segunda-feira, 27 de fevereiro de 2012

O melhor da Ficção Científica



EDITORIAL:

É Engraçado É engraçado, mas o fato é que muitos principiantes tentam escrever ficção científica humorística. O que torna a coisa engraçada é que ser engraçado é muito difícil, e alguns autores de ficção científica extremamente bons não conseguem fazer humor - apesar disso tantos principiantes acham que podem.

Por que é tão difícil ser engraçado? Antes de mais nada, não é permitido falhar. Se você estiver buscando o patos, poderá acabar sendo razoavelmente patético, marcar parcialmente um tento e chegar mesmo a vender o conto, se ele lograr comover o editor, ainda que não seja até às lágrimas. Se tentar o suspense, poderá consegui-lo moderadamente e vender seu produto, ao menos pelo fato de haver acelerado o coração do editor, ainda que não o faça disparar. Poderá atingir os círculos externos do alvo, afora a mosca, em qualquer dos outros gêneros de ficção, e ainda assim conseguir vender.

Exceto no humor.

O alvo do humor é só a mosca. Não há círculos externos.

Pode imaginar alguma coisa parcialmente engraçada? Já ouviu alguém contar uma anedota que contenha só um pouco de graça? O que acontece? Isso mesmo! Ninguém ri. Quando muito, alguém esboçará um sorriso cortês. Entretanto, uma anedota engraçada, quando é engraçada mesmo, é uma coisa muito boa e deve ser incentivada. O humor de boa qualidade, a graça, mesmo a chanchada, quando bem feita, contribuem para a alegria das nações e a eupepsia  (isso mesmo, olhe no dicionário! Como irá se tornar um escritor sem desenvolver seu vocabulário? ) das pessoas.

Contudo, mesmo os melhores de nós não nascem já sabendo escrever com humor.
Temos de praticar um pouco, antes de mais nada, para ver se temos talento - e se o tivermos, precisaremos desenvolvê-Io, continuando a praticar. Eis algumas regras que poderão ser úteis. .

I. Seja breve. A menos que você seja um gênio cômico nato, um Mark Twain ou um P.G. Wodehouse, não irá manter um nível satisfatório e uniforme de humor por toda a extensão de uma novela. Na verdade, quanto mais tentar mantê-lo, menos terá possibilidade de evitar cair na monotonia, ou então guinar violentamente para uma constrangedora caricatura. No meu entender, você deve limitar-se a umas três mil palavras ou menos.

2. Não procure fazer cada frase devastadoramente humorística. Em .primeiro lugar, irá se esgotar e morrerá jovem, e um escritor morto de nada nos adiantará. Em segundo lugar, não será bem-sucedido. E em terceiro, o humor contínuo, mesmo quando conseguido, provavelmente não será. eficaz. O leitor se cansará, rindo cedo demais, e achará o resto da história enfadonho. Melhores serão os lampejos periódicos, que darão tempo ao leitor de acumular, entrementes, suas reservas de riso.

3. O humor não constitui, por si mesmo, uma história. Se bem feito, ele melhorará uma história, porém, não tornará boa uma que seja ruim. Se você estiver escrevendo uma história de ficção científica engraçada, certifique-se então de que, se o humor for retirado, o restante constitui, por si, uma história de ficção científica razoavelmente boa. Consideremos agora uma determinada subdivisão da história da ficção científica humorística: a "Ferdinand Feghoot". Trata-se de uma história cuja única justificativa de existência consiste em terminar com um trocadilho esmerado.

Aqui também existem regras.

I. Já que o trocadilho final sustenta a história, você não deve sobrecarregá-Io com uma que seja demasiado comprida, do contrário o anticlímax provocará um furor assassino até no mais gentil dos editores exatamente como George pode ser considerado. Faça-a bastante curta, pois. Não mais do que 500 palavras, diria eu.

2. Mesmo essas 500 palavras devem constituir uma história de ficção científica razoável, que não forceje demasiado obviamente para a preparação do trocadilho. O ideal é que o leitor não suspeite de que um trocadilho está a caminho, a fim de que não tenha tempo de intensificar seus sentimentos de hostilidade homicida.

3. Busque o justo meio-termo. A frase do trocadilho deverá ser longa o suficiente para parecer engenhosa ao leitor, mas não a ponto de cansá-Io antes de terminá-Ia. O ideal é que ele possa ler a frase com um relance de olhos.

Mais uma vez, a distância entre o trocadilho e a frase autêntica deverá ser suficiente a ponto de ser engenhosa e imprevisível, mas não forçada a ponto de, mesmo depois de lida, haver um período de tempo sensível durante o qual o leitor não saiba sobre o que você esteja falando. Lembre-se de que a graça de uma piada deve ser apanhada imediatamente. Mesmo uma pausa curta poderá ser fatal para o riso.

4. O trocadilho efeito para o ouvido. B o som que conta, não a aparência. Um cantor que desafina, a vós não agrada. Não importa que "vós" e "voz" não tenham a mesma grafia, a pronúncia é idêntica. Por outro lado, nada significa dizer que um intérprete que desconheça etiqueta é inútil em Varsóvia porque ele "lacks polish".* Poderá ser um trocadilho visual, porém, mesmo lendo silenciosamente, você ouve mentalmente as palavras, e "polish" de fato não soa como "polish" (polonês), de nada adiantando a ortografia idêntica.

Resumindo, a Ferdinand Feghoot ideal, na minha imodesta opinião, é o meu conto "Sure Thing", da Revista de Ficção Cientifica de lsaac Asimov, do verão de 1977. Releia-o e verá. Há também duas autênticas Grendel Briarton Feghoots na mesma revista, do outono de 1977, se quiser compará-los.
A questão final a ser lembrada não é animadora. Mesmo uma boa história humorística ou uma excelente Ferdinand Feghoot não significam uma aceitação garantida.

Uma revista necessita de variedade para ter sucesso, e essa variedade deverá refletir, com razoável precisão, as inclinações e gostos de seus leitores. O fato é que muitas pessoas não gostam de humor e uma boa quantidade delas nutre uma antipatia fanática por um inofensivo trocadilho. Por isso é preciso espargir com leveza a história alegre sobre a página de índice, sendo que uma Ferdinand Feghoot somente deverá afluir quando as antenas do Editor Gentil lhe palpitarem a mensagem de que um intervalo suficiente transcorreu desde a última leva, assegurando assim a publicação de mais uma. Posso lhe garantir é que eu e George (que constituímos um só no que se refere a tudo que seja coisa literária) somos uns rapazes joviais, cuja propensão para o riso reprimido só é sobrepujada por nosso amor a uma boa gargalhada, e a revista há de ser tão alegre quanto possível- se os autores cooperarem.

*** "Lacks polish" pode significar "não tem refinamento" ou "desconhece polonês". Mas, no primeiro caso o o é pronunciado aberto, e no segundo, fechado. (N.T.)


Sumário

Editorial - Isaac Asimov
Relações-Públicas - Ginger Kaderabeck
O Grande Anel de Netuno - Martin Gardner
Mas Será que Eles Cavalgam Golfinhos? - Frederick S. Lord, J r.
Uma Recusa a Mais - Patricia Nurse
A Linha...Linha... Linha Derradeira de Fragger - Scherwood Springer
Quando Descemos - Stephen Leigh
A Caminho - Conway Conley
A Orquestra de Danças do Titanic - Jack Chalker
Histórias de Advertência - Larry Niven
Carruagem sem Cavalo - Michael A. Banks
Mensagem para Mim Mesmo - Diana L. Paxson
O Suicídio do Homem - John Brunner



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