sábado, 28 de maio de 2011

Os Genocidas - Thomas Disch (Parte 12)



ONZE
UMA MORTE NATURAL





O cabelo de Anderson estava caindo aos punhados. Talvez fosse a idade, mas ele culpou a sua dieta. Os suprimentos escassos resgatados do fogo havia sido racionados, e o pouco milho que restava agora era de Maryann e para plantar, quando voltassem para o superfície. Coçou o couro cabeludo esquisito e amaldiçoou a Planta, mas era um ódio parcial, como se estivesse irritado com um empregador, ao invés de em uma guerra com seu inimigo. Seu ódio tornou-se contaminado com gratidão, sua força esvaía.

Mais e mais ele ponderou sobre a questão de quem iria sucedê-lo. Era uma questão de peso: Anderson fora talvez o último líder do mundo - quase rei, sem dúvida um patriarca.

Embora geralmente acreditasse no direito de primogenitura, ele se perguntou se uma diferença de apenas três meses, não poderia ser entendida como caridade em favor do filho mais novo. Recusou-se a pensar em Neil como um bastardo, e foi assim obrigado a tratar os meninos como gêmeos, de forma imparcial. Havia algo a ser dito sobre cada um deles. Neil era trabalhador, não era dado a reclamações e era forte, tinha os instintos de um líder de homens, se não possuía todas as habilidades. No entanto, ele era estúpido. Anderson não podia deixar de ver. Ele também era... assim, meio perturbado. Anderson não sabia, mas suspeitava que Greta era de alguma maneira responsável por isso. Considerando este problema, ele tendia a vê-lo obliquamente, através de um vidro baço, como nos foi dito para observar um eclipse. Ele não queria saber da verdade se assim podia ajudá-lo.
Buddy por outro lado, apesar de possuir muitas das qualidades que faltavam ao meio-irmão, não suportava ser contrariado. Ele havia provado isso quando sob a desaprovação de seu pai, tinha ido morar em Minneapolis. Quando Anderson encontrou seu filho durante a Ação de Graças, se tornou bastante claro que Buddy não teria sucesso ao ocupar seu lugar no mais alto posto.
Anderson, na passagem da puberdade precoce para a meia idade, tinha desenvolvido um horror irracional ao adultério. Ele mesmo tinha sido um adúltero, e um dos seus filhos era o fruto de tal união. Ele tinha na verdade, negado-o de imediato e acreditara em sua negação.
Durante muito tempo parecera para ele que ninguém poderia tomar seu lugar.
Por isso teria que carregar o fardo sozinho. Seus filhos haviam mostrado fraquezas de novo, Anderson sentiu o efeito disso como um aumento em suas próprias forças. Secretamente ele prosperava em suas falhas.

Então Jeremias Orville tinha entrado em cena.
Em agosto, Anderson havia sido movido por razões obscuras e que foram (agora parecia) providas por Deus para poupar o homem. Hoje ele tremia na sua visão, como Saulo deve ter tremido quando ele percebeu que o jovem Davi iria substituí-lo e seu filho Jonathan. Anderson tentou desesperadamente negar isso e proteger seu herdeiro. (Ele sempre temeu que, como aquele rei, começaria uma guerra contra o ungido do Senhor, e seria sua derrota. A crença em predestinação tinha decididamente, algumas desvantagens.)
Aos poucos ele passou a dedicar atenção para esta sua tarefa ingrata (pois, embora ele admirasse Orville, não gostava dele), na medida que sua força e propósito o abandonava. Orville, mesmo sem saber, estava matando-o.



Era noite e eles tinham mais uma vez caminhado até à exaustão. Como Anderson era o árbitro do que constituía a exaustão, ficou evidente a todos que o velho estava desgastado: como após o equinócio primaveral, cada dia era mais curto do que o dia anterior.
O velho coçou o couro cabeludo escamoso e amaldiçoou alguma coisa que ele não conseguia se lembrar exatamente o adormeceu sem pensar em contar as cabeças. Orville, Buddy e Neil fizeram a contagem.  Orville e Buddy contaram 24. Neil, de algum modo, tinha encontrado 26.

"Mas isso não é possível", disse Buddy.
Neil foi categórico: ele contara 26. "Diabos, não posso contar, por amor de Cristo?"
Desde a partida de Greta, um mês ou quase se passara. Ninguém estava mantendo o controle do tempo.  Alguns achavam ser fevereiro, outros março. A partir das expedições à superfície só sabiam que ainda que era inverno. Eles não precisavam saber mais do que isso.
Nem toda a gente seguia junto deles. Com efeito, além de Anderson, seus dois filhos e Orville, haviam apenas outros três homens. Uma equipe base permanecera para trás, já que outros como Maryann e Alice, não podiam passar o dia rastejando através das raízes. O número daqueles que julgavam incapazes crescia diariamente até que houvessem tantos viciados como antes. Anderson fingira ignorar a situação, temendo provocar algo pior.

Anderson levara os homens pela via normal, que era marcado por cordas que Maryann tinha trançado. Não era mais possível para eles encontrar seu caminho pelo fio de Ariadne das vinhas capilares, em suas explorações tinham quebrado tantas que criaram um labirinto de suas próprias explorações.
Era perto da superfície, a cerca de sessenta graus de inclinação, que se depararam com os ratos. Primeiro foi como o zumbido de uma colméia, embora de maior frequência. O pensamento dos homens foi de que os incendiários tinham finalmente conseguido descer até eles. Quando eles se aventuravam no tubérculo pelo qual o barulho estava vindo, o murmúrio elevou-se até estridente, como se uma ária sendo transmitida no volume máximo por um sistema de som ruim.
A escuridão de aparência sólida fora do alcance da lamparina vacilou e dissolveu-se para uma tonalidade mais clara, quando milhares de ratos caíram uns sobre os outros para entrar no fruto.
As paredes da passagem eram qual uma colméia de ratos.

"Ratos!" Neil exclamou. "Não disse que tinham sido os ratos que roeram o seu caminho através da raiz até lá em cima? Eu não disse, hein? Bem, aqui estão eles. Deve haver um milhões deles."
"Se não agora, logo haverá" Orville concordou. "Eu me pergunto se estão todos no mesmo tubérculo?"
"Que diferença pode fazer?" Anderson perguntou impacientemente. "Eles nos deixaram isolados, e eu não quero a companhia deles. Parecem contentes em comer a maçã maldita cristalizada, e eu estou contente em deixá-los comer. Eles podem comer toda ela, não me importo."

Sentindo que ele tinha ido longe demais, disse em um tom mais suave: "Não há nada que possamos fazer contra um exército de ratos, em qualquer caso, eu só tenho um cartucho no revólver. Não sei para o que estou guardando-o, mas eu sei que não é para um rato."
“Eu estava pensando no futuro, Sr. Anderson. Com toda essa comida disponível e sem inimigos naturais para mantê-los aqui embaixo, esses ratos multiplicariam-se sem limites. Eles não podem ameaçar a nossa alimentação agora, mas e daqui a cerca de seis meses? Daqui a um ano?"
"Antes que o verão comece, Jeremias, nós não estaremos vivendo aqui. Os ratos são bem-vindos."
"Nós ainda estaremos dependendo dela para nos alimentar. É o único alimento, a menos que queira comer ratos. Pessoalmente eu nunca gostei do sabor. E há o próximo inverno para se pensar. Com as poucas sementes que restam para o plantio, mesmo que boas, não podemos passar outro inverno. Eu não gostaria de viver assim mais do que qualquer outro, mas é uma maneira de sobreviver. A única maneira no momento."
"Ah, isso é um monte de besteira!" Disse Neil em apoio ao pai.
Anderson parecia cansado, e a lamparina que estava segurando, a fim de examinar as perfurações da parede da passagem, baixou.
"Você está certo Jeremias. Como de costume". Seus lábios se curvaram em um sorriso de raiva, e ele balançou o pé descalço (sapatos eram demasiado preciosos para serem desperdiçados aqui), sobre um dos buracos de rato do qual dois olhos brilhantes estavam olhando fixamente para cima, examinando os examinadores.
"Bastardos" gritou. "Filhos da puta!"
Houve um guincho e uma bola de gordura peluda fez um grande arco para longe do alcance da luz do lampião. O lamento, que havia ficado um pouco mais silencioso, subiu em volume reagindo a Anderson.
Orville colocou a mão no ombro do velho. Seu corpo inteiro estava tremendo de raiva impotente.
"Senhor..." Orville disse. "Por favor".
"O bastardo me mordeu!" Reclamou Anderson.
"Não podemos nos dar ao luxo de assustá-los agora. Nossa melhor chance é..."
"Quase arrancou meu dedo do pé!" disse ele, inclinando-se para sentir a lesão. "O bastardo".
"Temos que contê-los aqui. Bloquear todas as passagens para fora desse tubérculo. Senão..."
Orville encolheu os ombros. A alternativa era clara.
"Então como vamos sair?" Neil opôs presunçosamente.
"Ah, cala a boca Neil!" Anderson disse cansado. "Com o quê?" perguntou para Orville. "Não temos nada que um rato faminto não consiga mastigar abrindo caminho em minutos."
“Temos um machado. Podemos enfraquecer as paredes das raízes, para que entrem em colapso. A pressão nessa profundidade é tremenda. Deve ser dura como o ferro, mas se pudermos raspar o suficiente nos pontos certos, a própria terra bloqueiaria as passagens. Os ratos não podem mastigar seu caminho através de basalto. Há o perigo da caverna ceder, mas acho que não vai. Um engenheiro de minas tem geralmente que evitar desabamentos, mas é um bom treino produzi-los."
"Eu vou deixar você tentar. Buddy, volte e pegue o machado e qualquer outra coisa com uma borda de corte. E mande aqueles viciados aqui em cima. Neil e o resto de vocês, espalhem-se para cada uma das entradas do tubérculo e façam o que puder para manter os ratos dentro. Eles não parecem muito ansiosos para sair, mas quando as paredes começarem a desmoronar-se... Jeremias, você vem comigo e me mostre o que quer que eu faça. Eu não entendo porque a coisa toda não vai cair sobre nossas cabeças malditas...Deus!"
"O que é?"
"Meu dedo do pé! O rato maldito arrancou um pedaço. Bem, vamos mostrar a estes bastardos!"

O extermínio dos ratos conseguiu alguma coisa. Orville atacou a primeira raiz até o ponto onde se escapava para fora, para tornar-se a casca dura dos frutos. Trabalhava muitas horas, raspando fatias finas de madeira, observando qualquer sinal de estresse que lhe daria a oportunidade de fuga, raspava um pouco mais, observava. Quando veio abaixo, não houve aviso. De repente, Orville estava no meio do trovão. Ele foi arremessado de volta para o corredor.
O tubérculo inteiro desabara sobre si mesmo.

Os homens vigilantes em outras entradas não relataram nenhum rato que escapasse, mas não tinha sido sem uma fatalidade: um homem, depois de seu almoço (Anderson insistira em que só comessem três vezes ao dia, e depois com moderação), entrara no tubérculo para pegar um punhado de polpa de frutas, exatamente no momento errado. Ele, a polpa da fruta e alguns poucos milhares de ratos seriam  transformados em um ritmo lento, geológico, em petróleo.
Uma parede de basalto nivelara com perfeição euclidiana bloqueando cada uma das entradas para o tubérculo, que tinham descido de forma rápida como uma guilhotina.
Anderson, que não estivera presente para testemunhar o evento (logo após Orville ter começado seu trabalho, ele teve  outro desmaio; vinham com maior frequência nos últimos tempos), ficou incrédulo quando lhe foi reportado. A explicação posterior de Orville não o convenceu.

"O que é Buckminster não-sei-o que tem a ver com isso? Faço uma pergunta simples, e ganho uma aula sobre cúpulas."
"É apenas uma suposição. As paredes do tubérculo tem que suportar uma pressão incrível. Buckminster Fuller foi um arquiteto, um engenheiro, se preferir, que construiu coisas que faziam exatamente isso. Ele projetou os esqueletos, você poderia dizer. Projetou-os de modo que, se a parte menor for enfraquecida, o corpo todo cede. Como quando você remove a pedra angular de um arco, exceto que todos eram peças fundamentais."
"Esta é uma boa hora para aprender sobre Buckminster Fuller, quando um homem foi morto."
"O senhor me desculpe. Compreendo que era minha responsabilidade. Eu deveria ter dado mais atenção ao assunto antes de agir."
"Isso não ajuda em nada agora. Vá procurar Alice e traga-a aqui. Eu estou com febre e a mordida do rato  dói mais a cada minuto."
É sua responsabilidade mesmo! Anderson pensou quando Orville se foi.
Bem, seria a sua responsabilidade em breve. Ele poderia convocar uma assembleia enquanto ainda tinha o seu juízo e anunciá-lo de fato. Mas isso equivaleria a sua própria abdicação. Não, ele ia dar tempo ao tempo.

Enquanto isso teve uma nova idéia, uma forma de legitimar Orville como seu herdeiro: Orville seria seu filho, seu filho mais velho, por meio de casamento. Mas recusou-se esta ideia também. Flor ainda era tão jovem, pouco mais que uma criança. Apenas alguns meses atrás, ele tinha visto ela com as outras crianças brincando no chão da Sala comum. Casamento? Ele iria conversar com Alice Nemerov sobre isso. Uma mulher sempre sabia melhor sobre esses as coisas. Anderson e Alice eram os sobreviventes de mais idade. Esse fato e a morte da esposa de Anderson, forçou-os a ter confiança um no outro.
Enquanto esperava por ela, ele massageou o seu dedo mínimo. Agora que estava dormente, a dor era proveniente do resto do pé.




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