceroso que se formou sobre o coto da planta que tinha irrigado o milharal no ano passado. Desta vez, seu pé descalço pisou a madeira lisa, onde havia uma poça de seiva escorregadia. Desequilibrado pelos baldes, ele não conseguiu recuperar o equilíbrio. Caiu para trás, a seiva nos baldes derramou-se sobre ele. Deitado no chão, a seiva se espalhara por seu peito e braços, e uma miríade de moscas pousou para se alimentar.

Ele não tentou se levantar.

‘Não fique deitado ai’ disse Anderson, “temos muito trabalho por fazer”. Esticou uma mão, mais gentil que suas palavras, para ajudar Buddy a se levantar.
Quando agradeceu ao pai, havia um tremor em sua voz quase perceptível.

"Está bem?”
“Acho que sim” Sentiu dor no coccix, que tinha batido no toco, então desceu até ao riacho para lavar a porcaria de si.
“Tá na hora mesmo de ir comer.”

Buddy assentiu. Agarrando os baldes (era incrível como automático o trabalho se tornara, até mesmo para ele), partiu para o caminho que levava da floresta ao riacho (que mais para o interior, era o rio Gooseberry) do qual a aldeia retirava sua água.

Sete anos atrás, toda esta área da floresta e a aldeia estava sob dez a quinze metros de água. Mas as plantas haviam drenado a água. Eles ainda estavam drenando, e todos os dias o litoral norte do Lago Superior movia-se alguns centímetros mais para o sul, embora a taxa de sua retirada parecia estar diminuindo e a mais nova das plantas atingira os limites do seu crescimento.

Ele despiu-se e deitou-se de corpo inteiro no rio. A água morna movia-se languidamente sobre suas pernas nuas, limpando a sujeira e a seiva e as moscas mortas que tinham ficado agarradas nele como  papel pega-mosca. Prendeu a respiração e baixou a cabeça lentamente dentro da água que fluia, até ficar totalmente submerso.

Com a água em seus ouvidos, ele podia ouvir alguns sons mais distintamente: suas costas contra as pedras do leito do córrego, e,mais distante, um outro som, um barulho baixo que cresceu, muito rapidamente, batidas. Ele conhecia o som, e sabia que não deveria estar ouvindo-o agora, aqui.

Ergueu a cabeça para fora da água a tempo de ver a vaca desabalada, correndo na direção dele e a tempo para ela vê-lo. Gracie saltou, e sua patas traseiras passaram a poucos centímetros de sua coxa. Então ela  correu para dentro da floresta.

Em seguida, Buddy contou enquanto elas atravessavam o riacho: oito. . . onze. . . doze.
Sete Herefords e cinco Guernseys. Todas elas.

O mugido de um touro soou no ar, e Studs entrou em sua visão, o grande Hereford marrom da aldeia, com seu topete branco. Ele olhou Buddy com desafio casual, mas haviam negócios mais urgentes do que o acerto de contas. Ele apressou-se atrás das vacas.

Studs ter escapado do cercado era uma má notícia para as vacas todas prenhas, e não era bom para nenhuma delas ser montada por um touro ansioso. A notícia seria ainda pior para Neil, que era responsável por Studs. Isso poderia significar uma surra. Este pensamento não entristeceria Buddy profundamente, mas ainda assim ele estava preocupado com o gado. Apressou-se a vestir seu macacão, que ainda estava grudento de seiva.

Antes que ele tivesse preso as tiras sobre os ombros, Jimmie Lee, o mais jovem dos dois meio-irmãos de Buddy, veio correndo perseguindo o touro. Seu rosto estava vermelho com a emoção da perseguição e mesmo quando ele anunciou a calamidade "Studs fugiu!" um sorriso formou-se em seus lábios.

Todas as crianças, e Jimmie não era exceção, sentiam uma simpatia demoníaca, por coisas que causavam desordem no mundo adulto. O jovem vibrava com terremotos, tornados e touros que escapavam.

Não seria bom, Buddy pensou, que seu pai visse o sorriso. Para Anderson, a simpatia mesmo secreta, pelo poder de destruição foi metamorfoseado pela ação do tempo em uma severa, mal humorada oposição aos mesmos poderes, uma magnífica teimosia, implacável na sua forma crua e rude, de como se opunha ao inimigo. Nada poderia seguramente provocar mais esta impiedade, do que ver esta excitação nas bochechas de seu filho mais novo e (como comumente era) mais querido.

"Pai", disse Buddy. "Cadê todo mundo?"
"Clay está reunindo todos os homens que pode encontrar, e Senhora e Flor e as mulheres estão indo lá para assustar as vacas para longe do milho.”

Jimmie gritou a informação sobre seu ombro enquanto trotava ao longo da trilha larga aberta pelo rebanho. Era um bom menino, Jimmie Lee, brilhante como um botão. No velho mundo, Buddy tinha certeza, ele teria se tornado mais outro filho pródigo. Eram sempre os mais brilhantes que se rebelavam. Agora seria sorte se sobrevivesse.
Todos eles.

Com os trabalhos da manhã findados, Anderson olhou para seu campo e viu que estava bom.
A colheita não seria grande e suculenta, como nos velhos tempos.

Eles haviam deixado os sacos de sementes de hibridização mofando nos depósitos abandonados da velha Tassel. Híbridos davam um rendimento melhor, mas eram estéril. A agricultura já não podia pagar por luxos assim. A variedade que ele estava usando agora era muito mais próxima hereditariamente ao milho indiano antigo, dos astecas zea mays. Sua estratégia contra as usurpantes Plantas fora baseada no milho. O milho tinha se tornado a vida do seu povo: o pão que comiam e a carne também. No verão, Studs e suas doze esposas, poderiam pastar no volumoso verde tenro que as crianças raspavam das laterais das Plantas ou poderiam pastar entre as mudas ao longo da margem do lago, mas quando o inverno chegasse o milho sustentaria o gado assim como sustentava os moradores.

O milho cuidava  de si quase tão bem quanto ele cuidava dos outros. Ele não precisava de um lavrador para revolver a terra, apenas uma vara afiada e mãos para soltar as quatro sementes e o pedaço de excremento que seria seu primeiro alimento. Nada tinha o rendimento por hectare que o milho tinha, nada exceto arroz provinha tanto alimento por onça (1 onça = 28 gramas). A terra era valiosa. As Plantas exerciam uma pressão constante sobre os milharais. Todo dia as crianças menores tinham que sair e caçar entre as fileiras de milho os germes verde-limão,  que em uma semana poderiam crescer para o tamanho das mudas, e em um mês seria grande como um bordo crescido.

Malditos! pensou. Que Deus os amaldiçoe! Mas essa maldição perdia muito de sua contundência na convicção de que Deus lhes tinha enviado em primeiro lugar.

Deixe os outros falarem sobre espaço exterior, tanto quanto gostassem: Anderson sabia que o mesmo Deus irado e ciumento que tinha visitado uma vez antes de uma enchente sobre a terra que era corrupto tinha criado as Plantas e semeado-as. Nunca discutiu sobre isso. Se Deus podia ser tão convincente, por que Anderson elevaria a sua voz? Contavam sete anos aquela primavera desde que a primeira muda da Planta tinha sido vista. Elas tinham vindo de repente, em Abril de '72, um bilhão de esporos, invisíveis para todos a não ser para os microscópios mais poderosos, disseminaram a mensagem por todo o planeta por um semeador igualmente invisível (e onde estava o microscópio ou telescópio ou tela de radar que fará Deus visível?), e dentro de dias cada centímetro de terra, na fazendo ou no deserto, selva e tundra, ficou coberta com um tapete verde dos mais ricos.

Todos os anos desde então, haviam cada vez menos pessoas, e mais convertidos à tese de Anderson.
Como Noé, ele estava rindo por último.
Mas não o impedia de odiar, assim como Noé deve ter odiado as chuvas e a elevação das águas.

Anderson não tinha sempre odiado as Plantas. Nos primeiros anos, quando o Governo tinha acabado de cair, e as fazendas estavam em seu auge, saía à luz do luar somente para assisti-las crescer. Era como os filmes sobre crescimento acelerado das plantas que ele havia visto na escola de agricultura anos atrás. Ele pensou que poderia lutar contra elas, mas estava errado. As Plantas daninhas infernais tinham arrancado sua fazenda de suas mãos e a cidade das mãos de seu povo.

Mas, por Deus, ele ia consegui-las de volta. Cada centímetro quadrado. Mesmo se tivesse que arrancar cada raiz de cada Planta com as suas duas mãos. Cuspiu bastante.

Nestes momentos, Anderson tinha consciência de sua própria força, da força da sua determinação, como um homem jovem está consciente da compulsão de sua carne ou uma mulher está consciente da criança que ela carrega. Era uma força animal, e que, Anderson sabia, era a única força suficientemente forte para prevalecer contra as Plantas.

Seu filho mais velho saiu correndo da floresta gritando. Quando Buddy correu, Anderson sabia que havia algo errado. "O que ele disse?", perguntou para Neil.
Embora o velho não quisesse admitir isso, sua audição estava começando a ir embora.
"Ele diz que Studs alcançou as vacas. Parece um monte de besteira para mim."
"Peça a Deus que seja", respondeu Anderson, e seu olhar caiu sobre Neil como um peso de ferro.

Anderson mandou Neil de volta para a vila para garantir que os homens não se esqueçessem de levar cordas e aguilhões na pressa da perseguição. Então, com Buddy partiu na trilha limpa que o rebanho tinha feito. Estavam cerca de dez minutos na frente, pela estimativa de Buddy.

"Estão longe" disse Anderson, e começaram a correr ao invés de andar.

Foi fácil, correndo entre as Plantas, pois cresciam muito afastadas e sua cobertura era tão espessa que não permitia deixar crescer vegetação rasteira. Mesmo fungos adoeciam aqui, por falta de comida. Os poucos álamos que ainda estavam de pé estavam podres no núcleo e só esperando que um vento forte derrubásse-os . Os pinheiros e abetos tinha inteiramente desaparecido, digeridos pelo solo que um dia os alimentara. Anos antes, as plantas tinham suportado hordas de parasitas comuns, e Anderson esperara que as videiras e trepadeiras fossem destruir seus parasitas, mas as plantas tinham se reunido e foi o parasita que sem motivo aparente morreu.

Os troncos gigantes das Plantas subiam fora da vista, suas estruturas espirais escondidas pela folhagem maciça; seu verde suave e vivo, imaculado e intocável, e como todos os seres vivos, indispostos a tolerar qualquer forma de vida, além da sua própria.

Havia nessas florestas uma solidão estranha, doentia, uma solidão mais profunda do que a adolescência, mais perverante do que a da prisão. Parecia, de certa forma, apesar de seu crescimento, verde e florescente, morta. Talvez fosse porque não havia nenhum som. As grandes folhas sobre eles eram demasiadas pesadas e rígidas na estrutura para serem agitadas por qualquer coisa, que não fosse os ventos de um furacão. A maioria das aves tinha morrido. O equilíbrio da natureza foi tão profundamente afetado que mesmo os animais que se julgava não ameaçados se juntaram às fileiras sempre crescente dos seres extintos. As plantas estavam sozinhas nestas florestas, e o sentimento de serem algo à parte de tudo mais, de pertencerem a uma ordem de coisas diferente era inevitável. Aquilo devorava o coração do homem mais forte.

"Que cheiro é esse?" Buddy perguntou.
"Não sinto cheiro de nada."
"Tem cheiro de algo queimando."

Anderson sentiu pontadas de esperança.
"Um incêndio? Mas eles não iriam queimar nessa época do ano. Elas estão muito verdes."
"Não são as Plantas. É outra coisa."

Era cheiro de carne assada, mas ele não diria isso. Seria demasiado cruel, demasiado irracional perder uma das vacas preciosas para um banquete de saqueadores.
  
Seu ritmo desacelerou da corrida para um trote, de um trote para um cauteloso deslizar de espreita.

"Eu sinto agora", Anderson sussurrou.

Retirou do coldre o Colt Python .357 Magnum, que era o sinal mais visível de sua autoridade entre os cidadãos de Tassel. Desde sua condecoração ao cargo mais alto (formalmente, ele era o prefeito da cidade, mas na verdade ele era muito mais), ele nunca foi visto sem ele. A potência desta arma como um símbolo (para a vila que tinha ainda um estoque considerável de armas e munições) residia sobre o fato de que era apenas utilizado para o mais grave dos propósitos: matar homens.

O cheiro tornou-se muito forte e, depois, numa curva do caminho eles encontraram doze carcaças.
Haviam sido incineradas até as cinzas, mas os contornos eram claros o suficientemente para indicar qual delas era Studs. Havia também uma pequena mancha de cinza próxima a eles no caminho.

"Como..." Buddy começou a dizer. Mas ele realmente queria dizer o que, ou mesmo quem, algo que seu pai rapidamente entendeu.
"Jimmie!" o velho gritou furioso, e enterrou as mãos no pequeno monte de cinzas ainda fumegantes.
Buddy desviou os olhos, tanta tristeza era como embriaguez: não era justo que ele encarasse seu pai assim.

Não havia nem sequer uma carne que sobrasse, ele pensou olhando para as outras carcaças.
Nada além de cinzas.

"Meu filho!" o velho chorava. "Meu filho!" Ele segurou no dedo um pedaço de metal que outrora fora a fivela de um cinto. Suas bordas estavam derretidas pelo calor, e o calor retido ao metal estava queimando os dedos do velho homem. Ele não percebeu.
Fora de sua garganta veio um ruído, mais profundo do que um gemido, e suas mãos cavaram as cinzas mais uma vez. Ele cobriu o rosto com elas e chorou.

Depois de um tempo, os homens da aldeia chegaram.
Um deles tinha trazido uma pá para usar como um aguilhão. Eles enterraram as cinzas do menino lá, porque o vento já começava a espalhá-las sobre o chão. Anderson guardou consigo a fivela.

Enquanto Anderson estava falando as palavras sobre a sepultura rasa de seu filho, ouviram o mugido da última vaca viva, Gracie. Então, logo que tinham dito amém, correram atrás da vaca sobrevivente. Com exceção de Anderson, que voltava para casa sozinho.

Gracie levou-os a uma agradável e velha perseguição.



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