sábado, 26 de fevereiro de 2011

As parábolas sem conclusões de Stanislaw Lem e “Solaris”




Solaris foi o primeiro romance do famoso escritor polaco Stanislaw Lem a ser traduzido para inglês. Para poder compreender o seu contexto, o qual é a redescoberta da parte de Lem da ficção científica como uma forma de literatura maleável e satisfatória, o leitor deve conhecer a espantosa amplitude dos interesses e realizações de Lem. Porque Lem não é apenas o mais importante escritor de ficção científica da Europa, mas é também um fenômeno cultural em si mesmo.

O senhor existe Sr. Lem?

O nosso autor desmentiu os rumores que diziam que era apenas um computador e que usava a sigla LEM = Lunar Excursion Module [Módulo de Excursão Lunar]. Embora os seus conhecimentos enciclopédicos e furiosa produtividade nos despertem por vezes certas dúvidas, o seu sutil sentido de humor e súbitos ataques de autocrítica vêm confirmar o seu desmentido.

A verdade é que Stanislaw Lem nasceu em 1921, na cidade de Lwow, na Galícia, onde tanto o seu pai como a sua mãe eram médicos. A ocupação nazista proibiu os estudos universitários aos intelectuais polacos, por isso o jovem Lem trabalhou durante a guerra como mecânico de garagem, mantendo contato com o movimento da Resistência, por quem nutria simpatia.

Lem descreveu a sua infância e adolescência durante o período antes da guerra num encantador livrinho autobiográfico, High Castle (Wysoki zamek, 1968).

Em 1944, Lem deixou Lwow, então incorporada na URSS, e foi para Cracóvia, onde reside desde essa data. Lá se formou em medicina e durante algum tempo trabalhou como interno nos hospitais. O período da guerra e o ambiente que imediatamente se seguiu foram o cenário da única novela de Lem que não é de ficção científica, Time Saved (Czas nieutracony), aparentemente escrita durante os anos 1948 a 1950, mas publicada apenas em 1955, e à qual foi atribuído o prêmio literário da cidade de Cracóvia. O protagonista é um jovem médico polaco, que, da solidão, encontra o caminho para uma participação social.

Nos primórdios da sua carreira, Lem escreveu artigos de jornal e poesia, mas o seu interesse dominante nessa época era o estudo da história e da metodologia da ciência, especialmente o desenvolvimento e as implicações da cibernética. A fascinação por este assunto permaneceu viva em Lem, o qual se tem mantido a par do desenvolvimento da ciência moderna e sempre teve o mais profundo interesse pela filosofia da ciência, seus meios e fins (veja-se a discussão sobre “solarística” nesta mesma novela).


A primeira novela de ficção científica de Lem, The Astronauts (Astronauci, 1950, filmada com o nome de The Planet of Death — O Planeta da Morte), nasceu da sua preocupação a respeito do poder destrutivo da ciência quando usada de modo irracional. Narra uma expedição a Vênus, expedição essa que partiu de uma Terra do século 21, utópica e sem classes: depois de muitos perigos e aventuras, a tripulação, que é internacional, descobre que a vida inteligente foi exterminada pela guerra nuclear. Embora a novela siga a vulgar forma de aventura à moda de Júlio Verne, acrescentada de um utopismo socialista e com um aviso a respeito das alternativas catastróficas, é a primeira de uma longa lista de obras de ficção científica de caráter parabólico.

As obras de Lem são parábolas que falam de nós próprios através de situações espantosas acontecidas em outros mundos.

A obra de não-ficção de Lem, provocativa e de caráter pioneiro, traduz as mesmas preocupações que a sua ficção cientifica e lança sobre esta uma imensa luz.

Muitos dos seus artigos sobre medicina, cibernética, filosofia e literatura não foram ainda reunidos, mas os livros seguintes indicam as áreas dominantes dos seus interesses: Cybernetic Dialogues (Dialogi, 1950, escrito na forma racionalista de uma discussão entre “Hylas” e “Philinous”); Getting Into Orbit (Wejscie na orbite, 1962, ensaios sobre Camus, Dostoievsky e futurologia, escritos nos anos 50); Summa Technologiae (1964, um volume de quinhentas páginas, brilhante e altamente controverso, sobre o “jogo Homem-Natureza”, sócio-cibernética e os prospectos da engenharia cósmica e biológica. Traduzido já na URSS, o livro aguarda apenas um editor inteligente para criar análoga sensação no mundo que fala outras línguas); The Philosophy of Chance (Filozofia przypadku, 1968, um volume correspondentemente grosso sobre a teoria da literatura e da cultura); e Science Fiction and Futurology (Fantastyka i futurologia, no prelo).

Contudo, apesar de todo o seu renascentismo universalista de interesses e imensa erudição, Lem é antes de tudo um escritor que escolheu a ficção científica por ser potencialmente adequada às suas preocupações e elevou-a à dignidade de um estilo literário superior. Desde a época áurea de H. G. Wells que a ficção científica européia  — não obstante uns esparsos esforços de Zamiatin, A. Tolstoy, Huxley, Capek e, de modo mais notório, Stapledon— não atingia este nível.

A obra de Lem desenvolveu-se paralelamente ao renascimento da ficção científica britânica com Wyndham, Clarke e Aldiss, e um pouco antes do renascimento da ficção científica soviética com Yefremov, Dneprov e os Strugatskys. Na verdade, com o seu exemplo de uma especulação não dogmática e aberta, mas também cientificamente plausível e filosoficamente pioneira, Lem contribuiu até profundamente para o desenvolvimento destes últimos. Juntamente com os britânicos e soviéticos — e a ficção científica americana—, Lem, por si só, tornou-se o quarto pilar da ficção científica mundial desde a segunda grande guerra.

É óbvio que Lem está absolutamente a par da ficção científica dos estados Unidos dos anos 40 e 50. Se a evidência dos seus próprios livros não fosse suficiente, um comentário publicado na Áustria em 1969 atesta que, nos anos 50, tinha lido  “... gente como Knight, Bradbury, Brown, Bester, Pohl, Blish, Kutter, Russel, Asimov, Clarke, Dick, Campbell, Heinlein...”
Em outros ensaios refere-se a Wyndham, Boucher, Leiber, Seabright, Van Vogt e Sheckley. Foi também leitor da edição francesa de Galaxy até 1965  (ponto em que parece ter desistido, por tédio, da ficção científica ocidental).

Assim, depois da segunda grande guerra, Lem teve os mesmos antecedentes que os escritores de ficção científica ingleses e russos: Verne, Wells, Stapledon, Capek e a ficção científica americana, “tecnologicamente” antifascista, dos anos 40 e 50.

É porém igualmente óbvio que, com este denominador comum ou erário mínimo de toda a ficção científica dos nossos dias, misturaram-se também outros antecedentes, procedentes de uma diferente tradição e meio ambiente, contribuindo assim para o método criativo específico de um escritor altamente individualizado.
O sistema de aproximação ou ângulo de visão de Lem serão discutidos na análise de Solaris, a seguir a uma lista com anotações das suas obras de ficção científica, a qual poderá eventualmente fornecer as primeiras pistas:

— The Astronauts (Astronauci, 1951 — veja-se acima).
— Sesame (Sezam, 1955, contos).
— The Magellan Nebula (Oblok Magellana, 1955, uma novela utópica a respeito da vida e descobertas de uma gigantesca nave espacial, cujo nome já é revelador: Gaea). Hoje em dia Lem considera as suas primeiras obras como sendo de uma ingenuidade cheia de otimismo; eu sou levado a contrapor que esta ingenuidade utópica continua a ser um dos pólos da tensão criativa de Lem, até nas suas obras mais ricas.
— The Star Diaries of Ion Tichy (Dzienniki gwiazdowe, uma série de “jornadas” realizadas por um Dom Quixote, Gulliver ou Candide cósmicos — várias histórias publicadas em 1954, com primeira edição de1959; edição final aumentada em 1966). É sem dúvida uma das obras-primas de Lem. O horror satírico e grotesco destas histórias e os seus bem apontados dardos alegóricos são provavelmente a razão de ser esta a sua obra mais traduzida.
— Invasion from Aldebaran (Inwazja z Aldebarana, 1959). Uma coleção de histórias diversas escritas nos anos 50, incluindo algumas sátiras muito boas sobre o tipo de história de ficção científica dos Estados Unidos e as primeiras histórias do ciclo do “piloto Pirx”.
— The Investigation (Sledztwo, 1959). Um mistério nas fronteiras da ficção científica: a Scotland Yard investiga uma série de casos que poderiam ser ressurreições de mortos; são apresentadas várias hipóteses, mas não há qualquer solução final definida.
— Eden (Eden, 1959). Uma pequena novela a respeito de uma tripulação de exploradores num planeta desconhecido, ironicamente chamado Eden, e das dificuldades que tiveram para compreender as relações biológicas e sociais entre a estranha espécie inteligente desse planeta, espécie essa que está a caminhar para uma monstruosidade biossociológica.
— Return from the Stars (Powrot s gwiazd, 1951). Um astronauta, devido a uma contração do tempo, regressa a uma humanidade sem conflitos, pseudo-utópica, e encontra-se em vias de degenerar numa antiutopia hedonista. (Esta obra será publicada em breve, nesta coleção.)
— Solaris (1961 — ver mais adiante).
— Memoirs found in a Bathtub (Pamietnik znaleziony w wanniet 1961). Uma novela formalmente similar ao duplo horizonte do Iron Heel de Londres: num futuro utópico, durante umas escavações nas montanhas Rochosas, são encontradas umas memórias nas ruínas de um Quinto Pentágono subterrâneo. Todo o “universo de grutas-de-aço” do escritor das memórias, isolado de qualquer verificação empírica, é um gigantesco centro de espionagem que existe com a finalidade de competir com um “antiuniverso” inimigo, cuja existência é pouco provável; o narrador perde a esperança e comete suicídio.
As últimas quatro novelas — das quais encontramos o eco nos nº 13 e 18 mais adiante — são variações sobre um modelo de “conte philosophique” do século 18, do tipo de Voltaire ou Diderot, satiricamente invertidas e inclinando-se para o humor negro, muito semelhante ao que encontramos em Swift. Nas situações abertas e imprevisíveis que apresenta, Lem não se preocupa tanto com o “progresso”, que em todas as novelas é pressuposto, como com o preço de certas espécies de progresso e a impossibilidade de uma “solução final”. Graças a uma rigorosa mas perturbante precisão de pormenores e estrutura, Lem tem impressionante sucesso em transmitir estilisticamente a opacidade criada pelos “ruídos da informação”. Isto permite-lhe rivalizar com a densidade da melhor ficção científica americana moderna e reprovar a grande tradição de ficção científica que vem desde Swift, passando por Wells, Stapledon e Capek, recorrendo a um novo arsenal de artimanhas baseadas na cibernética, na teoria da informação e na moderna filosofia da ciência.
— The Book of Robots (Ksiega Robotów, 1961). Mais histórias de Ion Tichy e Pirx, assim como The Lymphater Formula, um conto sobre um microcosmo artificial.
— Lunar Night (Noc Ksiezycowa, 1964). Histórias e também quatro peças para a televisão, nas fronteiras do ciclo de Tichy, algumas também representadas no teatro.
— The Invincible (Niezwyciezony, 1964). Um conto longo cuja situação básica é similar à de Eden, com um retoque sombrio, que consta do fato de o planeta explorado ter tido uma evolução cibernética em vez de biológica. (Publicada em Portugal com o título de A Nave, Invencível.)
— Robotic Fables (Bajki Robotów, 1964). Consta de contos populares humoristicamente recontados, sob um disfarce cibernético e adaptados aos nossos dias.
— The Cyberiad (Cyberiada, 1965). Uma série de histórias grotescas que apresentam dois construtores robôs, rivais entre si, Trurl e Klapaucjusz.
— The Hunt (Polowanie, 1965). Coleção de contos, incluindo alguns a respeito de Pirx.
— Tales of Pilot Pirx (Opowiesci o pilocie Pirxie, 1968). Coleção de nove contos sobre o desenvolvimento pouco heróico de um astronauta, desde a fase de jovem exemplar, à moda de Heinlein, até se tornar um protagonista complexo.
— His Master's Voice (Geospana, 1969). Novela que trata de um projeto gigantesco para decifrar as informações que vêm do espaço e que resulta numa descodificação parcial, em que cada sucesso é seguido por novos problemas. Como é usual nas parábolas de Lem, há vários níveis de significação que refletem, de um modo satírico, os dilemas sociais dos nossos dias.

Existem cerca de quarenta traduções destas obras na União Soviética, Japão, nas duas Alemanhas, Iugoslávia, França, Itália e toda a Europa de Leste, atingindo (contando com os originais polacos) mais de 10 milhões de exemplares — 4 milhões só na URSS. Com exceção de um conto mutilado aparecido numa velha antologia, a obra de Lem foi apresentada ao leitor da língua inglesa apenas na antologia de Darko Suvin, Other Worlds Other Seas (Nova Iorque, Random House, 1970), que contém dois contos de Ion Tichy, um de Pirx e uma das “fábulas robóticas”.


Solaris - Stanislaw Lem (Posfácio) [ Download ]