sábado, 5 de dezembro de 2009

Pequeno Irmão - Cory Doctorow - Capítulo 6


CAPÍTULO 6
Este capítulo é dedicado a Powell’s Books, a legendária ‘Cidade dos livros’ em Portland, Oregon. A Powell é a maior livraria do mundo, um interminável, multi-andares, universo de aromas de papel e enormes estantes. Eles possuem livros novos e usados nas mesmas prateleiras - algo que eu sempre amei - e sempre que passo por lá, há sempre uma verdadeira montanha de meus livros que me pedem para autografar. Os atendentes são amigáveis, o estoque é fabuloso e existe até uma Powell no aeroporto de Portland, sendo a melhor livraria em aeroportos no mundo.
Powell's Books: 1005 W Burnside, Portland, OR 97209 USA +1 800 878 7323


Acreditem ou não, meus pais me fizeram ir para a escola no dia seguinte.
Só consegui cair no sono às três da manhã, mas às sete meu pai estava no pé da cama, ameaçando me puxar pelos tornozelos se eu não levantasse sozinho - algo parecia ter morrido na minha boca depois de colar minhas pálpebras - e fosse tomar banho.

Deixei minha mãe forçar um pedaço de torrada e uma banana pra dentro de mim, desejando fervorosamente que eles me deixassem beber café em casa. Podia arranjar algum no caminho da escola, mas ficar olhando eles beberem seus ouros negros enquanto eu me vestia e colocava meus livros na mochila era terrível.
Eu já caminhara para a escola milhares de vezes,mas naquele dia era diferente. Fui até o alto da colina e desci para a Missão e por todo lado via estes caminhões. Vi novos sensores e câmeras de trânsito instaladas em vários postes de trânsito. Alguém tinha um monte de equipamento de vigilância por aí, esperando para ser instalado na primeira oportunidade. O ataque a ponte de Bay Bridge tinha sido tudo que eles precisavam.
Isso tudo fazia a cidade parecer mais subjugada, como estar dentro de um elevador, embaraçado pelo escrutínio de seus vizinhos e das ubíquas câmeras.

O Café Turco da rua 24 deu um jeito em mim com um gostoso café num copo para viagem . Basicamente, café turco era uma lama que fingia ser café. Era denso o bastante para segurar uma colher parada no centro e tinha mais cafeína do que aqueles energizantes tipo Red Bull. Tinha ouvido de alguém que viu na Wikipédia que fora assim que o Império Otomano vencia as batalhas: cavaleiros enlouquecidos e abastecidos pelo letal café-de-lama-preta.

Puxei o cartão de credito para pagar e ele me fez uma careta. ‘Não cobro mais’, ele disse.
‘Huh? Por que não? Eu paguei pelo meu café habitual com meu cartão durante anos no Turco. Ele costumava brigar comigo, dizendo que eu era novo demais para beber aquela coisa e se recusava a me servir durante o período da aula, convencido que eu fugia da aula. Mas por anos, o turco e eu tínhamos desenvolvido um tipo grosseiro de entendimento.

Ele balançou a cabeça e disse tristemente: “Você não entenderia. Vá para a escola, menino.”
Não havia jeito mais certo de me fazer querer entender do que me dizer que eu não poderia. O chantageei, exigindo que me contasse. Me olhou como se fosse me atirar para fora mas quando eu perguntei se ele pensava que eu não era bom o bastante para comprar ali, ele confessou:
“A Segurança” ele disse olhando ao redor de sua lojinha com seus sacos de grãos secos e vagens, e estantes cheias de doces turcos. “O governo. Agora eles monitoram tudo, está nos jornais. ATO PATRIOTA II, o Congresso aprovou ontem. Agora eles podem monitorar cada vez que você usa seu cartão de crédito. Eu digo não. Eu digo, minha loja não vai ajudá-los a espionar meus fregueses.”
Meu queixo caiu.
“Você pode achar que não é grande coisa talvez. Qual é o problema com o governo saber quando você vende café? Por que é o único jeito deles saberem onde você está, onde esteve. Por que você pensa que eu saí da Turquia? Onde você tem sempre o governo espionando o povo, nada bom. Eu me mudei para cá vinte anos atrás por causa da liberdade - não ajudo eles a acabar com a liberdade.”
“Você vai deixar de fazer muitas vendas.”  Eu disse. Eu queria dizer para ele que ele era um herói e apertar sua mão, mas o que saiu foi: “Todo mundo usa cartão de crédito.”
“Talvez não mais, nunca mais. Talvez meus fregueses passem a vir aqui porque sabem que eu amo a liberdade também. Vou colocar um cartaz na janela. Talvez outras lojas façam o mesmo. Eu ouvi dizer que a ACLU (Organização pró-direitos civis) vai processá-los por isso.”
“Você tem todo meu apoio” eu disse. Quis dizer. Procurei no bolso. “Hum, não tenho dinheiro.”
Ele franziu os lábios e concordou: “Muitos dizem a mesma coisa. Tudo OK. Você manda o dinheiro de hoje para a ACLU.”

Em dois minutos, o turco e eu havíamos trocado mais palavras do que todo o tempo que vim até sua loja. Eu não tinha idéia de que ele tinha toda aquela paixão. Pensava nele como meu vizinho amigável vendedor de cafeína. Agora eu apertei sua mão e quando deixei sua loja, senti como se ele e eu fossemos parte de um time. Um time secreto.
 
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Tinha perdido dois dias de escola, mas não pareceu que tinha perdido muita coisa. Eles haviam fechado as escolas durante aqueles dias, enquanto a cidade se recuperava. O dia seguinte havia sido dedicado a lamentar aqueles que desapareceram ou presumidamente estavam mortos. Os jornais publicavam biografias dos desaparecidos. A Web estava cheia de pequenos obituários, milhares deles.

De forma embaraçosa eu era uma destas pessoas. Pisei no pátio da escola sem saber disso e então ouvi um grito e no momento seguinte havia uma centena de pessoas me cercando, de dando tapinhas nas costas, apertando minha mão. Duas garotas que eu nem conhecia me beijaram e foram beijos mais do que simplesmente amigáveis. Eu me senti como um astro do rock.
Meus professores, contudo, foram um pouco mais controlados. Senhorita Galvez chorou tanto quanto minha mãe tinha chorado e me abraçou por três vezes antes de me deixar sentar no meu lugar. Havia algo novo na frente da sala de aula. Uma câmera. Senhorita Galvez percebeu que eu olhava para ela e me passou um comunicado xerocado da direção da escola.

O Comitê das Escolas Unificadas do Distrito de São Francisco tinha se reunido numa sessão de emergência no fim de semana e, por voto unânime, pediram a cada pai das crianças da cidade a permissão para colocar circuitos de televisão em cada sala e corredor. A lei dizia que eles não podiam nos forçar a ir para escolas com câmeras por toda parte, mas não dizia nada sobre nós abrirmos mão voluntariamente de nossos direitos constitucionais. A carta dizia que o Comitê tinha total certeza que conseguiria a completa aquiescência dos pais desta cidade, mas eles fariam arranjos para ensinar também aquelas crianças cujos pais se objetassem, em salas separadas “desprotegidas”.

Por que tínhamos câmeras na sala de aula agora? Terroristas, é claro. Por que depois de explodir uma ponte, os terroristas haviam indicado que as escolas seriam as próximas. De alguma forma, esta fora a conclusão a que chegou o Comitê.
Li a nota por três vezes e então levantei a mão.
“Sim, Marcus?”
“Senhorita Galvez, sobre esta nota?”
“Sim, Marcus?”
“O objetivo dos terroristas não é fazer com que fiquemos aterrorizados? Não é por isso que se chama terrorismo?”
“Suponho que sim.” A classe estava me olhando. E não era o melhor aluno da escola, mas era bom em debates na sala de aula. Eles esperavam para ouvir o que eu tinha para dizer em seguida.
“Então nós não estamos fazendo o que os terroristas queriam de nós? Eles não ganham se agimos todos com medo e colocamos câmeras nas sala e tudo isso?”
Houve um rumor nervoso. Um dos outros levantou a mão. Era Charles. Senhorita Galvez o deixou responder.
“Colocando câmeras nas salas ficamos mais seguros, o que faz termos menos medo.”
“Seguros contra o quê?” respondi antes dele acabar.
“Terrorismo” disse Charles. Os outros concordam.
“Como isso vai adiantar? Se um homem bomba entrar aqui e explodir com a gente...”
“Senhorita. Galvez, Marcus está violando a política da escola. Não podemos fazer piadas sobre ataques terroristas...”
“Quem está fazendo piada?”
“Obrigada, aos dois.” disse Senhorita Galvez. Ela parecia verdadeiramente triste.  Senti-me mal por roubar a atenção da sua turma. “Acho que é uma discussão muito interessante, mas vamos deixar para uma próxima aula. Acho que estes assuntos podem ser bastante emocionais para nós termos uma discussão hoje. Agora, podemos voltar aos sufragistas?”

Então passamos o resto daquela hora falando sobre os sufragistas e de novas estratégias lobistas para conseguir colocar quatro mulheres em cada escritório de cada congressista para ensiná-los e deixar que soubessem o que significaria para seus futuros políticos se continuassem negando o direito de voto para as mulheres. Isso era normalmente algo que eu gostava - uns poucos fazendo muito e poderosamente honesto.
Mas hoje eu não conseguia me concentrar. Talvez fosse pela ausência de Darryl. Nós gostávamos de estudos sociais e nos sempre começávamos uma conversa pelo IM em nossos computadores escolares para falar sobre a lição.

Eu tinha gravado vinte discos com ParanoidXbox na noite anterior e eles estavam na mochila. Passei para aqueles que eu sabia que estavam por dentro da coisa. Todos tinham um Xbox Universal ou dois, do ano passado, ma a maioria tinha deixado de usá-los. Os jogos eram muito caros e nem um pouco divertidos. Eu os distribuía entre as aulas, no recreio, na sala de estudos e cantava as glórias dos jogos no ParanoidXbox. Diversão de graça - games sociais viciantes com um monte de gente bacana jogando por todo o mundo.
Dar uma coisa para vender outra é o que chamam de "negócio tipo navalha" -companhias como a Gillette dão para você um aparelho de barbear de graça e então ganham uma fortuna vendendo lâminas. Com os cartuchos de impressão é bem pior que isso - a mais cara champanhe do mundo é barata se comparada ao preço da tinta de impressora, que custa um centavo por galão no atacado.

Este negócio tipo navalha depende de você não ser capaz de conseguir “as lâminas” de outro lugar. Além disso, se a Gillette consegue nove em cada dez dólares gastos com trocas de lâminas, por que não começar como um competidor que cobra quatro mangos por uma lâmina idêntica? Uma margem de lucro de 80% é o tipo de coisa que faz qualquer sujeito do mundo dos negócios babar.
Então, empresas tipo a Microsoft, empregam um grande esforço para tornar ilegal ou difícil alguém competir com ela pelas lâminas. No caso da Microsoft, cada Xbox possui contramedidas para evitar que você o use com softwares feitos por pessoas que não pagaram uma boa grana à Microsoft pelo direito de vender jogos para Xbox.

As pessoas que conheço não pensam muito sobre isso. Eles se animam quando eu digo que os jogos não são monitorados. Nestes dias, qualquer jogo online que você joga é cheio de todo tipo de coisas nojentas. Primeiro tem os pervertidos que tentam convencê-lo a ir a algum lugar onde farão todo tipo de “Silêncio dos Inocentes” com você. E tem a polícia que finge que ser crianças ingênuas para poder pegar os pervertidos. E o pior de tudo isso são os monitores que passam o tempo espiando suas discussões e xeretando se alguém está violando os Termos do Serviço, o que significa nada de paquera, nada de palavrões, e nada de “linguagem de duplo sentido que insulte a qualquer aspecto de orientação sexual ou sexualidade.”
Eu não sou um cachorro no cio vinte e quatro horas, sete dias por semana, mas tenho dezessete anos. Sexo sempre aparece numa conversa e sempre aparecerá. Mas Deus te ajude se aparecer num chat enquanto você está jogando. Tá ferrado. Ninguém monitora os jogos do ParanoidXbox, pois não são executados por uma companhia mas são só jogos criados por hackers.

Então é assim, os maníacos por jogos adoram esta história. Eles pegam os discos com gratidão e prometem copiar para todos os seus amigos - afinal, os games são mais legais quando você joga com os seus camaradinhas.
Quando cheguei em casa li que um grupo de pais estava processando na justiça o Comitê escolar por conta das câmeras de vigilância nas salas de aula, mas já tinham perdido a injunção preliminar contra eles.

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Não sei quem veio com o nome Xnet, mas pegou. Você ouvia as pessoas falarem sobre ela na Muni (apelido para o sistema publico de trânsito de São Francisco; ônibus, bondes,etc.). Van me ligou para perguntar se eu já tinha ouvido falar sobre ela e fiquei chocado quando me dei conta de que se tratavam dos discos que eu comecei distribuindo semana passada e que já se achavam até em Oakland, no espaço de apenas duas semanas. Isso me fez ficar cabreiro - como se tivesse quebrado uma regra e agora o DHS (Departamento de Segurança do Estado) viria e me levaria embora para sempre.

Estas seriam semanas difíceis. O sistema de trens e metrô tinha abandonado completamente a venda de passagens por dinheiro, trocando-a por cartões que você apenas aproxima das roletas para poder passar. Eles eram legais e bem convenientes, mas toda vez que você usava um, eu imaginava como estaria sendo seguido. Alguém na Xnet colocou um link para um documento da Eletronic Frontier Foundation que dizia que estas coisas poderiam ser usadas para seguir o povo e contava algumas pequenas historias sobre algumas pessoas que protestaram contra isso nas estações da BART.

Eu usava a Xnet para quase tudo agora. Criei um email com endereço falso através da Pirate Party, um partido político sueco que odiava vigilância na internet e que prometia manter suas contas de email em segredo - mesmo da polícia. Eu a acessava estritamente via Xnet, pulando de uma conexão de internet das vizinhanças para outra anonimamente - eu esperava - até a Suécia. Não mais usava ‘W1N5T0N’. Se Benson podia descobrir, qualquer um podia. Meu novo logon veio de um estímulo momentâneo, era M1k3y, e eu recebia um monte de email de pessoas que tinham ouvido em salas de discussão e quadros de mensagens que eu poderia ajudar a solucionar problemas das configurações e conexões de suas Xnet.

Sentia saudades de Harajuku Fun Madness. A companhia suspendera o jogo indefinidamente. Disseram que por ‘razões de segurança’ não seria uma boa idéia esconder coisas e então mandar pessoas as procurar. E se alguém pensasse que é uma bomba? E se alguém colocasse uma bomba no mesmo lugar?
E se eu fosse atingido por um raio enquanto andava com um guarda-chuva? Vamos proibir guarda-chuvas! Combata a ameaça do raio!

Continuei usando meu laptop, mas isso me dava arrepios. Quem quer que o tivesse grampeado poderia imaginar por que eu não o usava mais. Todos os dias eu fazia algum acesso randômico na rede, um pouco menos a cada dia, para que qualquer um que estivesse me vigiando achar que eu estava mudando meus hábitos, e não mudando repentinamente. Na maioria das vezes ficava lendo aquelas mensagens de óbito arrepiantes - milhares de amigos e vizinhos mortos no fundo da baía.

Verdade seja dita, eu fazia cada vez menos trabalho de casa. Tinha outros negócios para tratar. Todo dia gravava pilhas de discos com ParanoidXbox, cinqüenta ou sessenta discos, e os levava pela cidade para pessoas que queriam fazer sessenta copias para si mesmo ou amigos.
Não me preocupava em ser pego fazendo isso, por que eu tinha a boa e velha cripto ao meu lado. Cripto, ou criptografia, significa “escrita secreta” e existe desde os tempos de Roma (Augustus Cesar era um grande fã e inventava seus próprios códigos, alguns ainda usados hoje em dia na forma de piadas em email.)
Cripto é matemática. Matemática pura. Não vou tentar explicar em detalhes por que a coisa ainda não entrou na minha cabeça, mas olhe na Wikipédia se realmente quiser saber como funciona.

Mas aqui está a versão do Cliff’s Notes. Algumas das funções matemáticas são bem fáceis de fazer numa direção e realmente difíceis de fazer em outra direção. É fácil multiplicar dois grandes números primos e obter um número gigante. É enormemente difícil pegar qualquer número gigantesco e descobrir quais números primos multiplicados dão aquele número.

Isso significa que se você pode embaralhar algo baseado em multiplicação de grandes números primos, desembaralhar sem saber quais são estes números será bem difícil. Difícil mesmo! Tipo, todos os computadores do mundo trabalhando 24 horas por dia durante um trilhão de anos não conseguiriam.
Existem quatro partes de qualquer mensagem criptografada. A mensagem original, chamada texto limpo, a mensagem embaralhada, chamada texto cifrado. O sistema de embaralhamento, chamado código cifrador e finalmente a chave secreta que alimenta o código (logaritmo) para transformar o texto limpo em texto cifrado.
Eu era um desses caras que usam cripto para tudo. Toda agência do governo tem seus próprios códigos  e suas próprias chaves. Os nazistas e os aliados não queriam que outros soubessem como eles embaralhavam suas mensagens e deixavam separadas as chaves que poderiam desembaralhá-las. Isso parece uma boa idéia, certo?
Errado.
A primeira vez que alguém me contou sobre como fatorar números primos eu imediatamente disse: “Nem vem, isso é besteira! Quer dizer, é lógico que é difícil fazer este fatoramento de primos, qualquer um vai te dizer isso. Mas também era impossível voar ou ir até a lua ou fazer um disco rígido com mais do que alguns kilobytes de armazenamento. Alguém deveria inventar um jeito de desembaralhar estas mensagens.” Eu tinha visões com uma montanha oca cheia de matemáticos da NSA (Agência de Segurança Nacional)  lendo e bisbilhotando todos os emails do mundo.

De fato, isso se parece um pouco com o que aconteceu durante a Segunda Grande Guerra. Esta é a razão pela qual a vida não é mais como Castle Wolfenstein (game), onde eu passava os dias caçando nazistas.
O que acontece é que códigos são difíceis de manter em segredo. Existe muita matemática aplicada neles e se são largamente usados, então qualquer um que os utiliza tem que manter o segredo sobre eles. Também e se alguém muda de lado, você vai precisar de um novo código.
O código nazista chamava-se Enigma e ele usavam um pequeno computador mecânico chamado Máquina Enigma para embaralhar e desembaralhar mensagens. Cada submarino e navio e estação precisava de uma máquina dessas, então era inevitável que eventualmente os aliados conseguissem colocar as mãos em uma delas.

Quando o fizeram, eles quebraram o código. Este trabalho foi encabeçado pelo meu herói particular de todos os tempos, Alan Turing, que praticamente inventou os computadores como conhecemos hoje. Infelizmente para ele, ele era gay, então quando a guerra terminou, o estúpido governo Britânico o forçou a tomar injeções de hormônios para “curar” sua homossexualidade e ele se matou. Darryl me deu uma biografia de Turing no aniversário de 14 anos - e eu me tornei um apaixonado por Turing desde então.
Agora que os aliados tinham a Máquina Enigma e podiam interceptar as mensagens de rádio nazistas, que não deviam ligar para isso, pois cada capitão tinha sua própria chave secreta.  Uma vez que os aliados não tinham estas chaves, ter a máquina não iria ajudá-los em nada.
Foi ai que descobriram o segredo que arruinou a cripto: o código Enigma era falho. Quando Turing atenciosamente estudou a máquina, percebeu que os criptografistas nazistas tinham cometido um erro matemático. Com a Máquina Enigma nas mãos, Turing poderia desvendar qualquer mensagem nazista, não importava que chave fosse usada.
Isso custou a guerra aos nazistas. Quero dizer, não me entenda mal. Isso foi bom. Dito por um veterano em Castle Wolfenstein. Você não iria querer os nazistas mandando em seu país.
Depois da guerra, os criptografistas passaram bastante tempo pensando sobre isso. O problema fora que Turing era mais esperto que o cara que pensou o Enigma. Toda vez que alguém criava um código, ficava vulnerável a alguém mais esperto que vinha com um jeito de quebrá-lo.

E quanto mais pensavam nisso, mais percebiam que qualquer um podia vir com um sistema de segurança que eles não saberiam como quebrar. Mas ninguém pode imaginar o que uma pessoa inteligente pode fazer.
Você tem que tornar um código conhecido para saber se este funciona. Tem que dizer a quantas pessoas for possível como funciona para que possam testá-lo com tudo que podem, colocando a sua segurança em prova. Quanto mais tempo você conseguir passar sem que se achem uma falha, melhor ele é.
É como funciona hoje. Se você quer ficar seguro, você não usa um cripto que algum gênio bolou semana passada. Você usa aquele que as pessoas vêm usando há muito sem que ninguém consiga quebrar. Não importa se você é um banco, um terrorista, o governo ou um adolescente, você utiliza o mesmo código.

Se você tentar usar seu próprio código, existe uma chance de que alguém por aí encontre uma falha nele e dê uma de Turing para cima de você, decifrando todas as suas mensagens secretas e rindo de suas fofocas idiotas, transações financeiras e segredos militares.
Então eu sabia que a criptografia podia me manter a salvo dos abelhudos, mas eu não estava pronto pra lidar com histogramas.

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Sai na BART e balancei meu cartão sobre a roleta enquanto me encaminhava para a estação da rua 24. Como sempre havia um monte de esquisitos de bobeira na estação, bêbados e seguidores malucos de Jesus, e mexicanos e alguns garotos de gangues. Olhei direto através deles e quando cheguei às escadas e alcancei a superfície. Minha sacola estava vazia agora, não mais carregada de discos de ParanoidXbox que estivera distribuindo e que fazia me sentir leve enquanto caminhava para casa. Os pregadores, contudo, continuavam seu trabalho, exortando em espanhol e inglês sobre Jesus e por ai vai.

Os vendedores de óculos de sol falsificados tinham ido embora, mas substituídos por caras vendendo cachorrinhos robôs que latiam o hino nacional e levantavam as perninhas se você mostrava uma foto de Osama Bin Laden. Devia haver algo interessante em seus pequenos cérebros e fiz uma nota mental sobre comprar alguns para abri-los depois. Reconhecimento facial era relativamente uma novidade em brinquedos e apenas recentemente tinham feito a transição de assunto militar para aparecer nos cassinos, usado para identificar trapaceiros.

Desci a rua 24 em direção a Potrero Hill e meu lar, sentindo o aroma de burritos que escapava dos restaurantes e pensando na janta.
Não sei por que dei uma olhada por sobre o ombro, mas o fiz. Talvez tenha sido uma coisa subconsciente de sexto-sentido. Sabia estar sendo seguido.

Eram dois caras musculosos brancos com pequenos bigodes que podiam fazê-los passar por policiais ou ciclistas gays que vivem para cima e para baixo na rua Castro, mas os gays normalmente tem corte de cabelos melhores. Usavam agasalhos cor de cimento velho e jeans de cintura oculta. Pensei sobre todas as coisas que um tira pode usar em seu cinto, como um cinto de utilidades que os caras da DHS usavam no caminhão. Ambos usavam fones de ouvido Bluetooth.
Continuei andando, meu coração saltava no peito. Eu estava esperando por isso desde que comecei. Esperava pelo DHS percebesse o que eu estava fazendo. Eu tomei precauções, mas a mulher de cabelo militar tinha me dito que eles estariam me observando. Ela tinha me dito que eu era um homem marcado.
Percebi que estive esperando ser capturado e levado de volta à cela. Por que não? Por que Darryl podia continuar preso e eu não? O que será que tinham contra mim? Nem aos meus pais eu tinha contado - ou aos pais de Darryl - o que realmente aconteceu conosco.
Acelerei o passo e fiz um inventário mental. Não tinha nada que me incriminasse na minha bolsa. Não muito, de qualquer forma. Meu computador escolar estava executando um crack que deixava usar o IM e coisas assim, mas metade dos caras na escola fazia o mesmo. Eu tinha mudado a forma de bloquear meu telefone - agora eu tinha uma partição falsa que eu podia desfazer com uma senha, mas todas as coisas boas estavam escondidas e precisavam de outra senha para abri-las. A seção escondida parecia lixo aleatório - quando você criptografa dados, se torna indistinguível do lixo normal - e nunca saberiam que estava lá.
Não havia discos na minha bolsa. Meu laptop estava livre de evidências incriminantes. É claro: se fossem vasculhar meu Xbox, fim de papo.

Parei onde estava. Tinha feito um bom trabalho para me proteger. Era hora de encarar meu destino. Entrei na vendinha mais próxima e pedi um burrito com carnitas - porco fatiado - e salsa extra. Se eu iria ser preso seria com o estômago forrado. Peguei um copo de horchata também, um refresco gelado que era quase água, pudim de arroz meio doce (melhor do que parece).
Sentei-me para comer e uma calma profunda me envolveu. Estava prestes a ir para a cadeia por meus "crimes" ou não. Minha liberdade, desde que havia sido capturado tinha sido só um feriado temporário. Meu país não era mais meu amigo - estávamos de lados diferentes e eu sabia que nunca poderia vencê-lo.
Os dois sujeitos entraram no restaurante quando eu terminava o burrito e ia pedir uns churros - massa frita e coberto de açúcar com canela - para sobremesa. Acho que estavam esperando do lado de fora e se cansaram da minha vadiagem.

Ficaram atrás de mim no caixa, me cercando. Peguei o churro da pequena avozinha e paguei-a, dando algumas mordidas antes de me virar. Queria ao menos aproveitar um pouco a sobremesa. Podia ser a última que teria em muito tempo.
Então me virei. Estavam tão perto que dava para ver as espinhas na bochecha do cara à esquerda e a meleca no nariz do outro.
“Licença!” eu disse, tratando passar por eles. O da meleca se moveu me bloqueando.
“Senhor,” ele disse, “pode vir conosco?” fez um gesto para a porta do restaurante.
“Desculpe. Estou comendo.” disse e tentei sair de novo. Desta vez ele colocou a mão em meu peito. Ele estava respirando rápido através do nariz, fazendo a meleca seca se mexer. Acho que eu estava respirando rápido também, mas era difícil de saber além do martelar do meu coração.
O outro puxou a frente do casaco revelando uma insígnia da SFPD (Departamento de Polícia de São Francisco).
“Polícia.” disse. “Venha conosco!”
“Deixe-me pegar minhas coisas.” eu falei.
“Nós cuidaremos delas” disse. O melequento deu um passo a direita, com o pé entre os meus. Igualzinho como se faz em artes marciais. Deixa você saber se o outro cara está deslocando seu peso pronto para se mover.

Eu não ia correr. Eu sabia que não dava para correr do destino.


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