terça-feira, 28 de fevereiro de 2012

Os negros anos-luz - Brian Aldiss




No solo, folhas novas de relva brotavam em camadas de clorofila. Nas árvores, línguas de verde projetavam-se de ramos e galhos, envol-vendo-as — logo o lugar se assemelharia ao esforço imbecil de uma criança da Terra a desenhar árvores de Natal — conforme a primavera novamente alentava as coisas em crescimento no hemisfério sul de Dapdrof.

Não que a Natureza fosse mais amável em Dapdrof do que em qualquer outro lugar. Mesmo quando lançava os ventos mais quentes sobre o hemisfério sul, mergulhava a maior parte do norte numa monção gélida.

Apoiado em muletas, o velho Aylmer Ainson estava em pé no limiar de sua porta, coçando pachorrentamente o couro cabeludo e olhando para as árvores que brotavam. Até a mais delgada e afastada vergôntea balançava muito pouco, apesar da forte brisa que soprava.
Esse efeito pesado, plúmbeo, era causado pela gravidade; os galhos, como tudo o mais em Dapdrof, pesavam três vezes mais do que na Terra. Há muito tempo que Ainson acostumara-se ao fenômeno. Seu corpo, que se desenvolvera com os ombros caídos e o tórax côncavo, acostumara-o a isso. Seu cérebro conseqüentemente, também se desenvolvera um pouco com os ombros caídos.

Felizmente ele não estava preocupado com o desejo de recapturar o passado, que acomete tantos seres humanos mesmo antes de eles atingirem a meia-idade. A visão de tenras folhas verdes despertava nele apenas a nostalgia mais vaga, provocando-lhe somente a mais tênue recordação de que a sua infância se passara entre folhagem mais sensível aos zéfíros de abril — zéfiros, além do mais, cem anos-luz distantes. Ele era livre para ficar ali, em pé, no portal e deleitar-se com o mais precioso luxo do homem, uma mente em branco.




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