sábado, 11 de fevereiro de 2012

O Oitavo Passageiro (Final)






 
Os ferrolhos de ligação saltaram fora, com suas minúsculas, cômicas explosões.
E houve também a explosão dos motores secundários, quando o módulo soltou-se do Nostromo.

As forças da gravidade desencadearam-se sobre Ripley e ela batalhou para amarrar-se no assento. A força-G logo se esvairia, com o abandono, pelo módulo, do campo de hiper-propulsão do Nostromo e entrada na sua própria rota através do espaço.
Ripley acabou de afivelar os cintos, depois permitiu-se respirar fundo o ar puro do módulo. Sons confusos de uivos- miados penetraram-lhe o cérebro esgotado. Da posição em que estava podia alcançar a caixa de Jones. Abaixou a cabeça para ela e lágrimas lhe vieram aos olhos vermelhos de fumaça. Ripley apertou a caixa contra o peito.
Seu olhar buscou, em seguida, a escotilha que dava para a ré.

Um pequeno ponto de luz mudou-se sem ruído numa bola de fogo majestosa, que se expandiu e lançou tentáculos de metal retorcido e plástico em farrapos. Sumiu-se mas foi seguida de uma bola de fogo ainda maior quando a refinaria explodiu. Dois bilhões de toneladas de gás e maquinaria vaporizada encheram o cosmos, e obscureceram-lhe a visão, até que elas também desapareceram gradualmente.

O choque atingiu o módulo pouco depois, quando o gás superaquecido passou perto, ao expandir-se. Quando a navezinha se equilibrou de novo ela retirou os cintos, foi até o fundo da exígua cabine e olhou pela escotilha. Seu rosto ba- nhou-se de uma luz cor de laranja e o último globo de fogo fervente desvaneceu-se.

Finalmente deu-lhe as costas. O Nostromo, seus colegas, tudo deixara de existir. Não eram Mais. Sentimento duro, mais duro ainda naquele momento de solidão e silêncio do que tinha imaginado. O definitivo daquilo tudo, o irremediável, era a parte mais difícil de aceitar. A certeza de que nave e pessoas não existiam mais como componentes, mesmo ínfimos, do universo. Nem mesmo como restos mortais.
Tinham, simplesmente, cessado de ser.

Não viu a mão enorme que se estendeu, de trás, para pegá-la.
Mas Jones viu.
E deu o alerta.

Ripley virou e se viu cara a cara com a criatura. Estivera no módulo todo o tempo.
Seu primeiro pensamento foi o lança-chamas. Jazia no chão, junto do alienígena agachado, armando o bote. Buscou com os olhos, em desespero, para onde fugir. Havia um pequeno armário embutido perto dela. Sua porta se abrira sozinha com o choque da expansão do gás. Começou a aproximar-se dele, disfarçadamente.

Mas a criatura pôs-se a levantar-se tão logo ela se moveu. Ripley pulou dentro do armário e estendeu a mão para a fechadura. Mas, com seu peso, a porta bateu e trancou-se com um baque.

Havia um pequeno óculo envidraçado na parte superior. Ripley se viu praticamente de nariz esborrachado contra ele, naquele espaço minúsculo. De fora, o alienígena chegou a cara à janela, olhando-a com a curiosidade com que se examina um espécime selvagem numa jaula. Quis gritar e não pôde. O grito morreu-lhe na garganta. Tudo o que pôde fazer foi olhar, de olhos arregalados, para a aparição, que lhe devolvia o olhar fixamente.

O armário não era estanque. Um gemido característico lhe chegou aos ouvidos, vindo do outro lado. Distraído, o alienígena deixou a porta do armário para inspecionai a origem daquele estranho som. Curvou-se, levantou no ar a caixa selada, e isso fez que Jones uivasse ainda mais alto.

Ripley bateu no vidro, para desviar a atenção da criatura e salvar o animal inerme. Funcionou. O alienígena estava de volta à escotilha num segundo. Ela ficou imóvel, e a criatura foi de novo inspecionar, mais minuciosamente, a caixa do gato.
Ripley encetou uma busca desesperada do seu cubículo. Havia pouca coisa ali dentro, exceto um traje espacial. Trabalhando depressa, malgrado as mãos, que tremiam desconsoladamente, a moça meteu-se dentro dele.

Fora, o alienígena sacudiu a caixa, experimentalmente. Jones miava pelo diafragma. Ripley já vestira metade da roupa quando a criatura jogou a caixa ao chão.
Ela ricocheteou, mas não se partiu nem abriu. Tomando-a de novo na manopla o alienígena bateu com ela numa parede. Jones, enlouquecido, fazia ruídos estranhos.
O alienígena meteu a caixa entre os dois canos verticais e começou a esmurrá-la enquanto Jones fazia esforços para escapar, soltando silvos e cuspindo.

Ripley pôs o capacete e fixou-o firmemente. Não havia ninguém para verificar se estava perfeito. Mas se a vedação ficara defeituosa, logo saberia... Bastou um toque para ativar o respirador, e a roupa se encheu de ar puro.
Era a vida. Vida engarrafada.

Procurou de novo no armário por alguma arma. Mas não havia laser nem nada que pudesse usar. Só um longo estilete de metal cuja ponta revelou-se aguda quando removeu a borracha protetora. Não era lá grande coisa, mas deu-lhe um pouco de confiança, e isso era importante.

Respirando fundo, destrancou devagar a porta, depois, com um pontapé, escancarou-a.
O alienígena voltou-se e recebeu o estilete de meta! no meio do corpo. Ripley golpeara, com toda a força, o aço era fino e penetrou fundo. O alienígena agarrou-se ao estilete com as duas mãos, e o ácido começou a espirrar, fervendo quando tocava o metal.
Ripley recuou, firmou-se com uma das mãos a uma coluna e com a outra, tateando, encontrou uma alavanca de emergência, que fez abrir a portinhola de trás. Instantaneamente, todo o ar no módulo e tudo o que não estava seguro por parafuso ou correia ou braço foi sugado no espaço. O alienígena passou, veloz, por ela e com reflexos inumanos quis ainda segurar-se a algo. E pegou-lhe a perna, logo acima do tornozelo.

Ripley se viu a meio fora do módulo, chutando desesperadamente a mão que se fechara como um anel de ferro, e que não largava. Mas havia uma alavanca perto. Ripley destravou-a e a porta fechou com estrondo, deixando-a dentro e decepando o membro do alienígena, que ficou dependurado no espaço.
A mão que a prendera começou a espalhar ácido, e o ácido fervia e fumegava embaixo da porta. Ripley foi às tontas até o console, encontrou os comutadores que ativavam motores secundários e apertou vários deles.

A popa do módulo vomitou energia, energia pura, sem cor.
Incinerado, o alienígena soltou-se no espaço. E do momento em que caiu, o ácido deixou de fluir.

Ela ficou a observá-lo nervosamente, pois ainda borbulhava um pouco. Mas houvera pouca hemorragia. Parou por fim. Ripley fez funcionar o teclado do pequeno computador e esperou, impávida, pela resposta.

PERGUNTA: DANO À SAÍDA DE RÉ

ANÁLISE: REDUÇÃO MENOR DA QUILHA. INTEGRIDADE DA NAVE NÀO COMPROMETIDA. CAPACIDADE DE CONSERVAR ATMOSFERA INTACTA. VEDAÇÃO COMPENSADA SATISFATORIAMENTE.

OBSERVAÇÃO: REPARAR SEÇÃO DANIFICADA IMEDIATAMENTE DEPOIS DE CHEGAR AO PORTO DE DESTINAÇÃO. CASO ATUAL NÃO PASSARÁ EM INSPEÇÃO.

Ripley soltou um hurra.

Depois foi olhar pela escotilha da popa. Uma forma convulsa, fumegante, rodopiava lentamente, afastando-se da nave. Pedaços de carne calcinada caíam dela no espaço.
Só então o fortíssimo organismo sucumbiu às leis da pressão diferencial, e o alienígena explodiu, inchando primeiro, depois rasgando-se e lançando partículas do corpo em todas as direções. Inofensivos agora, os fragmentos fumegantes sumiram-se dançando, na distância infinita.

Não se poderia dizer que ela estivesse jubilosa. Tinha vincos profundos no rosto e um vazio no cérebro, que nada jamais preencheria. Mas estava composta e tranqüila, o bastante pelo menos para recostar-se com alívio no assento do piloto.

Dedilhando diversos botões, repressurizou a cabine. Abriu então, só então, a caixa de Jones. Com a facilidade extraordinária dos felinos, ele já esquecera o ataque sofrido. Aninhou-se no regaço de Ripley quando ela se acomodou de novo na cadeira. Era uma vírgula — cor de ouro, cor de mel — de puro contentamento. E essa coisa fulva pôs-se a ronronar, como soem fazer os gatos felizes.

Ela o acariciou enquanto ditava no gravador da nave:

"Devo alcançar a fronteira em quatro meses mais ou menos. Com alguma sorte, a rede de estações receptoras captará meu S.O.S. e transmitirá a notícia. Terei uma declaração a fazer. Uma cópia será incorporada a este registro de bordo, inclusive alguns comentários do interesse das autoridades sobre determinadas atividades da Companhia.
Fala Ripley, identidade n.° W5645022460H, oficial de segurança e último sobrevivente da nave comercial Nostromo, que assina a presente entrada."

Apertou o botão de STOP.
Tudo estava calmo na cabine. Era o primeiro momento de calma em muitos dias. Ela pensou que talvez pudesse descansar um pouco. Talvez, e contanto que não sonhasse.
Com a mão distraída afagou o pêlo alaranjado de Jones, o gato.
— Vamos, gatinho... Vamos ver se dormimos...




FIM.







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