sábado, 31 de julho de 2010

O Caçador de Androídes - Philip K. Dick (parte 18)




DEPOIS, desfrutaram de um grande luxo: Rick mandou o serviço de quarto trazer café. Durante um longo tempo, permaneceu sentado na grande poltrona de folhagem verde, preta e dourada, bebericando o café e meditando sobre as horas seguintes.

Rachael, no banheiro, murmurava, cantarolava e chapinhava num banho quente de chuveiro.
— Você fez um bom negócio ao fazer aquele negócio — gritou ela, depois de fechar a água; pingando água, os cabelos amarrados num elástico, apareceu nua e rosada na porta do banheiro. — Nós, andróides, não podemos controlar nossas paixões físicas, sensuais. Você provavelmente sabia disso. Na minha opinião você se aproveitou de mim.— Ela, contudo, não parecia realmente zangada. Se alguma coisa, tornara-se alegre e certamente tão humana como qualquer moça que ele conhecera. — Temos, realmente, que ir pegar aqueles três andros hoje à noite?
— Temos — disse ele. — Dois que eu aposentarei; um que você aposentará. — Como dissera Rachael, o negócio fora feito.
Envolvendo-se numa grande toalha branca de banho, Rachael perguntou:
— Você gostou?
— Gostei.
— Você irá novamente para a cama com uma andróide?
— Se fosse jovem, e caso se parecesse com você.
— Sabe qual é — perguntou Rachael — a esperança de vida de uma robô humanóide como eu? Eu existo há dois anos. Quantos anos mais você calcula que eu disponho?
Depois de hesitar por um instante, ele respondeu:
— Mais ou menos mais dois anos.
— Eles nunca puderam solucionar esse problema. Quero dizer, a substituição de células. A renovação perpétua ou, de qualquer modo, semi-perpétua. Bem, é isso aí. — Vigorosamente, começou a enxugar-se. Seu rosto tornou-se inexpressivo.
— Sinto muito — disse Rick.
— Bolas — disse Rachael —, estou arrependida de ter mencionado isso. De qualquer modo, evita que seres humanos fujam para ir viver com um andróide.
— E isso é verdade também com os tipos Nexus-6?
— É o metabolismo. Não a unidade cerebral.
Saiu do banheiro, vestiu a calcinha e começou a se preparar.

Ele se vestiu também. Juntos, conversando pouco, subiram para o campo do telhado, onde seu hovercar fora estacionado pelo agradável garagista humano, vestido de branco.
No momento em que tomavam a direção dos subúrbios de São Francisco, Rachael observou:
— Está fazendo uma noite agradável.
— A esta hora, minha cabra provavelmente está dormindo — respondeu ele. — Ou talvez caprinos sejam animais noturnos. Alguns animais jamais dormem. Ovelhas, nunca, não que eu pudesse ver. Todas as vezes em que olhamos para elas, estão olhando para a gente.
— Que tipo de esposa você tem?
Ele não respondeu.
— Você...
— Se você não fosse uma andróide — interrompeu-a Rick —, se eu pudesse; legalmente, me casar com você, eu casaria.
— Ou poderíamos viver em pecado, exceto que eu não sou viva — observou Rachael.
— Legalmente, não é. Mas é, realmente. Biologicamente. Você não é feita de circuitos transistorizados, como um falso animal. Você é uma entidade orgânica. — E em dois anos pensou, você se desgastará e morrerá. Porque nós nunca solucionamos o problema da substituição das células, conforme você mesma disse. Assim, acho que não importa, de qualquer maneira.

Este é o meu fim, disse a si mesmo. Como caçador de cabeças a prêmio. Depois dos Batys, nenhum mais. Não depois disto, desta noite.
— Você parece tão triste — observou Rachael.
Estendendo a mão, ele tocou-lhe o rosto.
— Você não vai ser mais capaz de caçar andróides — disse ela, calma. — Assim, não fique triste. Por favor.
Ele olhou-a fixamente.
— Nenhum caçador de cabeças continuou — disse Rachael —, depois de ter estado comigo. Exceto um. Um homem muito cínico. Phil Resch. E ele é doido. Trabalha num campo só seu.
— Compreendo — disse Rick. Sentia-se embotado. Inteiramente. O corpo todo.
— Mas esta viagem que estamos fazendo — disse Rachael — não será desperdiçada porque você vai conhecer um homem maravilhoso, espiritual.
— Roy Baty — disse ele. — Conhece todos eles?
— Conheci-os a todos, quando eles ainda existiam. Conheço três, agora. Tentamos detê-lo esta manhã, antes de você começar a trabalhar com a lista de Dave Holden. Eu tentei novamente, pouco antes de Polokov encontrar você. Mas, depois disso, tive que esperar.
— Até que eu pifasse — sugeriu ele. — E tivesse que chamá-la.
— Luba Luft e eu fomos amigas muito íntimas durante quase dois anos. O que você pensava dela? Gostava dela?
— Gostei dela.
— Mas matou-a.
— Phil Resch matou-a.
— Oh, então Phil acompanhou-o de volta até a Casa da Ópera, Nós não sabíamos disso. Nosso sistema de comunicações pifou, mais ou menos nessa ocasião. Sabíamos apenas que ela fora morta. Naturalmente, presumimos que por você.
— Com base nas notas de Dave — observou Rick —, acho que posso ainda continuar e aposentar Roy Baty. Mas talvez não Irmgard Baty. — E não Pris Stratton, pensou. Mesmo agora; mesmo sabendo de tudo isto. — De modo que tudo o que aconteceu no hotel consistiu numa. .
— A empresa — explicou Rachael — queria pegar os caçadores de cabeças, daqui e da União Soviética. Isto parecia funcionar... por motivos que não conseguíamos compreender inteiramente. Nossas limitações, mais uma vez, acho.
— Duvido que funcione com tanta freqüência e tão bem como você diz — contestou ele, zangado.
— Mas funcionou com você.
— Isso é o que vamos ver.
— Eu já sei — declarou Rachael. — Quando vi aquela expressão em seu rosto, aquela mágoa. Eu procuro isso.
— Quantas vezes você fez isto?
— Não me lembro. Sete, oito. Não, acredito que é a nona. — Ela, ou melhor, a coisa, inclinou a cabeça. — Sim, nove vezes.
— Essa idéia é bem antiga — comentou Rick.
Sobressaltada, Rachael disse:
— O q-quê?
Empurrando o volante para a frente, Rick colocou o carro em planeio de descida.
— Ou, de qualquer modo, é assim que me parece. Vou matá-la — disse ele. — E, depois, vou pegar Roy e Irmgard Baty, e Pris Stratton, sozinho.
— E por isso que você está pousando? — Apreensiva, acrescentou: — Há uma muita. Eu sou propriedade, propriedade legal, da empresa. Não sou um andróide que está aqui fugido de Marte Não estou na mesma classe que os outros.
— Mas — disse ele —. se eu puder matá-la, posso matar os outros também.
As mãos delas mergulharam na bolsa volumosa, inchada, cheia de entulho. Procurou frenética e, em seguida, desistiu.
— Droga de bolsa — disse feroz. — Jamais consigo encontrar coisa alguma nela. Você me matará de uma maneira que não doa? Quero dizer, faça isso com cuidado. Se eu não resistir, certo? Prometo não lutar. Concorda?
— Eu agora compreendo por que Phil Resch disse aquilo — observou Rick. — Ele não estava sendo cínico. Simplesmente aprendera demais. Tendo passado por isto... Simplesmente, não posso censurá-lo. A experiência deformou-o.
— Mas da maneira errada. — Nesse momento, externamente, ela parecia mais controlada. Mas continuava basicamente agitada, tensa. Ainda assim, aquele fogo sombrio desaparecera e a força da vida escoava-se dela, como ele, com tanta freqüência, observara nos casos de outros andróides. A clássica resignação. Aceitação mecânica, intelectual, daquilo com que um organismo autêntico — com dois bilhões de anos de pressão para viver e desenvolver o desejo de viver — jamais se reconciliaria.
— Eu não posso agüentar a maneira como vocês, andróides, desistem de tudo — disse ele selvagemente. Nesse momento o carro quase tocava o chão. Ele teve que puxar para cima o volante a fim de evitar um desastre. Freando, conseguiu pará-lo, sacudindo-se todo e derrapando. Desligou com um repelão o motor e sacou o tubo de laser.
— No osso occipital, na base de meu crânio — disse Rachael. — Por favor. — Virou-se, de modo que não veria o tubo de laser. O feixe penetraria sem que ela o percebesse.
Guardando o tubo, Rick disse:
— Não posso fazer o que Phil Resch aconselhou. — Religou o motor e, um momento depois, subiam aos ares.
— Se você algum dia vai fazer isto — pediu Rachael —, faça-o agora. Não me faça esperar.
— Eu não vou matá-la. — Mais uma vez, embicou o carro na direção do centro de São Francisco. — Seu carro está no St. Francis, não? Vou deixá-la saltar lá, e você pode voltar para Seattle. — Com estas palavras, acabou o que tinha a dizer. Continuou a dirigir em silêncio.
— Obrigada por não ter me matado — disse logo Rachael.
— Bolas, como você disse, de qualquer modo você só tem dois anos de vida. E eu tenho cinqüenta. Viverei vinte e cinco vezes mais do que você.
— Mas você realmente me censura — disse Rachael. — Pelo que fiz. — Voltara a tranqüilidade e a ladainha de sua voz ganhou velocidade. — Você se comportou da mesma maneira que os outros. Os caçadores de cabeças a prêmio, como você. Todas as vezes, ficam furiosos e falam em me matar, mas quando chega a hora, não conseguem. Exatamente como você, há pouco. — Acendeu um cigarro e tragou com prazer. — Você compreende o que isto significa, não? Significa que eu tinha razão. Você não conseguirá aposentar mais andróide algum. Não apenas eu, mas os Batys e Stratton, também. Assim, volte para casa e para sua cabra, E descanse um pouco. — Subitamente, bateu com força no casaco, violentamente. — Ai! Uma brasa do cigarro caiu aqui... apagou. — Recostou-se no assento, relaxando.
Ele permaneceu calado.
— Aquela cabra — disse Rachael —, você a ama mais do que a mim. Mais do que a sua esposa, provavelmente. Em primeiro lugar, a cabra, depois sua esposa e, por último ...— Riu alegre. — O que é que a gente pode fazer, senão rir?
Ele não respondeu. Continuara em silêncio durante algum tempo enquanto Rachael procurava e encontrava o rádio do carro, ligando-o,
— Desligue isso — ordenou Rick.
— Desligar Buster Amigão e seus Amicíssimos Amigos? Desligar Amanda Werner e Oscar Scruggs? Está na hora de ouvir a grande e sensacional denúncia de Buster, quase na hora, finalmente. — Inclinou-se para ver o mostrador do relógio à luz do rádio. — Daqui a pouco. Sabia a respeito disso? Ele vem falando no caso, preparando o ambiente para ele, para...

Nesse momento, do rádio partiu a voz:
"—... hei, eu quero falar com vocês, pessoal, estou aqui, sentado com meu amigão Buster, e estamos falando em ter um tempo realmente bom, esperando, ansiosos, que chegue a hora para o que, eu sei, será o anúncio mais importante do..."
Rick desligou o rádio.
— Oscar Scruggs — disse. — A voz de um homem inteligente.
Rachael religou o rádio no mesmo instante.
— Eu quero escutar. Pretendo escutar. Isto é importante, o que Buster Amigão tem a dizer em seu programa hoje à noite.

A voz idiota pairou outra vez no alto-falante e Rachael Rosen recostou-se, procurando uma posição confortável.
Ao lado de Rick, na escuridão, a brasa do cigarro dela brilhava como a traseira de um complacente vagalume: uma indicação regular, que não tremia, do sucesso de Rachael Rosen. Da vitória dela sobre ele.



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