quarta-feira, 20 de outubro de 2010

James Blish - 250 Séculos após...

... Martels teve sonhos esquisitos.

Sonhou que estava caindo dentro dum tubo cheio de dentes parecidos com espinhos o qual terminava num vácuo e tinha a sensação apavorante de que ao abrir os olhos outra coisa não veria senão um chão cheio de
poeira, estátuas amontoadas de qualquer jeito e um muro não muito distante. Mas quando estava relutando para livrar-se do sonho, pelas suas narinas penetrou um cheiro de terra e vegetação úmidas e seus ouvidos captavam o farfalhar dos ramos da floresta e assim percebeu que pelo menos estava livre daquela parte do pesadelo.

Logo ficou surpreso ao notar que seus músculos não lhe doíam depois de ter dormido no chão; mas logo percebeu que, afinal de contas, os músculos não eram seus e que Tlam devia ter dormido desta maneira centenas de vezes durante sua vida. Visto que o membro tribal não parecia ainda estar acordado, Martels demorou para abrir seus olhos e em lugar disto ficou procurando e analisando consigo mesmo a presença de Qvant. Adormecer tinha sido o mais criminoso dos descuidos; e no entanto como podia ele ter evitado isso?

De qualquer forma, aparentemente saiu-se bem. Do ex-Autárquico não conseguia encontrar o mínimo vestígio. E agora, o que iria acontecer? Qvant dissera que para se chegar à Antártica e à região de Términus se teria que passar pelo pais dos Pássaros; mas podia ser que ao falar estivesse referindo-se apenas ao caminho mais direto - aquele que o traria de volta no menor espaço de tempo possível à sua própria caixa craniana - isto porque Amra, o suplicante que aparecera imediatamente antes de Tlam, viera de um
território fronteiriço à Antártica e chegara ao museu sem ter precisado atravessar a região dos Pássaros. Isto insinuava que o território de Amra não ficava excessivamente distante do museu, porquanto com toda certeza os tribais não teriam meios nem vontade nenhuma de atravessar os continentes inteiros, e muito menos
oceanos, só para se beneficiar do duvidoso e secreto conselho de Qvant.

Que eles não atribuíam grande importância àquilo que Qvant lhes dizia já havia sido evidenciado pelas raras vezes que a ele recorriam e pelo pouco proveito que disso auferiam na luta cotidiana para enfrentar as vicissitudes do mundo em que viviam.


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