quinta-feira, 14 de abril de 2011

Trilogia Millennium - Stieg Larsson



OS HOMENS QUE NÃO AMAVAM AS MULHERES

Acontecia todos os anos, quase como um ritual. O homem que recebia a flor festejava naquele dia seus oitenta e dois anos. Ele abriu o envelope e retirou o papel de presente do embrulho. Depois pegou o telefone e digitou o número de um ex-inspetor de polícia que desde sua aposentadoria instalara-se na Dalecarlia, perto do lago Siljan. Os dois homens não só tinham a mesma idade mas haviam nascido no mesmo dia — o que, nessas circunstâncias, parecia irônico. O inspetor sabia que receberia esse telefonema após a passagem do carteiro por volta das onze da manhã, e tomava seu café enquanto aguardava. Nesse ano, o telefone tocou às dez e meia. Ele atendeu e foi direto ao assunto.
— Ela chegou, suponho. E então, qual é a flor deste ano?
— Não faço a menor idéia. Vou mandar identificá-la. Uma flor branca.
— Nenhuma carta, como sempre?
— Não. Apenas a flor. A moldura é a mesma do ano passado. Uma dessas molduras baratas do tipo faça-você-mesmo.
— Selo do correio?
— Estocolmo.
— Escrita?
— Como sempre, maiúsculas de imprensa. Letras retas e bem traçadas.
Haviam esgotado o assunto e ficaram em silêncio durante quase um minuto. O inspetor aposentado inclinou-se para trás na cadeira da cozinha e aspirou seu cachimbo. Sabia muito bem que não se esperava dele uma pergunta concisa ou um comentário perspicaz que lançassem uma nova luz sobre o caso. Essa época acabara havia anos, e a conversa entre os dois homens idosos tinha o caráter de um ritual em torno de um mistério que ninguém mais no mundo, a não ser eles, estava disposto a resolver.






A MENINA QUE BRINCAVA COM FOGO

Estava amarrada numa cama estreita de estrutura de aço. Correias de couro a prendiam e um arreio tolhia sua caixa torácica. Estava deitada de costas. Tinha as mãos atadas com tiras de couro de um lado e outro da cama.
Já havia muito abandonara qualquer tentativa de se soltar. Estava acordada, mas mantinha os olhos fechados. Quando os abria, achava-se no escuro, e a única fonte de claridade visível era um fino clarão acima da porta. Tinha um gosto ruim na boca e sentia uma necessidade imperiosa de escovar os dentes.
Parte de sua consciência espreitava o barulho de passos avisando que ele estava vindo. Sabia que já anoitecera, mas não tinha a menor idéia de que horas eram, só sentia que estava ficando muito tarde para uma de suas visitas. Sentiu uma súbita vibração na cama e abriu os olhos. Parecia que algum tipo de máquina começara a funcionar em algum lugar do prédio. Segundos depois, já não saberia dizer se estava imaginando ou se o barulho era real.
Assinalou mentalmente mais um dia.
Era o seu quadragésimo terceiro dia de cativeiro.







A RAINHA DO CASTELO DE AR

Calcula-se em seiscentos o número de mulheres soldados que combateram na Guerra de Secessão. Alistaram-se travestidas de homem. Hollywood deixou passar batido todo um aspecto da história cultural — ou será que esse aspecto incomoda muito do ponto de vista ideológico? Os livros de história sempre tiveram dificuldade em falar de mulheres que não respeitam os padrões de gênero, e em nenhuma área essa limitação é tão evidente como na guerra e no que se refere ao manejo de armas.




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