sábado, 13 de agosto de 2011

O Oitavo Passageiro - Alan Dean Foster (Parte 1)




 Sete sonhadores.


Cumpre entender que não eram sonhadores profissionais. Sonhadores profissionais são gente muito bem paga, muito respeitada — e requisitada também. Como a maior parte de nós, esses sete sonhavam sem esforço ou disciplina. Sonhar profissionalmente, de modo a que os sonhos que se tenham possam ser, depois, gravados e tocados para o divertimento alheio, é coisa infinitamente mais trabalhosa. Exige uma certa habilidade para regular os impulsos criativos semiconscientes e para estratificar a imaginação — uma combinação muito difícil de obter. Um sonhador profissional é, ao mesmo tempo, o mais organizado e o mais espontâneo dos artistas. Um ágil tecedor de sutis especulações e não um pobre diabo sem rodeios nem circunlóquios como o leitor ou eu, ou esses sete sonhadores a que já me referi.

De todos, Ripley era a que mais se aproximava, pelo menos potencialmente, do desejado profissionalismo. Tinha aquele pequeno talento inato de sonhar e muito mais flexibilidade de imaginação que os demais. Faltava-lhe apenas a inspiração verdadeira e a maturidade de pensamento que são as características do sonhador profissional.
Era muito boa para organizar suprimentos, para guardar a caixa A no depósito B, para conferir relatórios de carga. Era no armazém da sua própria cabeça que o sistema de fichamento e catalogação se desarranjava. Esperanças e temores, especulações e invenções ainda informes flutuavam a esmo de um compartimento para outro.
Faltava, talvez, autodomínio à oficial de segurança Ripley. Os pensamentos crus, embaralhados, jaziam quase à flor do consciente à espera de serem drenados. Um pouco mais de esforço, um pouco mais de intensidade no conhecimento (ou na aceitação?) de si mesma, e ela seria uma excelente sonhadora profissional. Ou pelo menos era o que pensava, ocasionalmente.

Já o capitão Dallas, malgrado sua aparência letárgica, era o mais bem organizado do grupo. Também não lhe faltava imaginação. Sua barba era prova disso. Ninguém entrava de barba nos congeladores. Só Dallas. A barba fazia parte da sua personalidade, como explicou a mais de um curioso da tripulação. Ser-lhe-ia tão impossível separar-se dela, desses velhos pêlos já antigos na sua cara, quanto de qualquer parte da própria anatomia. Comandava duas naves: o rebocador espacial Nostromo, e seu corpo. E ambos deviam permanecer intactos no sonho e na vigília.
Tinha, então, grande capacidade administrativa e imaginação módica. Mas a um sonhador profissional não basta um mínimo de imaginação nem se pode compensar uma deficiência dessas com uma desproporção da outra qualidade. Dallas não era muito melhor que Ripley como matéria-prima para um sonhador profissional.

Kane era menos controlado em pensamento e ação do que Dallas, e tinha menos imaginação ainda do que ele. Muito menos. Mas como oficial executivo era perfeito. Só não se devia esperar que chegasse a capitão. Isso exige uma certa ambição e o dom de dar ordens aos outros, qualidades com que Kane não fora agraciado. Seus sonhos eram vagas sombras translúcidas e informes, se comparados aos de Dallas. Assim como o próprio Kane era uma cópia mais magra e menos vibrante do seu capitão. O que de nenhum modo o fazia menos estimável. Sonhar profissionalmente requer uma certa energia extra, e Kane mal tinha o bastante para viver o dia-a-dia.

Os sonhos de Parker não eram agressivos. Mas eram, sem dúvida, menos líricos que os de Kane. E tinham pouca imaginação. Eram por demais especializados e muito raramente tratavam de coisas humanas. Mas não seria isso de esperar num maquinista de nave? Eram diretos e, ocasionalmente, feios. Na vigília, a imundície que jazia enterrada no fundo raramente vinha à tona. Só quando o engenheiro se irritava. Bem escondido ficava muito da vasa e da vileza que fermentavam no fundo da cisterna. Seus colegas nunca viam mais que o destilado Parker que boiava à tona, e jamais vislumbravam sequer o que fervia e borbulhava embaixo.

Lambert era mais de inspirar sonhadores que de sonhar. Em hipersono, sua mente povoava-se de intrigas internas do sistema e problemas de cargas que não se podiam transportar por considerações relativas a combustível. De quando em vez a imaginação penetrava essas inocentes estruturas de sonho, mas nunca de modo a excitar ninguém.
Parker e Brett muitas vezes imaginavam seus sistemas conspirando com o de Lambert. Consideravam a questão dos fatores de carga e justaposições espaciais de um modo que teria enfurecido Lambert se ela tivesse conhecimento disso. Tais considerações não autorizadas eles guardavam para si mesmos, bem trancadas nos seus sonhos diurnos e noturnos, pois do contrário ela se zangaria. E não convinha irritar Lambert. Como navegadora do Nostromo, era a principal responsável por levá-los a todos de volta com segurança, e isso era a coisa mais excitante e mais desejável que alguém possa imaginar.

Brett figurava como simples técnico de máquinas. O que era apenas um modo elaborado de dizer que tinha tanta argúcia e conhecimentos quanto Parker, mas que lhe faltava antigüidade. Os dois homens formavam uma dupla curiosa, desiguais e até opostos a um observador externo. E, no entanto, não só coexistiam pacificamente, como também funcionavam juntos à perfeição. Grande parte de seu sucesso, tanto como amigos quanto como colegas de trabalho, devia-se ao fato de Brett jamais invadir o campo mental de Parker. O técnico era tão solene e fleumático de aparência e de maneira de falar quanto Parker era volúvel e volátil. Parker era capaz de discorrer horas a fio sobre a falha de um micro-circuito, excomungando a peça desde a sua origem, desde o malfadado solo de onde haviam sido extraídas as terras raras de que se compunha. Brett limitava-se a comentar, lacônico:
— Certo.
Para Brett, essa simples palavra constituía muito mais que uma opinião. Era uma afirmação de existência. Para ele, o silêncio era a mais limpa das formas de comunicação. Na loquacidade reside a insanidade.

E havia também Ash. Ash era o oficial de ciência, mas não era isso que tornava seus sonhos engraçados. Engraçados até certo ponto, ou de uma graça peculiar. Seus sonhos eram os mais profissionalmente organizados da tripulação. Deles todos, os seus sonhos eram os que mais se aproximavam da sua realidade quando acordado. Os sonhos de Ash não continham ilusão ou burla.
O que não seria surpresa para alguém que deveras o conhecesse. Seus seis companheiros de tripulação, no entanto, pouco ou nada sabiam dele. Ash, porém, conhecia a si mesmo, e bem. Poderia dar, se alguém as exigisse, as razões pelas quais jamais seria um sonhador profissional. Mas não ocorreu a ninguém perguntar-lhe isso. Embora fosse visível que o oficial de ciência encarava com mais fascínio que os outros o fato de sonhar profissionalmente.

E havia ainda o gato da casa, ou melhor, da nave. Um gato doméstico, igual a qualquer outro, que atendia pelo nome de Jones. Jones era um gato grande de pêlo amarelo, incerta linhagem e ar independente, acostumado, de há muito, às incertezas das viagens espaciais e às idiossincrasias dos humanos que navegam por entre as estrelas. Ele também dormia o sono frio, e sonhava lá seus pequenos sonhos. Sonhava com lugares quentes e escuros e com ratos sujeitos à gravidade.  
De todos os sonhadores de bordo, só ele era um sonhador satisfeito — embora não pudesse ser tido na conta de um inocente.

Era vergonhoso que nenhum deles tivesse qualificações como profissional, uma vez que todos dispunham de mais tempo para sonhar no curso do seu trabalho que uma dúzia de profissionais, e isso a despeito de terem diminuído o ritmo do seu sonho pelo sono frio. A necessidade fizera do sonho o seu principal passatempo. Uma tripulação destinada ao espaço exterior nada mais pode fazer nos congeladores que dormir e sonhar. E mesmo que seus membros fiquem para sempre amadores, serão pelo menos amadores competentes.

Esses eram sete. Sete sonhadores tranqüilos à cata de um pesadelo.

Embora tivesse uma espécie de consciência, o próprio Nostromo não sonhava. Não precisava fazê-lo, assim como não precisava do efeito de conservação dos congeladores. Se sonhava, eram elucubrações fugitivas e breves, pois, afinal de contas, não dormia. Trabalhava e sustentava e dava ao seu complemento de humanos em estado de hibernação a segurança de estarem um passo adiante da morte, ameaça sempre presente a rastrear o sono frio, como um grande e plúmbeo tubarão na esteira de um navio.
A evidência da incessante vigilância mecânica do Nostromo era sensível por toda parte na silenciosa nave, no zumbido igual das máquinas, por exemplo, ou nas luzes que eram como que o hálito de vida da sensibilidade instrumental Permeava a própria matéria de que era feita a nave, estendia censores para verificar cada circuito, cada escora. Tinha censores do lado de fora também, a controlar o pulso do cosmos. Tais censores haviam detectado uma anomalia eletromagnética.

Uma porção do cérebro do Nostromo era especialmente apta a descobrir o sentido de anomalias. Essa porção provou o que lhe parecia atípico, não gostou do que encontrou, e tendo examinado os resultados da análise, tomou uma decisão drástica. Instrumentos inativos foram postos a funcionar, circuitos desligados se puseram de novo a regular o fluxo de elétrons. E como que para celebrar a decisão, luzes piscaram em série como sinais de uma respiração mecânica vital e emocionante.

Um sinal muito claro de alarme, repetido a intervalos regulares, se fez então ouvir, embora no momento só houvesse tímpanos artificiais para registrá-lo e levá-lo em conta. Era um som que de há muito não se ouvia no Nostromo, e significava um acontecimento insólito.

No centro desse imenso frasco de estalidos e piscar de luzes, de instrumentos que conversavam uns com os outros, havia um recinto muito especial. Dentro dele, que era todo em metal branco, jaziam sete casulos brancos como neve e feitos de metal e matéria-plástica.

Um novo ruído permeou essa câmara, uma exalação explosiva que a encheu toda num instante de uma atmosfera fresca e respirável. Os humanos se tinham posto gostosamente nessa posição, confiando em pequenos deuses de lata, como o Nostromo, para fornecer-lhes o sopro vital quando incapazes de procurá-lo por si mesmos.

Antenas daquele ser eletrônico e semi-sensível provavam agora o ar recém-expelido pelas máquinas e atestavam ser ele satisfatório para manter a vida de pobres seres orgânicos como os homens. Lâmpadas adicionais piscaram aqui e ali, novos circuitos se fecharam. Sem fanfarra, as tampas das sete crisálidas se abriram, e as formas larvares que nelas se encontravam começaram a emergir para a luz.

Vistos assim, fora dos seus sonhos, os sete membros da tripulação do Nostromo faziam ainda menor impressão do que mergulhados no hipersono. Primeiro, estavam pingando de molhados do fluido empregado no criossono, e que enchera e cercara seus corpos. Por analéptico que fosse aquele lodo, era lodo, e o lodo jamais é bonito. Segundo, estavam nus em pêlo, e o líquido era um pobre substituto para essas peles artificiais que tão bem moldam as formas, e que se chamam roupas.

— Jesus! — murmurou Lambert limpando com nojo seus ombros e flancos. — Que frio! Disse e saiu do seu estranho esquife, que guardava a vida em vez de guardar a morte. Remexeu, em seguida, num compartimento. E com a toalha que de lá retirou, pôs-se a enxugar o transparente licor das suas pernas.
— Por que diabo a Mãe não pode aquecer a nave antes de nos tirar do depósito?
Ocupava-se, agora, dos pés, tentando lembrar-se de onde deixara suas roupas.
— Você sabe muito bem por quê — disse Parker, por demais ocupado com seu próprio corpo melado para contemplar a navegadora despida.
— Política da Companhia. Poupança de energia, mesquinharia e avareza da Companhia. Por que despender combustível para aquecer a seção dos congeladores antes do último minuto? Depois, faz sempre frio quando a gente emerge do hipersono. Você sabe que o congelador abaixa também a temperatura interna da gente.
— Sim, eu sei. Mas faz um frio danado — resmungou ela, ciente de que Parker tinha razão, mas relutante em admiti-la. Ela não gostava muito do engenheiro, jamais tinha gostado.
"Para o diabo com a Mãe", pensou, sentindo a pele arrepiada dos antebraços. "Vamos produzir algum calor!"
Dallas esfregava-se vigorosamente com uma toalha, retirando a seco o resto da gelatina criossônica, e procurando não olhar para aquilo que os outros não podiam ver.
Ele próprio o notara, mesmo antes de sair do caixão. A nave cuidara que isso acontecesse. — Nós nos aqueceremos logo, trabalhando.
Lambert resmungou alguma coisa ininteligível.
— Todos para as suas estações respectivas. Imagino que tenham em mente que somos pagos para isso. E não só para esquecer os próprios aborrecimentos dormindo.
Ninguém sorriu ou importou-se em responder. Parker olhou para o outro lado da câmara, onde seu parceiro acabava de sentar-se no seu congelador.
— Bom dia, Brett. Ainda está por aí?
— Hum.
— Que sorte a nossa!
Essa observação viera de Ripley. Ela se espreguiçou, fazendo-o muito mais decorativamente que os demais.
— É bom saber que continua tão tagarela como de hábito.

Brett limitou-se a sorrir. Era tão falador quanto as máquinas de que se encarregava, quer dizer, mudo. E isso era motivo de pilhéria naquela família, de sete membros. Riam-se com ele, na verdade; não dele.
Dallas torcia o corpo para um lado e outro, com os cotovelos paralelos ao piso, as mãos juntas à altura do osso externo. Julgava ouvir seus músculos estalarem.
A luz amarela, que piscava e repiscava, tão eloqüente como uma voz, monopolizava seus pensamentos. Aquele diabólico olho de ciclope, redondo e brilhante como um sol, era a maneira que tinha a nave de dizer-lhes que haviam sido despertados do seu torpor por algo diverso do fim da viagem. Preocupava-se com o que pudesse ser.
Ash sentou-se e lançou em roda um olhar sem expressão.
Pela animação do rosto, poderia estar ainda mergulhado no hipersono.

— Estou morto! Observava Kane. O oficial executivo bocejava, ainda sonolento. Para Ash, ele gostava do hipersono, e passaria com prazer a vida inteira como um narcoléptico, se assim deixassem.
Como Parker não sabia dessas opiniões de Kane, olhou para ele e disse amavelmente:
— E realmente parece morto.
Sabia que seu próprio aspecto não podia ser melhor. O hipersono cansa a pele tanto quanto os músculos. Sua atenção voltou-se, depois para o caixão-de-defunto de Kane.
O executivo, afinal, sentava-se.
— É bom estar de volta — disse. E ficou a piscar os olhos, ofuscado.
— Ninguém diria, pelo tempo que você leva para acordar.
Kane pareceu magoado.
— É uma calúnia, Parker. Sou um pouco mais lento que vocês, só isso.
— Hum.
O engenheiro não quis insistir. Voltou-se para o capitão, que parecia absorto no estudo de alguma coisa que ele não podia ver de onde estava.
— Antes que a gente atraque, talvez seja bom rever a situação dos bônus.
Brett deu sinais de entusiasmo, os primeiros desde que despertara.
— Sim, sim.
Parker continuou, calçando as botas:
— Brett e eu julgamos merecer uma cota inteira. Bônus completos por uma viagem bem-sucedida, mais salário e juros.
Pelo menos o sono profundo não alterara a sua tripulação — pensou Dallas. Acabavam de despertar e já se queixavam.
— Vocês dois receberão o que consta dos seus respectivos contratos. Como todo mundo.
— Todos ganham mais que nós — disse Brett com voz neutra.

Para ele isso representava discurso dos mais palavrosos. Não produziu qualquer efeito sobre o capitão. Dallas não tinha tempo, no momento, para trivialidades ou meias brincadeiras. Aquela luz pisca-pisca exigia dele toda atenção, e comandava seus pensamentos a ponto de excluir tudo o mais.

— Todos merecem mais que vocês dois. Queixem-se ao tesoureiro da Companhia, se o desejarem. Agora, para baixo.
— Queixem-se à Companhia — resmungava Parker, desconsolado, enquanto olhava Brett sair do esquife e começar a secar as pernas. — É o mesmo que queixar-se diretamente a Deus.
— Exatamente o mesmo.

Brett verificava uma luz mais fraca no seu compartimento congelador. Só meio consciente, nu, pingando fluido, já trabalhava. Era dessa espécie de gente que anda dias seguidos com uma perna quebrada, mas não pode suportar uma latrina defeituosa.
Dallas dirigiu-se à sala do computador central e disse por cima do ombro:
— Alguém vá apanhar o gato.
Foi Ripley quem retirou uma forma inerte e amarelada de um dos congeladores.
Tinha uma expressão infeliz.
— Não precisa fazer pouco caso — disse, acariciando o animal ensopado. — Isto não é uma peça de equipamento. Jones é membro da tripulação tanto quanto nós.
— Mais até do que alguns.
Dallas olhava para Parker e Brett, agora inteiramente vestidos, e que se afastavam rumo à direção da sala de engenharia.
— Ele não enche as minhas poucas horas acordado com reclamações sobre salário ou bônus.

Ripley saiu levando o gato, que envolvera numa grossa toalha seca. Jones ronronava de maneira incerta, Lambendo-se com grande dignidade. Não era a primeira vez que saía de um hipersono. Tolerava, por isso mesmo, a ignomínia de ser carregado.
Dallas acabara de enxugar-se. Tocava agora uma série de botões na base do seu casulo. Uma gaveta deslizou silenciosamente para fora, sobre mancais quase sem fricção. Continha roupas e alguns objetos de uso pessoal.
Enquanto se vestia, Ash foi ter com ele e disse em voz baixa, enquanto o outro aprontava sua camisa limpa:

— Mãe quer falar com você.
Falou num murmúrio, e fez um gesto de cabeça em direção à luz amarela que continuava a piscar no console suspenso perto deles.
— Eu vi logo que acordei — disse Dallas enfiando os braços na camisa. — Amarelo-forte. Segurança e não advertência. Não diga nada aos outros. Se a coisa for mesma grave, não tardarão a sabê-lo.
Meteu-se num paletó castanho, não passado, e deixou-o aberto.
— Não pode ser tão ruim assim, tenha que origem tiver...
Ash parecia animado, e apontou de novo para a luz que piscava:
— Afinal é apenas amarela, e não vermelha.
Dallas não mostrava nada de um otimista:
— Eu teria preferido acordar com uma bela luz verde...
Deu de ombros, porém. E tentou parecer tão esperançoso quanto Ash:
— Talvez seja apenas o cozinheiro automático, o que pode ser bom para nós, considerando o que ele chama de comida!

Procurou sorrir, mas sem êxito. O Nostromo não era humano. Não pregava peças à sua tripulação, e não os teria arrancado ao hipersono com uma luz amarela de aviso sem uma excelente razão. Um cozinheiro automático com defeito não seria considerado por ele motivo grave.

Afinal, depois de meses sem fazer nada senão dormir, ele não tinha o direito de reclamar se lhe exigiam agora umas poucas horas de honesto suor...
A sala do computador central diferia pouco das outras destinadas à vigília a bordo do Nostromo. Um caleidoscópio de luzes e de painéis, de mostradores e instrumentos dava a impressão de um país mirífico habitado por uma dúzia pelo menos de árvores de Natal, todas bêbadas.

Instalando-se numa poltrona bem acolchoada, Dallas passou a considerar a situação. Como deveria proceder? Ash ocupou o assento fronteiro ao Banco de Memória, e manipulou os necessários controles com maior velocidade e perícia do que seriam de esperar num homem há pouco arrancado ao hipersono. A habilidade do oficial de ciências em manipular maquinaria era sabidamente inigualável.
E isso era coisa que Dallas sempre lhe invejara. Ainda estonteado com os efeitos retardados do hipersono, apertou os botões de uma consulta inicial.
Desenhos distorcidos surgiram na tela, perseguindo-se uns aos outros, acomodaram-se para formar palavras decifráveis.
Dallas conferiu a formulação e verificou que era standard.

ALERTA FUNÇÃO DE SUPERCONTROLE, PARA EXPOSIÇÃO E PERGUNTAS MATRIZ

A nave também julgava a coisa aceitável, e a resposta da Mãe imediata.

SUPERCONTROLE DIRIGIR-SE À MATRIZ.

Colunas de informações alinhavam-se para inspeção abaixo dessa concisa legenda.
Dallas examinou a longa lista em tipo miúdo, localizou a seção que desejava e imprimiu:

COMANDO ALERTA PRIORITÁRIO FUNÇÃO DE SUPERCONTROLE PRONTA PARA CONSULTA — respondeu a Mãe.

Memórias de computador não são programadas para verbosidade. A Mãe não era exceção à regra. O que para Dallas estava muito bem. Ele também não queria falar muito. Datilografou, sucintamente:

QUAL É A HISTÓRIA, MÃE?

E esperou...




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