quarta-feira, 29 de fevereiro de 2012

Crash - JG Ballard




Introdução do Autor (edição francesa de 1974)

O casamento entre a razão e o pesadelo, que tem dominado o século 20, deu origem a um mundo que é cada vez mais ambíguo.

Pelo cenário das comunicações movem-se os espectros de tecnologias sinistras e os sonhos que o dinheiro pode comprar. Sistemas de armas termonucleares e comerciais de bebidas coexistem em um ofuscante reino governado pela publicidade e pelos pseudo-eventos, pela ciência e pela pornografia.

Nossas vidas são presididas pelos grandes e geminados leitmotifs do século 20 sexo e paranóia.-Apesar do encanto de McLuhan com a alta velocidade dos mosaicos de informação, não conseguimos deixar de nos lembrar do profundo pessimismo de Freud em A Civilização e seus Descontentes. Voyeurismo, autoaversão, a base infantil de nossos sonhos e anseios - essas enfermidades da psique culminaram agora com a mais aterrorizadora perda do século: a morte do afeto.

Esta renúncia ao sentimento e à emoção sedimentou o caminho para todos os nossos mais reais e ternos prazeres: nas excitações provocadas pela dor e pela mutilação; no sexo como a arena perfeita, semelhante a uma cultura de pus estéril, para todas as verônicas de nossas próprias perversões; na liberdade moral de nos entregarmos à nossa própria psicopatologia como a um jogo; e nos nossos aparentemente ilimitados poderes para a criação de conceitos - o que os nossos filhos devem temer não são os automóveis nas auto-estradas de amanhã, mas o nosso próprio prazer em estabelecer os mais elegantes parâmetros para suas mortes.

Documentar os incômodos prazeres de viver no interior deste glauco paraíso tem sido cada vez mais o papel da ficção científica.

Acredito firmemente que a ficção científica, longe de ser um gênero menor e sem importância, na realidade representa a principal tradição literária do século 20, e certamente a mais antiga - uma tradição de resposta imaginativa à ciência e à tecnologia que segue uma linha ininterrupta, passando por H. G. Wells, Aldous Huxley, pelos escritores da moderna ficção científica norte-americana, até os inovadores atuais como William Burroughs.

O principal "fato" do século 20 é o conceito de possibilidade ilimitada. Este predicado da ciência e da tecnologia enfatiza a noção de uma moratória sobre o passado - a irrelevância e mesmo a morte do passado - e as ilimitadas alternativas disponíveis para o presente. O que liga o primeiro vôo dos irmãos Wright à invenção da pílula é a filosofia social e sexual do assento ejetor. Dado este imenso continente de possibilidades, poucas literaturas parecem estar melhor equipadas para lidar com seus temas do que a ficção científica. Nenhuma outra forma de ficção tem o vocabulário de idéias e imagens necessário para abordar o presente, muito menos o futuro.

A característica dominante da literatura moderna é o seu sentido de isolamento individual, sua atitude de introspecção e de alienação, uma disposição mental sempre indicada como sendo a marca registrada da consciência do século 20. Longe disso. Ao contrário, parece-me que esta é uma psicologia que pertence inteiramente ao século 19, parte de uma reação contra as enormes restrições da sociedade burguesa, contra o caráter monolítico da época vitoriana e a tirania do paterfamilias, seguro de sua autoridade financeira e sexual. Exceto pela tendência marcadamente retrospectiva, e pela obsessão com a natureza subjetiva da experiência, os seus verdadeiros temas são a racionalização da culpa e o estranhamento. Seus elementos são a introspecção, o pessimismo e a sofisticação.

Se alguma coisa caracteriza o século 20 é o otimismo, é a iconografia do merchandising de massa, a ingenuidade e o prazer isentos de culpa diante de todas as possibilidades da mente. A espécie de imaginação que se manifesta agora na ficção científica não é algo novo. Homero, Shakespeare e Milton, todos eles inventaram novos mundos para criticarem este aqui. A transformação da ficção científica em um gênero independente, e um tanto desonroso, é um desenvolvimento recente. Ele está relacionado com o quase desaparecimento da poesia dramática e filosófica, e com a lenta retração do romance tradicional na medida em que ele se preocupa, de modo cada vez mais exclusivo, com as nuances das relações humanas. Entre aquelas áreas negligenciadas pelo romance tradicional estão, em primeiro lugar, a dinâmica das sociedades humanas (o romance tradicional tende a retratar a sociedade como se fosse estática) e o lugar do homem no universo.

Ainda que de modo cruel ou ingênuo, a ficção científica, pelo menos, tenta estabelecer uma moldura filosófica ou metafísica em torno dos mais importantes eventos de nossas vidas e de nossas consciências.

Se faço esta ampla defesa da ficção científica é porque, obviamente, minha própria carreira enquanto escritor esteve envolvida com ela durante quase vinte anos. Desde o início, quando pela primeira vez voltei-me para a ficção científica, estava convencido de que o futuro era uma chave melhor para o presente do que o passado. Na época, contudo, estava insatisfeito com a obsessão da ficção científica com os seus dois temas principais - o espaço exterior e o futuro distante. Mais por propósitos emblemáticos do que por qualquer teoria ou programa, batizei o novo terreno que desejava explorar de "espaço interior", aquele domínio psicológico (manifesto, por exemplo, na pintura surrealista) no qual o mundo interior da mente e o mundo exterior da realidade encontram-se e se fundem.
O que desejava era, primordialmente, escrever ficção sobre os dias atuais. Fazer isto no contexto do final dos anos 50, em um mundo no qual o sinal do Sputnik l podia ser ouvido em qualquer rádio, como o farol avançado de um novo universo, exigia técnicas completamente diferentes daquelas disponíveis para o romancista do século 19.

Na verdade, acredito que se pudessem esquecer toda a literatura existente e fossem obrigados a recomeçar sem qualquer conhecimento do passado, todos os escritores se veriam, inevitavelmente, produzindo algo muito próximo da ficção científica. A ciência e a tecnologia multiplicam-se ao nosso redor. Em uma proporção cada vez maior, elas ditam as linguagens nas quais falamos e pensamos. Ou usamos essas linguagens ou permanecemos mudos.

Contudo, por um paradoxo irônico, a moderna ficção científica tomou-se a primeira vítima do mundo cambiante que ela antecipara e ajudara a criar. O futuro concebido pela ficção científica dos anos 40 e 50 já pertence ao passado. Suas imagens dominantes, não somente aquelas dos primeiros vôos à Lua e das viagens interplanetárias, mas também as de um mundo cujas relações sociais e políticas são governadas pela tecnologia, assemelham-se agora a imensas peças de um velho cenário. Para mim, isto pode ser visto de maneira extremamente tocante no filme 2001: Uma Odisséia no Espaço, que significou o fim do período heróico da moderna ficção científica - seus panoramas e costumes admiravelmente concebidos, seus enormes cenários, lembraram-me.. E o Vento Levou, uma representação científica que tornou-se uma espécie de romance histórico ao inverso, um mundo fechado no qual a dura luz da realidade contemporânea nunca conseguiu penetrar.

Nossos conceitos do passado, presente e futuro estão sendo forçados, de forma crescente, a sofrer um processo de revisão. Assim como o passado, em termos sociais e psicológicos, tornou-se uma vítima de Hiroshima e da era nuclear (quase que por definição um período no qual somos todos forçados a pensar prospectivamente), o futuro também está deixando de existir, devorado por um presente que é todo voracidade. Anexamos o futuro ao nosso próprio presente, como mais uma simples alternativa entre as múltiplas que se abrem para nós. As opções multiplicam-se ao nosso redor, vivemos em um mundo quase infantil no qual qualquer demanda, qualquer possibilidade, seja por estilos de vida, viagens, papéis sexuais e identidades, pode ser instantaneamente satisfeita. Além disso, sinto que o equilíbrio entre a ficção e a realidade alterou-se significativamente na década passada. Seus papéis estão sendo cada vez mais invertidos. Vivemos em um mundo governado por ficções de toda espécie o merchandising de massa, a publicidade, a política conduzida como um ramo da propaganda, a tradução instantânea da ciência e da tecnologia em imagens populares, a crescente mistura e interpenetração de identidades no reino dos bens de consumo, a apropriação pela televisão de qualquer resposta imaginativa livre ou original à experiência. Nossa vida é uma grande novela Para o escritor, em particular, torna-se cada vez menos necessário inventar o conteúdo fíccional de sua obra.

A ficção já está aí.

A tarefa do escritor é inventar a realidade.

No passado, sempre consideramos que o mundo exterior em tomo de nós representava a realidade, por mais incerta ou confusa que fosse, e que o mundo interior de nossas mentes, seus sonhos, esperanças e ambições, representava o reino da fantasia e da imaginação. Esses papéis também, me parece, foram invertidos. O mais prudente e efetivo método de lidar com o mundo ao nosso redor consiste em assumir que ele é uma ficção completa e, inversamente, que o único e pequeno núcleo de realidade que nos resta está no interior das nossas próprias cabeças. A clássica distinção de Freud entre os conteúdos manifesto e latente do sonho, entre o aparente e o real, precisa agora ser aplicada ao mundo externo da assim chamada realidade.

Dadas essas transformações, qual é a principal tarefa com a qual se depara o escritor?
Pode ele ainda utilizar as técnicas e as perspectivas do romance tradicional do século 19, com sua narrativa linear, sua cronologia medida e seus personagens consulares pretensiosamente povoando seus domínios no interior de uma ampla escala de tempo e de espaço? Serão os seus temas principais as fontes do caráter e da personalidade profundamente mergulhadas no passado, a calma inspeção das raízes, o exame das mais sutis nuances do comportamento social e das relações pessoais?
Tem ainda o escritor a autoridade moral para inventar um mundo auto-suficiente e fechado, para conduzir seus personagens como um examinador, sabendo todas as questões de antemão? Pode ele deixar de lado tudo aquilo que prefere não compreender, inclusive os seus próprios motivos, preconceitos e psicopatologias? Sinto que o papel do escritor, sua autoridade e liberdade para agir, modificaram-se radicalmente. Sinto que, em certo sentido, o escritor não sabe mais de nada. Ele não tem instância moral. Ele oferece ao leitor o conteúdo da sua própria cabeça, oferece um conjunto de opções e alternativas imaginativas. Seu papel é o do cientista que, no campo ou no laboratório, se depara com algo completamente desconhecido. Tudo que ele pode fazer é estabelecer algumas hipóteses e testá-las contra os fatos.

Crash! é um livro assim, uma metáfora extrema para uma situação extrema, um conjunto de medidas desesperadas que só devem ser utilizadas em uma crise extrema. Se estou certo, e o que fiz nos últimos anos foi redescobrir o presente para mim mesmo, Crash! assume sua posição como um romance cataclísmico sobre os dias atuais, ao lado de minhas obras anteriores que abordam o cataclismo mundial no futuro próximo ou imediato - The Drowned World, The Drought e The Crystal World. Crash!, naturalmente, não trata de um desastre imaginário, ainda que iminente, mas de um cataclismo pandêmico, institucionalizado por todas as sociedades industriais, que mata centenas de milhares de pessoas todos os anos e vitima milhões.

Será que percebemos, na batida de carro, um presságio sinistro do casamento tenebroso entre o sexo e a tecnologia? Será que a moderna tecnologia nos proporcionará meios, até agora não sonhados, para controlar as nossas próprias psicopatologias? Será que esta utilização da nossa perversidade inata trará algum benefício concebível para nós? Será que existe aí uma lógica desviante mostrando-se mais poderosa do que aquela fornecida pela razão?

Em Crash! utilizei o carro não apenas como uma imagem sexual mas como uma metáfora total para a vida do homem na sociedade atual. Como tal, o livro tem um papel político bastante distanciado do seu conteúdo sexual, mas eu ainda gostaria de pensar que Crash! é o primeiro romance pornográfico baseado na tecnologia.

Em certo sentido, a pornografia é a mais política das formas de ficção, pois tenta mostrar como nos usamos e nos exploramos mutuamente, da maneira a mais insistente e implacável possível. Desnecessário dizer que o objetivo final de Crash! é admoestatório, é um aviso contra um mundo brutal, erótico e ofuscante, que nos acena, cada vez mais persuasivamente, das margens do cenário tecnológico.


Crash - JG Ballard [ Download ]