quarta-feira, 13 de abril de 2011

O Homem que viu o disco voador - Rubens Teixeira Scavone



Tudo começara naquela tarde fria e nevoenta.
Mesmo sendo o início do inverno, um calor anormal manifestara-se durante o dia inteiro e somente quando a tarde principiava a cair a temperatura se alterara bruscamente em mudança bem característica de São Paulo. Nuvens baixas e ameaçadoras cobriram a cidade e um vento frio varreu os arrabaldes mais elevados, antecipando a queda de uma garoa fina.

O quadrimotor contornava os limites da metrópole.
O comandante Eduardo Germano de Resende vinha cansado. Manobrava os controles quase mecanicamente, deixando para desligar o piloto automático o mais tarde possível.
O contato para a aterragem já havia sido mantido há uns quinze minutos de vôo, quando se inteiraram da existência do teto
baixo e ameaçador, com possibilidades imediatas de interdição do aeroporto. Assim, se quisessem dormir em São Paulo, não tinham tempo a perder. O problema da aterragem estava resolvido e nenhuma espera havia proveniente do tráfego.
Com os olhos nos instrumentos e pressão leve sobre os comandos, Eduardo preparou-se para a aproximação, já enquadrado o aeroporto.
Entravam na reta final.

As nuvens, agora, pairavam sobre a aeronave e já se podia ver o casario pelas janelas molhadas de garoa.
O mais preocupado com os instrumentos era o primeiro-oficial, vigiando o altímetro e os tacômetros. O único que descansava por antecipação era o navegador, já guardando seus mapas e instrumentos, sabendo que mais aquela missão fôra cumprida com êxito.
Ao ser atingida a reta final marcavam os relógios, precisamente, dezoito horas e quarenta minutos.
Nesse momento exato, é que tudo começou.
Eduardo, concentrado no balizamento da pista, somente prestou atenção ao primeiro-oficial quando êle começou a agitar-se no assento. Gusmão curvou-se sobre os instrumentos e pôs-se a dar golpes com o punho fechado junto ao altímetro.

— Que diabo você está fazendo? Que é isso?
O primeiro-oficial demorou vários segundos para responder, limitando-se a apontar o painel com ar assustado.
— Veja! olhe que coisa doida está acontecendo!

Eduardo firmou o comando nas mãos e fixou um dos altímetros. Vinham a mil e trezentos pés. Tudo até a esse instante indicava altitude correta. Mas o altímetro alterava inexplicavelmente a situação, marcava quase quatro mil pés e ia, poupo a pouco, registrando altitude mais elevada, em ascensão assustadora.

O comandante a princípio, não acreditou no que viu.

Numa fração de segundo, examinou o segundo altímetro e, pasmado, constatou idêntico fenômeno. Reagiu da mesma forma que o primeiro-oficial, passando a dar golpes nervosos sobre a base do instrumento.
Aparentemente, o vôo não se modificara. A aproximação era normal e a pista já vinha bem perto, a pouco mais de um minuto de distância, quando a segunda anormalidade aconteceu.
O compasso passou a girar doidamente, como se a aeronave tivesse entrado em torvelinho descontrolado, solicitadas as agulhas por magnetismo desconhecido.

Desnorteado com esse segundo fato, Eduardo agiu mecanicamente interrompendo a aterragem.
Levou as manetes à frente, dando toda a aceleração aos motores, que responderam com um rugido atroador. Compreendendo a emergência, o primeiro-oficial levantou os flaps1, ao mesmo tempo que Eduardo ajustava a mistura e recolhia o trem de pouso. O violento impulso ascensional dos profundores abalou toda a aeronave, não demorando a reação os passageiros e da tripulação, surpreendidos com a manobra inesperada.

A comissária largou seus pacotes e quase caiu sobre uma poltrona. Os passageiros inquietaram-se e indagaram em voz alta o que havia acontecido. O navegador e o rádio-telegrafista correram para a cabine, amontoando-se junto ao segundo-oficial atrás dos assentos de pilotagem.
Desprezando as informações dos instrumentos e procurando ganhar altitude outra vez, o comandante não deu atenção aos tripulantes e concentrou-se no exame do que estava acontecendo.

— Que aconteceu? Por que é que arremetemos dessa forma?
Quem respondeu foi o primeiro-oficial, não ocultando certo nervosismo indisfarçável.
— Olhem! Olhem nos altímetros e no compasso!
— Que é que há com eles? Não vejo nada de mais! É lógico que depois da arremetida já devemos estar pelas alturas que eles registram, três ou quatro mil pés! — exclamou o segundo-oficial, após examinar os instrumentos.

O comandante e o primeiro-oficial tiveram aí a terceira surpresa.
Novamente conferiram os instrumentos e pelas condições de vôo não verificaram mais irregularidade de espécie alguma.
O altímetro indicava quatro mil e duzentos pés, altitude real em que deviam estar depois da ascensão violenta, e o compasso repousava, tranqüilo, indicando rumo constante.
Os dois homens trocaram olhares mudos e, sem revelarem o que havia acontecido, agora de credibilidade duvidosa, limitaram-se a dar explicações não muito convincentes. Gusmão ficou confuso e Eduardo explicou titubeante:

— Não foi nada de grave. Tive a impressão de que a torre havia se enganado nas instruções. E como não via bem a cabeceira da pista com esse teto baixo, resolvi subir para obter confirmação da ordem de aterragem. — A seguir, como que dando as explicações por encerradas, em atitude áspera e não condizente com o seu temperamento, voltou-se para a comissária, ainda pálida, junto à entrada, e gritou uma ordem:
— Não fique parada aí como uma múmia. Vá dizer aos passageiros que não houve nada. Que subi para receber novas instruções por causa do teto. Vá logo e feche a porta!




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