sábado, 6 de agosto de 2011

Alien





"No espaço ninguém pode ouvir você gritar."


Alien originalmente foi desenvolvido como uma ideia para o filme de pós-graduação de Dan O'Bannon, em meados dos anos 70.

O'Bannon, um americano entusiasta dos gêneros ficção científica e horror, tinha trabalhado após a faculdade (USC), com seu colega John Carpenter, no que seria, simultaneamente, o pior filme de maior sucesso já lançado nos cinemas - Dark Star.

Dark Star, um precursor de Alien, trazia um grupo de astronautas lutando para permanecerem vivos a bordo de uma nave espacial controlada por uma criatura alienígena bastante desagradável, mas em última análise, era ainda uma visão bastante tímida. Depois da escola de cinema, Bannon procurou o amigo e produtor Ronald Shusett para obter ajuda. Juntos concretizaram o conceito de O'Bannon e partiram na busca de produtores em Hollywood.

Eventualmente, a equipe de produção definiu-se com Walter Hill, David Giler e Gordon Carroll, que reescreveriam nova versão do script original. O que eles trouxeram para o roteiro, não obstante, foi o peso de Hollywood que tanto O'Bannon quanto Shusett não possuíam.

O filme ainda não conseguira uma luz verde e o roteiro foi sendo alterado e re-escrito quase diariamente.

Um grande obstáculo foi o fato de o filme não ter um diretor. Ninguém queria tocá-lo. Naturalmente, nesta fase inicial, o filme era visto como nada mais que um filme 'B' nos  moldes do desastroso Dark Star de Carpenter. A ficção científica na década de 70 era trajes espaciais brancos, cenários futuristas, coisa de  revistas em quadrinhos. Não havia uma audiência em larga escala e ninguém ia colocar um orçamento de um filme de primeira linha em um filme sem valor, nada mais do que um filme de monstro barato. 

Então George Lucas lançou Star Wars(Guerra nas Estrelas) e tudo mudou.

A ficção científica não era mais vulgar, na verdade, poderia ser o gênero mais lucrativo desde o início do cinema. Giler e Hill, depois de ter vendido o conceito de Alien para a 20th Century Fox no início do ano, receberam um telefonema da Fox, dizendo que um filme ambientado no espaço devia ser adicionado ao
calendário de lançamentos em 1979, e eles tinham apenas um filme que caberia no orçamento.

Alien, com um orçamento duas vezes maior que o inicial, recebeu o sinal verde.




O filme conta a história de sete astronautas do reboque espacial Nostromo que são despertados do hiper-sono, quando sua nave espacial descobre um sinal de socorro de um planetóide próximo.
Ao investigarem a fonte do sinal (que inicialmente se parece com um SOS) descobrem uma espaçonave alienígena abandonada.

Sir Arthur Conan Doyle disse uma vez que "sem imaginação não há horror."

Para um filme de horror dar certo é necessário que o espectador baixe a guarda.
É uma resposta natural do ser humano se defender contra o que é inerentemente assustador.
É por isso que o horror penetra mais facilmente na psique. Nossa capacidade de suspender a nossa descrença é uma escolha adulta. Filmes de horror são mais eficazes para pessoas com maior imaginação e que se permitem 'ver' o monstro atrás da porta.




Tom Skerritt, que interpreta Dallas, diz que "Alien joga com os medos que surgem de pesadelos."

Certamente que sim. Alien parece um pesadelo, nos sentimos como em um pesadelo, e soa como um pesadelo. É ao mesmo tempo um exame fascinante dos medos humanos básicos, um horrorizante filme de horror multicamadas, extremamente bem feito.




Parte do sucesso do filme é a arte conceitual de H.R. Giger. Ele foi trazido para o projeto para realizar a concepção da criatura alienígena. Também desenhou o interior da nave alienígena e do "space jockey" encontrado morto pela tripulação do Nostromo.

A ideia do pesadelo visualizado na tela é mais clara na obra de Giger, dirigida pela paranóia freudiana e que parece quase como uma convergência entre homem e máquina. Suas visões atravessam a ponte entre o real e o irreal. De fato, quando Dan O'Bannon encontrou pela primeira vez Giger, o surrealista ofereceu-lhe um pedaço de papel alumínio com ópio. O'Bannon perguntou por que ele tomava a droga e Giger respondeu que era para escapar de suas visões. O'Bannon então respondeu: "Mas isso é apenas sua mente." A que Giger respondeu: "É disso que eu tenho medo."





Essa ideia é estendida por Ridley Scott, que não foi a primeira escolha para o filme, abertamente desprezado por vários diretores. Mas sua obra é marcada em grande parte, por uma sensibilidade visual extrema.

Ele não estava interessado em atores. Scott acredita que bons atores não precisam de muita orientação ou motivação, e se ele pudesse contar com sete atores experientes para Alien, ele poderia se concentrar no jogo, na direção de arte e na fotografia. Quando o script foi finalizado, fez o storyboard de todo o filme, cena por cena. Ele desenhou a nave espacial velha e decrépita, utilizando a ideia de que "esses caras eram caminhoneiros do espaço".

Scott construiu sets em tamanho real e fez a nave espacial a partir de interiores de velhos aviões e destroços industriais, remontados e pintados. Isso emprestou ao filme uma sensação de familiaridade. Esta não era uma nave futurista com paredes brancas brilhantes e hologramas flutuantes. Estava gasta e tinha uma tendência a se decompor, e a tripulação tinha coisas melhores a fazer e não tinha tempo para limpar suas superfícies.
 

Ponte de controle do Nostromo


Em essência, era autêntica. Scott acentuou o mesmo em outras partes do filme, como na autópsia feita por Ash do face-hugger. Scott usou peixes e uma ostra para mostrar o interior da criatura. Era estranho e desconfortável, mas também familiar e decididamente autêntico. O que a autenticidade fez foi tornar a nossa suspensão da descrença mais fácil de digerir, pois muito do que estávamos vendo sentíamos como sendo a realidade.


Interior da nave de escape Narcissus


Isso fez o horror mais palpável, já que o fantástico não estava apoiado pela fantasia, mas pela realidade. A cenografia também emprestou uma carga enorme de claustrofobia ao filme. Não apenas com seus corredores sem fim e espaços fechados, mas também através da performances dos atores. Scott construiu um labirinto e freqüentemente a equipe de produção se perdia nele. As paredes eram manobráveis, mas uma vez você estava lá dentro parecia sem saída. Isso funcionou bem para o diretor assim como alguns de seus atores, que na verdade sofrem de claustrofobia. Eles não estavam atuando somente.

O fato de Scott também fazer a nave parecer quase orgânica tornou-o ainda mais instigante. Às vezes, nós o público, e por extensão os personagens, não sabemos se estamos olhando para uma caixa ou a cabeça do Alien.

Não foi surpresa que Scott fez alusão a um dos filmes de horror mais autênticos de todos os tempos - The Texas Chainsaw Massacre (O massacre da serra elétrica).

"Eu ia fazer The Texas Chainsaw Massacre da ficção científica", disse ele na época. Scott também foi influenciado por Star wars (Guerra nas estrelas) de George Lucas e 2001 (2001: Uma Odisséia no Espaço) de Stanley Kubrick. Você pode ver Lucas nas cenas do exterior do navio, como também olhando para a nave passando por cima. Há também a influência da Star Wars na tecnologia utilizada, a instrumentação complicada e o uso de computadores.

2001 de Kubrick influenciou Scott de outras formas, em grande parte, a seriedade raramente empregada na ficção científica na época. Filmes ambientados no espaço  geralmente eram feitos com um senso de humor vulgar. Alien leva-se muito a sério, não vemos adolescentes gritando.



É claro que a maior influência de 2001 em Alien é o uso do onisciente computador semelhante a um Deus e que controla a nave espacial. Como HAL em 2001, Alien tem a Mãe - um sistema computadorizado de bordo.


  
Mãe, como HAL, é uma metáfora do autoritarismo. Em ambos os filmes os personagens humanos têm, muito justamente, um  sentimento de desconfiança para com esta entidade todo-poderosa.
O computador como personagem seria visto de muitas formas ao longo da década de 1980.

É o elemento desumano da ciência-ficção que se pode ver no gênero desde Metropolis e as séries do cinema americano dos anos 1930. Em essência, o computador desumano  - mais tarde visto como o ciborgue e um robô (Robocop e O Exterminador do Futuro) - nos fala mais sobre a nossa humanidade.

Mãe é o controlador dos investimentos da Companhia. São a autoridade não confiável, a ala comercial da operação que detém o lucro e o poder acima da vida humana.  Quando a tripulação da Nostromo descobre que seus superiores na Terra os enviaram para a nave alienígena para obter ganhos políticos e militares, eles descobrem que Mãe  vem escondendo um segredo este tempo todo. Através de Ash - um robô trabalhando em conluio com a Mãe - lhes é dito que preservação do Alien é a principal prioridade, e que eles são 'dispensáveis'.




O que vemos é que os personagens humanos por todo o filme, lutam uma batalha perdida contra tudo o que não é humano. O vilão óbvio é o Alien em si, o vilão sutil é o  computador de bordo e o robô, ninguém da tripulação sabia que era uma máquina (um exemplo metafórico da paranóia da Guerra Fria e a ameaça de guerra nuclear), o vilão oculto e o animal corporativo pagando seus salários. Este é o tipo de trama que faz Alien tão interessante e assustador.

As apresentações dos personagens são quase secundárias. Isso não é uma crítica. Scott contratou sete atores achando que não exigiria muito da direção, porque ele queria que as pessoas dessem a sua profundidade aos personagens que talvez não estivesse lá no script. O'Bannon propositadamente deixou de fora porque ele queria ficar perto da ação  fazendo o enredo fluir.

Talvez o mais importante, ele pensou que ao dirigir o filme poderia acrescentar alguma coisa que precisasse na sala de corte. De fato, Sigourney Weaver - a heroína da série Alien - tem seu desempenho mais tímido de qualquer um dos filmes da franquia . Funciona bem para o personagem Ripley, porque ela não é afetada pelo monstro, no início ela é jovem e idealista, depois ela está com medo e sozinha. Mesmo se o seu forte desempenho só veio na seqüência de James Cameron e no terceiro filme de David Fincher, sua transição a partir da arrogante oficial do espaço, para a vítima é um feita com sutileza e elegância.

As feministas, é claro, diriam que Ripley nunca foi uma vítima. Há uma cena perto do final do filme em que Sigourney Weaver, supostamente derrota o Alien e tira a roupa em preparação para o hiper-sono. Isso é uma inspiração freudiana diriam as escritoras feministas, de seu retorno à feminilidade. Ela mostra a sua forma feminina ao despir-se da masculinidade usada para derrotar o Alien.





Alien e suas seqüências têm estado sempre sob o olhar microscópico da psicanálise e com razão. A criatura alienígena em si é vista como um símbolo fálico, o face-hugger  alter-ego estuprando sua incubadora humana. A arte conceitual Giger é inundada com imagens sexuais e Scott, junto com seus colegas diretores em toda a série Alien, abraçaram estas propostas. Por exemplo o robô Ash é visto como tendo desejos sexuais para Ripley quando enrola uma revista pornô e a insere em sua boca. O ato lança sua  própria frustração sexual através da revista tomando o lugar da parte do corpo que ele não possui.

O papel de Ripley, que era originalmente um personagem masculino, se torna um símbolo em si mesmo, o herói do filme é pela primeira vez uma mulher. Pode-se argumentar, no entanto, que Ripley em sua camisa suja e calças, não é mais feminina do que os personagens masculinos que a rodeiam. Mesmo quando ela as retira no final do filme para voltar a um traje espacial de gênero não-específico, a fim de finalmente derrotar o alienígena. No entanto, enquanto a representação da sexualidade e gênero pode ser interpretada de diferentes maneiras, a ideologia diferencia o filme de qualquer outro visto antes, abrindo caminho para um novo tipo de herói.

O filme teve um efeito duradouro no público e na indústria. Quando foi lançado pela primeira vez, foi amplamente elogiado até mesmo por críticos que não estavam no momento interessados pela ficção científica. Seu impacto imediato foi o de revitalizar o gênero, inspirando muitos bons filmes e algumas imitações não tão boas, tais como The Alien Dead, Contamination, e uma seqüência não autorizada italiana chamada Alien 2, e porcarias como Inseminoid e Xtro.

É claro, o impacto mais notável no cinema foi a franquia, James Cameron e David Fincher fizeram duas continuações fantásticas para Alien, enquanto um quarto filme  não foi tão bem sucedido. Todos estrelados por Sigourney Weaver como Ripley, com sua personagem evoluindo através dos filmes.

Mais recentemente, outro personagem alienígena, de outra franquia (Predator) foi trazido para uma nova franquia de filmes com Alien Versus Predator. Estes filmes não incluem o personagem de Ripley, pois acontece antes dos eventos do primeiro filme Alien.

Alien ainda é tão amado hoje como era na primeira versão. Novas audiências continuam a encontrar prazer no filme de Ridley Scott, embora nunca o público de mais idade se canse de ver as repetições.
Em retrospecto, o filme foi analisado e celebrado por todas as facetas da indústria do cinema e da mídia, permanecendo no ranking das top listas, incluindo chegando em sétimo lugar na lista de filmes de ficção científica do American Film Instituter.




Alien (Ridley Scott, USA, 1979)
Direção de Ridley Scott; roteiro de Dan O'Bannon; estrelando Sigourney Weaver, John Hurt, Ian Holm, Tom Skerritt, Veronica Cartwright, Harry Dean Stanton e Yaphet Kotto

Roteiro final de Alien (1979) [ Download ]


Texto adaptado a partir do original de Daniel Stephens