sexta-feira, 4 de junho de 2010

Simulacron-3 - Daniel F.Galouye



Uma jovem loura na frente do batalhão rumou diretamente para mim. Antes que eu pudesse me mexer, ela havia passado meu braço em torno de sua cintura. Seus olhos estavam excessivamente pintados e mechas de cabelo platinado caíam-lhe sobre os ombros nus.

- Sr. Hall, não é fascinante... aquela pedra marciana? O senhor tem alguma coisa a ver com ela? Suspeito que sim.

Olhei de soslaio para Siskin, que se afastava discretamente. Então reconheci a pequena como uma de suas secretárias particulares. A manobra era clara. Ela ainda estava trabalhando. Apenas que sua missão agora era extracurricular, conciliatória, e fora dos limites do Escritório Geral de Siskin.

- Não, foi tudo idéia do seu chefe.
- Oh! - disse ela, olhando para ele com admiração enquanto nos afastávamos. - Que homenzinho engenhoso! Ora, Ele é apenas um bonequinho, não é? Um bonequinho ativo e simpático!
Tentei escapar, mas ela tinha sido bem instruída.
- E seu campo, Sr. Hall, é sim... simulação?
- Simuletrônica.
- Fascinante! Sei que quando o senhor e o Sr. Siskin completarem a máquina - posso chamar de máquina, não posso... ?
- É um simulador total do ambiente. Conseguimos eliminar todos os defeitos - na terceira tentativa. Chamamo-la de Simulacron-3.
-... quando o simulador estiver funcionando, não haverá mais necessidade dos "metidos".

Ela se referia, naturalmente, aos pesquisadores de opinião pública, ou simplesmente "pesquisadores", como são mais comum ente chamados. Prefiro a última denominação, pois nunca nego a um homem a oportunidade de ganhar a vida, mesmo que isso signifique um batalhão de... bem, de "metidos", espreitando os hábitos e ações diários do público.

- Não pretendemos tirar o trabalho de ninguém expliquei. - Mas quando a pesquisa de opinião se tornar completamente automatizada, será preciso fazer certas modificações nas práticas de emprego.
Ela me conduziu para a janela.
- Qual é a sua intenção, Sr. Hall? Fale-me do seu... simulador. E todo mundo me chama de Dorothy.
- Não há muito a dizer.
- Oh, não seja tão modesto. Estou certa de que há.

Se ela pretendia continuar com esta manobra planejada por Siskin, não havia nenhuma razão para eu não manobrar também - em um nível um pouco acima de sua compreensão.

- Bem, a senhorita compreende, vivemos em. uma sociedade complexa que prefere não correr riscos nos negócios. Assim, existe uma infinidade de organizações de pesquisa de opinião pública. Antes de lançarmos um produto, queremos saber quem vai comprá-lo, com que frequência, quanto poderá pagar; qual a melhor tática para fazer as pessoas mudarem de religião; quais as probabilidades de que o governador Stone seja re-eleito; se a Tia Bessie vai preferir o azul ou o rosa para os vestidos da próxima estação.

Ela me interrompeu com um risinho.
- "Metidos" escondidos atrás de cada moita.
Concordei.
- Pesquisadores em profusão. Amolações, naturalmente. Mas Eles são protegidos pela Lei dos Pesquisadores de Opinião Pública.
- E o Sr. Siskin vai acabar com tudo isso - o Sr. Siskin e você?
- Graças a Hannon J. Fuller, descobrimos um meio melhor. Podemos simular eletronicamente um ambiente social. Podemos povoá-lo com análogos subjetivos - unidades de identidade. Manipulando o ambiente, estimulando as unidades ID, podemos estimar o comportamento em situações hipotéticas.

O sorriso dela esmaeceu, deu lugar a uma expressão de espanto, e então voltou em plena forma.
- Compreendo - disse. - Mas era evidente que não havia compreendido. O que encorajou minha tática.
- O simulador é um modelo eletro-matemático de uma comunidade normal.
Permite previsões de comportamento a longo prazo. E essas previsões são ainda mais válidas que as que se pode obter com um exército de pesquisadores - "metidos" - percorrendo a cidade.
Ela riu sem entusiasmo.

- Mas naturalmente. Puxa, nunca pensei... seja bonzinho, Doug. Arranje-nos uma bebida. Qualquer coisa.
Devido à algum senso mal orientado de fidelidade a Siskin, talvez eu tivesse mesmo ido apanhar uma bebida para ela. Mas havia quatro filas de pessoas em volta do bar, e enquanto eu hesitava, um dos rapazes da promoção se dirigiu confiantemente para Dorothy,

Aliviado, passei até a mesa do bufê. Ali perto, Siskin, ladeado por um colunista e o representante de uma cadeia de televisão, enumerava as maravilhas do simulador da RESA.
Ele sorria efusivamente.

- Na verdade, é possível que esta nova aplicação da Simuletrônica - é um processo secreto, vocês sabem - tenha um tal impacto sobre nossa cultura que o resto dos Estabelecimentos Siskin tenha que se curvar ante a Reações S. A.

O homem da televisão fez uma pergunta e a resposta de Siskin foi imediata.
- A Simuletrônica é uma coisa primitiva comparada com isto. A previsão baseada em computadores convencionais está limitada a uma única linha de investigação de estímulo-resposta. O simulador total de ambiente da RESA - que chamamos de Simulacron-3 -, por outro lado terá uma resposta para qualquer pergunta referente a qualquer reação hipotética ao longo de todo o espetro do comportamento humano.

Ele estava, naturalmente, repetindo as palavras de Fuller.

Mas na boca de Siskin as palavras eram apenas jactâncias. Fuller, ao contrário, acreditava no simulador como se ele fosse um deus, e não um edifício de três andares cheio de circuitos complicados.



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