terça-feira, 27 de dezembro de 2011

A Internet e as Bibliotecas na Ficção Científica - 2/5

No seu artigo “Bibliotecas na ficção científica” (Libraries in Science Fiction), o catedrático americano James Gunn dá alguns exemplos de bibliotecas fantásticas que encontramos na literatura de FC e discute o surgimento de uma “biblioteca total” que permite o acesso a toda e qualquer informação já catalogada (o artigo foi escrito antes do surgimento da Internet.)

BIBLIOTECAS NA FICÇÃO CIENTÍFICA

O que é uma biblioteca? A sala ou um edifício, uma coleção de livros? A coleção em si?
Ou é a informação organizada de alguma forma acessível?

Uma das técnicas ao se escrever ficção científica é analisar os conceitos e, em seguida, sintetizar novas combinações e por vezes conceber ideias surpreendentes, diferentes da matéria básica.

Um escritor de ficção científica pode definir uma biblioteca como uma coleção de dados organizados para que as informações possam ser identificadas e obtidas de forma rápida e útil. Por esta definição, a primeira biblioteca foi o cérebro humano. Foi o suficiente durante muitos séculos, e ainda é a fonte de informações com que a maioria conta, mas tem certas falhas: sua capacidade incerta, perda ou alteração durante o armazenamento, e problemas de acesso. Estas dificuldades acabaram por levar à escrita e em seguida, à coleção de escritos.




Em “Universe” (1941), Robert A. Heinlein especula sobre um mundo contido dentro de uma nave espacial. A finalidade e a natureza de sua jornada entre as estrelas foi esquecida por conta de uma revolução ocorrida gerações passadas. As pessoas perderam a capacidade de ler e a substituíram por propósitos práticos, como o armazenamento de informações em suas cabeças. Testemunhas, como os cantores antigos, lembram-se de fatos e de seu modo de vida, colocando-os em versos rimados. Talvez essa parte da história sugira que o cérebro é uma biblioteca não confiável, porque temos a escrita como uma fonte mais confiável e não precisamos nos lembrar. Mas ainda precisamos de uma verificação externa sobre nossa intuição e sabedoria, o que chamamos de ciência, se estamos nos comportando racionalmente; isto é, se estamos funcionando efetivamente no mundo real. Esse tipo de verificação ocorre quando Hugh Hoyland fica conhecendo a sala de controle central e as estrelas, e percebe pela primeira vez que a nave não é o universo, e que a viagem é real e não uma metáfora.




Em “The Cerebral Library” (1931) de David H. Keller, os leitores são reunidos para ler um livro por dia e depois de cinco anos eles são mortos e seus cérebros são colocados em um frasco para fornecer o acesso imediato a tudo que foi lido. Os bibliotecários daquela época tinham que lidar com problemas mais sérios do que o roubo, vandalismo, orçamentos inadequados e os baixos salários.

“Fahrenheit 451” (1953) de Ray Bradbury, por outro lado, nos mostra uma sociedade futura na qual os livros foram queimados e alguns rebeldes memorizaram seus textos favoritos para que não fossem perdidos.

Keller, que foi um psicólogo em um hospital mental na maior parte de sua carreira profissional, transformou sua experiência em ficção, também fornecendo um olhar para o outro lado da vida do bibliotecário. Em “The Eternal Conflict” (1949), o bibliotecário Henry Cecil é levado de volta no tempo para atuar como bibliotecário de uma biblioteca dos sonhos. Ela contém todos os livros míticos das lendas, incluindo os livros que os escritores planejavam escrever, mas nunca concluíram.




H.P. Lovecraft, com “The Shadow Out of Time”, (1936) ofereceu um cenário em que as consciências dos estudiosos de todas as eras foram trazidas para uma antiga biblioteca alienígena para escrever manuscritos para a coleção. Como uma ajuda para tal tarefa, eram autorizadas a examinar livros proibidos e lendários.

Em “The Hobbyist” (1947) de Eric Frank Russell, viajantes espaciais chegam a um planeta distante para encontrar um repositório imenso que se estende por quilômetros com todo tipo de informações e materiais catalogados. O bibliotecário, um alienígena chamado pelos astronautas de “O Criador” faz réplicas deles para sua biblioteca para, em seguida, deixá-los ir embora.



 
A principal história sobre bibliotecas, contudo, deve ser “A Biblioteca de Babel” (1956) de Jorge Luis Borges, em que todo o universo é uma biblioteca, uma galeria hexagonal após o outra. O problema é que não há um catálogo. Não há ainda nenhum livro decifrável. Todas as combinações possíveis de letras são impressas nos livros, mas nenhum deles faz sentido – ou, se faz sentido, ainda não foi encontrado.


Um bibliotecário assume-se como bibliotecário e viajante em busca de um sentido e explica a “natureza informe e caótica de quase todos os livros”, “livros impenetráveis” que correspondem a  línguas diversas, numa intertextualidade com o texto bíblico. Logo a partir do título o leitor é convidado a estabelecer um paralelismo com o relato bíblico da “Torre de Babel”  (capítulo onze do livro do Gênesis). O elemento comum é a multiplicidade de línguas. Na narrativa bíblica os homens falavam uma só língua, tentando fixar-se e construir uma cidade e uma torre, cuja  extremidade alcançaria o céu de modo a simbolizar a união dos homens. Mas Deus desaprovou esta iniciativa, e temendo que os homens se tornassem mais poderosos e fortes, instaurou a confusão através do surgimento de muitas línguas: “Por isso, lhe foi dado o nome de Babel, visto ter sido lá que o Senhor confundiu a linguagem de todos os habitantes da terra, e foi também dali que o Senhor os dispersou por toda a terra.” (Gn 11,9)