sábado, 5 de junho de 2010

O Caçador de Andróides - Philip K. Dick (parte 10)



NO ENORME ventre de baleia de aço e pedra construído para formar a velha e duradoura Casa da Ópera, encontrou em andamento um ecoante, barulhento e ligeiramente mal organizado ensaio.

Ao entrar, reconheceu a música, A Flauta Mágica, de Mozart, o primeiro ato da cena final. Os escravos do mouro — em outras palavras, o coro — iniciaram a canção um compasso mais cedo, e isto anulara o ritmo simples dos sinos mágicos.

Que prazer! Adorava A Flauta Mágica.

Sentou-se numa das poltronas do balcão nobre (ninguém pareceu lhe notar a presença) e se pôs confortável. Naquele momento, Papageno, em sua fantasia de pelagem feita de penas de aves, cantava juntamente com Pamina, as palavras que sempre lhe enchiam de lágrimas os olhos, quando e se pensasse nelas.
Kõnnte jeder brave Mann solche Glõckchen finden, seine Feinde -würden dann ohne Milhe sobivinden.

Bem, pensou Rick, na vida real não existem esses sinos mágicos que façam com que o inimigo desapareça sem esforço algum. Que pena! Mozart, não muito depois de ter composto A Flauta Mágica, falecera — na casa dos trinta anos — de uma doença renal. E fora sepultado num túmulo anônimo de indigente.

Pensando nisto, perguntou-se se Mozart tivera alguma intuição de que o futuro não existia, que já esgotara seu pouco tempo. Talvez eu tenha, também, pensou Rick, observando o desenrolar do ensaio. Este ensaio terminará, a representação terminará, os cantores morrerão, finalmente a última partitura da música será destruída, de uma forma ou de outra. No fim, o nome "Mozart" desaparecerá e a poeira terá vencido. Se não neste planeta, então em outro. Podemos evitá-la durante algum tempo. Como os andros podem me evitar e existir por um período finito um pouco maior. Mas eu os pego ou algum outro caçador de cabeças. De uma certa maneira, deu-se conta, sou parte do processo de entropia que destrói formas. A Rosen Association faz e eu desfaço. Ou, de alguma maneira, é assim que deve parecer a ela.

No palco, Papageno e Pamina iniciavam um diálogo.
Interrompeu a introspecção para escutar.
Papageno: "Minha criança, o que devemos agora dizer?
Pamina: "A verdade. É isso o que diremos "

Inclinando-se para a frente a fim de observar, Rick estudou Pamina, vestida em seu pesado hábito, de sua touca descendo o véu que lhe emoldurava os ombros e a face. Reexaminou a folha de informações e, em seguida, recostou-se, satisfeito.
Acabo de ver minha terceira andróide Nexus-6, compreendeu. Essa aí é Luba Luft.

Um pouco estranho o sentimento que seu papel exige.
Por mais vital, ativa e bonitona que seja uma andróide fugida, ela dificilmente pode dizer a verdade. De qualquer modo, sobre si mesma.

No palco, Luba Luft continuava a cantar e ele ficou surpreso com a qualidade da voz: comparava-se com as melhores, mesmo com as das notáveis em sua coleção de fitas. A Rosen Association construíra-a bem, isto tinha que reconhecer. E, mais uma vez, viu-se subespécie aetemitatis, o destruidor de formas, chamado pelo que ali ouvia e via. Talvez, o quanto melhor ela represente, o melhor cante, mais necessário eu seja. Se os andróides houvessem permanecido subpadrão, como os antigos q-40s fabricados pela Derain Associates, não haveria problema nem necessidade de minha perícia. Gostaria de saber quando é que devo fazer isto, pensou. Tão logo quanto puder, provavelmente. Ao fim do ensaio, quando ela se dirigir para o camarim.

Ao fim do ato, o ensaio foi suspenso temporariamente. Seria reiniciado, disse o maestro em inglês, francês e alemão, dentro de hora e meia. Em seguida, foi embora. Os músicos deixaram seus instrumentos onde estavam e se afastaram também. Levantando-se, Rick dirigiu-se para os bastidores, para os camarins; seguiu o rabo da fila do elenco, sem pressa, pensando. Será melhor assim, acabar logo com a coisa. Passarei algum tempo conversando com ela, testando-a na forma do possível. Logo que eu tiver certeza — mas, tecnicamente, não poderia ser senão depois do teste. Talvez Dave tivesse tido um palpite errado a respeito dela, conjecturou. Mas duvidava disso. Já, instintivamente, seu senso profissional reagira, E não cometera um erro ainda... em todos os seus anos no departamento.

Detendo um figurante, perguntou-lhe onde ficava o camarim da Srta. Luba Luft.
O figurante, usando a maquilagem e o trajo de lanceiro egípcio, apontou.
Chegou à porta indicada, viu uma nota escrita pregada nela, dizendo:
SRTA. LUFT - PARTICULAR, e bateu.

— Entre.
Entrou. Viu a moça sentada à penteadeira, uma bem usada partitura encadernada em pano sobre os joelhos, fazendo anotações aqui e ali com uma caneta esferográfica. Usava ainda a fantasia e a maquilagem, menos a touca, que colocara num cabide.
— Sim? — disse ela, erguendo os olhos. A maquilagem para o palco alargava-lhe os olhos, enormes e amendoados, que se fixaram nele e não se desviaram. — Estou ocupada, como o senhor pode ver. — No seu inglês, um leve vestígio de sotaque.
— Para mim a senhora é melhor do que a Schwarzkopf — disse Rick.
— Quem é o senhor? — O tom dela mantinha fria reserva — e aquele outro frio que ele encontrara em tantos andróides. Sempre os mesmos: grande intelecto, capacidade de realizar muito, mas também isto. Era uma coisa que deplorava. Mas sem isso não podia localizá-los.
— Sou do Departamento de Polícia de São Francisco — respondeu.
— Oh? — Os imensos e sérios olhos não pestanejaram, não reagiram. — O que é que o senhor quer aqui? — O tom de voz dela, estranhamente, parecia gracioso.
Sentando-se numa cadeira próxima, ele abriu o fecho da pasta.
— Fui enviado aqui a fim de aplicar na senhora um teste-padrão de perfil de personalidade, o que não levará mais de dez minutos.
— Isto é necessário? — Com um gesto indicou a grande partitura encadernada em pano. — Tenho muita coisa a fazer.

Nesse momento, ela começara a parecer apreensiva,
— É necessário. — Tirou da pasta os instrumentos Voigt-Kampff e começou a montá-los.
— Um teste de quociente de inteligência?
— Não. De empatia.
— Tenho que colocar meus óculos — Estendeu a mão para abrir a gaveta da penteadeira.
— Se a senhora pode marcar a partitura sem óculos, também pode submeter-se a este teste. Vou-lhe mostrar alguns desenhos e fazer diversas perguntas. Enquanto isto...— levantou-se, aproximou-se dela e pregou-lhe no rosto profundamente pintado os discos sensitivos. — E esta luz — continuou, ajustando o ângulo do fino feixe — E isto é tudo.
— O senhor pensa que eu sou andróide? É isso? — Sua voz caíra quase até o ponto de extinção, — Eu não sou andróide. Nunca fui nem mesmo a Marte. Nem nunca vi um andróide! — Seus cílios alongados tremeram involuntariamente e ele notou que tentava dar uma aparência de calma. — O senhor tem informação de que há um andróide no elenco? Eu teria prazer em ajudá-lo e, se fosse um andróide, eu teria esse prazer?
— Um andróide — observou ele — não se importa com o que acontece com outro andróide. Esta é uma das indicações que procuramos.
— Neste caso — disse a Srta. Luft — o senhor tem que ser um andróide. — Essas palavras deixaram-no surpreso. Olhou-a fixamente. — Porque — continuou ela — seu trabalho é matá-los, não? O senhor é o que chamam de... — Fez um esforço para se lembrar.
— Um caçador de cabeças a prêmio — respondeu Rick. — Mas eu não sou andróide.
— Esse teste que o senhor quer aplicar-me... — A voz dela começou a voltar. — O senhor já se submeteu a ele?
— Já — confirmou ele, inclinando a cabeça. — Há muito, muito tempo, quando comecei a trabalhar no departamento.
— Isso talvez seja uma falsa recordação Às vezes, andróides não têm falsas memórias?
— Meus superiores estão cientes do teste que fiz — disse Rick. — É compulsório.
— Talvez houvesse certa vez um ser humano que se parecia com o senhor e, no correr do tempo, o senhor matou-o e ocupou-lhe o lugar. E seus superiores não sabem disso. — Ela sorriu. Como se o convidando para que concordasse com ela.
— Vamos prosseguir com o teste — disse ele, tirando a lista das perguntas.
— Eu me submeterei ao teste — disse Luba Luft — se o senhor se submeter primeiro

Mais uma vez, ele olhou-a fixamente, sem saber o que dizer.
— Isto não seria mais justo? — perguntou ela. — Neste caso, eu teria certeza a seu respeito. Não sei, o senhor parece tão estranho, tão duro, tão peculiar. — Tremeu. E sorriu outra vez Esperançosamente.
— A senhora não seria capaz de administrar o Teste Voigt-Kampff. Ele exige grande experiência, Agora, por favor, ouça com toda atenção. Essas perguntas dizem respeito a situações sociais que pode encontrar e delas participar. O que quero da senhora é uma declaração de reação, o que faria. E quero a reação com tanta rapidez quanto puder. Um dos fatores que vou anotar é a defasagem temporal, se houver. —

Selecionou a pergunta inicial. — Está sentada assistindo à televisão quando, subitamente, descobre uma vespa andando pelo seu punho. — Olhou para o relógio, contando os segundos. E verificou, também, os mostradores geminados.
— O que é uma vespa? — perguntou Luba Luft.
— Um inseto que pica e voa.
— Oh, que coisa estranha. — Seus olhos imensos alargaram-se em aceitação infantil, como se ele lhe houvesse revelado o principal mistério da criação. — Existem? Nunca as vi.
— Morreram por causa da poeira. Não sabe, realmente o que é uma vespa? Você devia estar viva quando havia vespas. Isso foi há apenas...
— Diga-me a palavra alemã.

Ele fez um esforço para pensar na palavra alemã que significa vespa, mas não conseguiu.
— Seu inglês é perfeito — disse irritado.
— Meu sotaque — retrucou ela, corrigindo-o — é perfeito. Tem que ser, para papéis em obras como as de Purcell, Walton e Vaughan Williams. Mas meu vocabulário não é muito grande. — Olhou-o, tímida.
— Wespe — disse ele, lembrando-se da palavra alemã.
— Ach, sim, eine Wespe. — Riu. — E qual foi a pergunta? Já me esqueci.
— Vamos tentar outra. — Era impossível, nesse momento, obter uma reação significativa. — Você está assistindo a um velho filme na TV, um filme de antes da guerra. Mostra um banquete. A entrada — engoliu a primeira parte da pergunta — consiste de cachorro cozido, recheado com arroz.
— Ninguém mataria e comeria um cachorro — respondeu Luba Luft. — Eles custam um fortuna. Mas acho que seria um cachorro de imitação, um sucedâneo. Certo? Mas eles são feitos de fios e motores. Não podem ser comidos.
— Antes da guerra — disse ele em voz áspera.
— Eu não havia nascido ainda antes da guerra.
— Mas viu velhos filmes na TV.
— O filme foi feito nas Filipinas?
— Por quê?
— Porque — explicou Luba Luft — nas Filipinas o povo costumava comer cachorros cozidos e recheados com arroz. Lembro-me de ter lido isso.
— Mas, sua reação... — disse ele. — Quero sua reação social, emocional, moral.
— Ao filme? — Ela pensou durante um momento. — Eu desligaria e mudaria para Buster Amigão.
— Por que desligaria?
— Ora — disse ela irritada —, quem, diabos, quereria ver um velho filme passado nas Filipinas? O que foi que aconteceu nas Filipinas, exceto a Marcha da Morte de Bataan, e o senhor ia querer ver isso? —

Olhou-o, indignada. Nos mostradores, os ponteiros giraram em todas as direções.
Depois de uma pausa, ele disse, medindo as palavras:
— Você aluga uma cabana na montanha.
— Ja. — Ela inclinou a cabeça. — Continue. Estou esperando.
— Numa área ainda luxuriante.
— Perdão! — Ela fez concha com a mão ao ouvido. — Nunca ouvi essa palavra.
— Ainda estão crescendo por lá árvores e arbustos. A cabana é rústica, feita de troncos de pinheiros e tem uma enorme lareira. Das paredes pendem velhos mapas, reproduções de Currier e Ives, e em cima da lareira há uma cabeça de cervo empalhada, um macho adulto com uma galhada bem desenvolvida. As pessoas que estão em sua companhia admiram o décor da cabana e...
— Eu não compreendo as palavras "Currier", "Ives" ou "décor" — disse Luba. Parecia esforçar-se, no entanto, para descobrir o que essas palavras significavam. — Espere.
— Ergueu a mão, animada. — Com arroz, como o cachorro. Currier é aquilo que dá cor ao arroz. É curry em alemão.

Ele não conseguia chegar a uma conclusão, Deus tivesse pena dele, se o nevoeiro semântico de Luba Luft tinha alguma finalidade. Depois de consulta consigo mesmo, resolveu tentar outra pergunta. O que mais poderia fazer?
— Você está namorando com um homem — disse — e ele lhe pede que o visite em seu apartamento. Enquanto está lá...
— O nein — interrompeu-o Luba. — Eu não iria lá. Essa é fácil de responder.
— Essa não é a pergunta!
— O senhor escolheu a pergunta errada? Mas eu compreendo essa. Por que a questão que eu compreendo é a errada? Não se espera que eu compreenda? — Mexendo-se nervosa, ela coçou o rosto, e soltou o disco adesivo, que caiu no chão e rolou para baixo da penteadeira. — Ach Gott — murmurou ela, abaixando-se para apanhá-lo. Um chiado, de tecido que se rasga. De sua caprichosa fantasia.
— Eu o pego — disse ele e afastou-a para o lado. Ajoelhou-se, procurou embaixo da penteadeira até que seus dedos localizaram o disco.
Quando se ergueu, viu que olhava para um tubo de laser.
— Suas perguntas — disse Luba Luft em voz seca, formal — começaram a mudar para sexo. Eu achei que, no fim, chegariam a isso. O senhor não é do Departamento de Polícia. O senhor é um tarado sexual.
— Pode examinar minha identificação. — Estendeu a mão para o bolso do casaco. A mão, notou, começara a tremer, corno acontecera no caso de Polokov.
— Se tocar aí — disse Luba Luft —, mato-o.
— Você matará, de qualquer maneira. — Perguntou-se como a coisa se teria desenvolvido, se houvesse esperado até que Rachael Rosen viesse ajudá-lo. Bem, de nada adiantava pensar nisso.
— Mostre-me mais algumas de suas perguntas. — Estendeu a mão e ele, relutante, entregou-lhe as folhas. — Numa revista, você encontra uma foto de página inteira de uma moça nua." Bem, esta é uma delas. "Você fica grávida do homem que prometeu casar com você O homem vai embora com outra mulher, sua melhor amiga. Você faz um aborto." A orientação de seu interrogatório é óbvia. Vou chamar a polícia. Segurando ainda o tubo de laser em sua direção, atravessou a sala, apanhou o videofone e discou telefonista: —

Ligue-me com o Departamento de Polícia de São Francisco — disse. — Preciso de um policial.
— O que você está fazendo — observou aliviado Rick — é a melhor coisa possível. — Ainda assim, parecia-lhe estranho que Luba houvesse resolvido fazer isso. Por que, simplesmente, não o matava? Uma vez chegasse o patrulheiro, a chance dela desapareceria e tudo mais lhe seria favorável.
Ela tem que pensar que é humana, decidiu ele. Obviamente, não sabe.

Minutos depois, durante os quais Luba manteve-o sob cuidadosa mira do tubo de laser, chegou um policial grandalhão usando seu arcaico uniforme azul e portando uma arma e uma estrela.
— Muito bem — disse ele imediatamente, dirigindo-se a Luba. — Guarde essa coisa. — Ela pôs de lado o tubo de laser e ele apanhou-o para ver se estava carregado. — Agora, o que é que está acontecendo aqui? — perguntou-lhe. Antes que ela pudesse responder, ele virou-se para Rick: — E quem é o senhor? — indagou.
— Ele entrou no meu camarim — explicou Luba Luft. — Nunca o vi antes em toda minha vida. Ele fingiu que estava fazendo uma pesquisa ou alguma coisa assim e queria me fazer perguntas. Eu pensei que não havia problema, disse que estava tudo bem, e então ele começou a me fazer perguntas obscenas.
— Mostre-me sua identificação — disse o policial a Rick, mão estendida.
Tirando-a, Rick explicou:
— Eu sou um caçador de cabeças a prêmio do Departamento.
— Eu conheço todos os caçadores de cabeça — disse o policial, examinando a carteira de Rick. — No Departamento de Polícia de São Francisco?
— Meu supervisor é o Inspetor Harry Bryant — disse Rick. — Eu fiquei com a lista de Dave Holden, agora que Dave está no hospital.
— Como eu disse, conheço todos os caçadores de cabeça — repetiu o policial —, e nunca ouvi falar em você. — Devolveu-lhe a identificação.
— Telefone para o Inspetor Bryant — sugeriu Rick.
— Não há nenhum Inspetor Bryant — retrucou o policial.
Rick compreendeu logo o que estava acontecendo.
— Você é um andróide — disse ao policial. — Como a Srta. Luft. — Dirigindo-se para o videofone, levantou o aparelho, — Vou ligar para o Departamento. — E se perguntou quanto tempo teria antes que os dois andróides o pegassem.
— O número — disse o policial fardado — é...
— Eu sei o número. — Discou e, no mesmo instante, apareceu o rosto da telefonista da polícia. — Quero falar com o Inspetor Bryant — disse.
— Quem está falando, por favor.
— Rick Deckard. — Ficou à espera. Enquanto isso, num dos cantos da sala, o policial tomava as declarações de Luba Luft. Nenhum dos dois lhe prestava a menor atenção.

Uma pausa e, em seguida, a face de Harry Bryant apareceu no vídeo.
— Um pequeno problema — explicou Rick.
— O que é que está havendo? — perguntou a Rick. — Um dos suspeitos que estão na lista de Dave conseguiu telefonar e chamar um guarda. Parece que não consigo provar a ele quem sou. Ele diz que conhece todos os caçadores de cabeça do Departamento e que nunca ouviu falar em mim. — E acrescentou: — E tampouco ouviu falar no senhor.
— Deixe-me falar com ele — ordenou Bryant.
— O Inspetor Bryant quer falar com você. — Rick estendeu-lhe o videofone. O guarda deixou de interrogar a Srta. Luft e veio atender.
— Guarda Crams — disse ele, em tom marcial. Uma pausa. — Alô. — Escutou, disse alô várias vezes mais, esperou e, em seguida, voltou-se para Rick. — Não há ninguém na linha. E ninguém na tela. — Apontou para a tela do videofone e nela Rick nada viu.

Tomando o aparelho da mão do guarda, disse:
— Sr. Bryant? — Escutou, esperou. Nada. — Vou discar outra vez. — Desligou, esperou e em seguida rediscou o conhecido número. O telefone tocou do outro lado, mas ninguém atendeu, e continuou a chamar sem parar.
— Deixe-me experimentar — disse o guarda Crams, tirando o aparelho da mão de Rick. — O senhor deve ter discado errado. — Discou. — O número é 842...
— Eu sei o número — disse Rick.
— Guarda Crams chamando — disse ao telefone. — Há algum Inspetor Bryant ligado ao Departamento? — Uma curta pausa. — Bem, e um caçador de cabeças chamado Rick Deckard? — Mais uma vez, uma pausa. — Tem certeza? Poderia ele ter sido recentemente...Oh, compreendo. Certo, obrigado. Não, a situação está sob controle. — O guarda Crams desligou e voltou-se para Rick.
— Eu o tive na linha — garantiu Rick. — Falei com ele. Ele disse que ia falar com o senhor. Deve ser problema com o telefone. A ligação deve ter caído em alguma parte. Vocês não viram ...o rosto de Bryant apareceu na tela e depois desapareceu? — Sentiu-se confuso.
— Eu tenho as declarações da Srta. Luft, Deckard. Assim, vamos até o Palácio de Justiça para eu dar parte de você.
— Muito bem — concordou Rick. A Luba Luft, disse: — Volto daqui a pouco. Ainda não acabei meu teste com você.
— Ele é um tarado — informou Luba Luft ao guarda Crams. — Ele me dá calafrios. — Tremeu toda.
— Que ópera a senhora está ensaiando? — perguntou o guarda Crams.
— A Flauta Mágica — respondeu Rick.
— Eu não perguntei a você. Perguntei a ela. — Lançou-lhe um olhar de desagrado.
— Estou ansioso para chegar ao Palácio de Justiça — disse Rick. — Este assunto precisa ser esclarecido. — Dirigiu-se para a porta do camarim, a pasta firme em sua mão.
— Primeiro, vou passar você em revista.

Habilmente, o guarda Crams correu-o com as mãos e descobriu a pistola de serviço de Rick e o tubo de laser. Confiscou a ambos, depois de cheirar por um momento o cano da pistola. — Esta aqui foi disparada recentemente — disse.
— Acabei de aposentar um andróide — explicou Rick. — Os restos dele estão ainda no meu carro, lá em cima no telhado.
— Muito bem — disse o guarda Crams — vamos subir até lá e dar uma olhada.
A Srta. Luft acompanhou os dois até a porta do camarim:
— Ele não vai voltar, vai, seu guarda? Estou realmente com medo dele. Ele é tão estranho.
— Se ele está com o cadáver de alguém que matou lá em cima no carro — respondeu Crams —, ele não vai voltar.

Empurrou Rick para a frente com o cotovelo e, juntos, os dois tomaram o elevador em direção ao telhado da Casa da Ópera.

Abrindo a porta do carro de Rick, o guarda Crams examinou em silêncio os restos do corpo de Polokov.
— Um andróide — disse Rick. — Recebi ordens de pegá-lo. Ele quase me pegou, fingindo ser ...
— Vão tomar seu depoimento no Palácio de Justiça — interrompeu-o o guarda Crams. Empurrou-o para seu carro policial estacionado próximo, marcado claramente. Nele, pelo rádio, chamou alguém para vir apanhar o que restava de Polokov.
— Muito bem, Deckard — disse, desligando —, vamos embora.
Com os dois a bordo, o carro de patrulha levantou vôo do telhado e dirigiu-se para o sul.
Alguma coisa, notou Rick, não era o que devia ser. O guarda Crams dirigia o carro na direção errada.
— O Palácio de Justiça fica ao norte — disse —, na Lombard.
—Aquele era o velho Palácio de Justiça — explicou Crams. — O novo fica em Mission. Aquele velho prédio está se desintegrando. É uma ruína. Ninguém o usa há anos. Passou tanto tempo assim desde a última vez em que você foi preso?
— Leve-me para lá — pediu Rick. — Para a Lombard Street. — Compreendia tudo naquele instante, percebia o que os andróides, trabalhando juntos, haviam conseguido. Ele não sobreviveria a este passeio. Para ele, era o fim, como quase fora para Dave — e com toda probabilidade seria, mais tarde.
— Aquela pequena é bem bonitona — observou o guarda Crams. — Claro, com aquela fantasia a gente não pode saber sobre o corpo. Mas eu diria que é bem bacana.
— Confesse que você é um andróide — disse Rick.
— Por quê? Eu não sou. O que é que você faz, anda por aí matando gente e dizendo a si mesmo que eles são andróides? Compreendo porque a Srta. Luft ficou com medo. Foi bom para ela ter nos chamado.
— Neste caso, leve-me para o Palácio de Justiça, na Lombard.
— Como eu disse...
— Isto só vai levar uns três minutos — insistiu Rick. -— Quero vê-lo. Todas as manhãs eu me apresento para o trabalho. Quero ver se está abandonado há anos, como o senhor diz.
— Talvez você seja um andróide — replicou o guarda Crams. — Com uma falsa memória, como a que lhes dão. Pensou nisso? — Sorriu friamente e continuou a dirigir para o sul.

Consciente de sua derrota e fracasso, recostou-se no assento. E, impotente, ficou à houvessem planejado, agora que se tinham apossado dele.

Mas peguei um deles, disse espera do que viria em seguida.
O que quer que os andróides a si mesmo. Peguei Polokov. E Dave pegou dois.
Pairando sobre Mission, o carro policial do guarda Crams iniciou a descida para o pouso.


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