domingo, 13 de setembro de 2009

Arkady Strugatsky e o roteiro de Stalker



Julho de 1978.

Foram dias realmente terríveis.

A equipe estava entorpecida. Andrei andava sombrio como uma nuvem de chuva. Claro que eu também estava angustiado, pois eu presumidamente atribuia os problemas à má sorte habitual dos irmãos Strugatsky.

Ele (Andrei) entrou no meu quarto, colou-se à parede com as pernas, costas e cabeça - ele era a única pessoa que podia fazê-lo, eu tentei uma vez, mas cai - olhou para o teto e disse enfaticamente:

"Diga-me Arkady, você não está cansado de reescrever seu Piquenique (Roadside Picnic) pela décima vez?"

"Sim". Disse eu com cautela e muita sinceridade.

"Aí está" disse ele e balançou a cabeça gentilmente. "O que você diria se fizermos Stalker em duas partes ?"

Não consegui entender de imediato do que se tratava. Na verdade era muito simples. Ele tentaria conseguir mais dinheiro e filme, e transferir o prazo final para a segunda parte. Deixando para esta, aquilo que foi tirado do roteiro original. Assim seria possível salvar o dia.

"Será que eles permitiriam?" Perguntei quase num sussurro.

Andrei só olhou para mim e se afastou. Soube depois que alguns dias antes, ele havia enviado um pedido e eles, rangendo os dentes, deram a permissão.

"Agora então" disse ele com naturalidade "Volte para o seu Boris em Leningrado, e quero ter o novo roteiro em dez dias. Em duas partes. Não importa o ambiente. Apenas escreva os diálogos e comentários breves. E a coisa mais importante: Stalker deve ser completamente diferente. "

"Como deve ser?" Perguntei surpreso.

"Como vou saber? Mas eu não quero o bandido, como está no seu roteiro."

Suspirei e me recompus. O que eu poderia fazer? Eu não sabia como ele costumava trabalhar com outros autores, mas conosco foi assim. Trouxe um novo roteiro. Ele havia sido discutido no dia anterior.

"Eu não sei... você é o autor, não eu. Vá e revise-o."
Eu gostaria de revisá-lo. Tento pegar o tom e a intenção conforme eu a entendo. Eu suspiro e marcho para a máquina de escrever. Eu vou e reescrevo novamente.

Ele lê e relê por um longo tempo, seu bigode eriçado. Então diz hesitante:
"Bem, pelo menos temos algo para começar...depois podemos reescrever esse diálogo."

É como se eu tivesse um osso atravessado na minha garganta.

"O que você não gosta neste diálogo?"

"Eu não sei, só reeescreva. Apronte-o até amanhã à noite."

Foi assim que nós trabalhamos em um roteiro que há muito tempo foi aceito e aprovado em todos os níveis oficiais.

"Como deve ser Stalker no novo roteiro?"

"Eu não sei, você é o autor, não eu"

Sei. Na verdade eu não conseguia ver nada de errado, mas isso era normal. Mesmo antes de o trabalho começar, tinha ficado claro para meu irmão e eu que, se Tarkovsky comete erros, são erros brilhantes, e valem uma dúzia de decisões corretas de diretores comuns.

Em um súbito impulso perguntei:

"Ouça Andrei, pra que você precisa de ficção científica neste filme? Vamos tirar isso fora."

Ele sorriu como o gato que comeu o papagaio de seu dono.

"Pronto! Você sugeriu isso, não eu! Eu queria fazer isso há tempos, só tinha medo de sugerir achando que você iria se ofender. "



Trabalhando com Andrei (Tarkovsky) no roteiro de Stalker, por Arkady Strugatsky
(trecho publicado em 'Sobre Andrei Tarkovsky, memória e biografia', publicado pela Progress Publishers, Moscou (1990))