sexta-feira, 30 de dezembro de 2011

A Internet e as Bibliotecas na Ficção Científica - 5/5



Como serão os bibliotecários do futuro? Bem, eles podem ser como todo mundo, como você e eu, trabalhando em um mundo com mais informação e maneiras melhores de se lidar com isso. Ou podem ser programas de computador. Os cientistas sugerem que não há nenhuma razão para não poder existir programas que encontrem a informação onde quer que seja armazenado, para examiná-la quanto as necessidades e desejos do usuário, e correlacioná-la com outras informações para fazer novas e úteis sínteses.



 
Esses programas podem até mesmo possuir personalidades agradáveis, para que sejam mais “amigáveis" (user friendly). Frederik Pohl, em seu romance “Gateway” (1977) imagina um programa de computador psiquiátrico chamado Sigfrid von Shrink e mais tarde na Saga “Heechee” (1980, 1984, 1987) um programa que tem a aparência, personalidade e o nome de Einstein.




Em "Snow Crash" (1992) de Neal Stephenson, um mundo totalmente dependente dos computadores está um caos devido a um vírus de computador chamado Snow Crash. O herói, em determinado momento, procura a ajuda de um Bibliotecário, um programa de computador personificado como "um senhor agradável, em seus cinquenta anos, de barba grisalha e com olhos azuis brilhantes, vestindo um suéter grosso de lã com decote em V sobre uma camisa de trabalho".

Ele é o bibliotecário ideal, fornecendo informações sobre tudo imaginável e fazendo conexões. Ele é auto-programado, mas foi originalmente escrito por "um pesquisador da Biblioteca do Congresso que aprendeu sozinho a programar". O herói (chamado Hiro, aliás) acrescenta: "Assim, ele era uma espécie de meta-bibliotecário."

O que alguns escritores apresentam como um perigo futuro é o computador inteligente, a inteligência artificial que desencadeia suas próprias prioridades, como o Colossus de D.F. Jones e AM de Harlan Ellison. O computador em busca de sua própria identidade ou perseguindo seus próprios fins é uma das principais preocupações do ciberpunk e um par de Inteligências Artificiais estão por trás da ação de “Neuromancer”, de Gibson.

Tais perigos são vistos em muitos outros romances contemporâneos, em várias das obras recentes de Greg Bear, por exemplo, “Blood Music” (1985), “The Forge of God” (1987) e sua sequência “Anvil of Stars” (1992), e “Queen of Angels” (1990).

Mas as mais poderosas I.A.s imaginadas são de Vernor Vinge em “A Fire Upon the Deep”, onde programas de software sencientes vagam pela galáxia até que se cansam de interações humanas e retiram-se para o espaço vazio entre as galáxias.

Estas visões de futuro em que as bibliotecas são ainda mais importantes para a sociedade do que são hoje e bibliotecários podem ser programas de computador, oferecem uma dica do que está por vir para todos nós - aqueles que reunirão informações, aqueles que as consumirão, e aqueles que dela serão os guardiões e os taxonomistas (Taxonomia é o ramo da Biologia e da Botânica que cuida de descrever, identificar/classificar os seres vivos, animais e vegetais. Também é a parte da gramática que trata de classificação das palavras.)

Apenas a superfície do que será este futuro tem sido arranhada por escritores de ficção científica e só alguns poucos exemplos foram citados aqui; a mente do escritor de ficção científica, afinal, está preocupada com a escrita, o entretenimento, e não em prever o futuro. No processo de entretenimento, no entanto, o escritor de ficção científica tem a chance de nos fazer imaginar mais dramaticamente a natureza dos problemas que enfrentaremos.

John W. Campbell, disse em 1953 que "toda ficção são sonhos escritos. Ficção científica consiste em esperanças, sonhos e medos (sonhos ou pesadelos) de uma sociedade tecnológica."

Ele também disse que a ficção científica nos permite praticar em uma área não-prática.

Nenhuma das visões citadas aqui é suscetível de se tornar realidade, assim como foram imaginados, ou mesmo substancialmente como foram imaginadas. Mas vamos encontrar computadores - ou aquilo para o qual o computador evoluirá e para o qual nós ainda não temos um nome - mais envolvidos em reunir e distribuir informação.

Todo o processo ineficiente de publicação com seus erros de cálculo, superprodução, subprodução e desperdício, será revolucionado por algum empreendimento, talvez um método de produzir livros por computador, talvez automaticamente gravados em circuitos que possam ser lidos como um livro.

“Friday”, o romance de Heinlein, descreve a leitura de um livro de papel virando as páginas no computador sem removê-lo do seu ambiente de nitrogênio. Mack Reynolds, em várias histórias em um futuro próximo, descreve a criação de obras de arte de todos os tipos que são colocadas em um computador central e pagos por alguém que deseja tê-los reproduzidos em um terminal caseiro.

Isaac Asimov, em um discurso para a Associação de Livreiros Americanos em 1989, tinha uma palavra de conforto para os tradicionalistas entre nós. Ele fez uma defesa apaixonada da sobrevivência do livro, quando pediu para seu público imaginar um dispositivo que "poderá ir a qualquer lugar, ser totalmente portátil... Algo que possa ser iniciado e interrompido à vontade [e] não necessitar de energia elétrica para operar".

Este dispositivo de sonho, é claro, é o livro.

"Ele nunca vai ser ultrapassado porque representa o mínimo de tecnologia com o máximo de interação que você pode ter."

Mas, na minha imaginação, eu vejo uma máquina-livro. Parece com um livro e vira páginas como um livro ou parece fazê-lo, mas as informações são exibidas nas páginas, juntamente com informações que podem ser expandidas ou ilustradas à vontade, e um tipo de cassete ou chip pode ser inserido a qualquer momento. Ou, ainda mais flexível, os usuários podem aproveitar da rede de informações que permeará nossas vidas futuras como as ondas de rádio e televisão permeiam hoje.




Para demonstrar que as visões têm uma maneira própria de realizar-se - o processo vai da visão para a ficção e daí até a realidade - Ben Bova, em 1989, produziu um romance em quadrinhos chamado "Cyberbooks" no qual ele descreve a invenção de um livro eletrônico: uma máquina do tamanho de livro que seria vendida por cerca de 200 dólares em que os leitores inseriam fichas que custavam apenas alguns centavos.

A graça gira em torno da invenção e os problemas em ser aceito e colocado em produção por causa das dificuldades que iria criar, não apenas para os bibliotecários, mas ainda mais para os editores, distribuidores e a indústria madeireira. Mas será que vai acontecer? Com a visão à 2/3 do caminho para a realização, exceto por um declínio catastrófico no nosso nível tecnológico, o livro eletrônico é inevitável.

Onde neste quadro estará o escritor, o acadêmico, o professor, o bibliotecário?

Isso cabe a nós imaginar. Se pudermos imaginá-lo com sucesso, este é o trabalho para todos que desejam ser o mestre da mudança, ao invés da vítima, estaremos realizando uma função essencial e obtendo uma enorme satisfação ao fazê-lo.


A missão da ficção científica é a de nos ajudar a imaginar melhor.


James Edwin Gunn (nascido em 1923 em Kansas City), escritor ganhador de diversos prêmios (Hugo, Grande Mestre pela SFFWA) , com destaque também como editor, antologista e estudioso do gênero é diretor fundador do Centro de Estudos de FC da Universidade do Kansas, EUA
Adaptado do original Libraries in Science Fiction de James Gunn http://www2.ku.edu/~sfcenter/

Bibliotecas digitais e suas utopias - Luis Fernando Sayão