domingo, 27 de fevereiro de 2011

Entrevista com Marcello Simão Branco

Aproveitando o lançamento de 'Assembleia Estelar', o Capacitor Fantástico entrevista seu organizador, o pesquisador e escritor Marcello Simão Branco.





Capacitor Fantástico: Nos fale um pouco sobre o que encontraremos em 'Assembleia Estelar'?

Marcello Simão Branco: O livro é uma antologia de contos e noveletas com histórias de ficção científica de conteúdo político. Narrativas sobre escolhas eleitorais no futuro, histórias alternativas, guerras futuras e caos social, novas formas de hegemonia política no século XXI, revoluções, sociedades anarquistas, divisão política humana na conquista do espaço etc. São 14 histórias com dez dos principais autores brasileiros: André Carneiro, Ataíde Tartari, Carlos Orsi, Daniel Fresnot, Fernando Bonassi, Flávio Medeiros, Jr, Henrique Flory, Miguel Carqueija, Roberto de Sousa Causo e Roberval Barcellos, alé de quatro estrangeiros, incluindo três estrelas da FC internacional, Bruce Sterling, Orson Scott Card e Ursula K. Le Guin, e o português Luís Filipe Silva. O livro ainda contém um longo artigo escrito por mim em que analiso as relações históricas e temáticas entre a FC e a política, no exterior e no Brasil.






CF: Como e quando surgiu a ideia incomum de casar FC com política?

MSB: Bom, minha formação é de doutor em ciência política, então acabou sendo natural tentar aproximar estes dois campos de interesse. Mas de maneira concreta me inspirei no livro "2084: Election Day: Stories About the Politics of the Future", organizado por Isaac Asimov e Martin H. Greenberg - este um antologista e cientista político - em 1984, com a mesma proposta. Fui atrás deste livro e tomando ele como base, organizei "Assembleia Estelar". Mas o resultado ficou diferente, já que o norte-americano centra-se mais na política interna dos EUA e sua democracia e além de temas de política externa. Já "Assembleia Estelar" tem um conteúdo político mais variado, conforme comentei na resposta anterior.


CF: Como foi feita a seleção dos trabalhos?

MSB: Enviei a proposta do livro para cerca de 40 autores brasileiros e alguns portugueses. A receptividade foi grande e a maioria enviou trabalhos. A partir daí, selecionei os que entraram no livro. Adicionalmente também procurei autores com histórias já publicadas há alguns anos que eu considero de boa qualidade, e as incluí no livro também. E por fim, a Devir me permitiu escolher histórias de FC política dos autores
estrangeiros que ela tem contrato.



CF: Como foi ou está sendo, esta parceria com a Devir?

MSB: Muito pródiga. O Douglas Quinta Reis, diretor editorial, é, sobretudo, um fã de FC e entende o que um leitor e aficcionado do gênero espera de uma editora. A proposta de "publicar FC para quem gosta de FC", casa perfeitamente com minha trajetória dentro do gênero e a editora é muito aberta ao debate e sugestão de ideias e trabalhos. Nesse sentido, além do aspecto comercial, há um engajamento dentro da linha editorial que justifica a parceria que temos realizado, seja em "Assembleia Estelar", seja na coleções de livros em geral e também no "Anuário Brasileiro de Literatura Fantástica".


CF: Quais outras coletâneas você organizou?

MSB: Além desta, organizei profissionalmente "Outras Copas, Outros Mundos", para a editora Ano-Luz, em 1998. Foi outra antologia temática pioneira na FC brasileira - e internacional - relacionando o fantástico com o futebol. Foram 11 contos de autores nacionais, às vésperas da Copa do Mundo de 1998. Algumas outras foram em caráter amador, na coleção "Terra Incognita", da mesma Ano-Luz, por volta de 2000 e 2001, como livros de contos de Carlos Orsi e Simone Sauressig.


CF: A FCB parece estar se avolumando de forma nunca vista, algo que os militantes no fandom não poderiam ter previsto dez anos atrás. É somente a internet, é um momento financeiro favorável, ou modernização do mercado gráfico/editorial, ou tudo junto? Como você vê a situação atual? Os leitores estão procurando mais literatura fantástica hoje?

MSB: Acredito que sim. Na verdade, há muitos mais livros do que é possível ler e comprar à disposição do leitor brasileiro hoje. Mas o mercado é também grande o suficiente para se segmentar em gêneros, temas e faixas etárias diferentes, embora a maior oferta seja para os livros de caráter infanto-juvenil. O mercado editorial para os gêneros fantásticos atravessa um grande momento, mas pode não ser definitivo. No fundo, ainda é uma questão de obter retorno do mercado e seguir as tendências que vêm do exterior, mesmo porque a maior parte dos livros publicados pelas grandes editoras é de autores e temas da moda no exterior. Veja o sucesso da fantasia no início dos anos 2000 e o dos vampiros nos últimos anos.


CF: Não lhe parece que a estratégia para chegar aos leitores de amanhã, tenha que ser repensada, e que estamos perdendo um tempo precioso insistindo em modelos tradicionais/conservadores? Por exemplo, a maioria das editoras ainda se definiu por adotar modelos eletrônicos em seus lançamentos, e mal se utilizam da internet para disseminar seus produtos. Não lhe parece que estaremos sempre 'correndo atrás do prejuizo'?

MSB: Sim, mas é que as grandes editoras têm, em geral, uma estrutura pesada e conservadora. Elas deverão mudar aos poucos, seguindo a tendência das editoras estrangeiras e o quando tiverem um retorno financeiro seguro de novas estratégias. Também a disseminação de novas tecnologias associadas ao livro deve, a médio prazo, provocar um impacto não desprezível na estratégia das editoras.


CF: Você deve se lembrar de um tempo em que autores internacionais de FC e Fantasia, tinham seus livros publicados no Brasil. A partir de um determinado momento, estas publicações deixaram de acontecer e ficamos afastados da FC mundial (ainda hoje estamos). Você considera que este fato prejudicou de alguma maneira a FCB? A FCB que temos hoje, está de alguma forma descompassada em relação a FC mundial, ou escrava do universo das séries televisivas e do cinema blockbuster?

MSB: Olha, esta fase que você comenta já passou. De uns cinco anos para cá, a quantidade de livros de FC, fantasia e horror no Brasil atingiu números centenários. Em 2009, por exemplo, tivemos 364 livros destes gêneros publicados no país, sendo quase 40% deles, de autores nacionais (ainda que em editoras pequenas, edições amadoras e eletrônicas). 

A internet coloca a FC brasileira em contato permanente com centros importantes da FC internacional. Inclusive, alguns autores e críticos têm publicado em revistas nos EUA e na Europa. Algumas poucas editoras (como a Aleph e a Devir) têm publicado livros de autores importantes e atuais. Mas o que poderia tornar ainda mais efetiva a aproximação dos temas da FC internacional e brasileira seria a publicação de uma revista profissional de contos, a exemplo do que foi a "Isaac Asimov Magazine", no início dos anos 1990. 

De qualquer maneira, os melhores autores brasileiros de hoje escrevem uma FC instigante e ousada a par do que acontece nos principais centros da FC mundial. Não porque seguem necessariamenrte as tendências, mas porque desenvolvem caminhos próprios, a partir da realidade brasileira.


CF: Você e Cesar Silva são os pesquisadores responsáveis pelo sempre aguardado 'Anuário Brasileiro de Literatura Fantástica'. No decorrer do tempo em que trabalharam para a elaboração do anuário, foi possível perceber alguma tendência ou mudança significativa nas publicações nacionais, em relação a outras épocas?

MSB:  Sim, principalmente na quantidade, como disse antes. No primeiro "Anuário", de 2004, tivemos 130 livros publicados no ano. Em 2009, como disse antes, 364. E agora em 2010, passará com folga dos 400 livros. Duas características podem ser apontadas como principais: 1) a expansão dos lançamentos baseia-se nos livros para o público infanto-juvenil; 2) o expressivo aumento quantitativo na publicação de autores nacionais (48 num total de 130 em 2004 (37%) e 142 de 364 (39%) em 2009), com a manutenção de um patamar em termos proporcionais. Surgiram várias editoras novas que publicam autores nacionais e outras tradicionais que voltaram a dar espaço à FC, fantasia e horror.
Contudo, se aumentou a quantidade, falta ainda que os bons autores nacionais sejam publicados pelas grandes editoras, pois estas priorizam os autores estrangeiros.



CF: Para terminar, você tem alguma outra coletânea em vista? Alguma sugestão de leitura ou link que queira divulgar?

MSB: Uma nova coletânea neste momento não. Mas para os próximos anos é possível que coordene um novo projeto. Dois livros que li recentemente merecem ser recomendados: "O Incrível Homem que Encolheu", de Richard Matheson (editora Novo Século) e "Selva Brasil", de Roberto de Sousa Causo (editora Draco), pois estão entre os melhores lançamentos de 2010. Sugiro também a visita aos sites das editoras que publicam FC&F de maneira regular e engajada, como, por exemplo, a Devir, a Aleph e a Tarja Editorial. A maior parte do que há de melhor vem sendo realizado por estas editoras. Afora, isso, vale a pena conhecer o blog de Cesar Silva, www.mensagensdohiperespaço.blogspot.com, que realiza um trabalho de divulgação e análise sobre a FC&F brasileira dos mais idealistas e independentes.

CF: Obrigado Marcello, pela sua gentileza em conceder esta entrevista!