sábado, 5 de abril de 2008

A alvorada de HAL - Entrevista com Arthur Charles Clarke - Parte 3/4



Stork: HAL vive em uma espaçonave entre cientistas, engenheiros e astronautas, mas muito do que hoje ocorre na ciência de computadores está ligado ao lado comercial. Qualquer pessoa possui um computador de mesa, ou um som digital, ou um relógio digital. Me parece uma tendência que foi subestimada e não prevista em 2001.

Clarke: Ninguém imaginou como os computadores tomariam conta do mundo. O presidente da IBM ficou famoso por dizer em 1940, que só haveriam no mercado, cinco ou seis computadores, não me lembro do número exato, mas cada casa hoje tem mais computadores do que isso, quase que em cada quarto. Ninguém, nem mesmo o mais louco dos escritores de ficção cientifica, talvez apenas Isaac Asimov, colocou um Palm top em suas histórias. Isaac provavelmente, eu certamente não.

Stork: Como foi que não percebemos isso?

Clarke: Apenas vemos o que é obvio eventualmente.

Stork: Você foi tão presciente sobre os satélites orbitais. Nos conte sobre sua previsão.

Clarke: Bem, o conceito de um satélite de comunicação orbital é, honestamente, algo simples. Se eu não tivesse escrito meu artigo em 1945, eu sabia de 10 pessoas que o fariam em 1946.

Stork: Descreva-o para nós.

Clarke: Em 1945 eu trabalhava com o mais avançado radar do mundo. Radar de aproximação, que trabalhava com freqüências de 3cm de tamanho de onda. Era um grande segredo. Lembro que quando um dos nossos magnetrons, que geravam a energia, teve que ser mandado para reparos, tive que portar uma arma, no caso de tropas de paraquedistas alemães tentarem roubá-lo. Acho que não faria tanta resistência assim e nem tão eficaz. De qualquer forma, os magnetrons eram secretos e agora tem um em cada forno de microondas. Trabalhava nesse radar de feixe estreito e é claro, que eu sempre estive interessado em viagens espaciais, toda minha vida, e tinha sido membro da British Interplanetary Society, em 1936 em Liverpool. Em 1945 quando parecia que a guerra logo terminaria, alguns de nós, prematuros cadetes do espaço, nos reunimos e dissemos, bem, como podemos fazer algum dinheiro para construir nosso foguete para chegarmos até a lua. Enquanto pensávamos sobre isso, o conceito de usar satélites como retransmissores me surgiu. Não tenho certeza hoje como a idéia não surgiu para outros, nas nossas discussões. Eu fui aquele que escreveu o artigo, então eu o desenvolvi como um trabalho e que incluía tudo que já fora feito até aquela época, incluindo algo que só recentemente foi feito, como o link ótico entre satélites.

Stork: Dos dois maiores desenvolvimentos no mundo da comunicação, satélites e Internet, você foi diretamente responsável por um deles.

Clarke: O que eu não previ e ninguém o fez, foi o extraordinário aparecimento dos cabos. Escrevi um livro sobre o cabo atlântico. Ninguém nunca imaginou que simples filamentos de vidro, teriam uma performance tão superior a qualquer cabo de cobre e desbancariam, inclusive, os satélites - mas são limitados ao sistema ponto a ponto e você precisa de satélites para cobertura global e móvel.

Stork: Durante a produção do filme, você viu apenas partes e pequenos pedaços. A primeira vez que assistiu inteiro foi na noite de lançamento. Você ficou impressionado?

Clarke: Acho que vi o filme completo pouco antes disso, mas só rapidamente e mais o final. Stanley ainda estava montando-o, cortando e mudando-o e não me lembro de meus sentimentos a respeito da primeira vez no cinema, que foi em Uptown, em Washington. Na verdade eu estive nas três apresentações noturnas sucessivas, esta em Washington, em New York e em Los Angeles, vestido de pingüim. Faz tanto tempo, não confio na minha memória do evento. Quase foi um fracasso, devido ao Presidente Johnson ter anunciado sua renûncia e Martin Luther King tinha sido assassinado, muitas coisas estavam acontecendo nos bastidores. Nós realmente não sabíamos o que tínhamos realizado.

Stork: Fale-nos do Oscar.

Clarke: 2001 foi indicado. Acho que por efeitos especiais. Estava no Arthur Chandler Pavilion para a cerimônia, com o melhor discurso não lido jamais escrito. Foi sem dúvida um desapontamento, quando eles anunciaram que você não conseguiu aquilo que tanto desejava. Acho que fiquei um pouco aborrecido por que ‘O planeta dos Macacos’ ganhara um Oscar por maquiagem e achava que tínhamos feito algo ao menos tão bom quanto aquilo.

Stork: O que você teria dito se tivesse ganho?

Clarke: Não tenho a menor idéia do que dizia o discurso. Tenho que procurá-lo qualquer dia desses. Deve estar enterrado nos ‘clarkivos’.

Stork: Vamos falar de HAL e da sua visão. Nós vemos primeiramente HAL como um grande olho vermelho. De onde ele veio?

Clarke: O famoso olho vermelho foi um produto do departamento de artes e eu acredito que alguem em algum lugar, tem o verdadeiro olho que foi leiloado. Na verdade não faz muito sentido, pois eu queria visão binocular. Por que era vermelho? Dava uma impressão agourenta, mas não era prático.

Stork: Mas a gente tinha a impressão de que era ominipresente, não interessava onde você ia, tinha um olho.

Clarke: O Grande HAL está olhando você!

Stork: Você foi unfluenciado pelo Grande Irmão (Big Brother)?

Clarke: Nós estamos entrando em um mundo onde computadores tipo HAL estão nos vigiando. Eles estão instalando câmeras pelas cidades, particularmente em áreas de alta criminalidade, o que nos causa alguma preocupação, mas sou a favor.

Stork: Então HAL reconhece os tripulantes. Ele faz leitura labial. Nos fale de suas habilidades.

Clarke: A única que eu sei foi a sugestão de Stanley, o poder de ler lábios. Primeiro, eu não acreditava que um computador pudesse fazê-lo. Segundo, por que alguem se importaria em dar esta capacidade a ele? É um ponto inportante que nunca foi explicado. De qualquer jeito, produziu uma seqüência inesquecível.

Stork: Mas talvez a leitura labial só tenha aparecido. Uma vez que você tem reconhecimento de fala, uma vez que tem visão,HAL poderia ter juntado tudo isso. Além disso, você nunca aprende leitura labial e assim mesmo consegue fazê-lo.

Clarke: Bem, eu não consigo ler lábios, a não ser que o faça inconscientemente. E agora que estou ficando surdo, eu deveria estar fazendo mais leitura labial. Mas parece incrível para mim que um bom leitor de lábios, possa enganar as pessoas a volta, a ponto de achar que ele pode ouvir.
Stork: Que tipo de problemas HAL teria com este problema de visão? Ele tinha que reconhecer a equipe. Como o faria?

Clarke: O problema técnico é fazer com que HAL reconhecesse o que acontece ao seu redor, milhões e bilhões de bytes de informação por segundo. O que é relevante, e o que não é. É um problema fantástico de programação, mas tenho certeza de que pode ser resolvido, apesar de eu não saber como.

Stork: Por que os seres humanos são tão bons nisso e as máquinas não?

Clarke: Acho que os humanos são bons em extrair mensagens importantes das suas cercanias, por que se não soubessemos que o tigre dentes de sabre está na espreita, nós não estaríamos aqui. Então selecionamos esta nossa habilidade para isso.

Stork: Mas como ele consegue saber onde a tripulação se encontra? Parece um milagre de certa forma, no meio daquela confusão de sinais sensoriais, HAL de alguma forma pode escolher o que ver, o que ouvir.

Clarke: O mais importante para HAL é saber onde a tripulação se encontra. O trabalho de ensiná-lo o que é importante seria tremendo. É o inesperado. Coisas que ninguém pode provavelmente ter imaginado, é que causam os problemas reais. Quero dizer, coisas realmente impossíveis, que vemos na tecnologia de acidentes, que ninguém sonhou o que ocorreria e acontecem.

Stork: Humanos são flexíveis e muita gente acha que os computadores só fazem aquilo que lhes dizem e que nunca serão capazes de antecipar estes eventos inesperados.

Clarke: É uma falácia imaginar que computadores só fazem aquilo que lhes dizem para fazer, por que nós podemos estender suas habilidades. Podemos dizer a eles para serem curiosos, e eles podem aprender coisas que nós não sabemos. Isso já foi feito, de fato, na matemática.

Stork: Quer falar sobre isso? No trabalho de Doug Lenat sobre descobrir novos teoremas matemáticos com computadores?

Clarke: Não sei muito a respeito.

Stork: Nós humanos confiamos bastante na visão. Muito do nosso mundo é visual, muito do nosso cérebro é visual. Acha que poderia ter um HAL sem visão?

Clarke: HAL sem visão seria limitado, mas existem outros sentidos, a habilidade de ler ondas eletro-magnéticas. O som, é claro, você pode ‘ver’ através do som, como os golfinhos fazem. Apesar da visão ser importante, talvez não seja tão mais importante.

Stork: Outro aspecto de HAL é sua emoção. HAL parecia mais emocional do que sua tripulação, como mencionou. Por que fazê-lo assim?

Clarke: Existe um argumento a ser considerado e que poderia explicar o por que de computadores emocionais. Será que poderiam ser inteligentes se não tivessem emoções? É uma questão para a qual não tenho certeza de saber a resposta. Eu penso que emoções são essenciais, a outra é, podemos ter emoções sem inteligência, e todos conhecemos pessoas assim.

Stork: Como ele demonstra estas emoções? Ele é só um olho e uma voz.

Clarke: Com sua voz. É claro que a voz é critica. Não imagino HAL sem a voz de Douglas Rain. De outro modo, é claro, ele mostra suas emoções com suas ações. Desconectar os astronautas dos sistemas de suporte de vida por exemplo.

Stork: Ele diz que tem medo. Um computador pode sentir medo?

Clarke: Não tenho certeza que possa, mas pode ser programado para se comportar como tal. Não sei qual a distinção filosófica entre uma coisa e outra.

Stork: No filme ouvimos a explicação que a programação emocional de HAL faz com que, seja mais fácil de se falar com ele. Mas se HAL possuía sentimentos genuínos nunca saberemos. Ele tinha?

Clarke: Acho que sim. Há uma discussão no filme de fato, onde dois astronautas tentam decidir se HAL tem uma personalidade e se ele é uma pessoa de verdade, e um deles diz ‘ele age como se acreditasse que é’. E é isso. Eu tenho um cachorro e sou muito ligado a ele e eu acho que ele me ama, mas será que ele está somente agindo como se me amasse?

Stork: Isso importa?

Clarke: Quando um comportamento se parece tanto com a coisa real, qualquer que seja, a ponto de não poder distinguí-los, então eu acho que não importa.

Stork: Como você concebeu a morte de HAL?

Clarke: A sua morte é certamente um dos aspectos mais emocionantes do filme, quando Bowman puxa lentamente os módulos. Ainda bem que não fizemos aquele filme nos dias de hoje, pois seriam microchips deste tamanho (indica com os dedos algo minúsculo) ao invés de belos módulos manuseáveis. Não seria nada dramático. Mas, é um tipo de lobotomia, é claro. A idéia básica é essa.

Stork: Você colocou estes módulos apenas para causar o efeito ou existia alguma consideração cientifica por detrás ?

Clarke: Puramente efeito dramático, queríamos que fossem puxados, um depois do outro.

Stork: A sala do cérebro era grande como uma casa e muito iluminada. Quem estava lá além de HAL para ver tanta luz?

Clarke: A sala do cérebro de HAL é engraçada, se pensarmos nos computadores de hoje. Um dos engenheiros poderia precisar entrar lá para ver se tudo estava de acordo.

Stork: Por que a tripulação não tinha relógios digitais?

Clarke: É difícil imaginar o que uma mudança tecnológica pode fazer em 30 anos ou desde que o filme foi feito. Não me lembro dos relógios. Acho que tínhamos alguns com um design antigo por lá, em algum lugar. Poucas tecnologias desaparecem completamente.

Stork: HAL parecia bem simples graficamente. Quer falar algo sobre o crescimento do CG (Computer Graphics)?

Clarke: Aquilo que vemos em 2001 parecia impressionante na época. É claro que hoje podemos fazer coisas incríveis.


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