sábado, 17 de dezembro de 2011

O Oitavo Passageiro (parte 19)







X


Estudava o oxigênio remanescente pela última vez, rezando para que algum milagre tivesse acrescentado um zero ao número implacável registrado no mostrador. Enquanto olhava, o último número dígito piscou e mudou passando de 9 para 8. Houve um estrondo na porta e ele deu um salto. Mas eram apenas Parker e Brett.

Parker pôs no chão uma braçada de tubos. Cada um tinha duas vezes o diâmetro de um polegar. Fizeram um som cavo e metálico, e parecia tudo menos armas. Brett, todo satisfeito consigo mesmo, trazia a rede. Estava, aliás, embrulhado nela e teve de soltar-se.
— Aí tem o material. Foi tudo testado e tudo está pronto.
Dallas inclinou a cabeça.
— Vou chamar os outros.
Deu o toque de reunir para a ponte e, enquanto esperava o resto da tripulação, examinou a coleção com olho crítico.
Ash foi o último a chegar. Sua estação era mais longe que as outras.

— Vamos atacar aquele ser com isso? — disse Lambert apontando para os tubos. Seu tom não deixava dúvida sobre o desprezo que sentia pelo arsenal.
— Temos que dar a vocês uma oportunidade, Lambert, de provar o que valem. Cada um apanhe um — disse Dallas. Puseram-se em fila e Brett distribuiu as unidades. Cada uma tinha um metro e meio de comprimento. Uma extremidade gorda de controles miniaturizados, formava uma espécie de cabo. Dallas brandiu seu bastão como se fosse um sabre, para senti-lo bem, na mão. Não era pesado, coisa que lhe agradou. Era o que queria, alguma coisa a interpor entre ele e o alienígena numa emergência. Além da expectoração de ácido, não se sabia que mais esperar do inimigo. Ademais, havia algo de ilógico e primitivo, mas muito confortante, num bastão.

— Pus baterias portáteis 0-3-3 em cada um desses tubos — explicou Brett. — Darão um choque substancial. E não precisarão ser carregadas de novo, a não ser que vocês mantenham apertado o botão de descarga por muito tempo. Mas muito tempo mesmo — e mostrando o cabo do tubo que lhe coubera: — Não tenham medo de usá-los. Estão perfeitamente isolados aqui no cabo e até meia altura do corpo. Se tocarem inadvertidamente no tubo levarão um choque leve, sem dúvida; mas há um segundo tubo dentro desse que é um condutor super-frio. É aí que está a carga principal. A ponta descarrega quase cem por cento dela. Não toquem jamais na ponta.
— Que tal uma demonstração? — disse Ripley.
— Por que não? — disse Brett.

O técnico de engenharia aproximou a extremidade do tubo que tinha nas mãos de um condutor que corria pela parede mais próxima. Houve um grande "craque" e um leve cheiro de ozônio. Brett sorriu.
— Os de vocês também foram todos testados. Todos funcionam perfeitamente. Tem uma enorme carga nesses tubos.
— E há maneira de modular a voltagem? — perguntou Dallas.
Parker abanou a cabeça.
— Quisemos botar uma carga que castigasse sem matar. Não sabemos nada da criatura e não tínhamos tempo, de qualquer maneira, para a instalação de requintes como reguladores de corrente. Cada tubo gera, então, uma carga única e invariável. Não podemos fazer milagres.
— Pois é a primeira vez que você admite isso — disse Ripley. Parker lançou-lhe um olhar turvo.
— Os tubos não farão nenhuma injúria àquele monstrinho a não ser que o sistema nervoso dele seja bem mais sensível do que o nosso — disse Brett. — É a nossa convicção. Mas estamos no escuro. O outro era menor, mas fortíssimo. — O técnico pôs o tubo em posição de combate e ficou parecendo um gladiador antigo prestes a entrar na arena. — Isso só servirá para tonteá-lo. Não que me aborrecesse muito eletrocutar aquela gracinha,
— Pode ser que dê certo — disse Lambert. Era uma grande concessão. — Está resolvido o problema número um. E quanto ao problema número dois: como encontrar o bicho?
— Tomei isso a meu cargo.
Todos se voltaram surpresos para Ash, que tinha nas mãos um aparelho do tamanho de um comunicador. O oficial de ciência, porém, concentrava os olhos no capitão. E Dallas, que não sabia como encará-lo, fixou os seus no pequeno engenho.
— Como é imperativo localizar a criatura o mais depressa possível, fabriquei minha própria maquininha. Brett e Parker fizeram um trabalho admirável dando-nos os meios de manipular o alienígena. E aqui está o meio de encontrá-lo.
— Um rastreador portátil? — perguntou Ripley. Olhava com admiração para o compacto. Parecia feito numa fábrica. Ninguém julgaria que tivesse sido armado às pressas no laboratório de ciência de um rebocador comercial.
— A gente o regula para localizar um objetivo móvel. Não tem grande alcance. Mas desde que esteja próximo do alvo, começa a emitir um pulso regular, intermitente, cujo volume aumenta na razão inversa da distância.
Ripley tomou o instrumento na mão e ficou a revirá-lo com olho de profissional.
— Como funciona? Como pode distinguir o objetivo verdadeiro de outro qualquer?
— De duas maneiras — disse Ash, com orgulho. — Como já expliquei, o alcance é pequeno. Isso poderia ser considerado um defeito, mas no nosso caso é uma vantagem, pois permite que um grupo opere nas vizinhanças de outro sem que o rastreador capte o outro. Mais importante ainda: o instrumento incorpora um monitor sensitivo à densidade do ar. Qualquer objeto que se mova o afeta. E a leitura indica em que direção o objeto se move. Basta apontá-lo para frente. Não é tão sofisticado quanto eu gostaria que fosse, mas foi o melhor que pude fazer dentro do pouco tempo disponível.
— Você foi notável, Ash — disse Dallas. Tinha de admiti-lo. Tomou o instrumento de Ripley. — Isto é mais do que suficiente. Quantos fez ?
Ash apresentou uma duplicata do aparelho que Dallas tinha na palma da mão.
— O que significa que podemos formar dois grupos. Bom. Não tenho nada para sugerir quanto ao modus operandi. Não vou dar instruções. Todos sabem o que fazer tanto quanto eu. Quem o pegar deve prendê-lo na rede, levá-lo para a comporta e despejá-lo do espaço, para que se arrebente na direção de Rigel. E isso com a mesma presteza que as janelas tiverem para abrir e fechar. Não faço questão que usem os fechos explosivos da comporta externa. Podemos até sair para o espaço com nossas roupas, se for preciso.

E saiu para o corredor, detendo-se à porta para olhar em volta da sala onde estavam os outros com tubos, rede, etc. Parecia impossível que alguma coisa se tivesse metido ali sem ser notada, mas, se iam fazer uma busca rigorosa, era melhor não abrir exceções.

—Para começar, vamos ter certeza de que a própria ponte está limpa.
Parker empunhou um dos rastreadores. Ligou-o e percorreu a ponte com a atenção presa ao mostrador do instrumento.
— Seis deslocamentos — anunciou por fim —, todos correspondentes, à grosso modo, aos lugares que ocupamos. Se isso funciona, não há nada na ponte.
Ash não se mostrou ofendido.
— Funciona. Como você mesmo acabou de demonstrar.
O resto do equipamento foi distribuído. Dallas passou em revista os homens e mulheres de prontidão.
— Todo mundo preparado? — Houve alguns 'nãos' de brincadeira, e trocaram-se sorrisos. A pavorosa morte de Kane fora esquecida. Agora estavam preparados para enfrentar o alienígena e, ao que esperavam, armados com os instrumentos apropriados.
— Canais abertos em todos os deques.
Dallas marchou para o corredor.
— Estaremos em permanente contato uns com os outros. Ash e eu iremos com Lambert e um rastreador. Brett e Parker constituirão o segundo grupo. Ripley assumirá o comando dele e levará o outro rastreador. Ao primeiro sinal da criatura, as prioridades são capturá-la e lançá-la fora. Avisar o segundo grupo vem depois. Comecemos.


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