quinta-feira, 17 de junho de 2010

Os Invasores de Corpos - Jack Finney



A casa de Jack é verde, assentada na encosta de uma colina. A garagem é parte do porão. A garagem estava vazia, a porta aberta. Jack fez-me sinal para que entrasse.

Saímos do carro e Jack acendeu a luz e fechou a porta da garagem.
Depois, abriu uma porta que dava para o porão propriamente dito, fazendo um gesto para que passássemos na sua frente.

Entramos num porão comum: uma antiquada tina de lavar roupa, uma moderna máquina de lavar roupa, um cavalete de madeira, jornais empilhados, algumas caixas de papelão e diversas latas de tinta usadas encostadas numa parede. Jack passou por nós, atravessando o portão até outra porta. Parou ali, virando-se para nós, com a mão na maçaneta. Eu sabia que Jack tinha lá dentro uma boa mesa de bilhar, comprada em segunda mão. Ele me contara que a usava constantemente, jogando sozinho, enquanto imaginava o que iria posteriormente escrever. Olhando para Becky e depois para a esposa, ele murmurou:
— Fiquem calmas.

Em seguida, Jack entrou naquela outra sala do porão e puxou o cordão que acendia a lâmpada pendurada do teto. Fomos atrás.

A luz sobre uma mesa de bilhar é projetada para iluminar intensamente a superfície verde de feltro. Fica suspensa bem baixa, a fim de não incidir nos olhos dos jogadores, deixando o teto na escuridão. Aquela possuía um anteparo retangular para confinar a luz somente à superfície da mesa, deixando o resto da sala na semi-escuridão. Eu não podia ver direito o rosto de Becky, mas a ouvi suspirar bruscamente. Estendido sobre o feltro verde da mesa, sob a luz forte de uma lâmpada de 150 watts, coberto com o encerado que Jack mantinha ali como proteção, estava o que era inegavelmente um corpo.
Virei-me para Jack, que me disse:
— Pode puxar o encerado.

Eu estava irritado. Aquela situação me preocupava e assustava, havia mistério demais para me agradar. Ocorreu-me que o escritor que havia em Jack estava forçando exageradamente o comportamento dramático. Peguei uma ponta do encerado e puxei-o para um canto da mesa.

Estendido no feltro verde, de costas, encontrava-se o corpo nu de um homem. Devia ter em torno de l,75m de altura, mas não posso afirmar com certeza. Não é fácil calcular a altura de um corpo deitado. Era branco, a pele muito pálida sob a luz forte. Parecia, ao mesmo tempo, irreal e teatral, contudo era terrivelmente real.

O corpo era esguio, talvez com 65 quilos, mas visivelmente bem nutrido e musculoso. Não dava para definir a idade, exceto que não era velho. Os olhos estavam abertos, fitando diretamente a luz, de um jeito que faria com que os olhos de qualquer outra pessoa parecessem inteligentes. Eram azuis e límpidos. O corpo não tinha qualquer ferimento visível nem alguma outra causa de morte evidente.
Fui postar-me ao lado de Becky, passei o braço pelo dela e virei-me para Jack.

— E então?
Ele meneou a cabeça, recusando-se a fazer qualquer comentário.
— Continue a olhar. Examine o corpo. Não está notando nada estranho? — indagou ele.

Voltei-me novamente para o corpo sobre a mesa. Estava ficando cada vez mais irritado. A situação não me agradava. Havia mesmo algo de estranho naquele homem morto estendido sobre a mesa, mas eu não sabia explicar o quê. E isso só contribuía para me deixar ainda mais furioso.

— Ora, Jack, não estou vendo mais nada além de um cadáver. Vamos acabar com o mistério. Qual é o problema?

Ele tornou a menear a cabeça, franzindo o rosto, numa expressão suplicante.
— Não fique nervoso, Miles. Por favor. Não lhe quero dizer a minha impressão do que está errado, para não influenciá-lo. Se realmente existe, quero que o descubra pessoalmente. E se não existe coisa alguma, se estou apenas imaginando coisas, também quero saber. Atenda a meu pedido, Miles. Dê uma boa olhada nessa coisa.

Examinei o cadáver, contornando lentamente a mesa, parando a fim de olhar de diversos ângulos. Jack, Becky e Theodora se afastavam do meu caminho, enquanto eu me deslocava em torno da mesa. Pouco depois, relutantemente, pedindo desculpas a Jack no tom de voz, murmurei:
— Tem razão, Jack. Há mesmo algo estranho nesse corpo. Não está imaginando coisas. Ou se está, o mesmo acontece comigo.

Talvez por mais meio minuto fiquei olhando para o que estava em cima da mesa, em silêncio, antes de finalmente voltar a falar:

- Por um lado, não é com freqüência que se encontra um corpo assim, vivo ou morto. De certa forma, faz-me lembrar de uns poucos pacientes tuberculosos que já examinei... os que passaram quase toda a vida em sanatórios. — Virei-me e olhei para os três. — Não se pode levar uma vida comum sem se ficar com umas poucas cicatrizes, alguns cortes, aqui e ali. Mas esses pacientes que vivem em sanatórios não têm oportunidade de arrumar cicatrizes, pois seus corpos praticamente não são usados. E é exatamente assim que esse corpo parece... — Acenei com a cabeça para o corpo pálido e imóvel sob a luz forte. — Mas não se trata de um tuberculoso. É um corpo saudável, bem formado. Aqueles músculos são vigorosos. Mas ele nunca jogou futebol ou hóquei, jamais caiu de uma escada, nunca quebrou um osso. Parece. .. um corpo que não foi usado. Foi essa também a impressão que teve?

- Foi, sim — concordou Jack. — E que mais?
- Você está bem, Becky? — Olhei para ela, por sobre a mesa.
- Estou, sim — assentiu Becky, mordendo o lábio inferior.
- O rosto... — murmurei, respondendo a Jack. Fiquei contemplando o rosto, branco como cera, sereno, absolutamente imóvel, os olhos azuis virados para cima. — Não é... exatamente imaturo. — Eu não sabia direito como explicar. — Os ossos são sólidos, é um rosto adulto. Mas parece... — fiz outra pausa, procurando a palavra certa, sem conseguir encontrar — ... vago. Parece...

Jack interrompeu-me, a voz tensa e ansiosa. Na verdade, ele estava até sorrindo, ligeiramente.
- Já viu alguma vez como se fazem medalhas?
- Medalhas?
- Isso mesmo. Medalhas de categoria. Medalhões.
- Não.

Jack começou a explicar, sem que eu pudesse compreender par quê:
- Para se fazer um trabalho realmente bom, em metal duro, é preciso fazer duas gravações. Primeiro, eles pegam um molde e fazem a gravação número um, dando ao metal o formato inicial, ainda tosco. Depois, fazem a gravação com o molde número dois. É esse segundo molde que grava os detalhes, as linhas suaves e os contornos delicados que se encontram num medalhão de categoria. Eles são obrigados a fazer isso porque o segundo molde, o que contém os detalhes, não poderia deixar qualquer marca no metal liso. É necessário gravar o formato tosco inicial, com o molde número um. — Jack parou de falar, olhando de

Becky para mim, a fim de verificar se estávamos acompanhando sua explicação.
- E daí? — indaguei, impacientemente.
- Geralmente, um medalhão mostra um rosto. E quando se o contempla, depois da primeira gravação, o rosto ainda não está acabado. Está tudo lá, é verdade, mas não se encontram os detalhes que proporcionam a individualidade. — Jack fez nova pausa, olhando para mim. — Miles, é assim que esse rosto parece. Está tudo aí. Possui lábios, nariz, olhos, pele, uma estrutura óssea por baixo. Mas não há linhas, não há detalhes, não há individualidade. É informe! Olhe só! — A voz dele se alteou, estridentemente. — É como um rosto vazio, esperando que os detalhes finais sejam gravados!

Jack tinha razão. Nunca antes, em toda a minha vida, eu vira um rosto assim. Não era um rosto débil, sem força, com toda certeza. Mas era de certa forma indefinido, sem personalidade. Não era realmente um rosto; ainda não. Não havia qualquer vida nele, não estava marcado pela experiência. Creio que essa é a única maneira pela qual posso explicar. Finalmente perguntei:

- Quem é ele?
- Não sei. — Jack foi até a porta e acenou com a cabeça para a outra parte do porão e a escada que levava lá para cima. — Há um pequeno espaço por baixo da escada, fechado com madeira compensada para proporcionar uma espécie de depósito. Está cheio de coisas velhas, como roupas em caixas de papelão, aparelhos elétricos sem funcionar, um velho aspirador de pó, um ferro de passar, alguns abajures, coisas assim. E há também alguns livros velhos. Foi ali que o encontrei. Estava procurando uma referência que precisava e pensei que poderia estar num daqueles livros. Ele estava estendido lá, por cima das caixas de papelão, exatamente como o está vendo agora. Fiquei apavorado. Saí correndo como um gato num canil, acabei ficando com um galo na cabeça... Depois, voltei e tirei-o de lá. Pensei que ainda poderia estar vivo. Miles, quanto tempo demora para haver o rigor mortis?
- De oito a dez horas.
- Pois pegue nele. — De certa forma, Jack estava apreciando a situação, como um homem que fez uma promessa e a está cumprindo.

Peguei, pelo pulso, um braço do corpo em cima da mesa. Achava-se relaxado e flexível. Nem mesmo estava pegajoso ou particularmente frio.
- Não há rigor mortis — disse Jack. — Certo?
- Certo. Mas o rigor mortis não é invariável. Há determinadas condições... — Parei de falar no meio da frase. Não sabia que conclusões tirar naquele caso.
- Se quiser, Miles, pode virá-lo. Mas também não vai encontrar quaisquer marcas de ferimentos nas costas. Nem no couro cabeludo. Não há o menor sinal do que o matou.

Hesitei por um instante. Mas, legalmente, não podia tocar naquele corpo. Peguei o encerado e puxei-o por cima do corpo cobrindo-o pela metade.
- Muito bem, Jack, e agora? Vamos subir?
- Vamos. — Jack acenou com a cabeça na direção da porta e continuou onde estava com a mão no cordão da luz, até que todos tivessem saído.

Lá em cima, na sala de estar, Theodora polidamente convidou-nos a sentar e circulou acendendo abajures e providenciando cinzeiros. Depois, foi para a cozinha e voltou sem o avental. Sentou-se numa poltrona. Becky e eu estávamos no sofá, enquanto Jack sentava junto à janela, numa cadeira de balanço de madeira, contemplando a cidade. Quase toda a parede da frente da sala é constituída por uma única placa de vidro.

Pode-se ver todas as luzes da cidade, espalhadas pelas colinas. É uma sala das mais agradáveis.
— Querem um drinque ou alguma outra coisa? — indagou Jack.
Becky sacudiu a cabeça e eu disse:
— Não, obrigado. Mas podem tomar, se quiserem.
Jack disse que não estava com vontade e olhou para a esposa, que também sacudiu a cabeça. Depois, ele começou a falar:
— Nós o procuramos, Miles, porque é médico, mas também porque é um cara que pode enfrentar os fatos.

Mesmo quando eles não são o que devem ser. Não é um homem de se empenhar a fundo para transformar o preto em branco, só porque isso lhe parece mais conveniente. Para você, as coisas são o que são, como já tivemos oportunidade de constatar. Dei de ombros, sem dizer nada.
— Tem mais alguma coisa a dizer a respeito do corpo lá embaixo? — perguntou Jack.
Fiquei calado por um momento, mexendo num botão do casaco, depois tomei a decisão de dizer o que estava pensando.
— Tenho, sim. Sei que não faz sentido, não faz absoluta¬ mente o menor sentido, mas eu gostaria de efetuar uma autópsia naquele corpo. Querem saber o que acho que descobriria? — Corri os olhos pela sala, fixando-os em Jack, Theodora e depois em Becky. Nenhum deles respondeu. Continuaram sentados onde estavam, esperando. — Tenho a impressão de que não encontraria nenhuma causa para a morte. Acho que descobriria que todos os órgãos se encontram em perfeitas condições, assim como o corpo está externamente. Tudo em perfeitas condições de funcionamento, pronto para fazê-lo.

Deixei-os pensar a respeito por um momento, depois acrescentei algo mais. Sentia-me extremamente tolo ao dizê-lo, mas também absolutamente convencido de que estava certo:
- E isso não é tudo. Acho que, ao abrir o estômago, não encontraria coisa alguma lá dentro. Nem uma migalha, nenhuma partícula de alimento, digerida ou não. Nada, absolutamente nada. Tão vazio quando o estômago de um recém-nascido. E se abrisse os intestinos, a mesma coisa aconteceria. Não encontraria absolutamente nada. Por quê? — Fiz uma pausa, novamente correndo os olhos ao redor. — Porque não acredito que aquele corpo lá embaixo tenha morrido. E nunca morreu porque jamais esteve vivo.

Dei de ombros e recostei-me no sofá. — É isso o que penso. Pode conceber uma coisa dessas, Jack?
- Posso, sim — falou Jack lentamente, e maneando a cabeça para aumentar a ênfase, enquanto as mulheres nos observavam em silêncio. — Desde o início que achei a coisa totalmente absurda. Queria apenas que outra pessoa confirmasse.
— Becky... — Virei-me para fitá-la. — O que acha?

Ela sacudiu a cabeça, franzindo o rosto, depois suspirou.
— Estou... atordoada. Mas começo a achar que, no final das contas, bem que estou precisando daquele drinque.

Todos sorrimos, e Jack começou a se levantar. Mas Theodora interrompeu-o, levantando-se e dizendo:
— Pode deixar que eu providencio. Todo mundo vai querer?
Todos assentimos. Ficamos sentados, esperando, mudando de posição nervosamente e olhando pela janela, até que Theodora voltou e distribuiu os drinques. Depois que todos tomaram um gole, Jack comentou:
- Penso exatamente como você, Miles. E o mesmo acontece com Theodora. E devo dizer que não falei nada a ela sobre minhas impressões. Deixei-a olhar a coisa e tirar suas próprias conclusões, exatamente como fiz com você. Foi ela quem fez a comparação com os medalhões. Certa ocasião, em Washington, vimos como se fazem medalhões. — Jack suspirou, sacudindo a cabeça. — Conversamos e pensamos a respeito durante o dia inteiro, Miles. Só depois é que decidimos chamá-lo.
- Falou com mais alguém?
- Não.
- Por que não chamou a polícia?
- Não sei. — Jack fitou-me, um pequeno sorriso contraindo os cantos dos lábios. — Não quer chamar?
- Não.
- Por que não?
- Não sei — respondi, também sorrindo. — Mas não quero.
- Sinto-me do mesmo jeito.

Jack meneou a cabeça em concordância e depois todos ficamos em silêncio por um longo tempo, tomando os drinques, Jack sacudiu o gelo no copo, lentamente, contemplando-o, e depois murmurou:

- Tenho o pressentimento de que esta é uma ocasião para se fazer algo mais do que apenas chamar a polícia. Não é o momento de passar a bola adiante e deixar que os outros se preocupem. O que exatamente a polícia poderia fazer? Não se trata de um mero cadáver e sabemos disso. É... — deu de ombros, uma expressão sombria no rosto — ... algo terrível. Algo... Não sei direito o quê. — Tirou os olhos do copo, fitando-nos. — Sei apenas... mais do que isso, de alguma forma tenho certeza absoluta de que não devemos cometer um erro neste caso. De que há alguma coisa... a coisa sensata, a coisa correta, a única coisa possível, para se fazer. Se não a fizermos, se não descobrirmos o que é, algo terrível vai acontecer.

- Fazer o que, por exemplo? — perguntei.
- Não sei. — Jack virou a cabeça e ficou olhando pela janela por um momento. Depois, voltou a fitar-nos, com um sorriso. — Tenho um impulso terrível de... ligar diretamente para o Presidente na Casa Branca ou para o comandante do Exército, FBI, Fuzileiros, Cavalaria, qualquer coisa assim. — Meneou a cabeça, sorrindo, achando graça de si mesmo.

No instante seguinte, o sorriso se desvaneceu. — Miles, o que estou querendo dizer é que quero que alguém, exatamente a pessoa certa, quem quer que seja, compreenda desde o início como este caso é importante. E quero que essa pessoa... ou até pessoas... faça exatamente o que deve ser feito, sem cometer qualquer erro. E o problema maior é que a pessoa com quem eu entrar em contato, mesmo que me escute e acredite, pode ser exatamente a pessoa errada, alguém que irá fazer exatamente a pior coisa possível. O que quer que possa ser. Mas, de qualquer forma, sei que não se trata de um caso para a polícia. É... — Jack deu de ombros, percebendo que se estava repetindo. Achou melhor parar de falar.

— Sei de tudo isso, Jack — declarei. — Tenho o mesmo pressentimento... de que o mundo deve torcer para que saibamos cuidar direito do caso.
Na Medicina, há ocasiões em que a solução ou uma pista para um caso desconcertante surge abruptamente do nada. Creio que é a mente subconsciente em ação.
- Jack, qual é a sua altura? — indaguei.
- Tenho um metro e setenta e cinco.
- Exatamente?
- Exatamente. Por quê?
- Em sua opinião, qual é a altura do corpo lá embaixo? Ele me olhou, aturdido, por um momento, antes de responder:
- Um metro e setenta e cinco.
- E qual é o seu peso?
- Tenho sessenta e cinco quilos. O que deve pesar também o corpo lá embaixo. Creio que acertou em cheio, Miles. É o meu tamanho, o mesmo, a mesma compleição. Mas não se parece especialmente comigo.
- Nem com qualquer outra pessoa. Tem uma almofada de tinta em casa?
- Temos? — indagou Jack, virando-se para a esposa.
- Uma o quê?
- Uma almofada de tinta. Do tipo que se costuma usar para carimbos de borracha.
- Temos, sim. — Theodora levantou e atravessou a sala, até uma escrivaninha. — Há uma aqui, em algum lugar.

Depois de uma rápida busca, a mulher encontrou-a. Jack caminhou até lá, pegou a almofada de tinta, abriu outra gaveta e tirou uma folha de papel timbrado.

Fui também até a escrivaninha, com Becky atrás de mim. Jack passou tinta nas pontas dos dedos da mão direita, estendendo-a em seguida para mim. Peguei a mão e comprimi os dedos sobre o papel, um de cada vez, rolando cuidadosamente. Obtive assim um conjunto de impressões digitais bastante nítidas. Depois, peguei a almofada de tinta e o papel e disse para as mulheres, acenando com a cabeça na direção da porta:
— Querem descer também?
Elas se entreolharam. Não queriam voltar àquela mesa de bilhar, mas também não queriam ficar sozinhas lá em cima, esperando. Becky finalmente disse:
— Não quero, mas vou descer.
Theodora fez um gesto de concordância.

Lá embaixo, Jack acendeu a luz sobre a mesa de bilhar. Estava balançando um pouco e levei a mão à antepara, para firmar. Mas meus dedos tremeram e só serviu para aumentar o balanço. A antepara continuou a mover-se num pequeno arco, a luz se derramando pela borda da mesa, voltando para os olhos abertos do corpo, deixando a testa lisa na semi-escuridão por um instante. Dava a impressão de que o corpo estava-se movendo ligeiramente. Peguei o pulso direito, concentrando-me no trabalho, sem olhar para o rosto.

Passei tinta na extremidade dos cinco dedos, depois coloquei a folha de papel com as impressões digitais de Jack em cima da mesa, ao lado da mão direita do corpo. Levantei-a, pousando-a sobre o papel branco. Rolando cada dedo, tirei uma impressão de todos, diretamente abaixo das impressões de Jack. Depois, tirei a mão de cima do papel.

Becky soltou um gemido angustiado, quando vimos as impressões. Todos estávamos profundamente abalados. Porque uma coisa é especular sobre um corpo que nunca esteve vivo, mas outra muito diferente, algo que afeta o que possa haver de primitivo no fundo do nosso cérebro, é ver confirmada a especulação. Não havia impressões digitais, apenas cinco círculos solidamente pretos, absolutamente lisos. Removi a tinta dos dedos da melhor forma possível, e todos nos inclinamos, agrupados num semicírculo, sob a luz a balançar. Os dedos eram lisos como a face de um bebê. Theodora murmurou:

— Jack, acho que vou vomitar...
O marido virou-se para ampará-la, pois Theodora estava inclinada inteiramente para a frente, ajudando-a a subir a escada.

Sentados novamente na sala de estar, sacudi a cabeça e disse para Jack:
— Você encontrou a maneira apropriada de descrever. É um corpo vazio, em branco, inacabado, ainda esperando pelas impressões finais.
- O que vamos fazer? — indagou Jack. — Tem alguma idéia?
- Tenho, sim... — Fitei-o em silêncio por um momento. — Mas é apenas uma sugestão. E se não quiser aceitar, ninguém poderá culpá-lo. Muito menos eu.
- Qual é a sugestão?
- Não se esqueça de que é apenas uma sugestão. — Inclinei-me para a frente no sofá, os antebraços apoiados nos joelhos, e virei-me para Theodora. — E devo avisá-la de que, se acha que não vai conseguir, é melhor nem tentar. — Fiz uma pausa, olhando novamente para Jack, antes de acrescentar: — Deixe o corpo onde está, lá embaixo, na mesa. Esta noite você irá dormir. Darei alguma coisa para que possa dormir. —

Virei-me outra vez para Theodora. — Mas você deve ficar acordada. Não durma por um instante sequer. De hora em hora, se for capaz, quero que desça e dê uma olhada naquele... corpo. Se tiver qualquer impressão de uma mudança, suba correndo e acorde Jack imediatamente. Tire-o da casa... os dois saiam daqui sem demora. Podem ir para a minha casa.

Jack olhou para Theodora por um momento e depois disse, calmamente:
— Quero que diga não, se acha que não vai conseguir enfrentar isso.

A mulher mordeu nervosamente o lábio, olhando para o tapete. Depois, fitou-me primeiro e em seguida a Jack.
— Como poderia ser essa mudança? Começaria a parecer o quê?

Ninguém respondeu. Depois de um momento, ela baixou os olhos novamente para o tapete, voltando a mastigar o lábio, sem repetir a pergunta.
- Jack despertaria sem qualquer dificuldade? — Theodora olhou para mim. — Eu poderia acordá-lo a qualquer momento?
- Claro que sim. Um tapa no rosto e ele acordaria imediatamente. Mas mesmo que nada aconteça, acorde-o se chegar à conclusão de que não consegue mais agüentar. Os dois podem ir para a minha casa a fim de passar o resto da noite, se quiserem.
Theodora assentiu, voltando a olhar para o tapete, até que finalmente murmurou:
- Acho que posso. — Levantou os olhos, fixando-os em Jack. — Contanto que possa acordá-lo a qualquer momento, acho que posso agüentar.
- Não podemos ficar com ela? — indagou Becky.
- Não sei — respondi, dando de ombros. — Mas acho que não. Creio que só as pessoas que moram aqui é que devem ficar na casa. Não tenho certeza se de outra forma poderá funcionar. E nem mesmo sei direito por que digo isso. É apenas uma impressão, um pressentimento. Mas acho que somente Jack e Theodora devem ficar na casa.

Jack acenou com a cabeça, em concordância. Depois de olhar para Theodora, a fim de confirmar a decisão dela, ele declarou:
— Vamos tentar.

Conversamos mais um pouco... isto é, não um pouco, mas bastante... contemplando as luzes da cidade no pequeno vale lá embaixo. Mas ninguém falou qualquer coisa que já não fora dita. Por volta da meia-noite, com a maioria das luzes da cidade lá embaixo já apagadas, Becky e eu nos levantamos para ir embora. Os Belicecs pegaram seus casacos e foram conosco, a fim de buscar o carro de Jack. Estava no estacionamento do Cinema I. Quando paramos ao lado do carro e eles saltaram, repeti para Theodora o que já dissera a respeito de despertar Jack e deixar a casa imediatamente, caso o corpo no porão começasse a se alterar, por qualquer forma. Peguei um Seconal em minha maleta e entreguei-o a Jack informando-o que bastaria um para que ele dormisse prontamente. Depois nos despedimos, Jack sorrindo ligeiramente, Theodora nem se dando ao trabalho de tentar. Ambos entraram no carro, acenaram e se afastaram.

Já em Mill Valley, avançando pelas ruas desertas, a caminho da casa de Becky, ela me disse baixinho:
— Não há uma relação, Miles? Entre este caso... e o caso de Wilma?

Fitei-a rápido, mas ela estava olhando fixamente para a frente, através do pára-brisa.
- Qual é sua opinião? Acha que há alguma relação?
- Há, sim. — Becky não olhou para mim em busca de confirmação, limitando-se a menear a cabeça como se tivesse certeza absoluta. Depois de um momento, acrescentou: — Tem havido outros casos como o de Wilma?
- Uns poucos.

Eu olhava para a rua asfaltada iluminada pelos faróis, mas também a observava, pelo canto do olho. Mas a moça não reagiu nem disse nada por quase um quarteirão. Depois, quando o carro entrou na rua dela e eu aproximei o carro do meio-fio e parei diante da casa, Becky disse, ainda olhando fixamente para a frente, pelo pára-brisa:

— Miles, pretendia contar-lhe uma coisa esta noite, depois do cinema. — Respirou fundo, antes de continuar. — Desde a manhã de ontem... — começou a falar lentamente, mantendo a voz calma, para depois aumentar o ritmo e acabar dizendo as últimas palavras numa explosão de pânico: — ... tenho a impressão ... de que meu pai não é absolutamente meu pai!

Lançando um olhar horrorizado para a varanda de sua casa, imersa em sombras, a luz apagada, Becky cobriu o rosto com as mãos e começou a chorar, desesperadamente.


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