sábado, 4 de julho de 2009

Nós de Arcturus - Christopher Anvil


Boglis Kamm parou no limite da floresta e olhou para as fábricas, os carros e o avião brilhante descendo em direção ao vale que se abria na sua frente.
Inconscientemente umedeceu os lábios.

'São tantos pontos de entrada e flancos desprotegidos, ele disse, que você não sabe por onde começar a atacá-los.'

Slint, companheiro de Kamm no Teste de Infiltração #6, enfiou os ganchos do pano de camuflagem no gramado, preendendo-o ao redor da pequena espaçonave pessoal arcturiana.

'Parece fácil, disse Slint. Mas o que aconteceu com os Testes de Infiltração 1, 2, 3, 4 e 5 ? Eles desceram por aqui também, você sabe. Nos últimos 90 dias. E não ouvimos nenhum sinal de nenhum deles.'

Kamm olhou-o com cara feia e procurou através dos vários canais de comunicação telepática.
'Nada além de estática' ele disse. 'E já vimos seus transportes e habitações. É tudo físico.'

Slint pegou uma pá bruta, feita por sua própria raça: com a extremidade irregular, sem a curvatura para alavanca onde a lâmina se unia ao cabo. A pá era feita de placas superpostas e o punho com fita enrolada era seu ponto mais fraco. Slint examinou-a com desgosto antes de guardá-la sob a roupa camuflada.

'Podemos esperar que este planeta tenha algumas ferramentas mecanizadas. Toda vez que atingimos uma pedra grande demais para teletransportar, acabamos tendo que trabalhar com pés-de-cabra e estas pás miseráveis.'

Kamm concordou. 'A coisa acaba nos ocupando demais. Já é ruim o bastante ter que converter a forma arcturiana . Mas ter que contar com esta malditas ferramentas a cada vez que queremos nos mover é demais.'

Um barulho baixo interrompeu a conversa. Kamm olhou apreensivo para as enormes nuvens escuras acima dele.
Slint disse: 'Como estou? Pareço um nativo?'

Kamm estudou a aparência de um humano comum de Slint, os braços, a cabeça sobre o pescoço, o movimento de braços e pernas enquanto caminhava, seu casaco cinza, a camisa branca e a gravata azul. Checou para ver se Slint tinha quatro dedos e um polegar em cada mão.
'Parece satisfatório.'

'Ok. Vou checar você.'

Kamm caminhou pela clareira e voltou até o lugar onde estivera antes, olhando da colina para lá embaixo. Slint fez um sinal de satisfação.
'Está bom. Parece com o que vimos na 'televisão colorida' e o que estivemos recebendo via telepática.'

'Bom. Mais alguns detalhes e podemos ir.'

Kamm alcançou o bolso lateral, conferiu o protoplasma-coagulador aldebariano, checou-o cuidadosamente e guardou-o de volta em seu bolso.
Slint olhava para o céu e hesitava.
'Deveríamos ir lá enquanto há tempo? Ou desistir...'

'Hmmm.' Kamm olhava a formidável nuvem negra atravessando o céu na direção deles.
'Mas e se ao voltarmos eles nos perguntarem o que se passou?'

Slint suspirou. 'Irei pegar o gravador e depois poderemos sair daqui...'

Ouviram um trovão poderoso.
Kamm disse: 'Okay, ninguém vai mesmo ouvir isso e não entenderiam de qualquer maneira. Talvez o trovão abafe a coisa para nós.'

'Não temos tanta sorte' rosnou Slint. Desapareceu assim que se teleportou para o transporte pessoal e então reapareceu um momento depois, segurando um pequeno gravador centuriano, que pendurou num galho mais baixo de um pinheiro, uns vinte metros da extremidade da clareira. Apertou o botão.

'Cidadãos' trovejou a voz da caixa gravadora falando na sua língua nativa.
A camuflagem siriana sobre a espaçonave arcturiana tinha se adaptado para simular o solo ao redor.

'Soldados' gritou o gravador.

Ouviu-se um murmúrio de trovão. Slint disse 'Espero que termine logo.'

'Nunca é rápido' disse Kamm.

'Conquistadores' gritou a caixa. 'Sempre em frente para a Glória e para o Triunfo. Para arrancar outra jóia preciosa da orbe violeta do espaço e colocá-la no diadema da Única Verdadeira Raça! A Vitória e a Glória são suas! O triunfo! É de vocês o esplendor! Da maior raça de conquistadores que já atravessou as estrelas!'

'Se, murmurou Slint. o seu gravitor não fundir.'

'Ou o controle de temperatura' completou Kamm.

Um providencial e estrondoso trovão abafou a parte seguinte. Quando conseguiram ouvir de novo, o gravador havia terminado as generalidades da abertura e entrado nos detalhes.

'Isso, entoou, é o que nos distingue de outras formas de vida conhecidas. Nossa capacidade de nos adaptar. Qualquer um pode conseguir a Glória meramente através do uso da força. Centenas de raças se orgulham disso, apesar de seus intelectos medíocres. Conquistamos ostentando o poder da comunicação e da clarividência telepática, e da habilidade telecinética de exercer nossa força à distância. Somente nós, de todas as raças conhecidas, pode tomar a forma e reproduzir a estrutura e todo o resto e através de uma conquista silenciosa e eficiente, destruí-los mesmo telepaticamente, através de nossa capacidade de assumir a identidade deles temporariamente.'

'Contudo, uma condição protoplasmática magnífica deve ser rigidamente mantida, condições saudáveis de limpeza, ou nosso incomparável controle protoplasmático estará prejudicado. Esta é a única condição, é só. Nada mais. Porém é essencial.'

'Assim, para cumprir sua missão, devem manter-se protegidos da contaminação, para a Glória da Conquista! Para o triunfo da Raça. Para o...'

Um flash cegante e o trovão fez a terra tremer. A chuva caiu banhando-os.

Slint correu para o gravador que agora despejava música marcial no aguaceiro.
Kamm e Slint teleportaram-se para o pequena nave espacial, onde estavam tão desconfortáveis quando sardinhas em lata.
Acima deles, o som da chuva tamborilando na camuflagem e escorrendo ao longo dela e penetrando os espaços e molhando o lugar onde estavam sentados.
O gravador, após um instante de silêncio terminou num crescendo final que os deixou surdos.
S
lint disse com raiva: 'Agora o que fazemos? Voltamos a forma arcturiana para caber nestas caixas de sapato?'

Kamm contorceu-se para livrar-se de um dos controles afiados que magoava sua costela.
'Bem, não podemos enxergar através do aguaceiro. E não podemos arriscar ir parar dentro de uma caldeira ou ficar presos dentro de uma parede. Então teletransportar está fora!'

'O Controle de Pessoal e suas idéias estúpidas sobre não poder ir a um Tese de Infiltração se tem a clarividência desenvolvida!'

Kamm experimentou enxergar mentalmente, mas apenas conseguiu a estática de sempre, vaga e mal definida imagem'
'Bem, certamente não confiam em mim o bastante para isso.'

'Eu suponho, murmurou Slint, que eles tem medo que apenas fiquemos olhando à distância, ao invés realmente de fazer um teste de infiltração, e que alguma raça PSI poderosa possa nos enganar.'

'Criaturas inferiores são algumas vezes superiores em certas habilidades menores.' disse Kamm tentando se confortar com sua parca clarividência. 'Mas, ele completou, mudando de assunto, estamos ainda presos aqui.'

'Vou te dizer, começou Slint, você se lembra daquela raça de seis pernas, que vivia mergulhada na lama em Grinnel II? Eles não teriam nenhum problema num tempo destes!'

'Boa idéia, disse Kamm. E podemos providenciar duas maletas a prova d'água para carregar as roupas. Eu vi num filme na televisão que se pode ir para um HOTEL, com uma MALETA.''

* * *

Duas horas depois, um par de monstros saia debaixo da camuflagem, caminhando com cinco pernas enquanto uma sexta perna segurava uma maleta. Afastaram-se da floresta, caminhando devagar, descendo o morro. No caminho encontraram uma auto-estrada e aquilo se converteu em um problema.

'Olhe para aquilo, disse Kamm, tem ainda um monte de carros na estrada, apesar da chuva. E os Céus nos ajudem se eles nos virem. '

Kamm pensou em vários detalhes das informações que tiraram dos programas noturnos da televisão. O planeta era sujeito freqüentemente ao surgimento de gorilas gigantes, formigas e aranhas enormes, monstros do mar e invasores de outros planetas do seu sistema solar local, e sem dúvida, eles não teriam dificuldade de esmagar um par de mergulhadores-da-lama de várias patas.

'De outro modo, disse exasperado, apesar de poder ver o outro lado da estrada, não podemos nos teletransportar para lá.'

'Queimaria nosso sistema nervoso' concordou Slint.

'Hum' murmurou Kamm olhando ao redor. 'Bem, não podemos correr o risco de sermos vistos. Talvez possamos pegar um desvio ao redor da estrada. a floresta segue ao longo da colina e poderia nos dar cobertura.'

'Vale a pena tentar!'

* * *
Quinze ou vinte minutos depois tinham outro problema.
Apesar daquele corpo não ser afetado pela chuva forte, os pés das criaturas não estavam acostumados ao solo duro e os músculos e ossos eram feitos para uma gravidade menor.

'Não estou agüentando' disse Kamm passando a maleta de uma pata para outra. `Preciso mudar os músculos desta criatura.'

'Isso significa juntas dos ossos maiores e um sistema sanguíneo melhor.'

'Que significa um coração maior...'

'E pulmões melhores...'

'E já nos transformamos em outras criaturas em outras vezes, apenas para poder falar algumas simples palavras.'

Slint falou: 'Vamos nos sentar um pouco.'

'Como? Onde você vai colocar estas patas todas e estas garras para teias?'

'Eu esqueci. Estas coisas nunca se sentam. Elas saem das profundezas e flutuam sobre a água.'
Kamm esforçou-se com o vocabulário de mergulhador-de-lama para fazer alguns comentários.
O resultado foi que meia hora depois eles saíram debaixo de uma grande árvore folhuda e caminharam eretos, parecendo homens carregando suas maletas de trabalho.

'É provável, resmungou Kamm, que as outras cinco equipes tenham se afogado.'

'Pode ser, disse Slint. É realmente uma vergonha que com nossas habilidades superiores não possamos sequer ficar secos.'

'É verdade'.

Kamm tentava teletransportar gotas de chuva assim antes que caíssem, mas eram tão finas e rápidas que escapavam.
Ao aguaceiro seguiu-se algo parecido com uma cachoeira.
Eles correram morro abaixo em direção a estrada. A chuva momentaneamente diminuiu.
'Por que, perguntou Slint, não fazemos alguns daqueles guarda-chuvas no Fabricador. Você sabe. Como aqueles que vimos na televisão. Que usam no nevoeiro em Londres para se esconder debaixo.'

'Não podemos, pois estivemos ocupados demais seguindo sua idéia de fazer o trajeto como mergulhadores-da-lama.'

Seguiram em silêncio a partir dai até a estrada.

* * *

Na estrada os primeiros cinco carros se desviaram, o sexto passou por uma poça e atirou água neles, os três seguintes em uma sucessão rápida passaram acelerando como se com medo que eles os atacassem, e então um carro freou, parou e deu ré. A porta abriu, deixando ver um interior surrado, o piso de borracha gasto e manchas nos assentos.

'Entrem rapazes, disse o motorista jovialmente. Vocês estão molhados mas não se incomodem, não vai fazer mal a este calhambeque.'

'Obrigado', disse Kamm ao entrar.

'Muito obrigado', disse Slint.

O motorista alcançou a porta e a fechou: 'Já andei bastante por aí, muita chuva e muito sol, sei como é. Querem um cigarro?'

Ele pegou alguns tubinhos esbranquiçados de uma caixa de papel e os ofereceu.
Tendo visto na televisão, eles sabiam o que esperar, e cada um colocou os pequenos cilindros em suas bocas.

Kamm murmurou telepaticamente "acho que nossa sorte mudou para melhor. Este nativo é amigável. Vamos conseguir alguma informação."

"Sim, mas precisamos acender estes como-você-os-chama. Como fazemos isso?"
"Veja que o motorista empurrou um pequeno plugue no painel do carro e quando ele saltou, basta pegá-lo e encostar ao cigarro e a fumaça vai sair. Vi isso num filme."

'Sim senhor, disse o motorista amável, não há nada como um carro... desde que funcione. O de vocês deve ter quebrado, eu suponho.'

'Sim, sim, foi isso.'

Eles sentaram lá pingando no assento em amigável silêncio.
Slint transmitiu um pensamento para Kamm. "Não consigo entender por que as outras cinco equipes falharam. Veja como este espécime é amigável e não suspeita de nós. Parecem certamente com vítimas" pensou Kamm.

O amável motorista pigarreou.
'Vocês não disseram o que aconteceu com o carro de vocês.'

Slint falou, tentando imitar um fazendeiro que vira na televisão.
'A vara pulou para fora do lado do bloco.'

O motorista grunhiu: 'Isso é ruim.'

Slint pensou "O que quer que isso seja."

"Eu imagino, pensou Kamm, que eles certamente não suspeitam. Vamos tentar saber mais."

Slint então falou 'Isso é sério mesmo?'

'E não é?' disse o motorista após quase tirar o carro da estrada.

'Só queria saber' murmurou Slint querendo parecer despreocupado.
O motorista controlou o carro e o pequeno plugue saltou e Slint o pegou e levou sua ponta até seu cigarro. Esperou pacientemente por fumaça.
Kamm, balançado pela aura poderosa de suspeita que derrepente emanou do motorista, começou a falar alto: 'Não, não, a outra ponta!'
Slint pegou o cigarro da boca, o virou e disse: 'Qual a diferença?'

O motorista alcançou algo sob o banco e trouxe um cano, que guardou sob o seu casaco, esperando que não o tivessem visto.

"Não, não" Kamm dizia telepaticamente. "O plugue, o outro lado do plugue, vire-o."
"Com cuidado!"

Slint juntou o acendedor ao cigarro e a fumaça surgiu e por algum motivo ele passou imediatamente a tossir. Os pensamentos do motorista vinham freneticamente, obviamente impelido por alguma forte emoção.

Uma dupla de loucos que escapou do Hospital Estadual. Tenho que tirá-los do carro na primeira oportunidade.

Kamm compreendeu as palavras ,mas não a idéia por trás. Tentando acalmar ao motorista, devolveu o acendedor ao seu lugar, como se habituado a isso e fez um comentário com uma voz amável: 'Se você puder nos deixar em...' Uma busca desesperada nos shows da televisão falhou em retornar com a palavra exata que estava procurando, então tomou emprestado algumas palavras que ele estava certo de que significavam o mesmo.

'...Especialista automotivo'.

'Claro', disse o motorista com a mão esquerda sob o casaco.

O acendedor pulou para fora e Kamm querendo agir como um homem da terra comum, puxou o plugue para fora, encostou ao cigarro, tragou, soprou, tragou, soprou, tragou, soprou...

Pontos brilhantes surgiram em sua vista. Seu estômago estava revirado, a garganta congestionada e lágrimas lhe corriam pelas bochechas. Parecia que gases vulcânicos circulavam pelo seu interior. A fumaça enchia seus pulmões, e tinha a sensação de uma marreta acertando-o entre seus olhos.

O carro saiu de lado. O motorista se esticou para abrir a porta e sua voz, com um tom falso, disse:
'Aqui estamos rapazes. Oficina mecânica. Eles vão cuidar do carro de vocês.'

Kamm e Slint saltaram do carro. A porta bateu, então o motor acelerou e o carro partiu para logo desaparecer na distância. Kamm olhou para o banco molhado, a lata de lixo e a placa 'Parada de estacionamento'. Outro trovão e uma mão de ar frio e a chuva novamente.
Slint murmurou: 'Não tem mecânica nenhuma.'

'Tem que ter uma ao longo da estrada.'

'Eu só queria deitar e...'

'Ande', disse Kamm. 'Se nós nos deitarmos nesta chuva, estes corpos humanos podem ficar resfriados e ter uma congestão, lembrou-se da televisão. Quem sabe até sinusite'.

'Certo, eu andarei.'

Eles voltaram para a estrada e os carros passavam por eles monotonamente.
Trinta e cinco minutos depois chegaram a uma parada. A porta do mercado estava aberta e eles entraram. Um atendente apareceu de algum lugar, um cigarro pendente no lábio inferior e olhou para eles. Sumiu dentro de um tipo de escritório. Ouviram um som de liquido sendo despejado e ele retornou com dois copos de papel.

'Remédio para resfriado. O melhor que tem. Vocês parecem mesmo estar precisando. O carro quebrou?'

'Obrigado', disse Kamm pegando o copo com o liquido marrom.

Slint murmurou um obrigado e completou: 'É, nosso carro quebrou. Não sabemos o que está errado com ele.'

Eles beberam o remédio para resfriado, cientes dos anúncios da televisão sobre que um corpo humano com resfriado não era nada agradável. O remédio desceu pelas gargantas e momentaneamente ricocheteou nos seus estômagos.
E então ouviram uma campainha.

'Cliente' disse o atendente. 'Volto já' e correu para fora.

O remédio parecia ter se transformado em vapor quente que os envolvia. A parte de cima da cabeça de Kamm parecia ter se erguido para deixar sair a fumaça pelos ouvidos.
'Sensação estranha' disse a voz de Slint vinda de algum lugar.

* * *

A garagem girava ao redor deles e do atendente quando entrou.
'Vocês tem sorte. Meu sócio saiu para comer mas já vai voltar. Sabe o que mais? Vão até o banheiro, tirem a roupa e deixem elas secando. Leva só alguns minutos. Então nós saímos naquele caminhão e vocês mostram onde está o carro de vocês e a gente guincha ele até aqui. Eu deixo vocês no motel Roadside Inn e podem se secar por lá. Se quiserem podem alugar um chalé e descansar enquanto a gente conserta o carro de vocês. Okay? Vocês estão legal, não estão?

Kamm sentia-se bem legal, mas Slint entendeu o significado melhor.
'É só o carro que não funciona.'

Kamm e Slint tiraram suas roupas, as secaram com um conveniente rolo de toalha de papel e as vestiram novamente, sentindo-se mais frios e molhados que antes. Foram para o caminhão onde 'Sam' os convidou para entrar: 'Subam aqui rapazes. Não é muito confortável mas é um transporte.'

As portas fecharam, o motor ligou e Sam subiu sua janela e ligou o aquecedor no máximo.

'Já ia esquecendo. Não quero que os rapazes peguem um resfriado.'

Fumava um cigarro escuro, quase no fim. Nuvens de fumaça cinzenta circulavam pelo interior da cabine. A caixa de marchas rangeu de novo e o caminhão aumentou a velocidade e Sam gritou acima do barulho do motor: 'Pro sul, não é? Para lá?'

Kamm fez que sim.
'O-K' disse Sam animado. 'Aqui vamos nós.'
As marchas subiram de novo, o motor aumentou o giro e o aquecedor largou seu bafo de ar velho e quente, Sam cuspia fumaça e gritou: 'Está muito longe?'

'Oh, disse Kamm, uns...'

'Um quilômetro? Um quilômetro e meio?'

Slint falou, sua voz saiu alta e desafinada: 'Pra lá... no....'

Kamm tossiu assim que Slint sinalizou telepaticamente por ajuda.
'Parada de estacionamento' disse Kamm.

'À esquerda da estrada?'

Kamm não sabia o que 'esquerda' queria dizer, mas entendeu a imagem mental.

'É.'

O caminhão balançava e saltava a cada buraco da estrada.
Sam acendeu um novo cigarro negro e fino enquanto amassava o antigo no cinzeiro bem a frente de Kamm. Slint junto à porta, colocou o nariz numa brecha entre a porta e a cabine.
Um grande caminhão a frente deles soltava uma grossa fumaça preta no ar.

'Diesel' murmurou Sam quase ao final do seu cigarro. 'Fedem pra caramba não?'

Um novo odor se juntava ao cigarro novo, as roupas molhadas, ao cigarro apagado, ao vapor do remédio de resfriado, a graxa quente e ao cheiro de gasolina que entrava por alguma parte. E o aquecedor pegava isso tudo e o fazia recircular mais quente ainda.

Simultaneamente os dois se teletransportaram para a clareira.
Encostados ao tronco de uma arvore, tossiram buscando ar.

* * *

'Espaço aberto' gemeu Kamm.
'Estamos derrotados' disse Slint, engolindo grandes bocados de ar. 'Se o planeta é todo assim, nós já perdemos. Temos que voltar e admitir que não há esperança.'

'Não pode ser tão ruim assim' disse Kamm. 'Talvez tenha sido apenas má sorte. Veja, parou de chover. podemos nos teletransportar direto para a cidade.'

Slint olhou para o alto. Tinha este vento frio e as nuvens escuras passando mas era só.
Uma nesga de esperança se apresentou.
'Está parando de chover não? É claro, com roupas ensopadas assim...'

'É fácil. Basta passá-las pelo Fabricador e retiramos a água.'

Com isso na cabeça, se teletransportaram para a espaçonave e trataram de se preparar.

'Uh' grunhiu Slint, 'Não vamos dar conta do serviço daqui. Nas lá fora tem aquele vento gelado...'
Kamm estava tentando dar um jeito em seu pé, preso pela barra de controle gravitacional número quatro.

'Ahgr. Precisamos reconverter à forma arcturiana. Se acertamos o controle errado por descuido, estaremos em apuros. Não dá para controlar a maldita nave, a menos que você assuma a forma de geléia, de um ovo numa frigideira, e possa alcançar todos os dispositivos em diversos níveis na cabine e trabalhando todos eles simultaneamente. Basta deixar um fora de posição e nós estaremos presos para sempre aqui.'

'Certo, não há nada mais a ser feito, precisamos nos reconverter' murmurou Slint.
Kamm relaxou e fez uma tentativa. Slint murmurou algo baixo.
Kamm grunhiu com o esforço. Slint soltou um xingamento.
O suor escorreu na face de Kamm.
Nada aconteceu.

Slint disse: 'Eu não consigo!'
Assustado, Kamm tentou novamente. Novamente nada aconteceu.
Slint estourou furioso: 'Agora eu vou conseguir!'

'Cuidado!' gritou Kamm. 'Não se mova! Ou você vai nos destruir!'

'Vamos sair daqui.'

'Certo. Mas nenhum movimento súbito.'

Eles se teletransportaram para o exterior.
'Esta dificuldade', disse Slint, 'é por que estamos protoplasmaticamante envenenados. Foi isso que aquele gravador imbecil queria nos alertar antes de começarmos.'

'Você está certo', disse Kamm, 'mas o que poderá ter sido? O cigarro, o remédio, a fumaça ou aquele caminhão?'

'Não sei o que foi, só sei que aconteceu.'

'Argh! Estamos presos então. Ninguém a não ser um arcturiano pode conduzir aquela nave. E se não pudermos nos converter mais...'

'Precisamos nos purificar' disse Slint, 'Vamos voltar para a nave, comer a comida do Fabricador, respirar o ar sem fumaça...'
Kamm visou a cidade distante, percebendo a fumaça que saia das altas chaminés.

'Como vamos lidar com aquilo? Olhe lá! E como operar o Fabricador se não pudermos nos converter? A mesma coisa dos controles de comunicação.'

Slint gemeu. 'Como vamos deixar que saibam onde estamos?'

'Acho melhor não. Eles irão assumir que estamos com os nativos.'

'Bem, não podemos simplesmente ficar e morrer de fome. Temos que fazer algo.'

'Vamos para a cidade. Talvez não seja tão ruim quanto parece.'

* * *

Teletransportaram-se para a cidade em dois saltos rápidos, surgindo perto de uma esquina bastante movimentada. A luz do semáforo mudou e carros passaram velozes em ambos os lados da rua. O ar encheu-se de fumaça azul. O cheiro da queima de gasolina os cercou.
'Nada bom' reclamou Kamm.

Eles se teletransportaram de volta a clareira.

Slint olhou enervado para a cidade.

'Aquela coisa se infiltra por toda parte. São milhares daqueles veículos. Dezenas de milhares, centenas... O que faremos? E quanto ao campo? Uma fazenda quieta e bonita? Poderíamos passar por trabalhadores, alimentar os animais, comer a pura comida natural.'
'Boa idéia!' disse Kamm. 'Vamos!'

* * *

Um trator atravessava vários acres de campos abertos, enquanto arrastava atrás um aparelho que borrifava um pó esverdeado-branco por cima da plantação. Na casa da fazenda, uma mulher esguichava uma nuvem de spray inseticida ao lado da casa.
Um jovem magro em calças jeans saiu da casa com um cigarro no canto da boca, lançou-o na grama, pisou e apoiou-se contra o capô aberto do motor do carro. Com uma mão, ele alcançou a janela do carro e empurrou algum tipo de abertura cilíndrica.
Fumaça cinzenta foi cuspida dos canos de descarga. O garoto trabalhava furiosamente, saltou dentro do carro, com fumaça se espalhando por toda parte, para depois sair de lá triunfante, com um novo cigarro aceso em sua boca.

'Uh', disse Kamm, 'pó químico nas plantas, spray na casa, fumaça de combustão, fumaça de cigarro... Talvez seja melhor uma... como chamam? Casa do campo... sabe, onde vão descansar...'

'Não é uma boa idéia também' disse Slint. 'Vi um... acho que em um documentário. Bem, de qualquer maneira, agora eles não usam mais cavalos. Usam algo chamado... eeps. Funcionam com gasolina.'

'Tem que haver um lugar neste planeta. Algo primitivo, mas onde possamos nos adaptar, onde não sejamos irreversivelmente envenenados, ou precisemos usar de armas de explosão para lutar contra os selvagens, como naquele filme onde dois homens e uma garota...'

Slint estalou os dedos.
'Já sei. Tudo que precisamos é de alguns documentos falsos e com nossos talentos, será fácil.'

'O que?' perguntou Kamm cheio de esperança.

'Vou te dizer. Na televisão, numa noite, eu vi aquilo, lembra?'

Ele transmitiu telepaticamente o pensamento e o cérebro de Kamm maravilhou-se com a idéia.
'Vamos então. Não podemos perder tempo.'

* * *
O recrutador estava irradiando como se apertasse suas mãos. Não era todo mundo que se oferecia avidamente para ir aos territórios possivelmente mais primitivos do planeta.
A insígnia especial no quepe dizia que fazia parte de um grupo de jovens idealistas e decididos, altamente indicados ao se inscrever pelo escritório dele, como aquelas outras cinco duplas de rapazes, isso apenas nos últimos noventa dias.

'Homens' ele disse, 'podem achar que é coisa pesada e difícil, que o pagamento é pequeno e as condições são miseráveis. Mas o fato mais importante é a camaradagem e o serviço prestado à humanidade. Foi, é claro, com esta intenção que vocês se voluntariaram. Servir à humanidade.'
Ele soprou a fumaça do cigarro bem nos olhos deles, cheio de algum tipo de emoção sem nome.

'Homens, estou orgulhoso de vocês.'
E pensando nos quase milagrosos relatórios que iria preencher, irradiou emoção ao jogar o cigarro ao chão e segurando Kamm e Slint pelos braços, disse:

'Bem vindos ao Corpo de Voluntários pela Paz.'