segunda-feira, 19 de abril de 2010

Como construir um universo que não desmorone dois dias depois - Philip K. Dick (1/5)



Em primeiro lugar, antes de começar a aborrecê-lo com as coisas que os escritores de ficção científica normalmente dizem em seus discursos, deixe-me trazer-lhe os cumprimentos oficiais da Disneylândia.

Eu me considero um porta-voz da Disneylândia, porque vivo a poucos quilômetros de lá - e como se isso não fosse suficiente, uma vez eu tive a honra de ser entrevistado pela Paris TV na Disneylândia.  
Durante várias semanas após a entrevista, fiquei muito doente e confinado à cama. Acho que foi devido ao girar das xícaras de chá. Elizabeth Antebi, que foi a produtora do filme, me queria girando em uma das xícaras gigantes, enquanto discutia a ascensão do fascismo com Norman Spinrad... um velho amigo meu, que escreve uma excelente ficção científica.

Discutimos também Watergate, mas nós fizemos isso no convés do navio pirata do Capitão Gancho.

Criancinhas vestindo chapéus do Mickey Mouse, aqueles chapéus pretos com as orelhas, corriam esbarrando em nós, e Elizabeth fazendo perguntas inesperadas. Norman e eu estávamos preocupados com as crianças e falamos algumas coisas extremamente estúpidas naquele dia.

Hoje porém, terei de aceitar ter plena responsabilidade por aquilo que eu te disser, uma vez que nenhum de vocês está usando chapéus do Mickey, tentando subir em mim e pensando que faço parte de um navio pirata.

Escritores de ficção científica, lamento dizer, não sabem de nada.
Não podemos falar sobre a ciência, porque nosso conhecimento é limitado e não oficial e, geralmente a nossa ficção é terrível.

Alguns anos atrás, nenhuma faculdade ou universidade jamais teria considerado convidar um de nós para falar. Fomos misericordiosamente confinados a revistas populares (pulp), que não impressionavam ninguém.

Naqueles dias, os amigos me perguntavam: "Mas você está escrevendo alguma coisa séria?" o que significa "Você está escrevendo algo diferente de ficção científica?"

Nós desejamos ser aceitos. Nós nos exibimos para sermos notados.
Então, de repente, o mundo acadêmico nos enxergou, e fomos convidados para dar palestras e aparecer em convenções - e imediatamente nós fizemos de nós mesmos idiotas.

O problema é simplesmente esse:
O que um escritor de ficção científica sabe? Em que tópico ele é uma autoridade? 

Isso me lembra de uma manchete que apareceu em um jornal da Califórnia, pouco antes de vir para cá. Os cientistas dizem que os ratos não podem ser feitos para parecer com seres humanos. Era um programa de pesquisa financiado pelo governo federal, eu suponho. Basta pensar: alguém neste mundo é uma autoridade sobre o tema se os ratos podem ou não calçar sapatos bicolores, chapéus, camisas listradas e calças Dacron, e se passar como seres humanos.
 
Bem, eu vou lhe dizer o que me interessa, o que eu considero importante. Eu não posso reivindicar ser uma autoridade em nada, mas posso dizer honestamente que certas questões me fascinam, e que eu escrevo sobre elas o tempo todo.

Os dois temas básicos que me fascinam são "O que é realidade?" e "O que é o ser humano?"

Ao longo dos vinte e sete anos em que tenho publicado romances e histórias que investigo estes dois temas relacionados repetidamente. Eu os considero temas importantes. O que somos? O que é isso que nos rodeia, a que chamamos o não-eu, ou o mundo empírico ou dos fenômenos?
 
Em 1951, quando vendi minha primeira história, eu não tinha idéia de que essas questões fundamentais iriam ser perseguidas pela ficção científica. Comecei a persegui-los inconscientemente.

Minha primeira história tinha a ver com um cachorro que pensava que o lixeiro que vinha todas as sextas-feiras de manhã estava roubando o valioso alimento que a família tinha estocado cuidadosamente em um recipiente metálico. Todos os dias, os membros da família carregavam sacos de papel cheios de alimentos, colocando-os no recipiente de metal, fechando bem a tampa, e quando o recipiente estava cheio, estas terríveis criaturas assombrosas vinham e roubavam tudo, exceto a lata. 

Finalmente, na história, o cão começa a imaginar que algum dia o lixeiro irá comer os habitantes da casa, além de roubar sua comida. Evidentemente, o cão estava errado sobre isso.

Todos nós sabemos que lixeiros não comem pessoas. Mas a extrapolação do cão estava em um sentido lógico - tendo em conta os fatos à sua disposição. A história era sobre um cão de verdade, e eu costumava observá-lo e tentava entrar em sua cabeça e imaginar como ele via o mundo. Eu deduzi que o cão vê o mundo de forma bastante diferente do que eu, ou de qualquer ser humano vê.

E então eu comecei a pensar que talvez cada ser humano viva em um mundo único, um mundo particular, um mundo diferente daqueles habitados por todos os outros seres humanos. E isso me levou a pensar se a realidade difere de pessoa para pessoa, podemos falar da realidade singular, ou não deveríamos estar falando sobre a realidade plural? E se existem realidades plurais, elas seriam um pouco mais verdadeiras (mais real) do que outras? E o mundo de um esquizofrênico? Talvez ele seja tão real quanto o nosso mundo. Sua realidade é tão diferente da nossa que ele não pode explicar a sua para nós, e nós não podemos explicar a nossa para ele.

O problema então é que se os mundos subjetivos são experimentados diferentemente, então ocorre uma ruptura da comunicação... e este é o verdadeiro problema. 

Certa vez escrevi uma história (Electric Ant) sobre um homem que foi ferido e levado para um hospital. Quando eles começaram a cirurgia nele, descobriram que ele era um andróide, não um ser humano, mas ele não sabia. Eles tiveram que dar a notícia a ele.

Quase ao mesmo tempo, o Sr. Garson Poole descobriu que a sua realidade consistia de uma fita passando de bobina em bobina em seu peito. Fascinado, ele começou a modificar esta fita e a criar novas realidades com isso. Imediatamente, o seu mundo mudou. Um bando de patos passou voando pela sala. Finalmente ele cortou a fita, e o mundo desapareceu. No entanto, também desapareceu para os outros personagens na história... o que não faz sentido, se você pensar sobre isso. A menos que os outros personagens fossem fruto da sua fantasia na fita perfurada. Eu penso que eles eram. 

Meu desejo ao escrever romances e contos era fazer a pergunta "O que é a realidade?", para algum dia receber uma resposta. Esta era a esperança da maioria dos meus leitores, também.
Anos se passaram.

Eu escrevi mais de trinta livros e mais de uma centena de histórias, e eu ainda não consegui descobrir o que era real.

Um dia, uma universitária do Canadá me pediu para definir a realidade para ela, para um trabalho que estava escrevendo para sua classe de filosofia. Ela queria uma resposta em uma frase.
Eu pensei sobre isso e finalmente eu disse:
"A realidade é aquilo que, quando você para de acreditar, não desaparece."
Isso foi em 1972. Desde então eu não tenho sido capaz de definir a realidade mais lucidamente. 

Mas o problema é real, não um mero jogo intelectual. Porque hoje nós vivemos em uma sociedade na qual realidades espúrias são fabricadas pela mídia, pelos governos, pelas grandes corporações, por grupos religiosos, grupos políticos - o hardware e eletrônica existem para nos entregar esses pseudo-mundos direto na cabeça do leitor, do telespectador, do ouvinte.

Às vezes, quando vejo minha filha de onze anos assistindo televisão, eu me pergunto o que ela está aprendendo. Um programa de TV produzido para adultos é visto por uma criança pequena.

Metade do que é dito e feito na televisão é provavelmente, incompreendido pela criança. Talvez tudo seja mal compreendido.
A questão é, o quão autêntica é a informação de qualquer forma, mesmo se a criança a entendesse corretamente? Qual é a relação entre o que  aparece normalmente na TV com a realidade? E sobre os programas policiais? Os carros perdem controle, batem e pegam fogo. A polícia é sempre boa e sempre vence. Não ignore esse ponto: A polícia sempre ganha.
Que lição é essa? Você não deve lutar contra a autoridade, pois se você fizer isso, você vai perder.

A mensagem aqui é: seja passivo. E coopere. Se o detetive Baretta pede informações, dê a ele essas informações, porque o detetive Baretta é um homem bom e de confiança. Ele ama você, e você deve amá-lo. 

Então eu pergunto, na minha escrita, o que é real?

Porque somos incessantemente bombardeados com pseudo-realidades fabricadas por pessoas muito sofisticadas, utilizando mecanismos eletrônicos sofisticados. Eu não desconfio dos seus motivos, eu desconfio de seu poder. Eles têm muito poder. Um poder surpreendente: o de criar universos inteiros, os universos da mente. Disso eu sei. Eu faço a mesma coisa. É o meu trabalho criar universos, como base para um livro após o outro. E eu tenho que construí-los de tal maneira que eles não se desfaçam dois dias depois.
Ou pelo menos é isso que meu editores esperam.

No entanto, vou revelar um segredo a vocês: eu gosto de construir universos que se desfaçam.
Eu gosto de vê-los ruindo, e eu gostaria de ver como os personagens nos livros lidam com este problema.
Eu tenho um amor secreto pelo caos.

Não acredito - e estou falando muito sério quando digo isto - que a ordem e a estabilidade são sempre boas, em uma sociedade ou em um universo. O velho, o fossilizado, deve sempre dar lugar a uma nova vida e do nascimento de coisas novas. Antes das coisas novas poderem nascer, o que é velho deve morrer.
Esta é uma conclusão perigosa, porque nos diz que devemos abrir mão do que nos é familiar.
E isso dói. Mas isso faz parte do roteiro da vida.

A menos que possamos nos adaptar as mudanças psicologicamente, começaremos a morrer por dentro.
O que estou dizendo é que os objetos, os costumes, hábitos e modos de vida devem morrer para que o ser humano autêntico possa viver. E é o ser humano autêntico o que mais importa, o organismo viável, flexível, que pode retroceder, absorver e lidar com o novo.

Claro, eu digo isso porque eu moro perto da Disneylândia, e eles estão sempre adicionando novos passeios e destruindo os antigos. A Disneylândia é um organismo em evolução. Durante anos eles tinham um simulacro do presidente Lincoln, que, como o próprio Lincoln, foi apenas uma forma temporária de matéria e energia para em seguida desaparecer.

O mesmo é verdade para cada um de nós, gostemos ou não.