sexta-feira, 29 de abril de 2011

Nave Escrava - Frederik Pohl



 Durante o voo de Montauk levamos um susto por causa de um míssil teleguiado, mas depois descobrimos que era um dos nossos. Chegamos a vê-lo muito bem pela janela de nosso avião de transporte, enquanto se aproximava uivando para interceptar nossa linha de voo, e cento e quarenta passageiros aspiraram ruidosamente o ar, todos ao mesmo tempo. Entretanto o radar IFF do míssil conseguiu nos reconhecer. Logo desviou, deu uma volta completa e foi embora, a caça de um Caodai, apesar de eu saber que naquela área não poderia encontrá-lo.

Foi assim que conseguimos aterrissar bem no horário. Desembarquei no litoral da Flórida. Completamente contra minha vontade.
Não encontrei o helicóptero que deveria estar a minha espera. Falei com a moça atrás do balcão dos cartões postais, era apenas uma maruja, mas realmente bonitinha, e pedi que me deixasse usar seu telefone. Então chamei o número que constava em minhas ordens. A voz que me respondeu tinha um tom bastante displicente e me comunicou que breve mandariam alguém me buscar. Então apanhei minha bagagem e me sentei para esperar.

O salão estava cheio de gente e a espera foi demorada. Por causa do meu translado desde meu cruzador, que se encontrava na linha de piquetes, até o litoral e a espera pelo transporte até Montauk e finalmente a longa viagem até a Flórida, eu não tinha pregado olho durante a noite toda. Comecei a cochilar. Alguém me sacudiu.

— Tenente, precisa sair daqui. – Era um fuzileiro atarracado, cuja braçadeira indicava que era da patrulha de terra. — Os prisioneiros terão que passar neste ponto.
— Entendo. Muito obrigado. – Levantei-me para deixar a passagem livre.

Um avião de transporte acabava de aterrissar na pista e uma fila de Caodais, baixinhos e robustos, estava descendo a rampa com as mãos entrelaçadas em cima da cabeça, vigiados por guardas armados da Polícia de Segurança. Comecei a observá-los com curiosidade. Era a primeira vez que via os inimigos em carne e osso e eles não se pareciam com os cartazes encontrados nos alojamentos dos oficiais, nos campos de treinamento. Pensei que eram muito escuros e não podiam ser da Indochina. Talvez fossem originários de algum estado satélite do Oriente Médio.

— Como é que você gostaria de se defrontar com um destes nenéns num combate? – perguntou um capitão da Força Aérea que se encontrava ao meu lado.
— Já me aconteceu algumas vezes - respondi lançando-lhe um olhar. Voltei para telefonar. Sentia-me um pouco envergonhado por tê-lo esnobado. Mas era verdade: a bordo do Spruance tivera a ocasião de tomar parte em repetidos entreveros e estes heróis que ficavam em segurança na madre pátria eram muito irritantes.

A reação que consegui na sala de operações do Projeto Mako foi de surpresa total.
— Tenente, o senhor está me dizendo que ninguém foi buscá-lo? – perguntou uma voz incrédula. — Espere um minuto.
Esperei. A voz voltou após um intervalo.
— Sinto muito, tenente – falou ofegando um pouco. — O piloto se confundiu. Estará lá dentro de quinze minutos.

O salão de espera agora já estava apinhado de prisioneiros, talvez uns cem. Apesar de serem prisioneiros, formavam um grupo muito calmo. Havia um PS armado de rifle automático para cada três prisioneiros, e mesmo assim sua proximidade me proporcionou uma sensação esquisita. Afinal, durante as ações, nunca tinha me aproximado de um Caodai, a menos de mil jardas, em águas de cem braças.

O capitão da Força aérea, boquiaberto, ainda observava os Caodai, e me lançou um olhar de reprovação; daí decidi ir na direção oposta. Era a primeira vez que me encontrava na Flórida e do terraço do aeroporto consegui ver uma paisagem de palmeiras e hibiscos, idêntica àquela prometida pelos folhetos das agências de turismo, nos dias em que ainda existiam folhetos deste tipo.

Estes dias já estavam muito longe. Há três ou quatro anos, mas naquela época eu ainda era um civil, e minha mulher também. Aliás, o país inteiro era civil, exceto oito ou dez milhões de tropas regulares. Era muito difícil lembrar...



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