sábado, 11 de julho de 2009

Tommy e o cão falante - Lewis Shiner



Se você puder responder três perguntas, disse o cão, 'poderá usar dos tênis mágicos'.
Tommy olhou para um lado e o outro da rua deserta. 'Você... falou alguma coisa?'
'Isso mesmo. Não me ouviu?'
Era uma voz rouca e irritada, com um sotaque inglês e com certeza vinha do cão.
'Você é um cachorro' De fato, um enorme e gordo bulldog, com dobras de pele penduradas nos lados da cara. De onde estava sentado, nos degraus da frente de um motel abandonado, parecia olhar para Tommy direto nos olhos.
'Correto' disse o cão.
Tommy encarou as janelas empoeiradas do escritório do motel.
'É um truque, não é? A câmera de TV está escondida e você quer me fazer de bobo.'
'Não é uma pegadinha Tommy. São só três perguntas.'
'Vamos lá!' disse Tommy e engrossou a voz e disse:' Senta.' O cão continuava a olhar para ele. 'Role. Finge de morto.'
'Para de babaquice, você quer ou não os tênis?'
'Deixe-me vê-los.'
O cachorro moveu-se, revelando um par de tênis All Star Converse vermelhos, velhos e acabados.
'Estão usados.'
'Talvez, mas são mágicos.'
'Quais são as perguntas?'
'Qual dos presidentes morreu durante o mandato? Lincoln, McKinley ou F.D.R.?'
'Qual é! Todos eles. Esta é o mesmo tipo de pergunta estúpida que fazem quando querem te vender porcarias pelo telefone.'
'O que pesa mais, um quilo de chumbo ou um quilo de penas?'
'Ambos pesam um quilo. Isso é besteira. Vai me perguntar agora quem está enterrado no tumulo de Grant?'
O cão apertou os olhos 'Já fez isso antes?'
'Ulysses S. Grant' disse Tommy. 'Me dá os tênis.'
Eram do seu tamanho e sentiu-se bem com eles, mesmo estando gastos e mesmo com aquelas coisinhas de metal tendo caído.'
'Não sinto nenhuma diferença.'
'Você precisa deles para procurar pelo tesouro' disse o cão.
'Que tesouro?'
'Quando está usando os tênis mágicos, você consegue abrir as portas dos quartos do motel.'
'Sei, sei. Não obrigado, meus pais me disseram para não entrar lá. Alem de tudo estão vazios.'
O cão deu de ombros. Tommy nunca vira um cão fazer isso antes.
'Você é quem sabe.'
'Ei, espere um minuto. me fale do tesouro.'
'Vai ter que achar sozinho.'
O cão começou a ir embora.
'Ei, volte aqui' disse Tommy.
O cão continuou a se afastar.
Tommy mexeu com seus dedos dentro dos tênis. Mágica. Olhou para a fileira de quartos do motel, a poeira das paredes parecia dourada na luz da tarde de Maio. Estaria em apuros se o seu pessoal descobrisse que estava ali.
Foi até a primeira porta e a abriu.
Dentro, uma mulher sentada na cadeira, assistindo televisão. Tommy sentiu uma onda quente beijar seu rosto. 'Caramba, desculpe' ele disse, 'não sabia que tinha gente aqui.'
'Tudo bem Tommy,pode entrar' ela disse.
Tommy deu um passo para dentro do quarto.
'Você me conhece?'
'Claro' disse a mulher. 'Você está usando meus tênis.'
Ela era um pouco mais velha do que sua mãe, e muito gorda. Uma caixa de chocolates aberta, junto ao seu braço.
'Quem é você?' perguntou Tommy.
'Ninguém. Só uma mãe.'
O quarto era maior do lado de dentro do que fora e não se parecia com um motel. Tinha um berço no canto escuro, com duas crianças dentro.
Um deles batia no outro com uma cobra de plástico. Uma terceira criança se arrastava no chão, puxando um cobertor. O lugar fedia, como leite estragado e café velho e banheiro da escola.
A voz de um homem saia do aparelho de televisão e dizia 'Susan está grávida do meu filho.'
'O que voe está vendo?' perguntou Tommy educadamente.
'Nada. Só um programa.'
O garoto que apanhava do outro, começou a chorar. A mãe jogou um chocolate na boca.
'Bem...'
Tommy se sentia daquele jeito, como quando está chovendo e ele queria ir nadar na piscina.
'Eu tenho que ir'.
'Shhh! Esta parte é boa.'
Tommy saiu sem fazer barulho e fechou a porta. Pensou no que o cachorro esperava que ele encontrasse. Foi para a porta seguinte e bateu gentilmente.
'Entre' disse a voz de um homem grande.
Tommy abriu a porta e viu a sua frente uma longa mesa de madeira. Atrás do homem na mesa havia uma janela com persianas estreitas, impedindo o sol de entrar. Assim era difícil ver o rosto do homem.
'Tommy! Vamos, entre!'
Ele se levantou e esticou a mão. Tommy a apertou e eu um passo para trás.
'Como você está?'
'Bem. Como sabe quem eu sou?'
Tommy sentou-se numa cadeira, grande demais para ele. Reparou em um cheiro esquisito e cheirou a mão. Loção apos barba, tão forte que fez os olhos de Tommy se encherem de lágrimas.
'Sabe alguma coisa a respeito de um tesouro?' ele perguntou.
'Um tesouro...'
O homem se recostou e Tommy pode ver seu bigode e como ele penteava o cabelo por cima da careca. Não era velho, mas tinha olheiras e seu sorriso serpenteava, parecia querer sair do rosto. 'Bem, acho que não posso dizer onde achar um baú cheio de dobrões de ouro, mas posso lhe dizer o que o fará rico.'
Debruçou-se sobre a mesa e sussurrou: 'Supercondutores.'
Tommy pensou num homem de azul e vermelho, usando uma capa, pegando tíquetes em um trem.
'O que?'
'Supercondutores. São como metal, sabe como transportam eletricidade? Mas fazem melhor e são frios, muito frios... bem,diabos, não sei muito como funcionam, mas tem uma fortuna lá.'
E bateu na mesa.
'Uma fortuna!'
Uma caixinha na mesa zuniu e ele apertou um botão e disse: 'Sim?'
Em resposta uma voz feminina se ouviu:
'Mister Cornell na linha sete.' disse como se quisesse sussurrar e cantar ao mesmo tempo.
'Segure o velho gordo um pouco meu doce' E não se esqueça do nosso encontro esta noite. Arranjei um quarto para nós no motel.'
O homem piscou para Tommy e apertou outro botão da caixa.
Sobre a mesa a foto de uma mulher e duas crianças. Aquela mulher não parecia com aquela da voz na caixinha.
'Não diga nem uma palavra pra minha esposa Tommy. Sabe como é.'
'Não' respondeu Tommy 'Como é?'
Antes que ele pudesse responder, a caixa zuniu de novo.
'Desculpe, mas Mister Connel diz que é urgente.'
O homem agarrou o telefone e socou a luz piscante.
'Maldição JC, o que diabos está te comendo o rabo agora? ,,,você o que? ...você o que?'
Colocou o fone de novo na mesa. Seu rosto estava da cor de cimento.
'Supercondutores' sussurrou e começou a jogar umas pílulas sob a língua.
'Melhor eu ir agora' disse Tommy. O homem não respondeu e Tommy correu para fora.
O sol estava se pondo. O mundo parecia mais cansado e poeirento.
'Ei, cachorro!' Chamou Tommy procurando-o. Nenhum sinal.
vagarosamente foi até a outra porta e a abriu.
Uma mulher deitada na cama. Estava vestida como uma animadora de torcidas, daquelas que se vê nos jogos de futebol que o pai assiste aos domingos. Os shorts feitos de alguma coisa brilhante prateada e uma camisa vermelha amarrada acima da cintura. Tommy viu, quando ela sentou-se, seus seios se mexerem sob o tecido fino. Eram grandes.
'Oi Tommy. Já achou o tesouro?'
Acendeu um cigarro.
'Não.'
Ela tinha uma voz arranhada e triste.
'Quem é você?'
'Eu? Sou uma prostituta Tommy.'
'Uma prostituta? O que é uma prostituta?'
A mulher balançou a cabeça. Seus cabelos mal se mexeram de tanto laquê e usava mais maquiagem do que já vira alguém usar.
'Uma prostituta é uma mulher que ... bem, tenta alegrar os homens que não estão alegres em casa.'
'Você pode me alegrar?'
'Você é só um garotinho. Preste atenção, os adultos não são pessoas felizes a maior parte do tempo. Eles andam por ai procurando por poder, dinheiro ou sexo e quando não conseguem, se sentam e assistem televisão.'
'Não tem tesouro nenhum, tem?'
'Não sei Tommy. Eu não achei.'
'O que é isso?'
A mulher tinha um cinto apertando o braço e uma seringa estava pendurada nele.
'É tipo um remédio Tommy. Acho melhor você ir embora agora.'
'Tá.'
Era quase noite lá fora.
Tommy sentou-se a beirada da calçada e tirou os tênis vermelhos, colocando de volta os seus.
'Cachorro! Ei! Pode pegar de volta seus tênis idiotas!'
Nenhuma resposta. Atirou os tênis em direção ao motel o mais forte que conseguiu.
Eles quebraram a janela do primeiro quarto onde a mulher gorda via TV e através do vidro quebrado, Tommy conseguiu ver que o quarto estava vazio.
Quando chegou em casa, seus pais perguntaram-lhe o que estava errado. Ele disse que estava só cansado. Tomou banho e deitou-se olhando a parede por um longo tempo. Eventualmente caiu no sono. Na escola as férias de verão se aproximavam.
Os professores se esforçavam de qualquer forma, acompanhando o barulho dos pés correndo e a gritaria dos corpos nos intervalos.
Para Tommy aquilo tudo não interessava. Ele olhou para Mrs.Aleio e pensou na mulher gorda no quarto de motel, e naquela mulher na fotografia da mesa do homem de negócios.
Quando olhou para Susie Bishop, a garota mais bonita da classe, ele viu seus shorts apertados e que usava muita maquiagem.
Quando Bobby Cubitto gritou respondendo uma pergunta, Tommy pensou nele berrando no telefone.
Ele passava pelo velho motel todos os dias no caminho de casa.
Nunca viu mais o cachorro. Até olhava pela janela quebrada mas os tênis tinham desaparecido. Seus pais sabiam que algo o aborrecia e seu pai tentou conversar com ele: 'Você acredita em Mágica papai? Animais que falam, coisas assim?'
'Bem Tommy' começou a dizer e limpou a garganta.
Tommy reparou que o pai começara a repartir o cabelo, cobrindo uma área da cabeça.
'Coisas assim são chamadas de alegorias. Quer dizer que não são reais, mas existem por algum motivo real. Entende? É como se um animal em uma história fala alguma coisa, pode significar que você está recebendo uma mensagem do seu consciente ou algo assim.'
'Mas não é real.'
'Não de verdade.'
No último dia de escola eles foram liberados ao meio dia.
Tommy andou pelas ruas sem propósito, sem querer ir para casa. Ia chutando pedrinhas, de cabeça baixa. Algo se moveu no canto da sua visão. Era um buldogue grande.
Tommy correu ate ele. O cão o viu e fugiu através do jardim de alguém.
Tommy não diminuiu, passou sob um varal e perseguiu o cão. Mudou de direção de novo e Tommy ainda atrás dele e derrepente escorregou no canteiro. Tommy saltou e agarrou-o forçando contra o chão.
'Fala comigo!' Gritou e lembrou do homem ao telefone. 'Fala comigo, maldição!'
Uma porta de jardim gemeu atrás dele e uma voz de mulher disse:
'Ei, você! Saia de cima dessas flores! O que você pensa que está fazendo?'
'Desculpe. Meu cachorro fugiu. Eu pagarei pelas flores. Desculpe. De verdade.'
'Tá certo, tá certo...mas seja mais cuidadoso. '
Olhou de cima a baixo e disse 'Como vai levá-lo para casa? Nem tem coleira!'
Tommy deu de ombros.
'Vou te arranjar uma corda' e entrou na casa e quando voltou trazia um pedaço esfarrapado de corda. 'Aqui.'
'Obrigado' agradeceu Tommy prendendo o cachorro. 'E desculpe pelas flores.'
Puxou o cachorro até a rua.
Esperava que a mulher não tivesse ouvido ele falando com o cachorro. Pareceria estúpido.
Sentou-se na beirada da calçada.
E era estúpido. O cão era só um cão, e não merecia ser tratado assim.
'Ei' disse o cão 'essa corda coça bastante.'
'Você pode falar!'
'É claro que posso!'
'Por que me deu aqueles tênis? Por que me mandou para aqueles quartos do motel com toda aquela gente horrível? Qual era o plano?'
'Não tem plano nenhum.Você é um garoto especial. Coisas especiais acontecem com gente especial.'
'E o tesouro?'
O cachorro se lambeu fazendo barulho.
'Tire esta corda antes!'
'Me fale do tesouro.'
'Não dá para falar muito com esta corda no pescoço.'
O cão e o garoto se encararam e então Tommy tirou a corda.
'Não tem tesouro nenhum não é?' Perguntou Tommy.
'Não naquele motel, não.'
'Você me enganou.'
'Olhe garoto, eu não disse que estava lá. Eu disse que você devia procurar por ele lá. Veja bem, as vezes você já tem uma coisa e não sabe que tem e então continua procurando-a. Mesmo já tendo-a.'
'Tendo o que?'
'Este modo de olhar as coisas. De encontrar pessoas em motéis vazios ou palavras na boca de um cachorro.'
'Então eu criei você. Você nem é de verdade.'
'A realidade é qualquer coisa que você decide ser real. Você pode ter uma realidade onde existem cachorros que falam e tênis mágicos, ou pode ser como as pessoas naquele motel. Como seus pais. Depende de você.'
'Este é o tesouro?'
'É.'
O cachorro levantou e saiu fungando pela rua.
Parou em frente a um carro novo e grande e mijou na roda. As gotas respingavam na rua empoeirada como moedas de ouro.
'Vejo você por ai garoto' disse o cão sobre o ombro.
'Nos veremos de novo?'
'Claro. A vida é cheia de surpresas!'
Tommy colocou a corda na lata de lixo e foi para casa.
'O que você sabe?' pensou.
Depois de um pouco, começou a assoviar.



Tommy and the talking dog (1982) de Lewis Shiner