sábado, 17 de julho de 2010

O Caçador de Androídes - Philip K. Dick (parte 16)




LOGO QUE, oficialmente, deixou o trabalho naquela noite, Rick Deckard cruzou a cidade para a rua dos animais: os vários quarteirões dos grandes comerciantes de bichos, com suas imensas vitrinas e cartazes atraentes.

Ainda não o deixara a nova, horrível e excepcional depressão que o abatera antes naquele dia. Isto, estar entre animais e negociantes de animais, parecia o único ponto fraco no véu de depressão, uma falha através da qual poderia, talvez, agarrá-la e exorcizá-la, No passado, de qualquer modo, a vista de animais, o cheiro de transações financeiras envolvendo altas somas, fizeram muito por ele.
Talvez, nesse instante, o efeito fosse o mesmo.

— Sim, senhor — disse um novo e elegantemente vestido vendedor, em tom de prosa, quando ele ficou olhando boquiaberto, expressão vidrada e humilde para as peças expostas. — Está vendo alguma coisa que o agrade?
— Estou vendo um bocado de coisa de que gosto. É o custo que me incomoda — disse Rick.
— O senhor simplesmente nos diz o tipo de negócio que quer fazer — sugeriu o vendedor —, o que quer levar para casa e quanto quer pagar. Levaremos a proposta ao nosso gerente de vendas e obteremos sua aprovação.
— Eu tenho três mil, em dinheiro. — O Departamento, no fim do dia, pagara sua recompensa. — Quanto custa — perguntou — aquela família de coelhos ali?
— Senhor, se o senhor pode fazer um pagamento inicial de três mil, posso transformá-lo no proprietário de alguma coisa muito melhor que um casal de coelhos. Que tal um bode?
— Não pensei muito em bodes — disse Rick.
— Posso perguntar se isto representa uma nova faixa de preços para o senhor?
— Eu, geralmente, não ando por aí com três mil no bolso — reconheceu Rick.
— Era isso o que eu pensava, quando o senhor falou em coelhos. O problema com coelhos, senhor, é que todo mundo tem um deles. Eu gostaria de vê-lo subir para a classe dos bodes, que acho que é a sua. Para ser franco, o senhor me parece mais um amigo dos caprinos.
— Quais são as vantagens dos bodes?
— A evidente vantagem do bode — explicou o vendedor — é que ele pode ser ensinado a dar cabeçadas naqueles que queiram roubá-lo.
— Não se eles o atingem com um dardo paralisante e descem por escada de corda de um hovercar pairando no alto.

Sem se deixar abater, o vendedor continuou:
— Um bode é leal. E possui uma alma livre, natural, que nenhuma gaiola pode prender. E nos bodes há um aspecto adicional excepcional, que o senhor talvez desconheça. Com muita freqüência, quando a pessoa investe num animal e o leva para casa, descobre alguma manhã que ele comeu alguma coisa radiativa e morreu. Um bode não é incomodado por quase-alimentos contaminados. Pode comer ecleticamente, mesmo coisas que derrubariam uma vaca ou um cavalo e, principalmente, um gato. Como investimento a longo prazo, achamos que o bode — e especialmente a cabra — oferecem vantagens sem concorrência ao criador sério.
— Esse bode é fêmea?
Notara um bode preto, grande, colocado bem no centro da jaula. Dirigiu-se para lá e o vendedor acompanhou-o. O bode, achou Rick, era belo.
— Sim, esse bode é fêmea. Um bode núbio preto, muito grande, como o senhor pode ver. É uma oferta soberba no mercado deste ano, senhor. E estamos oferecendo a um preço atraente, muito, muito baixo.

Tirando do bolso o amarfanhado Sidney's, Rick consultou na lista bodes, núbios, pretos.
— Será uma compra à vista? — perguntou o vendedor. — Ou o senhor vai dar de entrada um animal usado?
— Só dinheiro — disse Rick.

Num pedaço de papel, o vendedor rabiscou um preço e, em seguida, por um instante, quase furtivamente, mostrou-o a Rick.
— Caro demais — disse Rick. Tomou o papel da mão do vendedor e escreveu uma cifra mais modesta.
— Nós não poderíamos vender um bode por esse preço — protestou o vendedor. Escreveu outra cifra. — Esse bode tem menos de um ano. A esperança de vida dele é muito longa. — Mostrou a cifra a Rick.
— Negócio feito — disse.
Assinou o contrato com reserva de domínio, deu como entrada seus três mil dólares — todo o dinheiro do prêmio — e logo depois viu-se no carro, muito confuso, enquanto empregados da loja ajeitavam a gaiola da cabra. Sou dono de um animal agora, disse para si mesmo. De um animal vivo, não elétrico. Pela segunda vez em minha vida.

A despesa, o endividamento contratual, apavoravam-no.
Descobriu que tremia um pouco. Mas eu tinha que fazer isto, afirmou para si mesmo A experiência com Phil Resch... Tenho que recuperar minha confiança, minha fé em mim mesmo e em minha capacidade. Ou não vou conservar meu emprego.

Com as mãos dormentes, lançou o hovercar para o alto, a caminho de seu apartamento, e de Iran. Ela vai ficar zangada, pensou. Porque o animal vai preocupá-la, a responsabilidade. E uma vez que ela fica em casa o dia todo, um bocado de trabalho de manutenção do animal caberá a ela.

Mais uma vez, sentiu-se desalentado.
Ao pousar no telhado de seu prédio, passou algum tempo no carro, compondo mentalmente uma história bem verossímil para contar à esposa. Meu emprego exige o animal, pensou, raspando o fundo de seus argumentos. Questão de prestígio.
Não poderíamos continuar por mais tempo cuidando de uma ovelha elétrica, isso minava minha moral Talvez eu possa lhe dizer isso, resolveu.

Descendo do carro, tirou do assento traseiro a gaiola da cabra e, resfolegando, conseguiu colocá-la no chão. A cabra, que deslizara para um lado durante a mudança de posição, considerou-o com acesa perspicácia, mas não emitiu som algum.
Desceu até seu andar e seguiu um caminho conhecido pelo corredor até a porta,
— Hei — recebeu-o Iran, ocupada na cozinha com o jantar. — Por que chegou tão tarde?
— Venha até o telhado — disse ele. — Quero lhe mostrar uma coisa.
— Você comprou um animal. — Tirou o avental, passou pensativa a mão pelo cabelo e saiu com ele do apartamento, percorrendo ambos em grandes e ansiosos passos o corredor. — Você não devia tê-lo comprado sem mim — reclamou. — Eu tenho o direito de participar de uma decisão dessas, a aquisição mais importante que nós jamais.
— Eu queria que fosse uma surpresa — desculpou-se ele.
— Você ganhou algum dinheiro de prêmio hoje — acusou-o Iran.
— Ganhei — concordou Rick —, aposentei três andros. — Entraram no elevador e, juntos, aproximaram-se mais de Deus. Eu tinha que comprar o animal — disse.
— Hoje, alguma coisa saiu errada. Uma coisa sobre aposentá-los. Para mim, não teria sido possível continuar sem comprar um animal. — O elevador chegou nesse momento ao telhado. Saiu à frente da mulher na escuridão da noite e levou-a à gaiola. Ligando os holofotes — mantidos ali para uso de todos os residentes do prédio — apontou para a cabra, em silêncio. À espera da reação dela.
— Oh, meu Deus — disse baixinho Iran. Foi até a jaula, olhou para dentro, recuou e, em seguida, deu a volta, examinando a cabra de todos os ângulos. — Ela é real?
— perguntou. — Não é falsa?
— Absolutamente real — assegurou ele. — A menos que me tenham passado a perna. — Mas isso raramente acontecia. A multa por falsificação seria astronômica: duas vezes e meia o pleno valor de mercado do animal. — Não, não me passaram para trás.
— É um bode — disse Iran. — Um bode preto núbio.
— Fêmea — corrigiu-a Rick. — Assim, mais tarde, talvez possamos cruzá-la. E teremos leite, com o qual poderemos fazer queijo.
— Poderemos tirá-la daí? Colocá-la onde está a ovelha?
— Ela precisa ficar amarrada — disse ele. — Pelo menos durante alguns dias.
Em voz baixa e estranha, disse Iran:
— "Minha vida é amor e prazer." Uma velha canção, de Joseph Strauss. Lembra-se? Quando nos conhecemos? — Pôs suavemente uma das mãos no ombro dele, inclinou-se e beijou-o. — Muito amor E muito prazer.
— Obrigado — disse ele, e abraçou-a.
— Vamos descer correndo e dar graças a Mercer. Depois, poderemos voltar aqui novamente e dar logo a ela um nome. Ela precisa de um nome. E talvez você possa arranjar uma corda para amarrá-la. — E começou a afastar-se.

Ao lado de sua égua, Judy, penteando-a e escovando-a, o vizinho, Bill Barbour, gritou para eles: — Hei, que bonito bode vocês arranjaram, Deckard. Parabéns. Boa noite, Sra. Deckard. Talvez vocês ganhem cabritinhos. Eu talvez troque meu potro por uns dois cabritos.
— Obrigado — disse Rick. E seguiu Iran na direção do elevador, — Isto lhe cura a depressão? — perguntou à esposa, — Cura a minha.
— Claro que cura minha depressão — garantiu ela. — Agora podemos dizer a todo mundo que a ovelha é falsa.
— Não há nenhuma necessidade de fazermos isso — retrucou ele, cauteloso.
— Mas nós podemos dizer — insistiu Iran. — Compreenda, agora nós não temos nada para esconder. O que sempre quisemos, realizou-se. É um sonho! — Mais uma vez, pôs-se nas pontas dos pés, inclinou-se e beijou-o, habilmente, o hálito ansioso e errático fazendo-lhe cócegas. Ela estendeu a mão para apertar o botão do elevador.
Alguma coisa avisou-o. Alguma coisa obrigou-o a dizer:
— Não vamos descer ainda para o apartamento. Vamos ficar aqui com a cabra. Vamos simplesmente nos sentar, olhar para ela e talvez lhe dar alguma coisa para comer. Para que começássemos, a loja me deu um saco de aveia, E podemos ler o manual sobre manutenção de caprinos. Incluíram isso também, sem cobrar extra. Vamos chamá-la de Euphemia. — O elevador, porém, chegara e Iran já entrava. — Iran, espere — disse ele.
— Seria imoral de nossa parte não nos fundirmos com Mercer num gesto de gratidão — respondeu Iran. — Segurei hoje os punhos da caixa e ela me aliviou um pouco a depressão... apenas um pouco, não como isto. Mas, de qualquer modo, fui atingida por uma pedra, aqui. — Mostrou o punho, onde ele viu uma pequena contusão escura. — E lembro-me que pensei como ficamos melhor, numa situação tão melhor, quando estamos com Mercer. A despeito da dor. Dor física, mas, espiritualmente, juntos. Senti todo mundo, em todo mundo, que havia feito a fusão no mesmo momento. — Com a mão, impediu que se fechasse a porta corrediça do elevador.
— Entre, Rick. Isto levará apenas um momento. Você raramente experimenta a fusão. Quero que você transmita agora a todas as pessoas o estado de espírito em que se encontra. Você deve isso a elas. Seria imoral conservar isto apenas para nós mesmos.
Ela, claro, tinha razão. Assim, entrou no elevador e, mais uma vez, desceram.

Na sala de estar, em frente à caixa de empatia, Iran rapidamente ligou-a, sua face animada de crescente satisfação.
A emoção iluminava-a como se ela fosse uma lua nova crescente.
— Eu quero que todo mundo saiba — disse ao marido. — Uma vez, isto aconteceu comigo. Uma vez entrei em fusão e captei alguém que acabava de adquirir um animal. E depois, certo dia... — Seu rosto ensombreceu-se momentaneamente, desaparecido o prazer. — Certo dia, comecei a receber de alguém cujo animal tinha morrido. Mas outros de nós compartilhamos com elas nossas diferentes alegrias... eu não tinha nenhuma, como você bem pode imaginar, e isso animou a tal pessoa. A gente pode até mesmo fazer contato com um suicida potencial. O que temos, o que estamos sentindo poderia...
— Elas terão nossa alegria — comentou Rick —, mas nós perderemos. Trocaremos o que sentimos pelo que elas sentem. Nossa alegria se perderá.

A tela da caixa de empatia mostrava nesse instante correntes velozes de vivas e informes e cores. Inspirando profundamente, a esposa segurou firme os dois punhos.
— Nós não perderemos realmente o que sentimos, não se o mantivermos claramente na mente. Você nunca, realmente, sentiu a sensação de fusão, sentiu, Rick?
— Acho que não — respondeu. Mas, nesse momento, pela primeira vez, começou a perceber o valor que pessoas como Iran obtinham com o mercerismo. Possivelmente, sua experiência com Phil Resch, o caçador de cabeças, alterara alguma minúscula sinapse nele, fechara um circuito neurológico e abrira outro. E isto, talvez, tivesse ocasionado uma reação em cadeia.
— Iran — disse em tom urgente, puxando-a da caixa de empatia. — Escute aqui. Quero lhe falar sobre o que me aconteceu hoje.

Levou-a até o sofá e sentou-a de frente para ele.
— Conheci outro caçador de cabeças — disse. — Um que nunca vi antes. Um tipo predatório, que parece gostar de destruí-los. Pela primeira vez, depois de estar com ele, considerei os andros de maneira diferente. Quero dizer, à minha própria maneira, eu estivera considerando-os como ele. — Submeti-me a um teste, a uma pergunta, e confirmei isso — continuou Rick. — Eu tinha começado a empatizar com andróides e veja só o que isso significa. Você mesma disse isso esta manhã: "Aqueles pobres andros". De modo que você sabe do que é que eu estou falando. Este foi o motivo por que comprei a cabra. Nunca me senti antes assim. Talvez pudesse ser uma depressão, como essas que você sente. Agora posso compreender por que você sofre quando está deprimida. Sempre pensei que você gostava disso e que podia deixar esse estado a qualquer tempo, se não sozinha, pelo menos com ajuda do condicionador. Mas quando a pessoa fica deprimida daquele jeito, ela não se importa, cai em apatia, porque a pessoa perde o senso de valor. Não importa se a pessoa se sente melhor, porque se não tem valor...
— O que é que você me diz de seu trabalho? — O tom de voz dela atingiu-o como uma estocada. Pestanejou.— Seu emprego — repetiu Iran. — Quais são os pagamentos mensais pela cabra? — Estendeu a mão. Pensativo, ele tirou do bolso o contrato que assinara e entregou-o à esposa.
— Tudo isso — disse ela em voz fraca. — Os juros. Meu Deus... só os juros. E você fez isso porque estava deprimido. Não, como uma surpresa para mim, como disse antes. — Devolveu-lhe o contrato. — Bem, isso não importa. Ainda estou contente porque você comprou a cabra. Eu a amo. Mas é um enorme ônus.
Parecia desolada.
— Eu posso mudar para outro trabalho — disse Rick. — O Departamento realiza dez ou onze atividades diferentes. Roubo de animais. Eu poderia ser transferido para isso.
— Mas o dinheiro do prêmio. Vamos precisar dele, ou levam de volta a cabra.
— Eu conseguirei que prorroguem o contrato, de trinta e seis para quarenta e oito meses. — Tirou do bolso uma caneta esferográfica e rabiscou rapidamente nas costas do contrato. — Dessa maneira, serão cinqüenta e dois e cinqüenta a menos por mês.
Tocou nesse momento o videofone.
— Se não tivéssemos voltado para aqui — queixou-se Rick —, se tivéssemos ficado no telhado, fazendo companhia à cabra, não teríamos recebido este telefonema.
Dirigindo-se para o videofone, disse Iran:
— Por que é que você está com medo? Não vão tomar a cabra, ainda não. — Começou a erguer o aparelho.
— É o Departamento — disse ele. — Diga que eu não estou em casa. — Dirigiu-se para o quarto de dormir.
— Alô — disse Iran no aparelho.
Mais três andros, pensou Rick, que eu devia estar caçando hoje, em vez de ter vindo para casa. Na videotela já se formara o rosto de Harry Bryant, de modo que era tarde demais para fugir. Sentindo duros os músculos das pernas, voltou ao aparelho.
— Sim, ele está — dizia nesse momento Iran. — Nós compramos uma cabra. Dê um pulinho aqui para vê-la, Sr. Bryant. — Uma pausa, enquanto ela escutava. Em seguida, passou o aparelho a Rick. — Ele tem uma coisa que lhe quer dizer.
Dirigindo-se para a caixa de empatia, sentou-se sem demora e, mais uma vez, agarrou os punhos duplos. Foi absorvida quase no mesmo instante.

Rick permaneceu com o telefone na mão, consciente da partida mental da esposa, consciente de sua própria solidão.
— Alô — disse no aparelho.
— Temos gente seguindo dois dos andróides restantes — informou Harry Bryant. Falava do escritório. Rick notou a escrivaninha conhecida, a confusão de documentos e papéis, o entulho. — Obviamente, eles desconfiaram de alguma coisa... Deixaram o endereço que D ave lhe deu e agora podem ser encontrados no...espere. — Bryant procurou na escrivaninha e, finalmente, localizou o que queria.

Automaticamente, Rick tirou a caneta do bolso e, com o contrato de compra da cabra sobre os joelhos, preparou-se para escrever.
— Edifício Conapt 3967-C — continuou o Inspetor Bryant, — Vá para lá logo que puder. Temos que supor que eles sabem sobre os que você pegou: Garland, Luft e Polokov. Foi por isso que fugiram ilegalmente.
— Ilegalmente — repetiu Rick. Para salvar a vida.
— Iran disse que você comprou uma cabra — disse Bryant — Hoje mesmo? Depois que deixou o trabalho?
— A caminho de casa.
— Eu vou aí ver a sua cabra depois que você aposentar os andróides que restam. Por falar nisto...falei há pouco com Dave. Contei o trabalho que lhe deram. Ele manda parabéns e diz para tomar mais cuidado. Disse que os tipos Nexus-6 são mais sabidos do que pensava, Na verdade, ele não queria acreditar que você pegou três num só dia.
— Três é suficiente — queixou-se Rick. — Não posso fazer mais nada. Tenho que descansar.
— Mas amanhã eles desaparecem — disse Bryant. — Saem de nossa jurisdição.
— Não tão cedo assim. Ainda vão ficar por aqui.
— Vá lá hoje à noite — ordenou Bryant. — Antes que eles se fortifiquem, Não esperam que você ataque tão depressa.
— Claro que esperam — disse Rick. — E vão estar à minha espera.
— Está com medo? Por causa do que Polokov...
— Eu não estou com medo — declarou Rick.
— Então, qual é o problema?
— Muito bem — concordou Rick. — Vou para lá. — Começou a baixar o telefone.
— Informe-me logo que obtiver algum resultado. Estarei aqui no escritório.
— Se eu os pegar, vou comprar uma ovelha.
— Você já tem. Tem desde que o conheço.
— É elétrica — disse Rick. E desligou. Uma ovelha de verdade desta vez, disse a si mesmo. Tenho que conseguir uma. Como compensação.

A esposa continuava agachada em frente à caixa preta de empatia, o rosto em êxtase, Ficou ao lado dela durante algum tempo, uma das mãos em seu peito, sentindo-o, subindo e descendo, a vida nela, a atividade. Iran não o notou: a experiência com Mercer, como sempre, tornara-se completa.

Na tela a figura apagada, velha, envolvida no manto de Mercer, subia laboriosamente e, no mesmo instante, uma pedra passou por ele. Observando-o, pensou Rick: meu Deus, há alguma coisa pior na minha situação do que na dele. Mercer não tem que fazer coisa alguma que lhe seja estranha. Ele sofre, mas, pelo menos, não se exige que viole sua própria identidade.

Curvando-se, suavemente, tirou os dedos da esposa dos punhos duplos. Em seguida, ele mesmo, assumiu-lhe o lugar. Pela primeira vez em semanas. Obedecendo a um impulso. Não planejara isso. De repente, acontecera.

À sua frente, uma paisagem de ervas daninhas, sarças, uma desolação. O ar recendia a odores selvagens; isto era o deserto e não havia chuva.
Viu um homem, uma luz triste em seus olhos cansados, cheios de dor.
— Mercer — disse Rick.
— Eu sou seu amigo — disse o velho. — Mas você deve continuar como se eu não existisse. Pode compreender isto? — Estendeu mãos vazias.
— Não — respondeu Rick. — Não posso entender isso. Eu preciso de ajuda.
— Como é que eu posso salvá-lo — disse o velho — se não posso salvar a mim mesmo? — Sorriu. —Não compreende? Não há salvação.
— Então, para o que serve isto? — indagou Rick. — Para o que é que você serve?
— Para lhe mostrar — retrucou Wilbur Mercer — que você não está sozinho. Estou aqui com você, e sempre estarei. Vá e faça seu trabalho, mesmo sabendo que é errado.
— Por quê? — perguntou Rick. — Por que devo fazê-lo? Vou pedir demissão de meu cargo e emigrar.
O velho respondeu:
— Pedir-lhe-ão que faça o mal onde quer que vá. Esta é a condição básica da vida, ser obrigado a violar sua própria identidade. Em alguma ocasião, todas as criaturas vivas têm que fazer isso. É a sombra final, a derrota da criação, a maldição em ação, a maldição que se alimenta de toda a vida. Em toda parte do universo.
— Isso é tudo o que você pode me dizer? — perguntou Rick.

Uma pedra assoviou na sua direção; abaixou-se, mas ela pegou-o na orelha. Imediatamente, soltou os punhos e se viu, mais uma vez, em sua sala de estar, ao lado da esposa e da caixa de empatia. A cabeça doia-lhe fortemente com a pancada; levantando a mão, notou que o sangue começara a correr, caindo em grandes e brilhantes gotas por um dos lados de seu rosto.
Iran, com um lenço, enxugou-lhe a orelha.
— Acho que estou contente porque você me soltou. Eu realmente não posso suportar isso, receber uma pedrada. Obrigado por ter recebido a pedrada em meu lugar.
— Estou indo — disse Rick.
— Um trabalho?
— Três. — Tomou-lhe o lenço e dirigiu-se para a porta, ainda tonto e, nesse momento, com vontade de vomitar.
— Boa sorte — disse Iran.
— Eu não consegui coisa alguma segurando esses punhos — explicou Rick. — Mercer me falou, mas o que disse não ajudou. Ele não sabe mais do que eu. Ele é simplesmente um velho subindo uma colina para morrer.
— Mas essa não é a revelação?
— Eu já tive essa revelação — retrucou Rick. Abriu a porta que dava para o corredor. — Até mais tarde. — Saindo para o corredor, fechou a porta às suas costas.

Conaot 3967-C, pensou, lendo o endereço nas costas do contrato. Isto fica longe, nos subúrbios. Lá quase tudo está abandonado. Um bom lugar para quem quer esconder-se. Exceto pelas luzes da noite. É por elas que me guiarei, pensou. As luzes. Fototrópicas. Como a mariposa da caveira. E em seguida, depois disto, refletiu, não haverá mais.
Vou fazer alguma outra coisa, ganhar a vida de outra maneira. Estes três são os últimos. Mercer tem razão. Tenho que acabar com isto. Mas, pensou, não acho que possa. Dois andros juntos...Isto não é uma questão moral, é uma questão prática.

Eu, provavelmente, não posso aposentá-los, compreendeu. Mesmo que tente. Estou cansado demais e hoje aconteceram coisas demais. Talvez Mercer soubesse disso, refletiu. Talvez tenha previsto tudo o que vai acontecer.
Mas sei onde procurar ajuda, que me foi oferecida antes e que recusei.
Chegou ao telhado e um momento depois, na escuridão de seu hovercar, discou.
— Rosen Association — respondeu a telefonista de plantão.
— Rachael Rosen — disse ele.
— Perdão, senhor?
— Chame Rachael Rosen — ordenou em voz áspera Rick.
— A Srta. Rosen está esperando . .
— Tenho certeza de que está — respondeu. E esperou.
Dez minutos depois, o rosto pequeno e moreno de Rachael Rosen apareceu na videotela.
— Alô, Sr. Deckard
— Está ocupada agora ou posso conversar com você? — perguntou. — Como você disse hoje, mais cedo — mas não parecia que era o dia de hoje; uma geração nascera e morrera desde que falara com ela pela última vez. E todo o peso, todo o cansaço dela, resumira-se em seu corpo; sentia o fardo físico. Talvez, pensou, por causa da pedra. Com o lenço, enxugou a orelha que ainda sangrava.
— O senhor cortou a orelha — disse Rachael, — Que pena.
— Você pensou, realmente, que eu não lhe telefonaria? Como você disse?
— Eu lhe disse — admitiu Rachael — que sem mim um dos Nexus-6 o pegaria antes que o senhor o pegasse.
— Você se enganou.
— Mas está telefonando, de qualquer modo. Quer que eu vá até aí, em São Francisco?
— Hoje à noite — disse ele.
— Oh, é tarde demais. Vou amanhã. É uma hora de viagem.
— A ordem que recebi foi pegá-los hoje à noite. — Interrompeu-se por um momento e depois disse: — Dos oito iniciais, sobraram três.
— O senhor dá a impressão de que passou por momentos horríveis.
— Se você não vir aqui hoje à noite — disse Rick —, vou caçá-los sozinho e não poderei aposentá-los. Eu acabei de comprar uma cabra — acrescentou, — Com o dinheiro de prêmio dos três que peguei.
— Vocês, humanos — riu Rachael. — Caprinos têm um cheiro horrível.
— Só os bodes. Li isso no livro de instruções que veio com ela.
— O senhor está realmente cansado — comentou Rachael. — Parece confuso. Tem certeza, realmente, que sabe o que está fazendo, pegar mais três Nexus-6 no mesmo dia? Ninguém jamais aposentou seis andróides num único dia.
— Franklin Powers — disse Rick. — Há mais ou menos um ano, em Chicago. Ele aposentou sete.
— Da obsoleta variedade McMillan Y-4 — observou Rachael. — Isto é uma coisa diferente. — Pensou um pouco. — Rick, não posso ir, Nem mesmo jantei ainda.
— Preciso de você — disse. Senão, vou morrer, pensou. Sei disso. Mercer sabia. Acho que você sabe, também. E estou perdendo meu tempo fazendo-lhe um apelo. Ninguém pode apelar para um andróide; não há nele coisa alguma que ressoe.
— Sinto muito, Rick — disse Rachael —, mas não posso ir aí hoje à noite. Terá que ser amanhã.
— Vingança de andróide — comentou Rick.
— O quê?
— Porque eu lhe dei uma rasteira na Escala Voigt-Kampff.
— Você pensa isso? — Olhos esbugalhados, ela perguntou: — Realmente?
— Adeus — disse Rick e começou a desligar.
— Escute aqui — interrompeu-o rapidamente Rachael —, você não está usando a cabeça.
— Parece isso porque vocês tipos Nexus-6 são mais inteligentes do que os humanos.
— Não, eu realmente não compreendo — suspirou Rachael. — Posso ver que você não quer realizar esse trabalho hoje à noite ...talvez nunca mais. Você tem certeza que quer que eu torne possível para você aposentar os três andróides restantes? Ou quer que eu o convença a não tentar?
— Venha até aqui — sugeriu ele — e nós alugaremos um quarto de hotel.
— Por quê?
— Por causa de uma coisa que ouvi hoje — respondeu ele, rouco. — Sobre situações envolvendo homens, humanos, e mulheres, andróides. Venha a São Francisco hoje à noite e eu desisto dos andros restantes. Faremos outra coisa.

Ela observou-o atenta, e em seguida disse bruscamente:
— Muito bem. Vou para aí. Onde é que eu o encontro?
— No St. Francis. É o único hotel mais ou menos decente ainda em funcionamento na área da baía.
— E você não fará nada até que eu chegue aí.
— Ficarei no quarto do hotel — prometeu ele — assistindo a Buster Amigão na TV. A convidada dele nos três últimos dias foi Amanda Werner. Gosto dela. Poderia ficar olhando-a o resto de minha vida. Ela tem seios que sorriem.

Desligou e simplesmente ficou ali durante algum tempo, a mente vazia.
Finalmente, o frio do carro despertou-o. Ligou a chave de ignição e um momento depois tomava a direção do centro de São Francisco.
E do St. Francis Hotel.


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