sábado, 30 de abril de 2011

Os Genocidas - Thomas Disch (Parte 8)







SETE
O Advento


Gracie, a vaca, vivia ali na Sala Comum com todo mundo. As galinhas, também tinham um canto para elas, mas os suínos foram alojados em um chiqueiro do lado de fora.

Durante quatro dias, a partir daquele Ação de Graças, a neve tinha caido lentamente, pesadamente, como neve a se instalar na cidade em miniatura, dentro de um peso de papel de vidro.
Depois de uma semana de tempo invernal as crianças já usavam o trenó nas margens do velho lago. Depois a neve começou a cair a sério, impulsionada por ventos que faziam Anderson temer pelas paredes reforçadas.
Três ou quatro vezes por dia, os homens saiam ao exterior para limpar a "cobertura" que se formara no teto da Sala Comum. Assim que a metade da cobertura de neve pesada era limpa, a outra metade surgia para substituí-la. Além desta tarefa e os cuidados com os suínos, os homens ficavam ociosos durante uma nevasca. O resto do trabalho, cozinhar  tecer, cuidar das crianças e dos doentes, era trabalho das mulheres.
Mais tarde, quando o tempo melhorasse, eles podiam caçar novamente, ou, com mais esperança de sucesso, encontrar peixes no gelo do lago. Havia também uma abundância de Plantas para cortar.

Era difícil passar por esses dias ociosos. Bebida não era permitida na Sala Comum (do jeito como estava, já havia brigas suficiente), e o jogo de cartas logo perdia seu atrativo quando o dinheiro em disputa não era diferente daquele que as crianças brincavam no Monopólio.
Havia poucos livros para ler, com exceção da Bíblia de couro de bezerro de Anderson (a mesma que certa vez estivera no púlpito da Igreja Episcopal), e o espaço interior era valisoso. Mesmo se tivessem livros, era improvável que alguém iria ler. Orville talvez, ele parecia uma espécie de amigo dos livros. Buddy também. E a Senhora tinha lido muito também.

A conversa, nunca ia além das reclamações. A maior parte dos homens imitava Anderson, sentado imóvel na orla de sua cama, mastigando a polpa da Planta. Era questionável contudo se como Anderson, poderiam dirigir este tempo para fins úteis. Quando a primavera chegava, todas as ideias, os projetos, as inovações vinham de Anderson e de mais ninguém.

Agora, parecia haver mais alguém capaz de pensar, que pelo contrário, preferia pensar em voz alta. Para o velho ali sentado, ouvindo Jeremias Orville, as idéias apresentadas por ele pareciam as vezes positivamente não religiosas. A maneira como ele falava sobre as Plantas, por exemplo, como se fossem apenas uma espécie de laboratório. Como se ele admirasse a sua conquista. Disse muitas coisas, quase no mesmo fôlego, que fazia sentido. Mesmo quando o tempo era o assunto da conversa (e muito frequentemente era), Orville tinham algo a dizer sobre isso.

"Eu ainda mantenho", disse Clay Kestner (isso foi no primeiro dia da nevasca ruim, mas Clay tinha que manter a mesma coisa há vários anos), "que o tempo não está mais frio, mas nós sentimos mais frio. É psicosomático. Não há nenhuma razão para que o tempo esteja mais frio."
"Pô, Clay", Joel Stromberg respondeu, balançando a cabeça reprovando (embora possa ter sido apenas reflexo da doença), "se o inverno hoje não é mais frio que o inverno nos anos sessenta e cinqüenta, eu vou comer o meu chapéu. Costumavamos nos preocupar se nós iamos ter um Natal branco. Eu digo que é pelo que aconteceu com o o lago."
"Bobagens!" Clay insistiu, não sem justiça.
Normalmente, ninguém teria dado mais atenção para Clay e Joel do que ao vento se lamentando sobre as Plantas lá fora, mas desta vez Orville se intrometeu: "Vocês sabem, pode haver uma razão para estar ficando mais frio. O dióxido de carbono."
"O que o cu tem a ver com as calças?" Clay brincou.
"O dióxido de carbono é o que as Plantas – qualquer planta, usa para combinar com a água quando estão fazendo seus próprio alimento. É também o que nós, ou seja, animais - exalamos. Desde que as Plantas chegaram, eu suspeito que o velho equilíbrio entre o dióxido de carbono que utilizam e a quantidade que emitimos já começou a favorecer as Plantas. Portanto, há menos dióxido de carbono na atmosfera. Agora, o dióxido de carbono é um grande absorvedor de calor. Ele armazena o calor do sol e mantém o ar quente. Assim, com menos dióxido de carbono, mais frio e neve. Isso é apenas uma teoria, é claro."
"Isso é uma teoria dos infernos!"
"Eu concordo com você, Clay, uma vez que não é minha. É uma das razões que os geólogos dão para a idade do gelo."

Anderson não acreditava em geologia, uma vez que era contra o que dizia a Bíblia, mas sobre o que Orville disse sobre o dióxido de carbono era verdade, então o agravamento dos invernos (e que estes eram piores, ninguém duvidava disso) poderia muito bem ter uma causa. Mas verdade ou não, havia algo que ele não gostava no tom de Orville, algo mais do que apenas a atitude de "sabe-tudo pós-graduação da faculdade”, que Anderson usava para ferir Buddy. Era como se essas pequenas palestras sobre as maravilhas da ciência (e foram mais do que algumas poucas),  tivessemm um único objetivo: levá-los ao desespero.

Mas ele sabia mais ciência do que ninguém, e Anderson a contragosto respeitava isso. Além disso ele tinha impedido Clay e Joel de ficar argumentando sobre o tempo e, por essa pequena bênção, Anderson não podia deixar de dar graças.

Não estava ainda tão ruim quanto ficaria em fevereiro e março, mas já era muito ruim: o espaço mínimo, as discussões bobas, o barulho, o fedor, o atrito de carne na carne e nervo no nervo. Seria muito ruim.
Quase intolerável. Duzentas e cinqüenta pessoas vivendo em 2.400 metros quadrados, e muito do espaço fora entregue ao armazenamento. No inverno passado, quando havia quase o dobro de pessoas na mesma sala, quando todos os dias testemunhávamos uma nova morte, a cada mês uma nova epidemia causada pelo frio mortal, havia sido imensuravelmente pior. Os mais sensíveis, aqueles que não conseguiam suportar, tinham enlouquecido, passando a cantar e rir, para enganar o degelo do mês de Janeiro, e estes foram embora este ano.

Este ano, as paredes estavam firmemente ancoradas desde o início, este ano o racionamento não foi tão desesperadamente rígido (apesar de haver menos carne). Ainda assim apesar de todas estas melhorias, ainda era uma forma intolerável de viver e todo mundo sabia disso.

A única coisa que Buddy não podia suportar, a pior coisa, era a presença de tanta carne. Todos os dias ela esfregava-se contra ele, exibia-se, fedia em suas narinas. E qualquer uma das centenas de mulheres na sala, mesmo Flor, pelo simples gesto, pela palavra mais mansa, desencadeava sua luxúria. Simplesmente não havia lugar, durante o dia ou a noite, na acanhanhada Sala Comum, para o sexo. Sua vida erótica era limitada a ocasiões em que ele poderia impor a Maryann ir com ele visitar a casinha onde congelavam a comida,  atrás do chiqueiro. Maryann, em seu sétimo mês e propensa a qualquer resfriado, raramente ia com ele.

Não ajudava que, enquanto havia luz na sala, Buddy poderia olhar por cima de tudo que ele estava fazendo (ou, mais provavelmente, ele não estava fazendo) e ver, a não mais de vinte metros de distância, Greta.

Mais e mais, ele buscava refúgio na companhia de Orville Jeremiah.
Orville era o tipo de pessoa, familiar para Buddy da época da universidade, de quem ele sempre gostou muito mais do que eles gostavam dele. Embora ele nunca contasse uma piada para Buddy, quando o homem falava, e ele falava incessantemente - Buddy não podia deixar de rir. Era como se as conversas sobre livros e filmes ou a forma como as pessoas falavam no velho Jack Paar Show, pudessem tornar divertida a coisa mais banal. Orville nunca bancava o palhaço, era o seu humor, a maneira como ele olhava para as coisas com uma irreverência, (não tanto que alguém como Anderson pudesse reclamar), uma paródia oblíqua. Nunca se sabia onde poderiam chegar, de modo que a maioria das pessoas, caipiras como Neil, ficavam relutantes em conversar com ele, embora o escutassem com prazer.

Buddy se viu imitando Orville, usando suas palavras, pronunciando-as da sua maneira (ge-nu-í-no ao inves de ge-nuí-no), adotando suas idéias. Era uma constante fonte de saber. Buddy, que considerava sua própria educação apenas suficiente para avaliar o âmbito de outra pessoa, considerada Orville enciclopédico. Buddy caiu de quatro tão completamente sob a influência do homem, que não seria injusto dizer que ele estava apaixonado.
Houve momentos (por exemplo, quando Orville passava muito tempo com Flor) que Buddy sentia algo como o ciúme. Ele teria se surpreendido ao saber que Flor se sentia da mesma forma quando Orville gastava seu tempo com Buddy. Era evidentemente um caso de paixão, de primeiro amor.
Mesmo para Neil ele tinha algo a dizer, o recém-chegado, um dia Orville o levou para um canto e lhe ensinou um monte de piadas sujas.   

Os caçadores caçavam sozinhos, os pescadores pescavam juntos. Neil, um caçador, estava agradecido pela oportunidade de estar sozinho, mas a falta da caçada de dezembro agravou-lhe quase tanto quanto a pressão e o clamor da Sala Comum. Mas no dia que a nevasca parou, ele encontrou rastros de veados na neve ainda fresca perto do milharal oeste. Seguiu-os por quatro milhas, tropeçando em seus próprios sapatos de neve, em sua ânsia.
Os rastros terminavam em uma concavidade de cinzas e gelo. Não havia rastros indo para longe ou se aproximando da área. Neil jurou em voz alta. Ele gritou por um tempo, sem estar ciente de que estava gritando.
Era para livrar-se da pressão.

Nenhuma caça agora, pensou ele, quando começou a pensar novamente.
Decidiu que iria descansar o resto do dia. Descansar! Ha! Ele teria que lembrar-se disso. Com os outros caçadores e pescadores ainda longe da Sala Comum talvez ele tivesse um pouco de privacidade. Isso foi o que ele fez, foi para casa e bebeu um chá fétido com sabor de alcaçuz (ou o que eles chamavam de chá) e começou a se sentir sonolento, e sabia que estava olhando, ou pensando (ele estava olhando para Flor e pensando nela) quando de repente Gracie começou a fazer um alvoroço como nunca tinha ouvido antes. Ele só tinha ouvido isso antes uma vez: Gracie estava parindo.

A vaca estava fazendo grunhidos como um porco. Virada de lado, mexia-se no chão. Era a primeira cria de Gracie, e ela não era grande o bastante. Era de se esperar problemas.
Neil atou uma corda ao redor do  pescoço, mas ela estava se debatendo, e ele não podia prender as pernas, então tinha que deixar isso de lado. Alice, a enfermeira, estava ajudando ele, mas desejava que seu pai estivesse lá. A velha Gracie estava berrando como um touro agora. Qualquer vaca que demora mais de uma hora parindo é uma perda certa, até meia hora já é ruim. Gracie estava com dor e gritando já por meia hora.
Manteve-se contorcendo-se para tentar escapar das dores.
Neil prendera a corda para evitá-la de fazer isso.

"Eu posso ver a cabeça. A cabeça está saindo agora", disse Alice.
Ela estava de joelhos na traseira de Gracie, tentando aumentar a abertura.
"Se isso é tudo que você pode ver, como você sabe que é ela?"

O sexo do bezerro era crucial, e todos na Sala Comum se reuniam em volta para assistir ao parto. Após cada urro de dor, as crianças gritavam como encorajamento para Gracie. Então as contorções pioraram, enquanto seu bezerro acalmou.
"É isso aí, é isso!" Alice estava gritando, e Neil colocava força na corda.
"É um menino!" Alice exclamou. "Graças a Deus, é um menino!"
Neil riu da velha.
"É um touro, é o que você quer dizer. Vocês da cidade são todos iguais!"

Sentia-se bem porque ele não tinha cometido qualquer erro e tudo estava uma maravilha. Ele foi até o barril e retirou a parte de cima e serviu-se de uma bebida para comemorar. Ele perguntou a Alice se ela queria, mas ela apenas olhou para ele engraçado e disse que não.

Ele sentou-se na única cadeira da sala (a de Anderson) e assistiu o bezerro mamar o úbere cheio de Gracie. Gracie não tinha levantado. Ela devia estar esgotada. Por que, se Neil não estivesse por perto, ela provavelmente não iria sobreviver. O sabor de alcaçuz não era tão ruim uma vez que você se acostumava com ele.
Todas as mulheres estavam quietas agora, e os filhos também.

Neil olhou para o bezerro e pensou como um dia ele seria um touro grande com tesão por pegar Gracie – a mãe dele! Animais, pensou confuso, apenas animais. Mas não era exatamente isso. Ele precisava beber um pouco mais.

Quando Anderson chegou em casa parecia que tinha tido um dia ruim (a tarde já se foi?), mas Neil se levantou da cadeira quente e gritou feliz:
"Ei, papai, é um touro!"

Anderson veio e olhou para Neil parecendo muito com a noite de Ação de Graças, de preto e com aquele sorriso feio (mas ele não tinha dito uma palavra sobre beber demais no jantar), e bateu no rosto de Neil, que simplesmente foi direto ao chão.

"Maldito idiota estúpido!" Anderson gritou. "Seu bosta, idiota! Você não sabe que Gracie morreu? Você a estrangulou até a morte, seu filho da puta!"

Então chutou Neil. E foi cortar a corda ainda apertada em torno do pescoço de Gracie. Sangue derramou no chão e Senhora recolheu algum com uma bacia. O bezerro puxava o úbere da vaca morta, mas não havia mais leite. Anderson cortou a garganta do bezerro também.

Não era culpa dele, era? A culpa era de Alice. Ele odiava Alice. Ele odiava seu pai também. Ele odiava todos aqueles bastardos que pensavam ser tão inteligentes. Ele odiava todos eles. Ele odiava todos eles.
Cobriu sua dor com as duas mãos e tentou não gritar de dor nas mãos, dor na cabeça, a dor de odiar, mas talvez ele gritasse, quem sabe?

Pouco antes de escurecer a neve começou a cair novamente, uma queda perfeitamente perpendicular, através do ar sem vento. A única luz na Sala Comum vinha do lampião queimando na alcova da cozinha, onde Senhora estava vasculhando potes bem lavados.
Ninguém falava.
Quem ousava negar o quão gostoso ficara o mingau de fubá e coelho temperado com o sangue da vaca e do bezerro. Estava calmo o suficiente para ouvir as galinhas cacarejando em seus refúgios no canto distante.

Quando Anderson saiu para comandar o abate e a salga da carcaça, nem Neil nem Buddy foram convidados a participar. Buddy estava sentado na cozinha, no tapete sujo de boas-vindas e fingiu ler um texto de biologia na penumbra. Ele o tinha lido por várias vezes antes e conhecia algumas passagens de cor. Neil estava sentado perto da porta, criando coragem de ir lá fora e juntar-se aos homens.

De todos os habitantes da cidade, Buddy era provavelmente a única pessoa que sentira prazer na morte de Gracie. Naquelas semanas desde a Ação de Graça, Neil havia ganho seu lugar de predileto de seu pai. Agora, desde que Neil tinha sido tão eficaz na reversão dessa tendência, Buddy argumentou que seria apenas uma questão de tempo antes de voltar a gozar dos privilégios de sua primogenitura. A extinção da espécie (eram os Herefords uma espécie?) não foi um preço muito alto para pagar.

Havia um outro que se alegrou com essa sucessão de eventos, mas ele não era, nem na sua própria estimativa, um deles, um dos moradores. Jeremias Orville tinha esperança de que Gracie e seu bezerro ou ambos pudessem morrer, já que a preservação do gado tinha sido uma das realizações mais orgulhosas de Anderson, uma lembrança que a civilização-como-nós-a-conhecemos não estava fora de moda e um sinal, para aqueles que acreditam em sinais, que Anderson era realmente um dos Eleitos. Que aquele que
realizaria as esperanças de Orville fosse a incompetência do próprio filho do homem, dava a Orville um prazer quase estético: como se alguma divindade estivesse acompanhando a sua vingança, e escrupuloso para que as leis de justiça poética fossem observadas.

Orville estava feliz esta noite, e trabalhou para esquertejar a vaca com uma fúria silenciosa. De vez em quando, quando não podia ser visto, engolia um bocado de carne crua já que estava tão faminto quanto qualquer homem ali.
Mas ele passaria fome de bom grado se antes pudesse ver Anderson passando fome também.

Um barulho estranho, um som de vento, mas não era vento, chamou sua atenção. Parecia familiar, mas não conseguia definí-lo.
Era um som que pertenciam aos da cidade.

Joel Stromberg, que estava cuidando dos porcos, gritou:
"Ah, hei – não... que porr..."
De repente Joel foi metamorfoseado em um pilar de fogo.

Orville viu isso tão claramente quanto tinha ouvido o som anterior, mas sem pensar atirou-se sobre um banco de neve nas proximidades.
Rolou na neve até estar fora da vista de tudo, das carcaças, dos outros homens, do chiqueiro. As chamas subiam a partir da queima do chiqueiro.

"Sr. Anderson!" Gritou. Apavorado para não perder sua pretensa vítima para os incendiários, ele rastejou de volta para resgatar o velho.

Três corpos esféricos, cada um com cerca de cinco metros de diâmetro flutuou pouco acima da neve na periferia das chamas. Os homens (com excepção de Anderson, que estava agachado atrás do flanco da vaca morta, mirando com a sua pistola a esfera próxima) ficaram olhando as chamas, como se enfeitiçados. Nuvens de vapor escapavam de suas bocas abertas.

"Não desperdice balas nos escudos Mr. Anderson. Venha, eles irão incendiar a Sala Comum em seguida. Temos que tirar as pessoas de lá."

Anderson concordou, mas não se mexeu. Orville teve que puxá-lo.
Nesse momento de incapacidade e estupor, Orville pensou ver em Anderson a semente do que Neil tinha se tornado.
Orville entrou na Sala Comum primeiro. Como as paredes foram reforçadas para suportar a neve, nenhum deles tinha conhecimento do fogo lá fora. Eles estavam como antes, durante toda a noite, pesados de tanta infelicidade. Vários deles já na cama.

"Todo mundo pegue suas roupas", Orville ordenou com uma voz calma e  autoritária. "Deixem este local o mais rapidamente possível pela porta da cozinha e corram para a floresta. Levem só o que está à mão, mas não percam tempo procurando coisas. Não espere ninguém. Rápido! Agora."

Muitos que tinham ouvido Orville olhavam estupefatos. Não era para ele estar dando ordens.
"Rápido" Anderson dirigiu "e sem perguntas."

Eles estavam acostumados a obedecer Anderson sem questionar, mas ainda havia muita confusão. Anderson, acompanhado de Orville, entrou diretamente na área da cozinha, onde sua família estava alojada. Estavam todos empacotando suas roupas pesadas, mas Anderson os apressou mais ainda.
Lá fora havia gritos, breves como o de um coelho abatido, conforme os dispositivos incendiários iam se virando contra seus espectadores.

Um homem em chamas correu para a Sala e caiu no chão, morto. O pânico começou.
Anderson, já perto da porta, impunha respeito, mesmo no meio da histeria e
conseguiu tirar sua família entre os primeiros.
Passando pela cozinha, Senhora agarrou uma panela vazia. Flor carregava uma cesta de roupa para lavar, muito pesada, que ela esvaziou na neve. Orville, na sua ansiedade de vê-los fora e em segurança, não levou nada consigo. Não haviam nem cinqüenta pessoas correndo pela neve quando o canto mais distante da Sala comum pegou fogo.
As primeiras chamas subiram dez metros acima do telhado, em seguida, começou a escalar os sacos de milho empilhados contra as paredes.

Era muito difícil correr na neve carregando pacotes, assim como é difícil correr com água até os joelhos: assim que você consegue o momentum, você está apto a cair para a frente.

Senhora e Greta haviam saído de casa vestindo apenas chinelos de palha e como outros só com seus camisolões ou embrulhados em cobertores.
Anderson tinha chegado quase ao limite da floresta, quando Senhora jogou de lado sua panela e exclamou: “A Bíblia! A Bíblia ficou lá!“
Ninguém a ouviu. Ela correu em direção ao prédio em chamas. No momento em que Anderson estava ciente da ausência de sua esposa, não havia mais como impedí-la. Seu próprio grito não foi ouvido, entre tantos outros.
A família parou para ver.

"Continuem correndo" Orville gritou para eles, mas não ganhou nenhuma atenção. A maioria dos que tinham fugido da casa chegavam à floresta agora.

As chamas iluminavam a vizinhança do prédio por uma centena de metros, fazendo a neve brilhar com um brilho laranja instável de sombras devido a fumaça ondulada, como o fogo das trevas.

Senhora entrou pela porta da cozinha e não reapareceu mais. O teto desabou, as paredes caíram para fora, como peças de dominó. Os três corpos esféricos poderiam ser vistos em silhueta, subindo. Em formação cerrada, eles começaram a deslizar em direção a floresta, seu “hummmmm” disfarçado pelo crepitar das chamas.
Dentro do triângulo definido por eles, a neve derretera e o vapor subia ao ar.

"Por que ela faria uma coisa dessas?" Anderson perguntou para sua filha, mas vendo que ela estava delicadamente equilibrada à beira da histeria, ele a pegou com uma mão, enquanto na outra trazia uma corda que tinha pego de um carrinho de mão fora de casa e correram atrás dos outros.

Orville e Neil praticamente carregavam Greta, que gritava obscenidades em seu rico contralto.

Orville estava frenético, e além do frenesi havia uma sensação de alegria e prazer que o fazia querer comemorar, como se a conflagração atrás deles fosse tão inocente como uma fogueira festiva.

Quando gritou ‘Depressa, Depressa!’ era difícil saber se chamava Anderson e Flor ou os três incendiários não muito atrás deles.



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