sábado, 1 de maio de 2010

O Caçador de Andróides - Philip K. Dick (parte 5)




TALVEZ EU esteja preocupado, pensou Rick Deckard, que o que aconteceu com Dave me aconteça também. Um andro suficientemente sabido para pegá-lo com um laser, provavelmente me pegaria, também. Mas não parecia ser isto.

— Estou vendo que trouxe as especificações sobre aquela nova unidade cerebral — disse o Inspetor Bryant, desligando o videofone.
— Isso mesmo, ouvi falar nesse assunto na rede de bisbilhotices do escritório. Quantos andros estão envolvidos e até onde Dave foi?
— Oito, para começar — explicou Bryant, consultando a prancha. — Dave pegou os dois primeiros.
— E os seis restantes estão aqui no norte da Califórnia?
— Tanto quanto sabemos. Dave também pensa isso. Era com ele que eu estava falando ao telefone. Tenho as notas dele; estavam na mesa dele. — Deu uma batidinha na pilha de papéis. Até o momento não parecia inclinado a passá-las a Rick. Por alguma razão, continuou a folhear as notas, franzindo o cenho e passando a língua por dentro e pelos cantos da boca.
— Não tenho coisa alguma em minha agenda — sugeriu Rick. — Estou pronto para assumir o lugar de Dave.

Bryant respondeu pensativo:
— Dave utilizou a Escala Modificada Voigt-Kampff para testar os indivíduos de quem desconfiava. Você compreende — deve, de qualquer modo — que este teste não é específico para as novas unidades cerebrais. Nenhum teste é. A Escala Voigt, modificada há três anos por Kampff, é tudo o que temos. — Interrompeu-se, pensando. — Dave considerava-a exata. Talvez seja. Mas sugiro o seguinte, antes de você sair à procura desses seis. — Mais uma vez, bateu na pilha de notas. — Voe para Seattle e converse com o pessoal da Rosen. Consiga com eles uma amostragem representativa dos tipos que utilizam a nova unidade Nexus-6.
— E faço com que se submetam ao Voigt-Kampff — disse Rick.
— Parece tão fácil — murmurou Bryant, meio para si mesmo.
— Perdão?
— Acho que eu mesmo falo com a organização Rosen, enquanto você está a caminho. — Olhou em silêncio para Rick. Finalmente, grunhiu qualquer coisa, roeu uma unha e, finalmente, resolveu o que queria dizer: — Vou discutir com eles a possibilidade de incluir vários humanos, bem como os novos andróides deles. Mas você não vai saber. Será decisão minha, juntamente com os fabricantes. A coisa deve estar pronta quando você chegar lá. — Bruscamente, apontou o dedo para Rick, severa sua face. — Esta é a primeira vez em que você vai agir como caçador de cabeças graduado. Dave sabe um bocado sobre isso. Tem anos de experiência.
— Eu também — disse tenso Rick.
— Você tem recebido missões que estavam na agenda de Dave. Ele sempre resolveu quais delas, exatamente, lhe passar, e quais não. Mas, agora, você tem seis que ele pessoalmente resolvera aposentar — um dos quais conseguiu pegá-lo primeiro. Este aqui. — Bryan virou uma das notas, de modo que Rick pudesse vê-la. — Max Polokov .— continuou o inspetor. — De qualquer modo, é assim que ele chama a si mesmo. Supondo que Dave tinha razão. Tudo se baseia nessa suposição, toda a lista. Ainda assim, a Escala Modificada Voigt-Kampff só foi aplicada aos três primeiros, os dois que Dave aposentou e a Polokov. Foi quando Dave lhe administrava o teste que Polokov pegou-o com o laser.
— O que prova que Dave tinha razão — disse Rick. — De outro modo, não teria sido atacado. Polokov não teria motivo.
— Siga para Seattle — disse Bryan. — Não lhes fale nada sobre isso. Eu me encarrego da coisa. Escute aqui — levantou-se e, muito sério, encarou Rick, — quando aplicar lá a Escala Voigt-Kampff, se algum humano não passar nela . .
— Isso não pode acontecer — retrucou Rick.
— Há algumas semanas, conversei com Dave sobre exatamente esse assunto. Ele andava pensando mais ou menos da mesma forma. Eu tinha um memorando da polícia soviética, do próprio W.P.O., que circulou em toda a Terra e nas colônias. Um grupo de psiquiatras de Leningrado procurou o W.P.O. com uma proposta.

Queriam que os mais modernos e mais exatos instrumentos analíticos de perfil de personalidade na determinação da presença de um andróide — em outras palavras, a Escala Voigt-Kampff — fossem aplicados a um grupo cuidadosamente selecionado de pacientes humanos esquizóides e esquizofrênicos.

Naqueles, especificamente, que revelam o que chamam de "achatamento de afeto". Você deve ter ouvido falar nisso.
— Especificamente, é isso o que a escala mede — disse Rick.
— Neste caso, você sabe por que é que eles estão preocupados.
— Esse problema sempre existiu. Desde que, pela primeira vez, encontramos andróides passando por seres humanos. O consenso da opinião das forças policiais encontra-se no artigo de Lurie Kampff, escrito há oito anos, Bloqueio da Assunção de Papéis em Esquizofrênicos Não-Deteriorados. Kampff comparou a faculdade empática reduzida encontrada em pacientes mentais e uma superficialmente semelhante, mas basicamente...
— Os psiquiatras de Leningrado — interrompeu-o brusco Bryant — pensam que uma pequena classe de seres humanos não conseguiria passar na Escala Voigt-Kampff. Se fossem submetidos a teste em trabalho rotineiro de polícia, seriam classificados como robôs humanóides. Você se enganaria, mas por essa hora eles estariam mortos. — Calou-se e ficou à espera da reação de Rick.
— Mas esses indivíduos — disse Rick —, todos eles estariam...
— Estariam em instituições a eles reservadas — concordou Bryant. — Não poderiam concebivelmente funcionar no mundo externo. Não poderiam, certamente, passar despercebidos como psicóticos avançados... a menos, claro, que o colapso deles tivesse ocorrido recente e subitamente e ninguém houvesse notado. Mas isto poderia acontecer.
— A chance é de um em um milhão — disse Rick. Mas percebia o argumento.
— O que preocupava Dave — continuou Bryant — era o aparecimento do novo tipo avançado Nexus-6. A Rosen nos garantiu, como você sabe, que um Nexus-6 podia ser identificado por testes-padrão de perfil. Acreditamos na empresa. Agora somos forçados, como sabíamos que seríamos, a determinar isto por nossa própria conta. Isto é o que você vai fazer em Seattle. Você compreende, espero, que o tiro pode sair pela culatra. Se você não puder identificar todos os robôs humanóides, então não teremos nenhum instrumento analítico de confiança e jamais descobriremos os que já estão escapando. Se sua escala aponta um sujeito humano e identifica-o como um andróide... — Bryan sorriu-lhe friamente. — Seria embaraçoso, embora ninguém, absolutamente ninguém da Rosen, viesse a público divulgar esse fato. Na verdade, poderemos ocultar o fato indefinidamente, embora, claro, tenhamos que informar ao W.P.O. que, por seu turno, notificará Leningrado. No fim, a coisa estourará e ficaremos em maus lençóis. Mas, por essa altura, poderemos ter desenvolvida uma escala melhor. — Apanhou o telefone. — Quer começar? Use um carro do departamento e abasteça em nossas bombas.

Levantando-se, Rick perguntou:
— Posso levar comigo as notas de Dave Holden? Gostaria de estudá-las durante a viagem.
— Vamos esperar até que você experimente suas escalas em Seattle — respondeu Bryant. Falou em um tom de voz curiosamente impiedoso e este foi um fato que Rick Deckard não deixou de notar.

Ao pousar o hovercar do Departamento de Polícia no telhado da Rosen Association Building em Seattle, encontrou uma jovem à sua espera. Cabelos pretos, esguia, usando os novos e imensos óculos de filtragem de poeira, ela se aproximou do carro, as mãos profundamente enterradas nos bolsos de seu casaco listrado de cor viva. No rosto pequeno, de traços bem definidos, uma expressão de mal-humorada antipatia.
— Qual é o problema? — perguntou Rick, descendo do carro.   
Indiretamente, a moça respondeu:
— Oh, não sei. Alguma coisa a ver com a maneira como nos falam ao telefone. Não tem importância. — Bruscamente, estendeu-lhe a mão, que ele, pensativo, aceitou. — Eu sou Rachael Rosen. Sr. Deckard, suponho!
— Isto não foi idéia minha — disse ele. — Eu sei; o Inspetor Bryant nos disse isso. Mas, oficialmente, o senhor é o Departamento de Polícia de São Francisco, que não acredita que nossa unidade exista para benefício público. — Olhou-o por baixo de longos cílios pretos, provavelmente artificiais.
— Um robô humanóide é semelhante a qualquer outra máquina que, com grande rapidez, pode variar entre ser um benefício e um grande perigo. Como benefício, não é problema nosso — retrucou Rick.
— Mas como um perigo — disse Rachael Rosen — o senhor aparece. É verdade, Sr. Deckard, que o senhor é um caçador de cabeças a prêmio?
Rick encolheu relutante os ombros e inclinou a cabeça.
— O senhor não tem dificuldade em considerar um andróide como uma coisa inerte — observou a moça. — Assim, pode "aposentá-lo", como dizem por aí.
— Já selecionou o grupo para mim? — perguntou ele. — Eu gostaria de... — Interrompeu-se. Porque, de repente, vira os animais da companhia.

Uma empresa poderosa, compreendia bem, teria recursos, claro, para possuir aquilo. Bem no fundo da mente, evidentemente, antevira uma coleção como essa. Não era surpresa o que sentia, mas algo mais parecido com um anelo. Em silêncio, afastou-se da moça em direção à jaula mais próxima. Já lhes sentia o cheiro, os vários odores das criaturas, de pé, sentadas, ou, no caso do que pareceu ser um quati, adormecidas.

Nunca em toda sua vida vira ele antes um quati. Conhecia o animal apenas de filmes em três dimensões da TV. Por alguma razão, a poeira atacara aquela espécie com quase o mesmo rigor que as aves — das quais quase nenhuma sobrevivia. Numa reação automática, tirou do bolso seu muito consultado Sidney's e olhou quati, com todas as sublistagens. Os últimos preços, claro, constavam em itálicos: como os cavalos Percheron. nenhum existia à venda no mercado, por qualquer preço. O catálogo da Sidney's simplesmente mencionava o preço ao qual fora feita a última transação envolvendo um quati. Era astronômico.
— O nome dele é Bill — disse a moça, às suas costas. — Bill, o quati. Nós o compramos apenas no ano passado, a uma de nossas subsidiárias. — Apontou para alguma coisa atrás das costas dele e Rick notou, nesse momento, os guardas armados da companhia, suas metralhadoras em posição, o pequeno e leve modelo de fogo rápido da Skoda. Os olhos dos guardas estavam fixados nele desde que seu carro pousara. E, pensou ele, meu carro está claramente marcado como veículo da polícia.
— Um grande fabricante de andróides — disse ele pensativo — investe seu capital excedente em animais vivos.
— Olhe para a coruja — disse Rachael Rosen. — Espere, vou acordá-la para você. — Olhou para uma pequena e distante gaiola, no centro da qual erguia-se uma árvore morta, esgalhada.
Não há mais corujas, começou ele a dizer. Ou, pelo menos, lhe haviam dito isso. A Sidney's, pensou, lista-as no catálogo como extintas: o pequenino e nítido caráter tipográfico, o E, que repetidamente aparece também em todo o livro. Enquanto a moça andava à sua frente, procurou certificar-se, e tinha razão. A Sidney's jamais comete um erro, disse a si mesmo, Sabemos disso, também. Do que mais podemos depender?
— É artificial — disse ele, compreendendo, de súbito, o desapontamento subindo nele, agudo e intenso.
— Não — disse ela, e sorriu, e ele viu que ela possuía pequenos dentes regulares, tão brancos como seus olhos e cabelos eram pretos.
— Mas o catálogo da Sidney's... — disse ele, procurando mostrar-lhe o livreto. Para provar o que dizia. — Nós não a compramos da Sidney's nem de qualquer outro negociante de animais — disse a moça. — Todas as nossas compras são feitas de particulares e não divulgamos os preços que pagamos. — E acrescentou: — Além disso, temos também nossos próprios naturalistas. No momento, eles estão trabalhando no Canadá. De qualquer modo, há ainda um bocado de florestas, comparativamente falando. O suficiente para pequenos animais e, uma vez por outra, uma ave.

Durante longo tempo, ele ficou olhando para a coruja, dormitando em seu poleiro. Milhares de pensamentos ocorreram-lhe, pensamentos sobre a guerra, sobre os dias em que corujas haviam caído do céu: lembrou-se que, na sua infância, fora descoberto que espécie após espécie se tornaram extintas e que os noticiários anunciavam esse fato todos os dias — raposas numa manhã, texugos na outra, até que as pessoas deixaram de ler os eternos necrológios nos jornais televisados.

Pensou, também, em sua necessidade de um animal real. No seu peito, um ódio concreto, mais uma vez, se manifestou contra a ovelha elétrica, da qual era obrigado a tratar, a gostar, como se fosse viva. A tirania exercida por um objeto, pensou. Ele não sabe que eu existo. Como os andróides, faltava-lhe a capacidade de compreender a existência de outro ser. Nunca pensara nisto antes, na semelhança entre um animal elétrico e um andróide. O animal elétrico, pensou, podia ser considerado uma subforma do outro, uma espécie de robô infinitamente inferior. Ou, reciprocamente, podia-se considerar o andróide como uma versão altamente desenvolvida, evoluída, de um sucedâneo de animal. Ambas as idéias repeliam-no.

— Se você fosse vender sua coruja — disse à moça, Rachael Rosen —, quanto pediria por ela, e quanto de entrada?
— Nós nunca venderíamos nossa coruja. — Olhou-o, atenta, com uma mistura de prazer e pena, ou foi assim que ele interpretou sua expressão. — E mesmo que vendêssemos, você possivelmente não poderia pagar o preço. Que tipo de animal você tem em casa?
— Uma ovelha — respondeu. — Uma ovelha Suffolk de focinho preto.
— Bem, neste caso, você deve sentir-se feliz.
— Eu sou feliz — respondeu. — Acontece, simplesmente, que eu sempre quis uma coruja, mesmo antes que elas morressem todas. — Mas se corrigiu logo: — Todas, menos a sua.
— Nosso atual programa financeiro e de planejamento global — explicou Rachael — exige que obtenhamos outra coruja, que possamos acasalar com Scrappy. — Indicou a coruja, dormitando no galho. Ela abrira por momentos ambos os olhos, frestas amarelas que se fecharam quando voltou a cochilar. Seu peito subiu e caiu perceptivelmente, como se a coruja, em seu estado hipnagógico, houvesse suspirado.
Desligando-se daquela vista — que fazia com que sua amargura total se misturasse com sua reação anterior de respeito e anelo — ele disse:
— Eu gostaria agora de submeter a teste o grupo escolhido. Podemos descer?
— Meu tio recebeu o telefonema de seu superior e provavelmente já ...
— Vocês são uma família? — perguntou brusco Rick, — Uma empresa deste tamanho é um negócio familiar?
Continuando sua frase, disse Rachael:
— Tio Eldon já organizou para você um grupo de andróides e um grupo de controle. Assim, vamos. — Dirigiu-se para o elevador, as mãos mais uma vez enterradas com força nos bolsos. Não olhou para trás. Ele hesitou durante um momento, sentindo-se aborrecido, antes de, finalmente, segui-la. — O que é que tem contra mim? — perguntou a ela, enquanto desciam juntos.
Ela pensou por um instante, como se até aquele momento não o soubesse.
— Bem — disse — você, um pequeno empregado de um departamento de polícia, está numa situação excepcional. Entende o que estou querendo dizer? — Lançou-lhe um olhar de relance, cheio de malícia.
— Quanto da produção corrente da empresa — perguntou ele — consiste de tipos equipados com o Nexus-6?
— Toda — respondeu Rachael.
— Tenho certeza de que a Escala Voigt-Kampff funcionará com eles.
— E se não funcionar, teremos de retirar do mercado todos os tipos Nexus-6. — Seus olhos pretos flamejaram. Olhou-o zangada quando o elevador parou e as portas deslizaram para os lados. — Porque seus departamentos de polícia não podem fazer um trabalho competente na questão simples de detectar um minúsculo número de Nexus-6 que contraria...

Um homem elegante, magro e idoso aproximou-se deles, mão estendida, na sua face uma expressão preocupada como se, de repente, as coisas começassem a acontecer depressa demais.
— Eu sou Eldon Rosen — explicou a Rick, enquanto trocavam um aperto de mãos. — Escute aqui, Deckard, você compreende bem que não fabricamos coisa alguma aqui na Terra, certo? Simplesmente, telefonamos para produção e pedimos uma partida de vários itens. Não é que não queiramos ou não tencionemos cooperar com vocês. De qualquer modo, fiz o melhor que podia. — A mão esquerda, trêmula, correu pelos cabelos que rareavam.

Indicando a pasta de seu departamento, disse Rick:
— Estou pronto para começar. — O nervosismo do Rosen mais idoso aumentou-lhe a própria confiança. Eles estão com medo de mim, compreendeu com um sobressalto. Rachael Rosen, também. Provavelmente, posso obrigá-los a interromper a fabricação dos seus tipos Nexus-6. O que eu fizer na próxima hora afetará a estrutura de operação da empresa. Seus atos, concebivelmente, determinariam o futuro da Rosen Association, ali nos Estados Unidos, na Rússia e em Marte.

Apreensivos, os dois membros da família Rosen estudaram-no e Rick sentiu a vacuidade dos modos deles. Ao vir até ali, ele lhes trouxera o vazio, instalara o nada e o silêncio da morte econômica. Eles controlam um poder desproposital, pensou. Esta empresa é considerada um dos pivôs industriais do sistema; a fabricação de andróides, na verdade, se ligara tanto ao trabalho de colonização que se uma entrasse em colapso a outra a seguiria no devido tempo. A Rosen Association, claro, entendia isto perfeitamente. Eldon Rosen, claro, tivera consciência deste fato desde que recebera o telefonema de Harry Bryant.
— Eu não me preocuparia, se fosse vocês — disse Rick, enquanto seguia os Rosens por um largo corredor feericamente iluminado. Sentia-se tranqüilamente contente. Este momento, mais do que qualquer outro de que podia lembrar-se, aguardava-o. Bem, em pouco tempo, eles saberiam o que seu aparelho de testes poderia fazer — e não fazer. — Se vocês não têm confiança na Escala Voigt-Kampff — observou —. possivelmente a empresa deveria ter pesquisado um teste alternativo. Pode-se argumentar que a responsabilidade cabe, parcialmente, aos senhores. Oh, obrigado. — Os Rosens haviam-no levado do corredor para um cubículo elegante, parecendo uma sala de estar, mobiliado com carpetes, abajures e modernas mesinhas de canto, nas quais havia exemplares de revistas recentes incluindo, notou, o suplemento de fevereiro do catálogo da Sidney's, que ele pessoalmente não vira ainda.

Na verdade, o suplemento de fevereiro só sairia dentro de uns três dias. Obviamente, a Rosen Association mantinha um relacionamento especial com a Sidney's.
Aborrecido, apanhou o suplemento.
— Isto é uma violação de um serviço público. Ninguém deve receber informações antecipadas de mudanças de preço. Na verdade, isto podia constituir violação de uma lei federal. — Tentou lembrar qual lei, mas não conseguiu.
— Vou levar isto comigo — disse e, abrindo a pasta, guardou o suplemento.
Após um intervalo de silêncio, Eldon Rosen disse cansadamente:
— Escute, senhor, não tem sido política nossa obter notícia antecipada...
— Eu não sou um policial comum — retrucou Rick.
— Sou um caçador de cabeças a prêmio. — Da pasta aberta tirou rapidamente o aparelho Voigt-Kampff, sentou-se a uma mesinha de café próxima e começou a montar as peças bem simples do polígrafo. — Pode mandar entrar agora os primeiros sujeitos de teste — informou a Eldon Rosen, que nesse momento parecia abatido.
— Eu gostaria de assistir — disse Rachael, sentando-se também. — Nunca vi antes um teste de empatia ser administrado. O que é que medem essas coisas que você tem aí?
— Isto — explicou Rick, mostrando um disco adesivo chato, do qual pendiam fios — mede a dilatação capilar na área facial. Sabemos que isto é uma reação primária autônoma, a chamada reação de "vergonha" ou "enrubescimento" a um estímulo moralmente chocante. Não pode ser controlada voluntariamente, como acontece no caso da condutividade da pele, respiração e taxa de batimentos cardíacos. — Mostrou-lhe o outro instrumento, um lápis-caneta. — Isto registra flutuações de tensão nos músculos oculares. Simultâneo com o fenômeno do enrubescimento, geralmente pode ser descoberto com um pequeno mas discernível movimento do ...
— E eles não podem ser encontrados em andróides — disse Rachael.
— Eles não são afetados pelas perguntas-estímulos, não. Embora, biologicamente, existam. Potencialmente.
— Aplique o teste em mim — pediu Rachael.
— Por quê? — indagou perplexo Rick.
Erguendo a voz, disse rouco Eldon Rosen:
— Nós a selecionamos como seu primeiro sujeito de teste, Ela pode ser um andróide. Temos esperança de que você possa saber. — Sentou-se numa série de movimentos desajeitados, tirou um cigarro do bolso, acendeu-o e ficou observando-os fixamente. 


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