quinta-feira, 29 de dezembro de 2011

A Internet e as Bibliotecas na Ficção Científica - 4/5



Em “Twilight” de John Campbell, a espécie humana em declínio perdeu sua característica mais humana, a curiosidade, e seus viajantes do tempo programam uma máquina que irá produzir uma máquina curiosa. Como conseqüência, os leitores percebem no final da história que, embora a humanidade possa morrer, ao menos naquilo que é definitivamente humano, a curiosidade, ela vai continuar.



 
Mas em muitas histórias, como “Colossus” (1966) de D.F. Jones (filmado em 1970 como "Colossus: The Forbin Project”), o computador assume o controle e destrói a liberdade humana. Lançado um ano antes, o filme “2001: Uma Odisséia no Espaço” fornece a ameaça arquetípica do computador que enlouquece antes de um dos tripulantes o lobotomizar.

O perigo do dispositivo de armazenamento e manipulador de dados que chamamos de computador pode ser melhor resumido em um conto de 1954 de Fredric Brown intitulado “Answer”. Será que existe uma massa crítica para a consciência?
Um computador com tantas ligações quanto o cérebro tem sinapses, os cientistas nos dizem, seria tão grande como uma cidade ou um quarteirão, ou algo assim. Quantas ligações são necessárias para criar consciência? Os computadores de Brown estão ligados entre galáxias e é feita a pergunta que por tanto tempo tem afligido a humanidade:

[Dwan Ev cerimoniosamente soldou a ligação final com ouro. Os olhos de uma dúzia de câmeras de televisão o assistiram e o sub-éter em todo o universo foi invadido pelas fotos do que ele estava fazendo.
Ele endireitou-se e acenou para Dwar Reyn, em seguida, mudou-se para uma posição ao lado do interruptor que completaria o contato. O interuptor que conectaria de uma só vez, todas as monstruosas máquinas de computação de todos os planetas povoados no universo – 96 bilhões de planetas - o supercircuito que conectaria todos em uma supercalculatora, uma máquina cibernética que combinava todo o conhecimento de todas as galáxias.
Dwar Reyn , depois de um momento de silêncio, disse: "Agora, Dwar Ev!"
Dwar Ev acionou o interruptor. Houve um zumbido forte, o aumento do poder de 96 bilhões de planetas.
Luzes piscavam ao longo do painel de quilômetros de comprimento.
Dwar Ev recuou e respirou fundo.
"A honra de fazer a primeira pergunta é sua, Dwar Reyn".
"Obrigado", disse Dwar Reyn. "Deve ser uma pergunta que nenhuma máquina cibernética foi capaz de responder."
Ele virou o rosto para a máquina.
"Existe um Deus?"
A poderosa voz respondeu sem hesitação, sem o clique de um único relé:
"Sim, agora há um Deus."
Um medo súbito brilhou no rosto de Dwar Ev. Ele saltou para alcançar o interruptor.
Um raio do céu sem nuvens o acertou e derreteu o interruptor.]


Por outro lado - há sempre outro ponto de vista - Isaac Asimov fez uma pergunta diferente para seu computador em seu conto de 1956, “The Last Question”: "Pode a entropia ser revertida?" Isto é, pode ser feito algo sobre a morte térmica do universo que, eventualmente, deve significar o fim de toda a vida? "Informação insuficiente", o computador responde, mas continua a quebra-cabeça sobre a questão, enquanto o universo ruma para sua temperatura de equilíbrio perto do zero absoluto, até que Ele diga, finalmente, "Que a luz se faça!"

O computador toma, e o computador dá.

No quinto volume de seu “Childe Cycle, The Final Encyclopedia” (1984) Gordon R. Dickson imagina uma compilação definitiva de informação, cuja força de vontade é capaz até mesmo de romper o tecido do espaço-tempo.




Mais próximo de nossa própria experiência, Heinlein descreveu em “Friday” (1982), as alegrias da rede de computadores de informação que certamente nos espera. A rede de computador, como Heinlein chamou, permitirá que pessoas, a partir de qualquer terminal doméstico, penetrem em um fabuloso armazenador de informação, capaz de conduzir o pesquisador curioso por um caminho intrigante após o outro e ainda chegar a surpreendentes e reveladoras correlações. Se você quer saber como a biblioteca do futuro pode ser, está tudo lá, na capacidade inigualável de Heinlein para fazer o futuro parecer real e imediato, no capítulo XXII.

Como observa Heinlein através da narração de sua heroína androide: "Depois que os dados de qualquer tipo chegam na rede (net), o tempo é congelado."




Mais próximo ainda da nossa realidade está o mundo ciberpunk criado por William Gibson em “Neuromancer” (1983). O tipo de computador todo-poderoso que descreve é um pouco menos crível no futuro próximo do que as corporações internacionais que co-existem no mundo do ciberpunk, mas a representação do jóquei de computador que literalmente se pluga no ciberespaço não fica muito longe do que sabemos sobre hackers de hoje.

“Islands in the Net” de Bruce Sterling, que ganhou o prêmio John W.Campbell de 1989 como melhor romance de ficção científica, pode pertencer à tradição ciberpunk por conta de seu foco sobre o  realinhamento do poder causado pela explosão da informação e corporações internacionais, mas falta-lhe o carimbo punk de desprezar os valores tradicionais. Talvez por essa razão seu retrato de um mundo oscilando à beira de um precipício possa ser mais relevante.

Atitudes passam com a moda, mas as condições são alteradas apenas pela tecnologia.

Tecnologia é o que nós recebemos quando aplicamos o conhecimento a problemas práticos.

Neste futuro próximo de Sterling, a dependência da informação e a capacidade de indivíduos ou de pequenos grupos de operarem à margem da sociedade tecnológica trouxe de volta as possibilidades da pirataria. No jogo, na competição entre os piratas, toda a estrutura da civilização pode se desintegrar. A rede que ele descreve é a rede mundial de Heinlein, um passo além no acesso eletrônico instantâneo e relatórios, e as ilhas são os lugares que se nutrem da net mas não a alimentam.

Vonda N. McIntyre, em seu romance de 1989, “Starfares”, leva o conceito de acesso à rede eletrônica a um tipo de coexistência mental que expande a capacidade do cérebro humano para abranger a memória do computador. Estas experiências também podem ser gravadas, para mais tarde dar forma a um novo tipo de arte viva.

McIntyre e alguns outros escritores sugerem, mas não descrevem, o papel do bibliotecário nesse mundo da informação em rede: Alguém tem que recolher, avaliar, armazenar e gerenciar informações, que todo mundo irá acessar. (*)

(*nota do tradutor: Gunn não concebe a ideia da coletividade como um 'mecanismo vivo' auto-nutrido e por si só regulatório, coisa que aceitamos com extrema naturalidade atualmente.)

Se tudo é realizado por computador, então consumidores de informação nesse mundo futuro podem acabar como o pirata de dados de Lem em "Sixth Sally", enterrados sob as informação que são verdadeiras mas irrelevantes.




Poul Anderson sugeriu um dos perigos desse tipo de sociedade em seu romance de 1953, “Sam Hall”: A sociedade informatizada é de certa forma uma sociedade altamente controlada (como a União Soviética descobriu, é quase impossível conter a disseminação da informação). Anderson sugeriu que um dos perigos é um programador de computador inserir informações enganosas, neste caso, sobre um rebelde mítico chamado Sam Hall.

Como sabemos que a informação na rede é confiável? (*)

(*nota do tradutor: novas modalidades de produção e difusão de conhecimentos e o surgimento de conceitos como a cultura livre, a inteligência coletiva, o hipertexto cooperativo, implicam em novos regimes de autoria. Apesar do temor justificado, um estudo qualitativo recente da revista Nature em relação a Wikipedia acabou por defini-la tão fiável quanto a conceituada Enciclopédia Britânica. Spranger, 2006)