sábado, 26 de junho de 2010

O Caçador de Andróides - Philip K. Dick (parte 13)




NA CASA DA ÓPERA, foram informados de que o ensaio terminara. E que Luba Luft fora embora.
— Ela disse para onde pretendia ir? — perguntou Phil Resch, mostrando a um empregado de palco sua identificação da polícia.
— Para o museu. — O empregado examinou a identificação. — Disse que queria ir ver a exposição de Edvard Munch que há por lá atualmente. Acaba amanhã.
E Luba Luft, pensou Rick, acaba hoje.

Enquanto os dois desciam a calçada em direção ao museu, perguntou Phil Resch:
— Que chances você dá? Ela bateu as asas. Não vamos encontrá-la no museu.
— Talvez — disse Rick.
Chegaram ao prédio, verificaram onde era a exposição de Munch, e subiram.
Pouco depois, andavam ao léu entre pinturas e xilogravuras.

Numerosas pessoas haviam comparecido para ver a exposição, incluindo uma turma de escola secundária e, enquanto a voz aguda da professora ressoava por todas as salas reservadas à mostra.
Rick pensou: Era com isso que você esperaria que soasse — e parecesse — uma andróide. Em vez de se parecer com Rachael Rosen e Luba Luft. E com o homem ao seu lado. Ou, melhor, a coisa a seu lado.
— Você já ouviu falar em um andróide possuir algum bichinho de estimação? — perguntou-lhe Phil Resch.
Por alguma razão, Rick sentiu a necessidade de ser brutalmente honesto; já começara a preparar-se para o que o aguardava.
— Em dois casos que conheço, andros possuíram e cuidavam de animais. Mas isto é raro. Pelo que pude aprender, a coisa geralmente falha, o andro é incapaz de manter vivo o animal. Para florescer, o animal precisa de um ambiente de calor humano. Exceto répteis e insetos.
— Um esquilo precisaria disso? De uma atmosfera de amor? Por que Buffy está indo muito bem, tão lustroso como uma lontra. Eu o escovo e penteio, dia sim, dia não. — Em frente a um quadro a óleo, Phil Resch parou e ficou a examiná-lo com atenção.

O quadro mostrava uma criatura calva, oprimida, com uma cabeça parecendo uma pêra invertida, as mãos fechadas em horror nas orelhas, a boca aberta num imenso e mudo grito. Ondas contorcidas do sofrimento da criatura, ecos de seu grito, vibravam no ar que a cercava; o homem, ou mulher, o que quer que fosse, estava contida em seu próprio uivo. Cobrira as orelhas para não ouvir seu próprio som. A criatura encontrava-se numa ponte e não havia ali ninguém mais e ela gritava em completo isolamento. Separada — ou a despeito — da explosão de seu grito.
— Ele fez uma xilografia disto — disse Rick, lendo o cartão preso com um percevejo embaixo do quadro.
— Eu acho — especulou Phil Resch — que é assim que um andro deve sentir-se. — No ar, traçou circunvoluções, visíveis no quadro, do grito da criatura. —Eu não me sinto assim, de modo que eu talvez não seja... — Interrompeu-se quando várias pessoas se aproximaram para ver o quadro.
— Lá está Luba Luft — apontou Rick e Phil Resch parou sua lúgubre introspecção e autodefesa. Em passos medidos, os dois se dirigiram para ela, sem pressa, como se nada os esperasse. Como sempre, era vital preservar a atmosfera comum. Outros humanos, sem conhecimento da presença de andróides entre eles, tinham que ser protegidos a todo custo — mesmo ao de perderem a presa.

Tendo nas mãos um catálogo impresso, Luba Luft, usando calças justas brilhantes e uma espécie de colete dourado iluminado, parecia absorta em frente a um quadro: o desenho de uma moça, mãos cruzadas, sentada à beira de uma cama. com uma expressão de confuso espanto e um novo e sorrateiro medo gravado na face.
— Quer que o compre para você? — perguntou Rick a Luba Luft.
Ao lado dela, segurava-a levemente pela parte superior do braço, dizendo-lhe, pela frouxa empunhadura, que sabia que tinha sua posse, que não precisava fazer força para detê-la. No outro lado, Phil Resch colocou a mão no ombro dela e Rick viu a protuberância de um tubo de laser. Phil Resch não tencionava arriscar-se, não depois do quase fracasso com o Inspetor Garland.
— Não está à venda. — Luba Luft lançou-lhe um olhar preguiçoso e, em seguida, violento, quando o reconheceu. Seus olhos desmaiaram e a cor diminuiu em seu rosto, deixando-o cadavérico, como se já começasse a apodrecer, como se a vida houvesse, num instante, se retirado para algum ponto bem dentro dela, deixando o corpo à sua ruína automática. — Eu pensei que o haviam prendido. Quer dizer que o soltaram?
— Srta. Luft — ele apresentou —, este é o Sr. Resch. Phil Resch, esta é a famosa cantora de óperas, Luba Luft.

A Luba, disse: — O guarda uniformizado que me prendeu é um andróide. Como era também o superior dele. Você conhece, conhecia, um certo Inspetor Garland? Ele me disse que vocês todos chegaram aqui em uma única nave, como um grupo.
— O departamento policial para o qual ligou — disse-lhe Phil Resch —, e que opera de um prédio na Mission, é a agência organizadora, através da qual parece que seu grupo se mantém em contato. Eles se sentem tão confiantes que até contratam um caçador de cabeças humano. Evidentemente...
— Você? — perguntou Luba. — Você não é humano. Não mais do que eu. Você é andróide, também.
Caiu um silêncio até que Phil Resch disse em voz baixa e controlada:
— Bem, trataremos disso no momento oportuno. — Virou-se para Rick: — Vamos levá-la para meu carro.
Escoltada de cada lado enquanto a empurravam na direção do elevador do museu, Luba Luft não os acompanhou de bom grado, mas; por outro lado, não resistiu ativamente. Aparentemente se resignara. Rick vira isso antes em andróides, em situações cruciais.

A força de vida artificial que os animava como que falhava, se pressionada demais, pelo menos em alguns deles. Não em todos. E podia explodir furiosamente.

Os andróides, contudo, possuíam, isto ele sabia, um desejo inato de permanecerem despercebidos. No museu, com tantas pessoas andando em volta, Luba Luft tenderia a permanecer inativa. O choque real — para ela provavelmente o último — teria lugar no carro, onde ninguém mais poderia vê-los. Sozinha, com apavorante subtaneidade, ela podia descartar-se de suas inibições. Preparou-se — e não pensou em Phil Resch. Conforme Resch dissera, seu assunto seria tratado no devido tempo.

Ao fim do corredor, perto dos elevadores, havia sido instalada uma espécie de lojinha que vendia gravuras e livros de arte. Luba parou, procurando ganhar tempo.
— Escute — disse ela a Rick. Um pouco de cor voltara a seu rosto. Uma vez mais ela parecia, pelo menos por um curto instante, viva.— Compre para mim uma reprodução daquele quadro que eu estava vendo quando você me encontrou. Aquele da moça sentada na cama.
Após um momento, Rick virou-se para a vendedora, uma mulher de meia-idade, bochechas caídas e cabelos grisalho preso numa rede:
— A senhora tem uma cópia de Puberdade, de Munch?
— Apenas neste livro de sua obra reunida — respondeu a vendedora, pegando um belo volume em papel lustroso. — Vinte e cinco dólares.
— Vou levá-lo — resolveu Rick e estendeu a mão para tirar a carteira.
— Meu departamento — comentou Phil Resch —, nem em um milhão de anos incluiria em seu orçamento despesas para...
— Com meu dinheiro — esclareceu Rick, entregando as notas à mulher e o livro a Luba. — Agora, vamos embora — disse a ela e a Phil Resch.
— Foi uma grande bondade sua — reconheceu Luba, quando entraram no elevador. — Há alguma coisa muito estranha e comovente nos humanos. Um andróide jamais teria feito aquilo. — Olhou de soslaio, friamente, para Phil Resch. — Isto não teria ocorrido a ele. Como ele disse, nunca, nem em um milhão de anos. — Continuou a olhar para Resch, neste momento com hostilidade e aversão multiplicadas. — Eu, realmente, não gosto de andróides. Desde que cheguei aqui; vinda de Marte, minha vida tem consistido em imitar os humanos, em fazer o que eles fariam, em agir como se eu tivesse os pensamentos e impulsos que um humano teria. Imitar, no que me interessa, uma forma de vida superior. — A Phil Resch, disse: — É assim que tem sido com você, Resch? Tentando ser...
— Eu não posso agüentar isto — disse Phil Resch, enfiando a mão no casaco, à procura,
— Não — ordenou Rick, segurando-lhe a mão.
Resch recuou, afastando-se dele. — O Teste Boneli — lembrou Rick.
— A coisa admitiu que é um andróide — retrucou Resch. — Nós não temos que esperar.
— Mas aposentá-la — comentou Rick — por que ela o está aborrecendo... Dê-me isso. — Tentou tomar o tubo de laser da mão de Resch, mas não conseguiu. Resch girava dentro do apertado elevador, evitando-o, toda sua atenção em Luba. — Muito bem — concordou Rick. — Aposente-a. Mate-a agora. Mostre-lhe que está certa. — Mas notou que Resch ia fazer isso mesmo. — Espere. .

Phil Resch atirou e, no mesmo instante, Luba Luft, num espasmo de medo de criatura encurralada, torceu-se e girou para longe, caindo enquanto fazia isso.

O feixe errou o local para onde fora apontado, mas, quando Resch abaixou-o, abriu um estreito orifício, silenciosamente, no estômago da moça. Ela começou a gritar, gritou agachada contra a parede do elevador. Como no quadro, pensou Rick e, com seu próprio laser, matou-a.

O corpo de Luba Luft desmoronou para a frente num monte, o rosto primeiro.
Nem mesmo tremeu.
Com o tubo de laser. Rick queimou e reduziu sistematicamente a cinzas o livro de reproduções que, minutos antes, comprara para Luba.
Fez esse trabalho minuciosamente, calado.

Phil Resch observava, sem compreender, sua face uma máscara de perplexidade.
— Você podia ter ficado com o livro — disse, quando o trabalho acabou. — Ele lhe custou...
— Você acha que andróides têm alma? — interrompeu-o Rick.
Inclinando a cabeça para um lado, Phil Resch fitou-o, mais perplexo ainda.
— Eu tinha dinheiro de sobra para o livro — disse Rick. — Ganhei hoje, até agora, três mil dólares e não estou nem ainda pela metade.
— Você está reclamando Garland? — perguntou Phil Resch. — Mas fui eu que o matei, não você. Lá, você ficou simplesmente olhando. E Luba, também. Eu a peguei.
— Você não pode cobrar — lembrou-lhe Rick. — Não de seu próprio Departamento, nem do nosso. Quando chegarmos ao seu carro, eu lhe aplicarei o Teste Boneli e o Voigt-Kampff e então veremos. Mesmo que você não esteja na minha lista. — Mãos trêmulas, abriu a pasta e procurou entre as cópias amarfanhadas a carbono.
— Não, você não está aqui. Assim, legalmente, não posso reclamar a recompensa por matá-lo. Para ganhar alguma coisa, tenho que alegar que fui eu quem matou Luba Luft e Garland.
— Você tem certeza de que eu sou um andróide? Foi isso realmente o que Garland disse?
— Foi isso o que ele disse.
— Talvez ele estivesse mentindo — lembrou Phil Resch. — Para nos separar. Como estamos separados agora. Nós somos malucos, deixando que eles nos separem. Você tinha toda razão a respeito de Luba Luft... Eu não devia ter deixado que ela me irritasse daquele jeito. Devo ser sensível demais. Isso seria natural para um caçador de cabeças, acho. Você, provavelmente, reage da mesma maneira. Mas, escute aqui, nós teríamos, de qualquer maneira, de aposentar Luba Luft, dentro de meia hora a partir de agora... apenas mais meia hora. Ela nem mesmo teria tido tempo de folhear aquele livro que você lhe deu. Mas ainda não consigo pensar por que o destruiu. Isso foi um desperdício. Não posso seguir seu raciocínio. Não é racional, é esse o motivo.
— Eu vou abandonar este negócio — disse Rick.
— F. trabalhar em quê?
— Qualquer coisa. Seguros, corretagem, como Garland devia estar fazendo. Ou emigrarei. Sim. — Inclinou a cabeça. — Vou para Marte.
— Mas alguém tem que fazer este trabalho — observou Resch.
— Podem usar andróides. Será muito melhor se andros fizerem isto. Eu não posso mais. Já enchi. Ela era uma cantora maravilhosa, O planeta poderia tê-la usado. Isto é uma loucura.
— Isto é necessário. Lembre-se: eles mataram humanos para conseguirem fugir. E se eu não o tivesse tirado da estação de polícia da Mission, eles o teriam matado. Foi para isso que Garland me chamou. Foi por isso que ele disse para eu ir ao seu escritório. Polokov quase não o matou? E Luba, quase? Estamos agindo defensivamente. Eles estão aqui, em nosso planeta... são alienígenas cruéis, ilegais, fazendo-se passar por...
— Por policiais — completou Rick. — Como caçadores de cabeças.
— Muito bem. Aplique-me o Teste Boneli. Talvez Garland tenha mentido. Acho que ele mentiu... Falsas memórias simplesmente não são tão boas assim. O que é que você diz de meu esquilo?
— Sim, seu esquilo Esqueci-me de seu esquilo.
— Se eu for um andróide — disse Phil Resch —, e você me matar, pode ficar com meu esquilo. Vou botar isto no papel, deixá-lo a você em testamento.
— Andros não podem deixar coisa alguma. Não podem possuir coisa alguma para deixar em testamento.
— Neste caso, fique simplesmente com ele — sugeriu Phil Resch.
— Talvez eu faça isso — retrucou Rick. O elevador chegara ao primeiro andar. Abriram-se as portas. — Fique aqui com Luba. Vou chamar um carro de patrulha para levá-la ao Palácio de Justiça. Para o teste de medula óssea.

Viu uma cabine telefônica, entrou, inseriu uma moeda e, os dedos tremendo, discou. Enquanto isso, um grupo de pessoas, que estivera à espera do elevador, reunia-se em volta de Phil Resch e do corpo de Luba Luft.

Ela era realmente uma cantora soberba, pensou, quando desligou, completada sua ligação. Não entendo isto: como um talento como aquele pode ser um passivo para nossa sociedade? Mas não era o talento, lembrou a si mesmo, era ela. Como é Phil Resch, pensou. Ele é uma ameaça exatamente da mesma maneira, pelas mesmas razões. Por isso, não posso desistir agora. Saindo da cabine, abriu caminho entre o grupo, de volta a Resch e ao corpo tombado da andróide. Alguém a cobrira com um casaco. Não o de Resch.

Aproximando-se de Phil Resch — que se encontrava de um lado, tirando vigorosas baforadas de um pequeno charuto cinzento — disse-lhe: — Queira Deus que o teste revele que você é um andróide.
— Você realmente me odeia — exclamou Phil Resch, espantado. — E assim, de repente. Não me odiava lá na Mission Street. Não, enquanto eu estava salvando sua vida.
— Estou começando a perceber um padrão. Na maneira como você matou Garland e, em seguida, matou Luba. Você não mata como eu mato. Tudo de que você precisa é um pretexto. Se tivesse um, você me mataria. Foi por isso que agarrou a possibilidade de Garland ser um andróide. Isto o tornava disponível para ser morto. Eu gostaria de saber o que vai fazer quando for reprovado no Teste Boneli. Você cometeria suicídio? Andróides, às vezes, fazem isso. — Mas a situação era rara.
— Sim, eu cuidarei disso — prometeu Phil Resch. — Você não terá que fazer coisa alguma, salvo aplicar o teste.

Chegou nesse momento um carro de patrulha. Dele saltaram dois policiais, aproximaram-se da multidão e imediatamente abriram caminho. Um deles reconheceu Rick e inclinou a cabeça em sua direção. Bom, agora podemos ir, pensou Rick. Nosso negócio aqui está terminado. Finalmente.

Descendo ele e Resch a rua, de volta à Casa da Opera, onde estava estacionado o hovercar, disse Resch:
— Vou-lhe entregar agora meu tubo laser, de modo que não vai ter que se preocupar com minha reação ao teste. Em termos de sua própria segurança pessoal. — Estendeu a arma, que Rick aceitou.
— Como é que você se suicidaria sem ela? — perguntou. — Se não passar no teste?
— Prenderei a respiração.
— Pelo amor de Deus — exclamou Rick, — Isso não pode ser feito.
— Num andróide não há interrupção automática no nervo pneumogástrico. Como há nos humanos. Não lhe ensinaram isso quando o treinaram? Disseram-me isso há dez anos.
— Mas morrer dessa maneira — protestou Rick.
— Não há dor. Qual é o problema com isso?
— É... — Fez um gesto, incapaz de encontrar as palavras apropriadas.
— Eu não penso, realmente, que vá ter que fazer isso — observou Phil Resch.
Juntos subiram até o telhado da Casa da Ópera e até junto do hovercar de Resch.
Colocando-se ao volante e fechando a porta, disse Phil Resch:
— Eu preferiria que você usasse o Teste Boneli.
— Não posso. Não sei como avaliá-lo. — Teria que depender de você para uma interpretação das leituras, pensou. E isto está fora de cogitação.
— Você vai me dizer a verdade, não? — perguntou Resch. — Se eu for um andróide, você me dirá?
— Certamente.
— Porque eu, realmente, quero saber. Tenho que saber. — Reacendeu o charuto, mexeu-se no assento individual do carro, procurando uma posição mais confortável. Evidentemente, não pôde encontrá-la. —

Você gostou realmente daquele quadro de Munch que Luba Luft estava vendo? — perguntou. — Não gostei dele. O realismo na arte não me interessa. Gosto de Picasso e...
— Puberdade data de 1894 — disse seco Rick. — Naquela época nada havia, salvo realismo. Você tem que levar isso em conta.
— Mas aquele outro; do homem segurando as orelhas e gritando... aquilo não foi figurativo.
Abrindo a pasta, Rick tirou o equipamento de teste.
— Refinado — disse Phil Resch, observando-o. — Quantas perguntas você tem que fazer antes de poder chegar a uma conclusão?
— Seis ou sete. — Entregou-lhe o disco adesivo. — Prenda-o ao rosto. Firmemente. E esta luz... — Apontou-a com cuidado. — Ela permanece focalizada em seu olho. Não se mova. Mantenha o globo ocular tão imóvel quanto puder.
— Flutuações de reflexo — disse Phil Resch, demonstrando conhecimento do assunto. — Mas não ao estímulo físico. Você não mede dilatação, por exemplo. Serão às perguntas verbais, o que chamamos de reação de esquiva.
— Você acha que pode controlá-la? — perguntou Rick.
— Não, realmente. No fim, talvez. Mas não a amplitude inicial. Isto fica fora do controle consciente, Se não fosse... — Interrompeu-se. — Continue. Estou tenso. Desculpe-me, falo demais
— Fale o quanto quiser — aconselhou Rick. Fale o caminho todo até à sepultura, pensou. Se tiver vontade. Isto não lhe importava.
— Se no teste eu revelar que sou andróide — tagarelou Phil Resch —, você terá renovada sua fé na raça humana. Mas desde que não vai ser assim, sugiro que comece a elaborar uma justificativa? que explique...
— Vamos à primeira pergunta — disse Rick, que já instalara o equipamento e os dois ponteiros tremiam nos mostradores. — O tempo de reação é um fator, de modo que responda com toda a rapidez que puder.

De memória escolheu a primeira pergunta. O teste começara.
Depois, Rick permaneceu em silêncio durante algum tempo. Em seguida, começou a reunir o equipamento e guardá-lo na pasta.
— Posso ver pelo seu rosto — disse Phil Resch, exalando um suspiro de alívio completo, imponderável, quase convulsivo. — Muito bem, você pode me devolver minha arma. — Estendeu a mão, palma para cima, à espera.
— Evidentemente, você teve razão — respondeu Rick. — Sobre os motivos de Garland. Querendo nos separar. Aquilo que você disse. — Sentia-se psicológica e fisicamente cansado.
— Já elaborou sua justificativa? — perguntou Phil Resch. — Que me explicaria como parte da raça humana?
— Há um defeito na sua capacidade empática, de assunção de papéis. Um defeito para o qual não fazemos testes. Seus sentimentos em relação a andróides...
— Claro que não fizemos testes para isso.
— Talvez devêssemos. — Nunca pensara nisso antes, nunca sentira empatia alguma em relação aos andróides que matara. Sempre supusera que, em toda sua psique, percebia o andróide como uma máquina inteligente — como na sua opinião consciente. Ainda assim, em contraste com Phil Resch, havia-se manifestado uma diferença. E, instintivamente, sabia que tinha razão. Empatia para com uma construção artificial? perguntou a si mesmo. Para com algo que apenas finge ser vivo? Mas Luba Luft parecera autenticamente viva, não apresentara o aspecto de uma simulação.
— Você compreende — perguntou quietamente Phil Resch — o que isto significaria, se incluíssemos andróides em nossa faixa de identificação empática, como fazemos com animais.
— Nós não poderíamos proteger-nos?
— De modo nenhum. Esses tipos Nexus-6...cairiam sobre nós e nos esmagariam. Você e eu, todos os caçadores de cabeças, nos colocamos entre o Nexus-6 e a humanidade, somos uma barreira que mantém separados os dois. Além disso...— Interrompeu-se, notando que Rick, mais uma vez, tirava da pasta o equipamento de teste. — Pensei que o teste tinha acabado.
— Eu quero fazer a mim mesmo uma pergunta — explicou Rick. — E quero que você me diga o que os ponteiros registram. Simplesmente me dê a calibração. Eu posso computá-la. — Colou o disco adesivo no rosto e colocou o feixe de luz de modo a que incidisse diretamente em seu olho. — Pronto? Observe os mostradores. Nisto vamos excluir a defasagem temporal. Quero simplesmente magnitude.
— Certo, Rick — concordou de boa vontade Phil Resch.

Em voz alta, disse Rick:
— Estou descendo num elevador com um andróide que capturei. E, de repente, alguém o mata, sem aviso.
— Nenhuma reação especial — observou Phil Resch.
— Que marcas os ponteiros atingiram?
— O esquerdo, 2,8. O direito, 3,3.
— Um andróide feminino — disse Rick,
— Agora subiram para 4 e 6, respectivamente.
— Isso é suficientemente alto — concluiu Rick. Tirou do rosto o disco adesivo e desligou o feixe de luz. — Isso foi uma reação categoricamente empática. Mais ou menos o que um sujeito humano demonstra com a maioria das perguntas. Exceto nos casos das perguntas extremas, como as que tratam de peles humanas usadas decorativamente... as realmente patológicas.
— O que significa?
— Sou capaz de sentir empatia por, pelo menos, certos andróides, específicos. Não por todos eles, mas... por um ou dois. — Como por Luba Luft, disse a si mesmo. Assim, eu me enganei. Não há coisa alguma de antinatural ou anti-humano nas reações de Phil Resch: sou eu.
E eu bem que gostaria de saber, pensou, se qualquer ser humano já se sentiu assim antes a respeito de um andróide.

Claro; refletiu, isto talvez nunca mais volte a acontecer em meu trabalho. Isto poderia ser uma anomalia., alguma coisa, por exemplo, com meus sentimentos no tocante a A Flauta Mágica. E à voz de Luba, na verdade, à sua carreira como um todo. Certamente isto nunca lhe acontecera antes, ou pelo menos que ele soubesse. Não, por exemplo, no caso de Polokov. Nem no de Garland. E, compreendeu, se Phil Resch houvesse demonstrado no teste que era um andróide, eu poderia tê-lo morto sem sentir coisa alguma, depois da morte de Luba.

Mas basta dessa distinção entre humanos vivos autênticos e construções humanóides. Naquele elevador no museu, pensou, desci com duas criaturas, uma humana e a outra andróide... e meus sentimentos foram o contrário do que deveriam ter sido. Do que estou acostumado a sentir — do que tenho obrigação de sentir.
— Você está numa enrascada, Deckard — observou Phil Resch. Parecia divertir-se.
— O que. o que é que eu devo fazer?
— É sexo — disse Phil Resch.
— Sexo?
— Porque ela...a coisa... era fisicamente atraente. Isso nunca lhe aconteceu antes? — Resch soltou uma gargalhada. — Disseram-nos que isso constitui um dos principais problemas na caçada de cabeças. Você não sabe, Deckard, que nas colônias há amantes andróides?
— Isso é ilegal — declarou Rick, conhecendo a lei sobre esse assunto.
— Claro que é. Mas a maioria das variações em sexo é ilegal. Mas as pessoas as praticam, de qualquer maneira.
— O que é que você me diz de, não sexo, mas amor?
— O amor é outro nome de sexo.
— Como o amor pelo país — disse Rick. — O amor pela música.
— Se é amor por uma mulher, ou uma imitação andróide, é sexo. Acorde e olhe-se de frente. Deckard.
Você queria ir para a cama com um tipo feminino de andróide, nada mais, nada menos. Eu me senti assim, uma única vez. Quando iniciei a caçada de cabeças. Não deixe que isso o abata. Você se cura. O que aconteceu foi que sua ordem de valores se inverteu. Não a mate, ou esteja presente quando ela for morta, e, em seguida, sinta-se fisicamente atraído. Faça isso ao contrário.

Rick olhou-o fixamente,
— Ir para a cama com ela primeiro. .
— ... e em seguida matá-la — disse sucintamente Phil Resch, mantendo seu sorriso duro, indecifrável.
Você é um bom caçador de cabeças, reconheceu Rick. Sua atitude prova isso. Mas, e eu?

De repente, pela primeira vez na vida, ficou em dúvida.



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