domingo, 16 de maio de 2010

Greg Egan



Greg Egan (20 de agosto de 1961) nasceu em Perth, Western Australiais (Austrália).

Programador de computador e autor de ficção da ciência, graduou-se bacharel em Matemática pela University of Western Australia.

Egan é especializado em fc hard, com temas como ontologia e matemática quântica, incluindo a natureza da consciência. Outros temas incluem genética, sumulação da realidade, a transferência de mente, sexualidade, inteligência artificial, e a superioridade do materialismo racional sobre a religião.

Ele é um vencedor do Prêmio Hugo (e foi pré-seleccionado por outras três vezes), e também ganhou o John W. Campbell Memorial Award de Melhor Romance.

Alguns de seus primeiros contos usavam como recurso, elementos de horror sobrenatural.

Egan tem contos publicados em várias revistas, incluindo aparições regulares na Interzone e na Asimov's Science Fiction.

Egan faz questão de manter-se longe das convenções de FC, dos fãs, e não dá entrevistas nem autografa seus livros, além de não posar para fotos, preferindo a reclusão total e o anonimato.

Apesar disso, responde aos emails dos leitores, pelo seu site.

Greg Egan ( Capullo, Ciudad Parmutacion, Collection, Crystal nights, Cyber city, Diaspora, El asessino infinito, Foundation series, Mind Vampires, Senor Volicion, Blood sisters, Border guards, Closer, Cocoon, Dark Intergers, Diccionario del Nuevo Orden Mundial, Distress, Dust, Glory, Learning to be me, Luminous, Mitochondrial Eve, Neighbouhood Watch, Oceanic, Only connect, Oracle, Our Lady of Chernobyl, Permutation City, Quarantine, Reasons to be cheerful, Riding the crocodile, Scatter my ashes, Schild's Ladder, Singleton, Steve Fever, Tap, The demon's passage, The Extra, The moral virologist, The planck drive, The Vat, Wang's carpet, Worthless, Yeyuka ) [ Download ]

sábado, 15 de maio de 2010

O Caçador de Andróides - Philip K. Dick (parte 7)



O APARELHO de TV berrava. Descendo os degraus cobertos de poeira do grande prédio de apartamentos para o nível embaixo, John Isidore identificou, nesse momento, a voz conhecida de Buster Amigão, borbotando, feliz, para sua audiência, que cobria todo o sistema.

"—... hei, hei, pessoal! Hora para uma curta notícia sobre o tempo amanhã. Em primeiro lugar, a costa leste dos Estados Unidos. O satélite Mangusto informa que a precipitação será especialmente pronunciada perto do meio-dia e que, em seguida, desaparecerá. Assim, vocês todos, queridos amigos, que estavam pensando em sair, devem esperar até a tarde, hem? E por falar em esperar, faltam agora apenas dez horas para aquela grande notícia, minha denúncia especial! Digam a seus amigos para assistir! Vou revelar uma coisa que os deixará tontos. Bem, vocês podem pensar que é apenas o habitual..."

No momento em que Isidore bateu à porta do apartamento, a televisão morreu imediatamente, caindo na inexistência. Não silenciara simplesmente, deixara de existir, assustada, de volta à sua cova pela batida à porta.

Ele sentiu, por trás da porta fechada, a presença de vida, além daquela da TV. Fazendo um esforço, suas faculdades fabricaram ou captaram um medo obcecado, mudo, de parte de alguém que se retirava para longe dele, alguém lançado para a parede mais distante do apartamento numa tentativa para evitá-lo.

— Hei — chamou. — Eu moro lá em cima. Ouvi sua TV. Vamos nos conhecer. Certo? — Esperou, à escuta. Nenhum som, nenhum movimento. Suas palavras não haviam conseguido relaxar a pessoa. — Eu lhe trouxe um cubo de margarina — insistiu, mais perto da porta, num esforço para penetrar-lhe a espessura. —

Meu nome é J. R. Isidore e trabalho para o conhecido veterinário, Sr. Hannibal Sloat. Você deve ter ouvido falar nele. Sou uma pessoa séria, tenho emprego. Eu guio o caminhão do Sr. Sloat.

A porta foi aberta um pouco e ele viu, dentro do apartamento, uma figura fragmentada, mal alinhada, se contraindo toda, uma moça que se encolheu e procurou afastar-se, mas, ainda assim, segurando a porta, como se precisasse de um apoio físico. O medo fazia-a parecer doente, distorcia-lhe as linhas do corpo, e ela dava uma impressão como se alguém a houvesse quebrado toda e depois, maliciosamente, a tivesse consertado mal. Os olhos dela, enormes, olhavam-no, vidrados, fixos, enquanto ela fazia um esforço para sorrir.

Com uma súbita compreensão, ele disse:
— Você achou que ninguém vivia neste prédio. Pensou que estivesse abandonado.
Inclinando a cabeça, a moça murmurou:
— Sim.
— Mas — disse Isidore — é bom ter vizinhos. Diabo, até que você aparecesse, eu não tinha vizinho nenhum. — E isso não era nada divertido, Deus sabia.
— Você é o único? — perguntou a moça. — Neste prédio, além de mim? — Parecia menos tímida nesse momento. Endireitou o corpo e, com a mão direita, arrumou o cabelo escuro. Nesse momento, viu que ela possuía um bom corpo, embora pequeno, e bonitos olhos bem destacados por longos cílios pretos. Olhando para trás dela, notou que a sala estava toda desarrumada, com valises aqui e acolá, abertas, seu conteúdo meio derramado pelo chão coberto de detritos. Mas isto era natural. Ela mal acabava de chegar.
— Sou o único, além de você — garantiu-lhe Isidore. — E não vou incomodá-la. — Sentiu-se deprimido.

Seu oferecimento, exibindo a característica de um velho e autêntico ritual de antes da guerra, não fora aceito.

Na verdade, a moça nem parecia notá-lo. Ou, talvez, ela não soubesse para que servia um cubo de margarina. Teve essa intuição; a moça parecia mais confusa do que qualquer outra coisa. Perdera o pé e flutuava impotente num redemoinho cada vez mais fundo de medo. — Bacana aquele cara, o Buster — disse, tentando fazer com que ela afrouxasse a rigidez da postura. — Gosta dele? Assisto ao programa todas as manhãs, e à noite, quando volto para casa. Vejo o programa dele enquanto janto e depois o programa coruja até a hora de ir dormir. Pelo menos assistia, até que meu aparelho pifou.
— Quem ...— começou a moça e, logo em seguida, interrompeu-se, mordendo o lábio como se estivesse furiosa. Evidentemente, consigo mesma.
— Buster Amigão — explicou ele. Parecia-lhe estranho que essa moça jamais tivesse ouvido falar desse que era o mais conhecido dos cômicos da TV. — De onde foi que você veio? — perguntou, curioso.
— Não vejo no que é que isso importa. — Lançou-lhe um rápido olhar. Algo que viu como que reduzir-lhe a preocupação, e seu corpo se relaxou visivelmente. — Terei prazer em receber visitas — disse — mais tarde, quando estiver instalada. No momento, claro, está fora de cogitação.
— Por que fora de cogitação? — Estava perplexo, Tudo nela deixava-o perplexo. Talvez, pensou, eu tenha vivido aqui sozinho por um tempo longo demais. Eu me tornei estranho. Dizem que debilóides são assim. O pensamento fê-lo sentir-se ainda mais deprimido. — Eu poderia ajudá-la a desfazer as malas — aventurou ele. A porta, nesse momento, virtualmente foi fechada em sua cara. — E arrumar seus móveis.
— Eu não tenho móveis — respondeu a moça. — Todas estas coisas — indicou a saía às suas costas — já estavam aqui.
— Elas não vão servir — garantiu Isidore. Podia ver isso com um simples olhar. As cadeiras, o carpete, as mesas — tudo apodrecera, desmoronando na ruína geral, vítima da força despótica do tempo. E do abandono. Ninguém residira naquele apartamento durante anos e o estrago era quase completo. Não podia imaginar como ela pudera pensar em viver num lugar desses. — Escute aqui — disse, muito interessado —, se dermos uma busca no prédio, procurando, provavelmente vamos encontrar coisas que não estão tão acabadas assim. Um abajur de um apartamento, uma mesa de outro.
— Eu faço isso — disse a moça. — Eu mesma, obrigada.
— Você entraria sozinha nesses apartamentos? — Isto era uma coisa em que ele não podia acreditar.
— Por que não? — Mais uma vez ela estremeceu, nervosa, fazendo careta ao perceber que dissera alguma coisa errada.
— Eu tentei, uma vez — disse Isidore. — Uma única vez. Depois daquela vez, eu simplesmente volto para casa, entro no meu lugar e não penso mais no resto. Os apartamentos onde ninguém mora, centenas deles e todos eles cheios de coisas que as pessoas tinham, como fotografias de família, roupas. Os que morreram não podiam levar coisa alguma e, os que emigraram, não queriam. Este prédio, exceto pelo meu apartamento, está inteiramente entulhado.
— Entulhado? — Ela não compreendeu.
— Entulho é objeto inútil, como correspondência descartada, caixas de fósforos; depois que a gente usa o último fósforo, ou a fita gomada do jornal da véspera. Quando não há ninguém em volta, o entulho se reproduz. Por exemplo, se a gente vai dormir deixando entulho no apartamento, quando acorda na manhã seguinte há duas vezes mais. Ele aumenta sempre cada vez mais.
— Compreendo. — A moça fitou-o, incerta, sem saber se devia acreditar nele ou não. Não tinha certeza se ele falava a sério.
-— Esta é a Primeira Lei do Entulho — explicou ele.
— "O entulho expulsa o não-entulho." Tal como a Lei de Gresham sobre o dinheiro ruim. E nesses apartamentos não há ninguém para combater o entulho.
— Então, ele tomou conta de todo o lugar — concluiu a moça. Inclinou a cabeça. — Agora, compreendo.
— Seu lugar aqui — disse ele —, este apartamento que escolheu... está entulhado demais para se viver nele. Podemos fazer recuar o fator entulho. Podemos fazer como eu disse, fazer incursões pelos outros apartamentos. Mas...— interrompeu-se.
— Mas o quê?
— Não podemos vencer — disse Isidore.
— Por que não? — A moça saiu para o corredor, fechando a porta às suas costas, braços cruzados em frente a seus pequenos seios, olhando-o séria, ansiosa para compreender. Ou, de qualquer modo, assim lhe pareceu. Pelo menos, ela estava escutando.
— Ninguém pode vencer o entulho — disse ele —, exceto temporariamente e talvez num único lugar, como no meu apartamento, onde criei um espécie de estase entre a pressão do entulho e do não-entulho, por ora.

Mas, no fim, eu morro ou vou embora e o entulho tomará conta, novamente. Trata-se de um princípio universal, que opera em todo o universo; o universo inteiro está-se movendo para um estágio final de entulhamento total, absoluto. — E acrescentou: — Exceto, claro, pela ascensão de Wilbur Mercer.

A moça fitou-o, curiosa.
— Não estou percebendo a relação.
— Isso é tudo o que há no mercerismo. — Mais uma vez, sentiu-se perplexo. — Você não participa da fusão? Não tem uma caixa de empatia?
Depois de uma pausa, a moça respondeu, medindo as palavras:
— Não trouxe a minha comigo. Achei que ia encontrar uma aqui.
— Mas uma caixa de empatia — disse ele, gaguejando em sua agitação — é a posse mais pessoal que uma pessoa pode ter! É uma extensão de seu corpo. É a maneira como você toca outros seres humanos, a maneira como deixa de estar sozinho. Mas você sabe disso. Todo mundo sabe disso. Mercer permite mesmo que pessoas como eu ... — Interrompeu-se. Mas tarde demais. Já lhe dissera e percebeu pelo rosto da moça, pelo relâmpago de súbita aversão, que ela sabia. — Eu quase passei no teste de quociente de inteligência — disse ele em voz baixa e abalada. — Eu não sou muito especial, apenas moderadamente, não como alguns que você vê por aí. Mas essa é a coisa com a qual Mercer não se importa.
— No que me interessa — retrucou a moça —, pode considerar isso como uma grande objeção ao mercerismo. — Ela falava em voz clara e neutra. Queria apenas declarar um fato, compreendeu ele. O fato de sua atitude no que dizia respeito a debilóides.
— Acho que vou voltar lá para cima — disse ele e começou a afastar-se dela. O cubo de margarina na mão fechada se tornara mole e pegajoso.
A moça observou-o afastar-se, conservando ainda a expressão neutra. De repente, disse:
— Espere.
Voltando-se, ele perguntou:
— Por quê?
— Vou precisar de você. Para conseguir um mobiliário adequado. Dos outros apartamentos, como você disse. — Dirigiu-se para ele, o torso nu, esguio e elegante, sem um grama de excesso de gordura. A que horas você volta do trabalho? Você poderá me ajudar, então.
— Você poderia, talvez, preparar o jantar para nós dois? — perguntou Isidore. — Se eu trouxesse os ingredientes?
— Não, tenho muita coisa a fazer. — A moça recusou o pedido tranqüilamente e ele notou o fato, percebeu-o sem compreendê-lo. Agora que diminuíra o medo inicial dela, alguma coisa começara a emergir. Algo mais estranho. E, pensou ele, deplorável. Uma frieza. Como, pensou ele, um sopro do vácuo existente entre mundos habitados; na verdade, de parte alguma. Não era o que ela fazia ou dizia, mas o que não fazia ou dizia. — Noutra ocasião — disse a moça, e voltou na direção da porta de seu apartamento.
— Você guardou meu nome? — perguntou ele, interessado. — John Isidore, e que eu trabalho para...
— Você me disse para quem trabalha. — Parou por um momento à porta, abriu-a e disse: — Para alguma incrível pessoa chamada Hannibal Sloat, que tenho certeza que não existe fora de sua imaginação. Meu nome é. .. — Lançou-lhe um de seus últimos olhares gelados, enquanto entrava no apartamento, hesitou, e disse: — Eu sou Rachael Rosen.
— Da Rosen Association? — perguntou ele. — O maior fabricante de robôs humanóides usados em nosso programa de colonização?

Uma expressão complicada passou no mesmo instante pelo rosto da moça, rapidamente, e logo desapareceu.
— Não — retrucou. — Nunca ouvi falar nessa empresa. Não sei de coisa alguma a respeito dela. Mais de sua imaginação de debilóide, acho. John Isidore e sua caixa de empatia pessoal, privada. Pobre Sr. Isidore.
— Mas seu nome sugere...
— Meu nome — disse a moça — é Pris Stratton. O meu nome de casada. Sempre o uso. Nunca uso outro nome, senão Pris. Pode me chamar de Pris. — Pensou por um momento e, em seguida, corrigiu: — Não, é melhor me chamar de Srta. Stratton. Porque nós não nos conhecemos, realmente. Pelo menos, não o conheço.

A porta se fechou sobre ela e ele ficou sozinho no corredor escuro coberto de poeira.


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sexta-feira, 14 de maio de 2010

Virada Cultural - São Paulo


Música, gastronomia, cinema, dança, teatro, literatura e muito mais!

A Virada Cultural, que acontece sábado e domingo em São Paulo, abre espaço também para o gênero fantástico.

O Conselho Steampunk estará no stand 18, DIMENSÃO NERD, na Praça Roosevelt.

10:00 as 11:00 hs – palestra sobre Historia Alternativa e Steampunk.
11:30 as 14:00 hs – sessão de venda e autógrafos com os autores presentes.
A partir das 14:30 – mesa de RPG multimídia de Castelo Falkenstein.

A programação completa do evento, está disponível no site da Virada Cultural.

Starship Schematics Database


Bem vindo a Starship Schematics Database.

O site se dedica a arquivar cada modelo de nave espacial, dos filmes/séries de TV, Star Trek, Battlestar Galactica, Babylon 5 e Space Battleship Yamato (ou Star Blazers nos EUA).







quinta-feira, 13 de maio de 2010

PODespecular



No PODespecular, um papo divertidíssimo de Paulo Elache, Edgar Smaniotto e participações ilustres, sobre a antologia 'Como era gostosa a minha alienígena', além de uma discussão sobre o puritanismo que cerca a FC de lingua inglesa.

Vale a pena! PODescutar !

quarta-feira, 12 de maio de 2010

Saturn Apartments



No futuro distante, a humanidade precisou evacuar o planeta Terra, a fim de preservá-lo.
Os seres humanos agora residem em uma estrutura gigantesca que forma um anel ao redor da Terra.




A sociedade do Anel é altamente estratificada: quanto mais alto o andar, maior o status.

Mitsu, o humilde filho de um lavador de janelas, acaba de se formar ginasial.
Quando seu pai desaparece e é dado como morto, Mitsu deve assumir a ocupação de seu pai.




Enquanto ele luta com a transição para a vida adulta, Mitsu, através de seu novo trabalho, é testemunha de um estranho mundo de dioramas, dos apartamento de Saturno.


Saturn Apartments

terça-feira, 11 de maio de 2010

Center for the study of Science Fiction


O site do Centro para o Estudo da Ficção Científica da Universidade de Kansas, contém informações e links para quem procura informações sobre o ensino de ficção científica.

O Centro, fundado em 1982, com o primeiro curso ministrado pelo Professor James Gunn, possui uma das maiores bibliotecas de FC em lingua inglesa, do mundo.

A Universidade junto com o Instituto, criaram o prêmio John W. Campbell Memorial para o melhor romance de ficção científica do ano, e o prêmio Theodore Sturgeon Memorial para o melhor conto de FC do ano.

Associado com o Departamento de Inglês, o centro ministra vários cursos como escrita e composição de FC e Estudos de Gênero, oferecidas para graduação e pós-graduação. O departamento oferece também uma opção de escrita criativa na graduação e na pós-graduação. O Centro também oferece um curso sobre "Ciência, Tecnologia e Sociedade" e dois cursos on-line de formação contínua para educadores, além de workshops e cursos intensivos.

segunda-feira, 10 de maio de 2010

SpaceBlooks



A Blooks Livraria promove o evento SpaceBlooks: ciclo de bate-papo sobre ficção científica.

Autores e leitores reunidos diante da produção carioca de FC e seu espaço conquistado em meio a um mercado editorial que não pode mais ignorá-la.

SpaceBlooks são encontros informais e, por isso mesmo, muito francos, onde colocaremos temas como viagens no tempo, colonização de outros mundos e criaturas pan-dimensionais na frente da prateleira.

    * Dia 13 de maio, 19h - Ficção científica na Internet: Os escritores Fábio Fernandes, Ana Cristina Rodrigues e Saint-Clair Stockler expõem seus sucessos e vitórias nesse território de bravos.

    * Dia 20 de maio, 19h - Steampunk:  o escritor e editor Gérson Lodi-Ribeiro, o ilustrador Alexandre Lancaster e o multimidiático Fausto Fawcett falam sobre suas visões de passado na última mesa da noite.





O endereço da Blooks é Praia de Botafogo, 316, Rio de Janeiro (mapa).

domingo, 9 de maio de 2010

Fritz Leiber


Fritz Reuter Leiber Jr. (24 de dezembro de 1910 - 05 de setembro de 1992) nasceu em Chicago, Illinois (EUA) e foi um influente escritor de fantasia e ficção científica, além de ator (de teatro e televisão), filósofo, campeão de esgrima e de xadrez.

Sua popularidade entre os fãs e seus colegas escritores era considerável, e os seus romances de ficção científica "The Big Time" (1958) e "The Wanderer" (1965), e os contos "Gonna Roll the Bones" (de 1967, sobre um jogador que joga dados com a Morte) e "Ship of Shadows" (1970), ganharam o prêmio Hugo ("Bones" ganhou um prêmio Nebula também).

Filho de dois atores shakespearianos, Leiber trabalhou em grupos itinerantes que apresentavam peças de  Shakespeare e escreveu um romance 'Um espectro ronda a Texas' inspirada no célebre escritor inglês.
Leiber também atuou em alguns filmes, uma vez com seu pai, na RKO, em uma versão do Corcunda de Notre Dame (1939).

Muitos dos melhores trabalhos de Leiber são histórias curtas, especialmente de horror. Leiber é amplamente considerado como um dos precursores da moderna história de terror urbano.

Entre seus trabalhos mais famosos, está a série de histórias 'Gray Mouser', escrito num período de 50 anos.
Estas histórias foram, de fato, os progenitores de muitos livros do gênero capa e espada e feitiçaria.

Leiber foi fortemente influenciado por H.P. Lovecraft e Robert Graves nas duas primeiras décadas de sua carreira. A partir do final dos anos 50, ele estava cada vez mais influenciado pelas obras de Carl Gustav Jung. Muitas vezes, os conceitos da psicanálise junguiana são mencionados abertamente em suas histórias, especialmente o 'anima'.

Seus fãs lhe concederam o prêmio Gandalf (Grand Master) na convenção mundial de FC de 1975, e em 1981, o Science Fiction and Fantasy Writers of America nomeou-o com o título de Grão-Mestre.


Fritz Reuter Leiber ( A Bad day for sale, Best of Fritz, Coming attraction, Damnation morning, El Planeta errante, Gather Darkness, Gondolier, Gonna roll the bones, I'll met in Lankhmar, Midnight in the mirror world, Nave de sombras, Our lady of darkness, The Big Time, The Black Gondolier, The Girl with hungry eyes, The Green Millenium, The Hound, The Mind Spider, The Number of the beast, The Oldest soldier, The Wanderer, Un Fantasma recorre Texas, Série Espadas, Fafhrd and gray mouser series, Jefes descarriados, La Anciana senorita Macbeth, La Gran hora, La Mente arana, La raiz cuadrada del cerebro, 237 Estatuas parlantes, Cronicas del gran tiempo, Cuando soplan los vientos cambiantes, El Circulo Interior, El grupo beat, El hombre que nunca llegaba a joven, El numero de la Bestia, El Planeta errante, Espectros de la noche, Esposa hechicera, Hagase la oscuridad, Imagiciones horribles, Los Cerebros Plateados, Nuestra Senora de las tinieblas, Un Cubo de aire, Agarra este Zeppelin, El Hombre que era amigo de los Electrones, El Hombre que nunca rejuvenescia, En el Rayo X, Ervool, Espacio-Tiempo para saltadores, La Bestia Marciana, La Mutacion del hermano, Mariana, Proximas atraciones ) [ Download ]

sábado, 8 de maio de 2010

O Caçador de Andróides - Philip K. Dick (parte 6)



O PEQUENO feixe de luz branca iluminava, fixo, o olho esquerdo de Rachael Rosen; colado a seu rosto, o disco de tela de arame.
Ela parecia calma.

Sentado numa posição de onde podia ver as leituras dos dois medidores do aparelho de teste Voigt-Kampff, disse Rick Deckard:
— Vou descrever certo número de situações sociais. Você deve manifestar sua reação com a maior rapidez possível. O seu tempo de resposta será medido, naturalmente.
— E, naturalmente — respondeu Rachael, a voz distante —, minhas reações verbais não terão importância. Você usará como índices exclusivamente as reações oculares e capilares. Mas vou responder. Quero ir nisto até o fim e... — interrompeu-se. — Continue, Sr. Deckard.

Escolhendo a questão três, Rick disse:
— No seu aniversário, você recebe de presente uma carteira de couro de vaqueta. — Ambos os medidores passaram imediatamente do verde para c vermelho, as agulhas tremeram violentamente e depois pararam.
— Eu não a aceitaria — respondeu Rachael. — Denunciaria também à polícia a pessoa que me deu o presente.

Depois de fazer um tique na folha de anotações, Rick continuou, passando para a oitava pergunta na escala de perfil Voigt-Kampff:
— Você tem um filhinho e ele lhe mostra sua coleção de borboletas, incluindo o jarro onde as mata por sufocação.
— Eu o levaria a um médico. — Rachael falou em voz baixa, mas firme.

Mais uma vez, os dois medidores registraram reação, mas desta vez as agulhas não se moveram muito. Ele anotou isso, também.
— Você está sentada, assistindo TV — continuou ele — e, de repente, descobre uma vespa andando pelo seu punho.
— Eu a mataria — respondeu Rachael.

Desta vez os medidores quase nada registraram: apenas um tremor fraco e momentâneo. Ele anotou o fato e, cauteloso, selecionou a pergunta seguinte.
— Numa revista, você encontra uma página inteira em cores de uma moça nua, — Interrompeu-se.
— Esse teste é para saber se eu sou andróide — perguntou maliciosa Rachael — ou se sou homossexual? — Os medidores nada registraram.

Ele continuou:
— Seu marido gosta da foto. — Os medidores continuaram a não indicar reação alguma. — A moça — acrescentou — está deitada de bruços num belo tapete de pele de urso. — Os medidores permaneceram inertes e ele disse para si mesmo: uma reação de andróide.
Ele não conseguiu detectar o principal elemento, a pele do animal morto.

A mente dela, da máquina, concentra-se em outros fatores.
— Seu marido pendura a foto na parede do gabinete dele — concluiu Rick e, desta vez, os ponteiros se moveram.
— Eu, de modo algum, deixaria que ele fizesse isso — disse Rachael.
— Muito bem — concordou Rick, inclinando a cabeça. — Agora, considere o seguinte: você está lendo um romance escrito nos velhos dias, antes da guerra. Os personagens estão visitando o Fisherman's Wharf, em São Francisco. Ficam com fome e vão fazer uma refeição num restaurante de frutos do mar.
Um deles pede lagosta.
O maítre lança a lagosta numa panela de água fervente, enquanto os personagens olham.
— Oh, Deus — disse Rachael —, isso é horrível! Faziam realmente isso? É tão depravado! Você quer dizer, uma lagosta viva — Os medidores, contudo, não registraram coisa alguma.

Formalmente, uma reação correta. Mas simulada.
— Você aluga uma cabana na montanha — prosseguiu ele — numa área ainda verde. É do tipo rústico, de toras de pinheiro, com uma imensa lareira.
— Sim — disse Rachael, inclinando impaciente a cabeça.
— Numa das paredes, alguém pendurou velhos mapas. Reproduções Currier e Ives e, em cima da lareira, há uma cabeça de cervo empalhada, de um macho, com galhadas bem desenvolvidas.

As pessoas que estão com você admiram a decoração da cabana e vocês todos resolvem. .
— Não, com a cabeça do cervo — disse Rachael. Os medidores, contudo, indicaram movimento apenas dentro da faixa verde.
— Você é engravidada — continuou Rick — por um homem que prometeu casar com você. O homem vai embora com outra mulher, sua melhor amiga. Você faz um aborto e...
— Eu nunca faria um aborto — retrucou Rachael — De qualquer modo, não posso. Significa prisão perpétua e a polícia anda sempre vigilante.

Desta vez, ambos os ponteiros saltaram violentos para o vermelho.
— Como é que você sabe disso? — perguntou-lhe curioso Rick. — Sobre a dificuldade de fazer um aborto?
— Todo mundo sabe disso — respondeu Rachael.
— Deu a impressão de que você falava por experiência pessoal. — Observava atento os ponteiros que ainda varriam um largo caminho pelos mostradores. — Mais uma. Você está namorando e o homem convida-a a visitar o apartamento dele. Enquanto se encontra lá, ele lhe oferece uma bebida. Ali, com o copo na mão, você olha para o quarto de dormir, atraentemente decorado com cartazes de touradas e se aproxima para olhar mais de perto. Ele a segue, fechando a porta. Colocando o braço em volta de seu corpo, ele diz...

Rachael interrompeu-o:
— O que é um cartaz de touradas?
— Desenhos, geralmente em cores, e muito grandes, mostrando um matador com sua capa, e um touro tentando chifrá-lo. — Pareceu confuso. — Qual é sua idade? — perguntou. Aquilo poderia ser um fator.
— Dezoito — respondeu Rachael. — Muito bem, então esse homem fecha a porta e passa o braço em volta de mim. O que é que ele diz?
— Sabe como é que terminavam as touradas? — perguntou Rick.
— Acho que todo mundo ficava machucado.
— O touro, no fim, era sempre morto. — Esperou, observando os dois ponteiros. Eles palpitaram inquietos, nada mais. Nenhuma leitura absolutamente. — A pergunta final — disse. — Em duas partes. Você está assistindo a um velho filme na TV, um filme de antes da guerra. Mostra um banquete. Os convidados estão saboreando ostras vivas.
— Ugh — exclamou Rachael e os ponteiros giraram rápidos.
— A entrada — continuou ele — consiste de cão cozido, recheado com arroz. — Os ponteiros moveram-se menos desta vez, menos do que haviam feito com as ostras cruas. — Ostras cruas são mais aceitáveis para você do que um prato de cão cozido? Evidentemente que não. — Pôs de lado o lápis, desligou o feixe de luz e retirou o disco adesivo do rosto dela.
— Você é um andróide — disse a ela — ou melhor, à coisa. — Esta é a conclusão do teste — informou a Eldon Rosen, que o observava, contorcendo-se de preocupação.

O rosto do homem idoso contraiu-se, mudando plasticamente com irritada preocupação.
— Estou certo, não? — perguntou Rick.
Nenhuma resposta, de nenhum dos dois Rosens, — Escute aqui — disse em tom conciliador — nós não temos conflitos de interesses. É importante para mim que o Teste Voigt-Kampff funcione, quase tão importante quanto para você.
O Rosen mais velho respondeu:
— Ela não é um andróide.
— Não acredito nisso — retrucou Rick.
— Por que mentiria ele? — perguntou feroz Rachael a Rick. — Se fôssemos mentir, mentiríamos em sentido contrário.
— Eu quero que seja feita uma análise de sua medula óssea — disse-lhe Rick. — O teste pode, finalmente, determinar se você é um andróide ou não. É um teste lento, doloroso, reconheço, mas...
— Legalmente — retrucou Rachael — eu não posso ser obrigada a me submeter a um teste de medula óssea. Isto foi resolvido pelos tribunais. Seria um caso de auto-incriminarão. E de qualquer modo, numa pessoa viva — não no cadáver de um andróide aposentado — leva um bocado de tempo. Você pode aplicar essa droga de Teste de Perfil Voigt-Kampff por causa dos especiais. Eles têm que ser testados constantemente e, enquanto o governo fazia isso, vocês das forças policiais conseguiram passar com o Voigt-Kampff por baixo do pano. Mas o que você disse é verdade: isto foi o fim do teste. 

Levantou-se. Afastou-se dele e, com as mãos nos quadris, ficou de costas para ele.
— A questão não é a legalidade da análise de medula óssea — disse rouco Eldon Rosen. — A questão é que seu teste de identificação de empatia falhou em relação a minha sobrinha. Posso explicar por que ela reagiu como um andróide reagiria. Rachael cresceu a bordo do Salader 3. Nasceu nele. Passou quatorze dos seus dezoito anos vivendo de sua biblioteca de fitas gravadas e do que os nove outros membros da tripulação sabiam sobre a Terra. Depois, como você sabe, a espaçonave voltou quando já havia coberto um sexto do caminho para Próxima Centauri. De outro modo, Rachael jamais teria visto a Terra... de qualquer modo, não até muito depois na vida.
— Você teria me aposentado — disse Rachael por cima do ombro. — Numa rede de arrastão policial, eu teria sido morta. Sei disso desde que cheguei aqui há quatro anos; esta não é a primeira vez em que me aplicam o Teste Voigt-Kampff. Para dizer a verdade, raramente saio deste prédio. O risco é enorme, devido a essas barreiras nas estradas que vocês policiais levantam por aí, aquelas blitzes, aquelas incertas para prender especial; não registrados.
— E andróides — acrescentou Eldon Rosen. — Embora, naturalmente, o público não seja informado disso. O público não deve saber que os andróides estão na Terra, ao nosso redor.
— Eu não acho que estejam — respondeu Rick. — Acho que os vários órgãos policiais, aqui e na União Soviética, prenderam todos eles. Agora, a população já é suficientemente pequena, Todas as pessoas, mais cedo ou mais tarde, caem num ponto de identificação. Essa, de qualquer modo, era a idéia.
— Quais são suas instruções — perguntou Eldon Rosen — se acabar designando como andróide um ser humano?
— Isso é assunto departamental.

Começou a recolocar a aparelhagem na pasta. Os dois Rosens observavam-no, em silêncio.
— Obviamente — acrescentou — recebi instruções para cancelar aplicações ulteriores de testes.
Se falhou uma única vez, não há razão para continuar. — Fechou com um estalo a pasta.
— Nós podíamos tê-lo enganado — disse Rachael. — Coisa alguma nos obrigou a reconhecer que você me testou mal. E a mesma coisa se aplicaria aos nove outros sujeitos que escolhemos. — Fez um gesto vigoroso. — Tudo o que tínhamos que fazer era simplesmente aceitar os resultados de seus testes, quaisquer que fossem.
— Eu teria insistido numa lista antecipada. Um controle de envelope fechado. E comparado os resultados de meus testes, em busca de congruência. Teria que haver congruência. — E vejo agora, compreendeu, que não a teria obtido. Bryant tinha razão. Graças a Deus, não saí por aí caçando cabeças na base deste teste.
— Sim, acho que o senhor teria feito isso — concordou Eldon Rosen. Lançou um rápido olhar a Rachael, que inclinou a cabeça. — Nós discutimos essa possibilidade — continuou depois, relutante.
— Este problema — disse Rick — tem origem, inteiramente, em seus métodos de operação, Sr. Rosen. Ninguém obrigou sua empresa a aperfeiçoar a produção de robôs humanóides a um ponto em que . .
— Nós produzimos o que os colonos queriam — retrucou Eldon Rosen. — Seguimos o princípio, consagrado pelo tempo, de todas as empresas comerciais. Se nossa empresa não tivesse produzido esses tipos cada vez mais humanos, outras firmas neste campo o teriam feito. Sabíamos o risco que corríamos quando criamos a unidade cerebral Nexus-6. Mas seu Teste Voigt-Kampff já era um fracasso antes de lançarmos esse tipo de andróide. Se houvesse classificado um andróide Nexus-6 como andróide, se houvesse descoberto que era um ser humano...mas não foi isso o que aconteceu. — Sua voz se tornara dura e contundentemente penetrante. — Seu departamento de polícia, e outros também, podem ter aposentado, com toda probabilidade aposentaram, seres humanos autênticos com capacidade empática subdesenvolvida, tal como minha inocente sobrinha aqui. Sua situação, Sr. Deckard, é extremamente má, moralmente falando. A nossa não!
— Em outras palavras — disse astutamente Rick —, não vou ter oportunidade de examinar um único Nexus-6. Antes de mais nada, vocês me lançaram nos braços essa moça esquizóide. — E meu teste, deu-se conta, está liquidado. Não devia ter aceito fazer isso, disse a si mesmo. Contudo, era tarde demais.
— Nós o temos em nossas mãos, Sr. Deckard — concordou Rachael, com voz tranqüila e razoável. Virou-se para ele, e sorriu.
Não podia compreender, mesmo naquele instante, como a Rosen Association conseguira prendê-lo numa armadilha, e com aquela facilidade toda. Especialistas, percebeu. Uma empresa gigantesca como essa tem experiência demais. Possui, na verdade, uma espécie de mente coletiva. Eldon e Rachael Rosen eram porta-vozes dessa entidade anônima. Seu erro, evidentemente, consistira em considerá-los como indivíduos. Este era um erro que não repetiria.
— Seu superior, o Sr. Bryant — disse Eldon Rosen —, vai achar difícil compreender como foi que o senhor deixou que anulássemos seu aparelho de teste antes que o teste começasse. — Apontou para o teto, e Rick viu a lente da câmara. Seu cabeludo erro no trato com os Rosens fora devidamente documentado. — Acho que, para nós, a coisa certa a fazer — continuou Eldon — é sentarmo-nos e... — fez um gesto afável. — Podemos chegar a um acordo, Sr. Deckard. Nenhuma necessidade de preocupação. A variedade Nexus-6 de andróide é uma realidade. Nós aqui na Rosen Association reconhecemos isto, e acho que o senhor, agora, também.

Rachael, inclinando-se para Rick, perguntou:
— Com que intensidade você gostaria de ter uma coruja?
— Eu duvido que algum dia vá possuir uma coruja. — Mas sabia o que era que ela insinuava. Entendia perfeitamente a transação que a Rosen Association queria fazer com ele. Tensão, de um tipo que jamais sentira antes, manifestou-se nele e explodiu, vagarosamente, em todas as partes de seu corpo.

Sentiu a tensão, a consciência do que estava acontecendo, assumir inteiramente o controle.
— Mas uma coruja — disse Eldon Rosen — é a coisa que você quer. — Olhou indagador para a sobrinha. — Acho que ele não tem uma idéia...
— Claro que tem — contraditou-o Rachael. — Ele sabe exatamente para onde está se encaminhando esta conversa. Não sabe, Sr. Deckard? — Mais uma vez, inclinou-se para ele, mais perto agora. Ele podia sentir nela um leve perfume, quase um calor, — O senhor praticamente conseguiu, Sr. Deckard. O senhor praticamente tem sua coruja. — Virou-se para Eldon Rosen: — Ele é um caçador de cabeças a prêmio, lembra-se? De modo que vive dos prêmios que obtém, não de seu salário. Não é assim, Sr. Deckard?
Rick inclinou a cabeça.
— Quantos andróides escaparam desta vez? — perguntou Rachael.
Ele respondeu no mesmo instante:
— Oito. Inicialmente dois já foram aposentados por alguém. Não por mim.
— Quanto é que o senhor ganha por aposentar cada andróide? — quis saber Rachael.
Encolhendo os ombros, Rick explicou:
— Isso varia.
— Se o senhor não tem um teste que possa administrar, então o senhor não tem meios de identificar um andróide — disse Rachael. — E se não houver maneira de identificar um andróide, não há maneira de receber seu prêmio. De modo que, se a Escala Voigt-Kampff tem que ser abandonada...
— Ela será substituída por uma nova escala — retrucou Rick. — Isto já aconteceu antes. — Três vezes, para ser exato. Mas a nova escala, o aparelho analítico mais moderno, já existia. Nenhum lapso ocorrera. Desta vez, era diferente.
— No fim, claro, a Escala Voigt-Kampff tornar-se-á obsoleta — concordou Rachael. — Mas não agora. Estamos convencidos de que ela identificará os tipos Nexus-6 e gostaríamos que o senhor continuasse nessa base em seu trabalho particular, peculiar. — Balançando-se levemente para frente e para trás, os braços bem cruzados, ela fitou-o com intensidade, procurando avaliar-lhe a reação.
— Diga que ele pode ganhar a coruja — sugeriu com voz áspera Eldon Rosen.
— Você pode ganhar a coruja — repetiu Rachael, observando-o ainda. — Aquela que está lá no telhado. Scrappy. Mas nós vamos querer cruzá-la se conseguirmos pôr as mãos num macho. E todos os filhotes serão nossos, isto tem que ficar absolutamente claro.
— Eu dividirei pela metade a ninhada — disse Rick.
— Não — respondeu no mesmo instante Rachael. Atrás dela, Eldon Rosen sacudiu a cabeça, apoiando-a. — Dessa maneira, você teria direito exclusivo à linhagem de sangue das corujas, pelo resto da eternidade. E há outra condição. Você não pode deixar em testamento sua coruja a pessoa alguma. Em caso de sua morte, ela volta para a empresa.
— Isso parece — comentou Rick — um convite para que vocês entrem e me matem. Para conseguir de volta, imediatamente, sua coruja. Não concordo com isso. É perigoso demais.
— Você é um caçador de cabeças a prêmio — disse Rachael. — Sabe como manejar uma pistola laser... Na verdade, está portando uma delas nesse instante. Se não pode se proteger, como é que vai aposentar os seis andros Nexus-6 restantes? Eles são muito mais sabidos do que os velhos W-4 da Gozzi Corporation.
— Mas sou eu quem os caça — replicou Rick. — Desta maneira, com uma cláusula de reversão, alguém estaria me caçando, — E não gostava da idéia de ser sorrateiramente seguido. Vira o efeito disso em andróides. Produzia algumas mudanças notáveis, mesmo neles.
— Muito bem, nós cedemos nesse ponto — concordou Rachael. — Você pode deixar a coruja em testamento a seus herdeiros. Mas nós insistimos em ficar com a ninhada inteira. Se não puder concordar com isto, volte a São Francisco e reconheça para seus superiores do departamento que a Escala Voigt-Kampff, pelo menos da forma aplicada pelo senhor, não pode distinguir um andro de um ser humano. E, em seguida, vá procurar outro emprego.
— Dê-me algum tempo — pediu Rick.
— Muito bem — anuiu Rachael. — Nós o temos aqui, onde é confortável. — Lançou um olhar ao relógio.
— Meia hora — disse Eldon Rosen. Em silêncio, ele e Rachael dirigiram-se para a porta. Haviam dito o que queriam, compreendeu Rick; o resto, agora, cabia a ele.
No momento em que Rachael começava a fechar a porta, depois de terem saído ela e o tio, Rick disse sombrio:
— Vocês me pegaram numa boa. Gravaram em fita que eu me enganei com vocês. Sabem que meu emprego depende do uso que faço da Escala Voigt-Kampff, e, para completar, têm aquela droga de coruja.
— Sua coruja, querido — disse Rachael. — Lembra-se? Prenderemos o endereço de sua casa na perna da coisa e a mandaremos por via aérea para São Francisco. Ela o receberá em casa toda vez que você encerrar o expediente.

A coisa, pensou ele. Ela continua a chamar a coruja de coisa. Ela, não.
— Um segundo só — disse.
Parando à porta, Rachael perguntou:
— Já decidiu?
— Eu quero — respondeu ele, abrindo a pasta de documentos — fazer-lhe mais uma pergunta sobre a Escala Voigt-Kampff. Sente-se outra vez.
Rachael lançou um olhar ao tio, que inclinou a cabeça.
De má vontade, ela voltou à sala e sentou-se como antes.
— Para que, isso? — perguntou ela, suas sobrancelhas erguidas de antipatia... e cautela.
Ele percebeu-lhe a tensão, anotou-a profissionalmente.

No mesmo instante, apontou para o olho direito dela o lápis de luz e pregou-lhe no rosto o disco adesivo. Rachael olhou fixamente para a luz, ainda visível a sua expressão de extrema antipatia.
— Minha pasta — comentou Rick, enquanto procurava nela os formulários Voigt-Kampff. — Bonita, não? Distribuição do departamento.
— Bem, bem... — disse distante Rachael.
— Pele de bebê — disse Rick, alisando a superfície preta de couro da pasta. — Couro de bebê humano, garantido como autêntico, cem por cento. 

Notou que os ponteiros dos dois mostradores giravam freneticamente. Mas apenas depois de uma pausa.
A reação viera, mas tarde demais. Conhecia o período de reação até a fração de segundo, o período de reação correto. Não devia ter havido atraso algum.
— Obrigado, Srta. Rosen — disse, reunindo outra vez o equipamento, Concluíra seu teste. — Isto é tudo.
— Vai embora? — perguntou Rachael.
— Vou — respondeu ele. — Estou satisfeito.

Cautelosa, Rachael perguntou:
— E os nove outros sujeitos de teste?
— A escala foi suficiente no seu caso — respondeu ele.
— Posso extrapolar a partir daí. Evidentemente, ainda não é eficiente. — Para Eldon Rosen, que desmoronara devagar junto à porta da sala, disse: — Ela sabe? — As vezes, elas não sabiam. Falsas recordações haviam sido tentadas várias vezes, geralmente na concepção errada de que, graças a elas, reações aos testes pudessem ser alteradas,
— Não — respondeu Eldon Rosen. — Nós a programamos inteiramente. Mas acho que, no fim, ela desconfiava. — À moça, disse: — Você desconfiou quando ele quis fazer outra tentativa.
Pálida, Rachael inclinou rigidamente a cabeça.
— Não tenha medo dele — disse-lhe Eldon Rosen — Você não é um andróide fugitivo, que escapou ilegalmente para a Terra. Você é propriedade da Rosen Association, usada como expediente de vendas para emigrantes em perspectiva. — Dirigiu-se para ela e colocou num gesto de consolo a mão sobre seu ombro.

Ao toque, ela se encolheu toda.
— Ele tem razão — confirmou Rick. — Não vou aposentá-la, Srta. Rosen, Bom dia. — Dirigiu-se para a porta, mas parou por um momento. Aos dois, perguntou: — A coruja é autêntica?
Rachael lançou um rápido olhar ao Rosen mais velho.
— Ele vai embora, de qualquer modo — disse Eldon Rosen. — Não importa mais agora. A coruja é artificial, Não há mais corujas.
— Hummmm — murmurou Rick e saiu em passo ágil para o corredor.
Os dois observaram-no, enquanto ele se afastava. Nenhum dos dois disse coisa alguma.
Coisa alguma restava a dizer.

Então, é assim que opera o maior fabricante de andróides, disse Rick para si mesmo. Tortuosamente, e de uma maneira como nunca encontrara antes. Um novo e complicado tipo de personalidade. Não era de espantar que os órgãos mantenedores da lei estivessem tendo problemas com o Nexus-6.
O Nexus-6. Agora encontrara um deles. Rachael, compreendeu, devia ser um Nexus-6. Estou vendo um deles, pela primeira vez. E, droga, quase conseguiram, chegando bem perto de minar a Escala Voigt-Kampff, o único método de que dispomos para identificá-los.

A Rosen Association faz um bom trabalho — faz uma boa tentativa, pelo menos — para proteger seus produtos.

E tenho que enfrentar mais seis deles, pensou. Antes de acabar com a coisa.
Ganharia, com toda justiça, o dinheiro do prêmio. Cada centavo.
Supondo que conseguisse chegar vivo ao fim.


O Caçador de Andróides - Philip K. Dick  (parte 6) [ Download ]

sexta-feira, 7 de maio de 2010

ao Limiar - Rede de escritores e leitores de literatura fantástica


O website ao Limiar é uma iniciativa do Conselho SteamPunk dedicada a comunidade de Escritores Profissionais, Amadores, Editoras e Leitores de Literatura Fantástica.

A missão do aoLimiar é construir um canal efetivo para a disponibilização, divulgação, discussão e publicação de trabalhos originais de autores nacionais, seja com intuito comercial ou sob licenças Creative Commons.

Esta ferramenta tenciona, portanto, disponibilizar trabalhos literários para Editoras, divulgar obras hospedadas no aoLimiar, promover a discussão em websites profissionais igualmente aqui hospedados e construir uma ponte entre a comunidade de Escritores e Editoras.

Para entrar em contato conosco use o e-mail mail@limiar.com.br.

quinta-feira, 6 de maio de 2010

Longevidade Máxima



Maximum Lifespan (“Longevidade Máxima”) é uma graphic novel de Ficção Científica dividida em três volumes.

A história, a lá Philip Dick, gira em torno de um cientista de poucos escrúpulos, obcecado por sua pesquisa para prolongar a vida humana.




Duas coisas chamam a atenção imediata do leitor, a excelente qualidade dos desenhos, e a opção por uma narrativa cinematográfica, muito provavelmente escolhida para 'facilitar' (quem sabe?) uma eventual versão para o cinema.

Como estratégia de divulgação, a graphic novel foi disponibilizada para ser baixada (o primeiro volume) no formato PDF, ou pode também ser lida no formato flipbook no site da ISSUU (em português).


quarta-feira, 5 de maio de 2010

Tribbles


Anatomia de um Tribble do site  Romulan Whore





The Trouble With Tribbles - David Gerrold

terça-feira, 4 de maio de 2010

Aliens Storyboards















Ridley Scott storyboards do site Ski-Ffy































Storyboards do site Aliens Archive