domingo, 7 de agosto de 2011

Dirigindo Alien através dos olhos de um artista


Ridley Scott nasceu em South Shields (Inglaterra) em 30 de Novembro de 1937 em um lar predominantemente de educação militar. Seu pai era da Royal Engineer e o seu irmão alistou-se na Marinha. Após formar-se em 1963 em design gráfico, candidatou-se a um trabalho como estagiário de set designer na BBC. Posteriormente, ganharia reconhecimento trabalhando em comerciais para a TV.



Dirigindo Alien através dos olhos de um artista - STARLOG 26 - Setembro de 1979

Apesar de Alien ser apenas o segundo filme de Ridley Scott, ele o incluiu em uma rara linhagem de diretores.

Embora haja alguma controvérsia sobre o conteúdo, a palavra usada pelos críticos na maioria das vezes, para descrever o visual do filme é: Esplêndido!

Vinte e tantos anos atrás, Scott era um jovem com uma inclinação artística e nenhuma idéia clara do que fazer com isso.

"Fui ao Royal College of Art em Londres" diz ele "mas naquela época o departamento de cinema consistia de um armário de aço com uma câmera Bolex dentro e um livro de instruções. Não havia sequer uma classe. Decidi por desig e no meio do caminho eu pensei que eu poderia fazer um filme."

Usando a 16 milímetros Bolex, começou a trabalhar no que hoje é considerado seu filme de estudante.

"Ele se chamou 'Boy on a Bicycle' (Garoto na bicicleta). Meu irmão era o carregador do equipamento principal e ator, e meu pai estava lá interpretando um louco cego. O Instituto Britânico de Cinema viu o trabalho em andamento e me deu um pouco mais de dinheiro. Eu, então, concluí o filme que custou 250 libras."

O filme foi usado para ingressar em um curso de design para TV.

"Uma vez que você tenha feito um filme, é fatal. Você não quer fazer mais nada. Mas levou algum tempo. Dezoito anos depois, eu estava finalmente autorizado a dirigir algo. Eu estou falando sério."

Após o seu emprego na BBC, em grande parte trabalhando em videotape, Scott abriu sua própria agência para fazer comerciais, em última análise mais filmes. Isso o levou ao seu primeiro longa, 'The Duelists' (Os Duelistas), e Alien (Alien, o oitavo passageiro).

"Alien surgiu repentinamente da (20th Century) Fox. Eu acho que tinha sido recusado por cerca de seis diretores. Eu não sabia por que eles recusaram. Foi azar deles ou talvez eles simplesmente não captaram os elementos que pessoalmente me atraíram. Eu fui nocauteado pela simplicidade, a energia e a história. O suspense simplesmente pulava para fora da página. Achei muito puro.”

"É estranho ouvir que foi meu conceito visual que tornou o filme interessante. Nunca se deve subestimar a qualidade desse script. Hill, Giger, O'Bannon, Shusett  (Walter Hill, co-produtor; HR Giger, artista conceitual, Dan O'Bannon e Ron Shusett,  roteiristas) tinham trabalhado na caracterização o suficiente para fazer todos os personagens interessantes, o que eu acho incomum em muitos thrillers, onde os personagens são secundários. A caracterização foi nas atitudes, na escolha espartana da linguagem e sobre o que falavam. Como a primeira conversa depois de acordar, é sobre as ações da empresa. Pareceu-me algo muito natural, muito humano".

Mas naquele momento, Scott estava trabalhando em outro projeto, uma visão pós-holocausto da história de Tristão e Isolda, e teve que engavetar Alien. Ele assumiu que não o faria. Isso em Novembro de 1977.

"Perto do Natal eu tive um grande problema com a coisa de Tristão. O escritor saiu e eu pensei:... Tenho que fazer algo, tenho que fazer um filme. Então chamei a Fox e perguntei o que tinha acontecido com o script de Alien. Eles disseram que nada estava acontecendo com ele, e eu disse que gostaria de fazê-lo. E cerca de duas semanas mais tarde eu estava em Los Angeles.”

"Na época o orçamento era algo como US$ 4,5 milhões. Eu estava muito ciente de que não poderia fazê-lo só com isso. Houve um período preliminar de cerca de um mês ou seis semanas durante as quais, tivemos de pensar em um novo orçamento."

Os Storyboards de Alien

Durante este curto período de tempo Scott pegou o roteiro e desenhou storyboards para cada seqüência do filme.







"Eu me senti obrigado a fazer os storyboards, coisa de artista-diretor. Isso foi antes de qualquer um dos vários artistas que mais tarde viriam a contribuir para o conceito visual do filme."


Storyboard para uma cena não filmada, do enterro de Kane no espaço.



Storyboard de uma cena não filmada, entre Dallas e Ripley no domo do Nostromo.



"Nós inicialmente dissemos à Fox que queríamos US$ 13 milhões, e eles quase morreram. Então voltamos com os storyboards e pedimos US$ 9,5 milhões. E dissemos que seriam 17 semanas de filmagem. O que foi totalmente contestado. Negociamos e finalmente chegamos a US$ 8,5 milhões e 13 semanas. Aliás, acabou levando 16 semanas, o que estava mais próximo da minha estimativa original.”

“Nós escorregamos um pouco durante as primeiras três semanas de filmagens."

Uma vez que dinheiro e tempo foram resolvidos, a fase seguinte envolveu a reunião de um número incomum de artistas e diretores de arte.

"O maior problema, é claro, foi: Como o Alien vai parecer, quero dizer, você pode estragar dois anos tentando chegar a algo que não seja só garras, ou como uma bolha enorme, sabe? Quando fui para Fox para a primeira reunião, tinha um livro lá de HR Giger, o Necronomicon. Eu dei uma olhada e eu nunca estive tão certo de alguma coisa na minha vida. Eu estava convencido de que teria que tê-lo no filme.”


Experimentos com um Alien semi-transparente.


"Outro ilustrador que vinha trabalhando em Alien nos Estados Unidos antes foi Ron Cobb. Gostei muito das coisas que ele tinha feito. Mas seus desenhos eram muito agradáveis, bem conceituais, eram um pouco NASA demais, não eram do futuro distante, eram também parecidos com 2001 (2001, uma odisséia no espaço). Mas Ron tinha boa técnica para este tipo de material, e eu sabia que iria precisar dele. Então ele veio junto com a gente.”

"Eu era fascinado por vários ilustradores franceses, um em particular, Jean Giraud, conhecido como Moebius. Pensei, meu Deus, eu vou pegar todos esses grandes ilustradores!"

O traje espacial desenhado por Moebius


Para Alien havia toda uma equipe, antes da produção, em um vasto departamento operacional de arte em Londres.

"Só então eu contratei o designer de produção, um inglês chamado Mike Seymour."

Esse departamento de arte incomum, resultou em uma divisão do trabalho.

 "Como o filme envolve três aspectos: o  planeta, o Alien e a nave, decidimos que cada um desses elementos deveria ter um designer próprio. Giger trabalhou principalmente no Alien e no planeta; Cobb no Nostromo, e Moebius nos trajes espaciais. Era uma batalha constante, na verdade, para esticar o orçamento. Havia cortes de script e ficamos obrigados a fazê-lo, para caber no orçamento."


Criador e criatura, HR Giger e seu Alien.

O principal corte envolvia a remoção de toda uma cena e os efeitos especiais, passada no planeta alienígena.

"No roteiro original existe esta pirâmide. Na verdade, era para ser mais como um silo. Uma enorme estrutura arquitetônica, como uma colméia, em favo de mel. Quando pousam para investigar a transmissão alienígena, eles encontram a primeira nave abandonada com a tripulação alienígena morta, mas não o Alien . Precisava de uma cena com um escaneamento. Então um deles descobre com o uso de um scanner esta superfície estranha. Eles investigam e só então descobrem a colméia. Eles descem e é aí que eles encontram os ovos originalmente. O que fizemos foi combinar as duas cenas, colocando os ovos a bordo da nave abandonada."

As fases de pré-produção foram milagrosamente realizadas em apenas quatro meses.

"Foi um ano complicado! Estávamos viajando muito e tentando envolver as melhores pessoas, para iniciarmos em 05 de julho [de 1978]. Apesar de tudo o que estava acontecendo, ficou claro que precisaríamos de alguns mecanismos bastante sofisticados para o Alien, para isso trouxemos Carlo Rambaldi, apenas para a pele dos dentes. Ele ficou um período limitado e deixou um cara maravilhoso conosco, Carlo de Marcis, que então refinou e aperfeiçoou os mecanismos de Rambaldi."


Carlo Rambaldi e HR Giger


Quando 05 de julho chegou, a coisa de fato começou um pouco lenta.

"Nós tivemos um grande problema pois só tínhamos cinco palcos de filmagem. Star Wars (Guerra nas Estrelas)  tinha treze! Isso significa que você não pode filmar em seqüência. Nós tínhamos que fazer certo da primeira vez. Havia um exército de ajudantes com martelos que vinha e pregava a maldita coisa no lugar e imediatamente depois nós entravamos. Realmente era um exército!"

Para complicar ainda mais as coisas, o departamento de miniaturas de Brian Johnson estava em um estúdio diferente.

"Isso nunca é uma boa idéia - estar separado da ação. Não para mim pelo menos, porque gosto de estar envolvido em tudo o que está acontecendo. Brian estava fora fazendo as miniaturas, enquanto eu estava trabalhando com Nickie Allder nos efeitos no chão do set."


Ridley no set com a maquete do Nostromo



"Não foi nada fácil. Tivemos, por exemplo, discussões intermináveis sobre a altura de teto, especialmente com Gordon Carroll [co-produtor] que tem quase dois metros de altura e eu pareço mais ter um metro e meio. Nós entravamos dentro destes corredores com Gordon dizendo: 'Acho que temos um grande problema aqui, Ridley. Esses tetos são muito baixos’ Tentei explicar que queríamos criar uma sensação de claustrofobia. Cada etapa do trabalho tinha que ser justificada em minha própria mente ou para outras pessoas. Absolutamente tudo."


A "cena da cozinha"

John Hurt descansa antes da filmagem


Scott gostou de fazer Alien, porém, a morte de Kane (John Hurt) foi a cena que mais lhe deu prazer. A chamada "cena da cozinha" ou "a cena com o Chestburster", em que o alienígena surge de dentro para fora através da caixa torácica de Kane.

(o Alien recebe nomes diferentes para as várias fases: egg, face-hugger, chestburster e big chap)

"Não era fisicamente possível para Giger fazer todas as etapas do Alien; simplesmente não havia tempo Mas ele tinha feito alguns desenhos específicos dos quatro estágios, trabalhando de trás para frente... ele projetou big chap primeiro, e depois se perguntava como seria uma versão bebê dele. Giger fez big cap e egg (ovo), mas não a coisa que vem do ovo, apenas o ovo."


Giger pintando os ovos


"Finalmente escolheram um cara chamado Roger Dicken, um inglês que trabalhava com efeitos especiais, especificamente como construtor de modelos, para trabalhar noface-hugger e no Chestburster, o bebê, por assim dizer. Nós trabalhamos durante semanas no bebê. Eu sabia que não queria algo com inchaços e verrugas e garras."


Roger Dicken


"Acho que nunca me assustei realmente com filmes de terror, e também não consigo ser convencido por um monte de filmes de ficção científica, especificamente por causa dos efeitos. Então sabia que tinha que ser bom, este bebê. Nós decidimos que a coisa em forma de embrião, teria a cabeça inclinada para baixo, ou seja, inclinada para trás. Nós inclinamos para trás, porque pareceria mais obscena assim, mais de réptil, mais fálica."

"Mecanicamente foi muito simples. Era praticamente um marionete, vestido como uma luva.”

"Os atores viviam querendo vê-lo, mas eu não deixei. Eles nunca viram nada até que nós estávamos filmando. O que você vê no filme é a surpresa de verdade e o horror!"






"Nós filmamos a cena até um ponto, os atores saíram, nós aprontamos tudo, eles entraram novamente e a cena iniciou novamente de onde a gente estava,  até o ponto do frenesi que era necessário. E bingo! As reações dos atores foram realmente extraordinárias.”






"Mantive também os atores afastados quanto a morte de Brett. Ensaiei o ator, Harry Dean Stanton, sem ter o Alien lá, apenas falando de forma abstrata em cima das marcas de giz no chão usadas para marcar a posição."

Tipicamente, um diretor trabalha em estreita colaboração com o câmera, dá uma ou duas espiadelas através da lente de vez em quando, e fica ao lado do câmera durante as filmagens. Mas não Ridley Scott.

"Eu faço todo o trabalho de câmera. É por isso que raramente uso mais de uma câmera. Normalmente há apenas uma posição de luz ou do olhar ou o ângulo de filmagem . Eu acho que é mais rápido se eu utilizar a câmara, mais rápido para obter os detalhes exatos que quero, para obter o detalhe que está na minha cabeça."








Scott também é essencialmente seu editor.

"Muitas vezes há algo muito tênue que o diretor tem que decidir rápido, especialmente se você estiver operando a câmera também. Quero dizer, você pode deixar de fora um par de elementos dentro de uma cena, não sabendo se vai usá-los, mas há um instinto sobre eles quando se trata de edição."





O processo de edição foi constante e passou por toda a filmagem.

"Quando fechamos a filmagem, estávamos próximos da data de inicio da edição. Eu fui capaz de mostrar uma cena do filme para a Fox, oito dias depois de terminar de filmar. Toda vez que mostrávamos para a Fox, durante as filmagens, tínhamos que suar para passar um resultado mais sofisticado, até com o uso de faixas de música de mentira.”

Mas esse corte, oito dias depois, estava longe de ser um filme pronto para lançamento.

“Os modelos ainda estavam sendo filmados nos estúdios Bray, e houveram numerosos close-ups, efeitos especiais, etc, a serem filmados e acrescentados. Então levamos tudo para Bray e começamos realmente a colocar os efeitos especiais. Eu nunca tinha feito um trabalho com miniaturas antes, e eu queria muito estar envolvido nele. Nós filmamos também nossas inserções em Bray. Tivemos que fazê-lo dessa maneira, infelizmente. Por exemplo, quando a mão de Ripley está sobre o botão de destruição da Nostromo, é realmente a mão de Ripley, mas filmado cinco meses depois. Eu sei que é o procedimento padrão, fazer inserções desse jeito, mas é de morrer ter que voltar a isso. Como a coisa do ovo. Tudo foi feito mais tarde em Bray, todos os closes. O processo de re-integrar à psicologia da cena, é o que há de tão terrível nisso. Você começa a se preparar para fazer uma cena em particular de tal maneira, e sabe que o efeito especial é a chave para sua atuação, então você vê todas as filmagens antigas e re-integra-se de novo, quando acaba fazendo o resto."


Agora Alien está terminado. As dores de cabeça acabaram e Ridley Scott - artista de storyboard, cãmera, editor e diretor - vê um Alien que é, em muitos aspectos, melhordo que a versão que ele tinha em sua mente, antes do verdadeiro trabalho começar.

"Mas há sempre coisas que você deseja poder ter feio melhor, ou diferente. Como a cena do scanner que ficou de fora.”

Qual é o próximo?

"Estou lendo agora feito louco, há meses. E limitei agora para cerca de quatro projetos. Estou procurando outro filme de fantasia/ficção científica. Não o próximo necessariamente, mas no futuro. Gosto muito de trabalhar com efeitos especiais. Adoro isso. É o diretor de arte saindo de dentro de mim novamente."