domingo, 24 de fevereiro de 2008

O que a FC nos deixou - Entrevista com Pablo Capanna



Pablo Capanna, provavelmente, o único intelectual da Argentina que dedicou quase todo o seu trabalho à ficção científica, afirma que o gênero se esgotou. Ou melhor, que ele impregnou tudo, da literatura ao imaginário do século passado, desde o design até a aeronáutica e a imaginação do Pentágono.

O futuro não é mais do que uma propriedade da imaginação, um terreno no qual convivem, em eterno conflito, o terror e o desejo. Ninguém resiste demasiadamente à catástrofe, e por isso foram inventados os profetas e o tarô de Marselha. O mundo nada mais é do que um sistema de símbolos: existe quem insiste em decodificá-lo e os que aguardam a revelação.

Borges, se não me engano, estabelece a origem da ficção no livro Somnium Astronomicum, escrito por Kepler no século XVII. A rigor, é um tratado com pretensões científicas sobre a vida na lua, cujos delírios se renderam frente às evidências, e que sobreviveu graças ao seu virtuosismo poético. Custa pensar, não obstante, para todos os que hoje utilizam um computador pessoal com a mesma facilidade com que abre uma torneira, que certa vez a lua foi um cartão recortado, atirado de estilingue num canto do céu para o deleite dos telescópios primitivos, mais capazes de abrir espaço para a fantasia que de demonstrar alguma coisa com certeza axiomática.

Agora que a terra é mapeada pelo Google Earth, democratizada nas lan houses, talvez tenha chegado o momento propício para confrontar quanto do mundo previsto ou inventado pela literatura se confirma ou se desmente no horizonte contemporâneo.


Um exercício que o escritor Isaac Asimov já praticou frente à série de ilustrações que o desconhecido artista francês Jean Marc Cotè desenhou em 1899, em seu afã de representar o alvorecer do século 21. São imagens de cozinhas equipadas com provetas, serviços de correios sonoros, máquinas que transformam em instantes ovos em galetos e espetáculos que exibem cavalos como curiosidades zoológicas.

"O futurismo é um caminho cheio de armadilhas", conclui Asimov, criando um ditado.

Neste contexto, logo após a primeira guerra mundial - talvez como uma válvula de escape para uma geração que ainda contava suas perdas – se os Estados Unidos não houvessem incorporado à cultura de massas o gênero - que um editor da segunda onda da Revolução Industrial batizou de scientifiction - provavelmente não existiriam os trens balas e nem as centenas de fanáticos que sobem, todos os anos, ao Monte Uritoco, para avistar naves extraterrestres.
Depreciada pelos cânones acadêmicos vigentes, a ficção científica foi uma força soterrada que, nas palavras do filósofo Pablo Capanna, moldou o presente tal como o conhecemos. Ela antecipou e previu tantas coisas como se grande parte de seus livros se tratassem de uma somatória de textos sagrados, a que se devem render tributo.

Este é um aspecto que mais tarde geraria uma série de cultos destrambelhados, dos quais a denominada "seita ufólógica" é exemplo suficiente.

E assim seguiram as coisas, até que em 1967 a extinta editora Columba publicou "El sentido de la ciencia ficción" de Pablo Capanna e iniciou os estudos em espanhol sobre o tema. Se à primeira leitura, esta última afirmação resulta no mínimo estranha, temos que recordar que naquele tempo existia um vazio de textos críticos que se referissem à ficção científica, relegada aos gêneros menores da cultura popular.Tampouco se pode desdenhar da impossibilidade de pensar o futuro que toda uma comunidade idiomática sofreu.sob o jugo de sistemas políticos de índole ou viés militarista. Devemos pensar, então, que a edição original do livro de Capanna não corresponde a uma eventualidade e sim à conjunção de diversos fatores de ordem pública.
Ao final dos anos 60, essa obra já portava o fermento revolucionário que seria o sinal da década posterior e a cultura de massas se preparava para entrar no debate intelectual. Aqueles livros amontoados em estantes secretas e que criavam, junto ao pó, traças de menosprezo, muito rapidamente se converteriam em campo de monografia: romances por encomenda e folhetins impressos em papel barato, (os Estados Unidos cunharam o termo pulp fiction para se referirem a eles) que logo conheceram a lupa dos estudiosos.

Em nosso meio, boa parte desta gestação é obra daquele primeiro livro de Capanna, ao redor do qual orbita, quase toda a ficção científica em espanhol. Capanna parece negar seu mérito.

Capanna: "Eu não sou o professor da cátedra de Ficção Científica" (cátedra é superior a uma simples matéria de faculdade), agora que acaba de editar uma versão definitiva do seu livro pioneiro. "O livro circulou principalmente porque ninguém mais se ocupou em escrever sobre o tema. Não que isso seja bom, e sim que não houve competência para tanto", sustenta, ainda que compreenda, que é improvável que um trabalho sobreviva 40 anos sem que o rigor do tempo provoque estragos.

Publicado no fim do ano passado como "Ficção Científica, Utopia e Mercado" (Edições Cántaro), traz de volta um texto fora de catálogo que, além de propor uma propedêutica do gênero, chega ao seu centro filosófico e revela perspectivas surpreendentes.

Capanna: "Quando Víctor Massuh me propôs escrever "O sentido...", eu estava vivendo um vazio pessoal. Havia saído da faculdade com meu diploma de Professor de Filosofia, trabalhava em uma escola técnica da Ford em tempo integral e não tinha um minuto livre. Naquele momento a CGT iniciou um plano de luta que incluía a tomada das fábricas com o propósito secreto de debilitar o governo de Arturo Umberto Illia (Presidente da Argentina de 1963 a 1966, nacionalista, derrubado por um golpe militar). Quando ocuparam a Ford, passamos lá uma noite inteira. No dia seguinte nos mandaram embora dizendo que a empresa nos comunicaria em breve alguma novidade, e portanto não sabia se me despediriam ou se voltaria a trabalhar. De repente, tive quinze dias livres e neste tempo reuni o material - que estava muito disperso - e encaminhei o livro."

De onde vem o seu gosto pela ficção científica?

Capanna: Das histórias, é claro. Quando era criança era o que eu via na tv e ouvia no rádio. Histórias como as de Flash Gordon. Então apareceu ‘Más Allá’, uma revista que foi dirigida, por um tempo, por Héctor G. Oesterheld. Aí conheci a ficção científica propriamente dita. Cheguei a ter a coleção completa e até publiquei um conto quando tinha 18 anos...

Por que o senhor se nega a dar uma definição do gênero?

Capanna: Porque não posso dar. Posso sim tentar definir historicamente, mas os limites estão muito tênues e na verdade é muito difícil estabelecer uma fronteira entre o fantástico e a ficção científica. Há 40 anos isso era mais claro.

Mas, se tivéssemos que limitar o conceito de ficção científica para poder entender do que falamos?

Capanna: Fundamentalmente, ficção científica foi um gênero literário...

Por que fala no passado?

Capanna: Eu penso que cumpriu seu ciclo. Sobrevive como uma categoria comercial, mas perdeu impulso. Nasceu como gênero literário e logo se estendeu a todos os meios: colonizou o cinema, passou a fazer parte da concepção gráfica das coisas. Os que viveram na década de sessenta, fomos criados em um mundo de ficção científica. Os carros tinham uma traseira que imitava os foguetes de Flash Gordon, e tudo o que víamos se apresentava como "a tecnologia do futuro", quando na realidade era do presente. A ficção científica configurou um imaginário e depois se esgotou.

Por quê?

Capanna: Chegou-se a uma situação em que o único progresso que se enxerga é o progresso tecnológico. A única coisa de que temos certeza é que o celular do ano que vem terá mais funções que o deste ano. Agora, ninguém sabe se existirá mais justiça, menos fome e menos desigualdade. Costuma-se dizer que o que distingue um romance de ficção científica de um romance utópico em geral - como ‘Admirável mundo novo’ (A brave new world), de Aldous Huxley, onde tudo termina mal - é que nos primeiros sempre há alguma reviravolta onde um grupo se opõe ao sistema e propõe uma alternativa para que as coisas mudem ou comecem a mudar.

E agora?

Capanna: Agora não se vê mais isso. Se você lê William Gibson - que é um grande escritor, embora não me interesse em especial - é possível encontrar uma insistência nas marcas, nos dispositivos eletrônicos e na tecnologia, mas em seu mundo a condição humana está piorando. É um mundo dominado pelas máfias. Não é ficção científica, é quase realismo. É nesse sentido que o ciclo se esgotou. Talvez esse seja um ponto de vista meramente pessoal e logo haja um renascimento.

Pode-se afirmar que existiu uma época de maior inocência?

Capanna: Houve um processo de amadurecimento do gênero. Quando foi comercializado nos Estados Unidos durante a década de trinta, havia uma enorme ingenuidade em torno de uma idéia básica: que todos os problemas da humanidade poderiam ser resolvidos com mais e melhor tecnologia. A prova disso está na aparição dos tecnocratas, um grupo político nascido diretamente da ficção científica. Essa ingenuidade durou um tempo, mas quando sobreveio a Segunda guerra Mundial, junto com todas as carnificinas do período, produziu-se uma crise de maturidade. Aí apareceu uma figura como John W. Capbell, muito polêmica, mas que evidentemente levantou o nível da discussão. Como diretor da revista Astounding, impulsionou a carreira de autores como Ray Bradbury ou Theodore Sturgeon.


Tratava-se de uma ficção científica humanista, como se vê no subproduto mais original desses anos, que foi a série ‘Jornada nas Estrelas’ (Star Trek). Ali os americanos se dão bem com os russos, os negros com os brancos. Em ‘Jornada’ aconteceu o primeiro beijo interracial da história da televisão. Era uma série verdadeiramente progressista. Mais tarde isso foi perdendo força e hoje existe uma ficção científica para cada setor. Inclusive algumas racistas e de tendências autoritárias.

O que define, então, que uma obra seja classificada como ficção científica?

Capanna: O critério dos editores.

Nada mais?

Capanna: Acho que não. Porque a maioria dos bons escritores que saíram da ficção científica, como James G. Ballard, renegam o gênero. Em última instância, ficar fazendo essas distinções é coisa de acadêmicos. E os acadêmicos, que contribuíram tanto para que o gênero fosse aceito pela cultura, ao mesmo tempo o limitaram. Definiram convenções estritas que na prática não são respeitadas, mas que funcionam como critério para os editores.

O caráter antecipador de alguns textos se converteu em uma marca do gênero?

Capanna: Acredita-se que a ficção científica se ocupa de adivinhar o futuro e é certo que esteve sempre ligada a ele, mas já se escreveu ficção científica sobre o homem de Neanderthal ou sobre Napoleão em Waterloo. É lógico, portanto, que havendo textos de temáticas tão variadas alguns tratarão de questões do porvir, mas a isso se chama simplesmente de cálculo de probabilidade. Para predizer o futuro estão aí os economistas e as pitonisas, não os escritores. O que dizem os grandes criadores - e eu já ouvi isso ao vivo de Brian Aldiss e William Gibson - é que a ficção científica se ocupa basicamente do presente. Do presente projetado, ampliado. Nos últimos 50 anos os escritores não querem mais fazer prognósticos sobre o futuro, embora em geral tratem de nos prevenir. São romances de advertência.

Por exemplo...

Capanna: Ocorre que às vezes isso que um escritor imagina como advertência termina tornando-se realidade, a despeito de suas intenções. Em 1948, George Orwell escreve "1984". Ele vinha da experiência do totalitarismo e quer nos advertir sobre um estado tirânico, onde o Grande Irmão nos vigia a todos. Não se podia imaginar, naquele momento - porque era um romance de advertência - que aí pelo ano 2000 iria existir um programa de televisão no qual as pessoas se matam para se encerrar num local onde serão vigiados, nem muito menos supor que uma empresa como a Microsoft criaria um software para monitorar os sinais vitais dos trabalhadores, com a suposta intenção de melhorar seu rendimento.

E daí se deduz que a ficção científica inventa o futuro?

Capanna: Provavelmente. Apesar das intenções do autor, que às vezes podem ser simplesmente de advertência, as coisas acabam acontecendo. Alguém levanta uma idéia, coloca-a em circulação e logo ela se materializa em tecnologia.

E o que é o futuro?

Capanna: Imaginação. É um horizonte para nossa imaginação. É uma forma de dar sentido à vida. Neste contexto, a ficção científica tem tentado tanto antecipar quanto prevenir, e direta ou indiretamente influenciou a cultura. Quer dizer, faz parte do imaginário. Existiram fenômenos importantes no século XX - geralmente considerados secundários ou marginais, mas de muito peso - que nasceram da ficção científica. Nasceram religiões inspiradas na ficção científica: a Cientologia, por exemplo, que assola Hollywood, é a religião da ficção científica, cheia de componentes que antes figuravam nas revistas especializadas.

Até que ponto a ficção científica não é uma ideologia?

Capanna: Ideologia sim, mas no sentido clássico, daquilo que não se vê, que não se faz temático, que é como o ar. A ideologia é o que não se questiona. E como a ficção científica ocupou o imaginário do futuro, qualquer um se punha a pensar, ou prometia um futuro melhor ou diferente e estava valendo. Por outro lado, a conquista do espaço foi um projeto da ficção científica que foi usado politicamente pela NASA porque era parte do imaginário daquele momento.

Poderia-se falar de uma certa conspiração do poder para beber na fonte dessas ficções e levá-las à prática?

Capanna: Diria ao contrário: que as mentes conspirativas têm sido vítimas da ficção científica.

De que maneira?

Capanna: Por exemplo, no uso que os serviços de inteligência norte-americanos fizeram da parapsicologia. Ficamos sabendo que gastaram milhões de dólares para treinar telepatas para saber o que os russos estavam fazendo. Alguém poderia perguntar-se: como pode ser, que gente supostamente racional ou lúcida, que está no poder no Pentágono, colocava um telepata a meditar, para ver o que faz o inimigo? Entretanto, essa é uma idéia que lhe foi semeada pela ficção científica quando era criança, e transformou-o no tipo de gente que pensa desta forma.

Ou seja, a ficção científica extrapola totalmente a mera literatura...

Capanna: Do ponto de vista literário se pode questionar qualquer coisa, mas do mitológico, a ficção científica configurou o imaginário de todo o século XX.

http://www.revistaenie.clarin.com/notas/2008/02/02/01598619.html
Nesta entrevista também está a opinião de Oliverio Coelho. (Entrevista de Diego Manso.)
Tradução: Ana Paula Medeiros

Pablo Capanna nasceu em Firenze, Itália, em 1939, mas sua família mudou-se para Buenos Aires quando Pablo tinha 10 anos. É professor de filosofia, jornalista e escritor. Por duas vezes foi agraciado com os prêmios Pléyade, o Diploma Konex e cinco vezes com o Prêmio Más Allá.

Algumas de suas obras: El sentido de la ciencia ficción (Buenos Aires, 1967), La Tecnarquía (Barcelona, 1973), El Señor de la Tarde, Conjeturas en torno de Cordwainer Smith (Buenos Aires, 1984), Idios Kosmos, claves para Philip K. Dick (Ediciones Axxón, Buenos Aires, 1991). El mundo de la ciencia ficción (Buenos Aires, 1992), El mundo desolado (Almagesto, Buenos Aires, 1993), "Contactos" extraterrestres (Buenos Aires, 1993), El mito de la nueva era (Buenos Aires, 1993), Philip K. Dick, Idios Kosmos (Almagesto, Buenos Aires, 1995), La tentación de la magia (Buenos Aires, 1995), Excursos (Buenos Aires, 1999), El icono y la pantalla. Andrei Tarkovski. (Buenos Aires, 2000), Philip K. Dick, Idios Kosmos (Cántaro, Buenos Aires, 2006).

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