domingo, 13 de março de 2011

Entrevista com Thomas Disch





Esta semana, em Strange Horizons, apresentamos mais um autor, como o fazemos periodicamente, esta edição traz o romancista, poeta e crítico Thomas M. Disch. Em sua carreira de quase 40 anos, Disch distinguiu-se como um dos escritores mais originais e versáteis surgidos do movimento New Wave da ficção especulativa, que transformou o gênero na década de 60. Ele é mais conhecido no mundo da FC por dois romances, Campo de Concentração e 334, assim como outros, muitas vezes de contos satíricos. Ele também escreveu poesia, horror e críticas teatrais.

Meu primeiro encontro com o trabalho de Disch foi na coleção de Samuel R. Delany , Jewel-Ringed Jaw; e a admiração de Delany por Disch levou-me às suas histórias e romances. Wings of Songs é provavelmente o meu romance favorito de Disch, embora também seja muito afeiçoado a The Genocides. Fiquei encantado pela  oportunidade de falar com ele ao telefone em sua residência em Nova York, sobre sua vida e carreira.




David Horwich: Vamos começar pelo seu início. Quando começou a escrever?

Thomas M. Disch: Há sempre um começo? Lembro-me no jardim de infância em Minneapolis, com Dennis White, meu melhor amigo naquela idade, contando-lhe histórias sobre Ronald Rabitt. Era uma série de aventuras. Essas são as primeiras histórias que eu lembro de ter contado, mas quem sabe  que histórias  eu contei aos meus pais? Contar histórias era absolutamente natural para mim. É minha maneira de me relacionar com as pessoas, eu acho.

DH: Então, você sempre foi de contar histórias. Quando você começou a escrevê-las?

TD: Eu suponho que eles me pediram para fazer esse tipo de coisa na escola, eu não me lembro das histórias que escrevi. Tinha blocos cheios, mas não de histórias, de enredos imitando Asimov,  inspirados em The Caves of Steel .  Eu descobri a ficção científica, e pensei, oh sim! Civilizações galácticas em conflito umas com as outras! Então enchi cadernos completos com descrições de personagens, enredos e histórias futuras do meu próprio império galáctico, sobre o qual eu não me lembro de nada. Isso foi por volta dos 11 ou 12.

DH: É quando você encontrou a ficção científica pela primeira vez?

TD: Tinha cerca de 11 anos, sim. Eu descobri através do meu amigo Bruce Burton, com quem eu jogava Story Tag - uma versão mais elaborada dos contos de Ronald Rabit. Ele apareceu com idéias que me surpreenderam. Só depois de um bom tempo eu descobri que ele estava pegando todas da Astounding Science Fiction - plágio em Story Tag! [Risos] Eu pensei que ele de repente se tornara uma espécie de gênio ou algo assim. Ele parou de ganhar na Story Tag quando eu percebi o que ele estava fazendo

Em Fairmont, Minnesota, você só poderia obter revistas de FC, assinando-as, então eu tinha as minhas próprias assinaturas. Acho que subscrevi a Galaxy antes de Astounding; de qualquer forma, esses foram os meus anos de revistas de FC, 1951, '52, '53. Quando  fiz 14, eu estava vivendo em Twin Cities, e na décima série tivemos que ler Júlio César. Quando descobri Shakespeare, e conheci a poesia e como funcionava, eu surtei. Antes disso, eu achava que era coisa de cartão comemorativo. Então abandonei a ficção científica, e voei para as estrelas. Minha ambição era tornar-me, um Shakespeare, Thomas Hardy, Dostoevksii, eu lia qualquer livro da biblioteca que me dava na telha.


DH: Foi quando você começou a escrever poesia?

TD: Eu comecei a escrever poesia antes de escrever contos, no ensino médio. Mas eu sabia que o que eu estava escrevendo era simplesmente inferior - uma das maldições da inteligência - então eu não persegui ambições literárias mais longe do que as atribuições da escola e do ensino médio me levassem. Isso também serviu para a faculdade. Eu me inscrevi em um curso para aprender a escrever contos com um grande professor, e ele me incentivou, e eu também tinha outros colegas para comparar-me, mas eu sabia que ainda não estava preparado.

Então, quando eu tinha 22 anos, um calouro na faculdade, tive o que depois chamamos de um colapso nervoso. Eu não queria fazer as provas finais, eu não tinha estudado para elas, e eu não poderia fazer o teste de cálculo sem estudar, então fui confrontado com esta crise. Ao mesmo tempo, eu sabia que, de alguma forma, se eu me sentasse no fim de semana que eu estava tendo meu colapso nervoso e escrevesse uma história, esta seria publicável,  eu estava pronto para escrever uma história publicável. Então escrevi "A Double-Timer",  sete mil e quinhentas palavras. Foi a primeira história que eu escrevi pensando, "esta pode ser publicada." E assim foi. E eu nunca fiz os testes.


DH: Então foi uma crise pessoal que o levou a um momento em que você estava pronto para passar ao nível seguinte?

TD: Eu não acho que foi realmente uma crise pessoal, acho que foi uma decisão inconsciente. Isso é o que eu sempre senti sobre colapsos nervosos, se você não está realmente doido, ou esquizofrênico, basicamente, você está fazendo uma decisão que é tão difícil que você precisa da desculpa da neurose. Acho que colapsos nervosos eram muito mais comuns no final dos anos 50 e início dos anos 60,  o mundo é mais moderno sobre essas coisas hoje, para que as pessoas possam tomar decisões sem alegar uma desculpa. Mas funciona em ambos os sentidos, era uma grande vantagem ter colapsos nervosos.

DH: Depois de ser publicado pela primeira vez no início dos anos 60, você pensava em tentar fazer uma carreira escrevendo?

TD: Bastante. Era 1962 eu tinha vendido a primeira história para a Fantastic. Eu comecei a escrever outras histórias em rápida sucessão, e elas foram ficando melhores, gradualmente, sensivelmente. A gama de histórias foi também, naturalmente, aumentando, e eu pensei - hei, eu posso fazer isso, na verdade, eu acho que posso fazê-lo muito bem.

DH: Você estava escrevendo principalmente ficção científica, neste momento?

TD: Quase tudo, porque era um campo vasto. Eu não iria ameaçar Saul Bellow, ou mesmo o povo do The New Yorker. Eu nunca vendi para o The New Yorker. Eu tive só um período de teoria da literatura. Eu venho do bairro errado para vender para a revista The New Yorker. Não importa o quão bom eu sou como um artista, que sempre poderão sentir o cheiro de onde eu venho. Eu acho que o único de todos nós, que encontrou seu caminho na revista The New Yorker foi Ursula Le Guin, e mesmo ela era como se um alienígena visitasse a revista.

DH: É isso ainda é verdade hoje?

TD: Ah, sim. É mais verdadeiro hoje, porque acho que sou mais fiel à minha visão - Eu sei o que é, e eu sei que sou o inimigo. Isso é verdade para a poesia também. Eu conheci o editor de poesia da The New Yorker, de forma amigável - Howard Moss, na época - e ele nunca usaria nada meu. Mas há lugares que o fazem, porque eles são menos comprometidos com uma visão de como vêem seu público. O The New Yorker tem um entendimento muito bom do que seu público quer - é John Updike, classe média alta, são as pessoas de uma determinada renda. E se você não está escrevendo para confortar estas pessoas, elas não querem te ouvir. Isso é verdade para quase tudo. É tudo direcionado para uma certa idade, preferência sexual...

DH: Mercado publicitário.

TD: Todas essas coisas. Todos os dados demográficos. Fazem parte da realidade. Às vezes são realidades forjadas – porém mais velho e mais sábio - desde que eu tenha um lugar para publicar, eu posso ser blasé sobre isso.

DH: Foi uma luta para estabelecer sua carreira? Como era a ficção científica no início dos anos 60?

TD: Um campo totalmente aberto para mim. Eu rapidamente me tornei muito bom, na mesma medida em que enviava sinais de alerta para algumas pessoas. Mesmo aquelas que não gostavam de mim era uma espécie de elogio, de certa forma. Algis Budrys me chamou de "niilista". Essa é a palavra que as pessoas usam quando querem dizer "este é o nosso inimigo. Ele não acredita em nada." Significa, ele não acredita em nada do que nós acreditamos (e nós acreditamos em um monte de porcaria).

DH: Você estava tentando fazer algo diferente...

TD: Eu não tinha que tentar. Se eu seguisse a minha visão, isso já era diferente. Havia muita gente da minha idade e geração e com o mesmo passado que o meu, e que estava escrevendo de forma semelhante a minha, então eu não estava sozinho...  Eu fazia parte da "New Wave", que significava: espertinhos de nível universitário. O tipo velho escritor safado tinha só o ensino médio. A ficção científica nos anos 30 e 40 era uma literatura da classe trabalhadora, como a literatura pulp de detetive. O país inteiro estava se tornando gradualmente mais educado, e eu fazia parte de toda essa transição.

DH: O quanto este também foi um produto, ou influenciado por, das mudanças culturais e sociais em curso nos anos 60?

TD: Bem, nós tínhamos uma mudança cultural e social em curso. Fazíamos parte dela, refletíamos em nossas próprias vidas, nós espelhando, e estimulados pelos nossos escritos e outros veículos. Foi se reforçando mutuamente. É bom ter feito parte da história dessa forma.

DH: Você tinha o sentimento na época de que você e seus colegas estavam fazendo algo diferente e novo?

TD: Ah, claro, sabíamos disso. Foi sim uma sensação gloriosa. Sabíamos que estávamos detonando. E isso era divertido.

DH: Então, a recepção foi positiva na época dentro do gênero, dentro do fandom?

TD: Bem, foi positiva e negativa. A geração mais velha que está sendo deixada de lado não fica muito feliz com isso. Os mais velhos tinham uma escolha - poderiam se juntar a nós, ou poderiam tentar lutar. Foi realmente um caso de quais iriam se ajustar e quais iriam se afastar.

Havia uma certa geração marginal - Brian Aldiss, Phil Dick, pessoas da nossa geração - que tinha a opção de se tornar New Wave com a gente, e tirar partido de todas as liberdades de escrita - a linguagem adulta, a comédia. Você poderia finalmente escrever para adultos! Isso foi maravilhoso! Para muitos dos escritores mais velhos, era um chamariz para eles, e eles tiveram um renascimento; Damon Knight foi um deles. Mas havia alguns velhos que simplesmente não conseguiam adaptar-se, como Algis Budrys e Ray Bradbury, acho que eles ficaram para trás, como uma espécie de volta ao Paleolítico.


DH: John Campbell ainda era um dos editores mais fomosos quando você estava começando. Você teve algum encontro com ele?

TD: Não, não. . . Eu não teria me socializado com ele, e eu não acredito que ele apareceria em público, fora de sua própria sala do trono. Eu fui a um monte de convenções de ficção científica - nunca o vi por lá. Acho que as pessoas que se davam muita importância não se misturavam com os novos. Eu nunca vi Heinlein.

DH: Você tem um favorito seu desse período?

TD: Realmente não, porque eu não leio as coisas, a não ser por algum motivo que tenho que o fazer. Quando tenho, normalmente fico agradavelmente surpreso e acho que, hei, isso é muito bom - e não li isso em 40 anos. Eu estava relendo uma história que escrevi em 1964, "Flags Dangerous", que está em um CD que eu fiz recentemente (que vai responder à sua pergunta, um dos favoritos). É perfeitamente diferente, a história boba, quando eu escrevi, eu sabia que tinha encontrado a voz certa e a forma de escrever FC de humor e me fazia rir. Um humorista, que escreve apenas para se divertir. Na mesma época, eu encontrei a mesma voz na minha poesia.

DH: Você publicava poesia nesta época também?

TD: Sim, nesta mesma época eu vendi o meu primeiro poema para a Minnesota Review, e eu passei a escrever poesia desde então. É parte do que eu faço.

DH: Poesia de ficção científica?

TD: Não, não é ficção científica - é poesia. Há um certo elemento na poesia em tudo...Metáforas, quando exploradas, podem se tornar ficção científica, mas isso não faz parte do objetivo, é apenas algo que acontece naturalmente em poemas. Há uma corrente dentro da ficção científica que acha que há algo chamado de "poesia de ficção científica", e para mim isso é sempre um sinal de alerta - como uma doença de pele - devemos evitar essas pessoas cuja idéia de poesia é que existem dois tipos distintos, ficção científica e não ficção científica. É só poesia.

Suponho que, em última análise é a forma mais gloriosa da literatura, mas em nossos tempos você não pode viver de poesia, e eu acho que escrevi boa poesia , como pode-se esperar que um poeta profissional o faça durante sua vida. Tenho sete livros de poesia, e há uma possibilidade agora de um Collected Poems. O Collected Poems seria pelo menos o dobro da massa física real da poesia publicada, e talvez mais que o dobro. Seria um livro de 500 páginas ou mais, o que é bastante bom. Estou sempre atento à possibilidade - sempre que houver um bom poema lá, eu deixo tudo e escrevo o poema. Às vezes vem mais difícil e mais rápido do que outros, mas nunca houve um período em minha vida que não tivesse minhas antenas prontas para receber um poema.


DH: Não é assim com a prosa?

TD: Com histórias eu tenho um arquivo de idéias que é de cinco centímetros de espessura. Você não pode escrever toda idéia que você tem. É uma questão de mercado - escolher escrever uma história particular, que seria publicada em algum lugar onde eu quero ser publicado, ou ganhar algum dinheiro legal - todas essas questões estão envolvidas na decisão de usar uma ideia em particular. Além disso: eu iria me divertir? Algumas histórias dão mais trabalho do que divertem. Muito trabalho. É como alfaiataria. Eu não acho que para um alfaiate um terno seja diversão - é trabalho. Escrever ficção, e qualquer romance, é um tipo de trabalho.

Mas com a poesia, embora não haja trabalho, a atenção que é necessária para fazer um bom poema para concluir, raramente ultrapassa um dia ou dois. Eu não escreveria um poema a menos que eu pense que vá ser bom. Eu não iria sentar e dizer, oh, eu tenho que escrever um poema agora, e ligo meu cérebro e me pergunto o que fazer. Está lá ou não está. Se ele está lá, eu escrevo. A poesia é como uma visita. É por isso que eles falam sobre a musa. Se ela vier, você acaba dizendo Olá para ela.


DH: Você acha que a New Wave atingiu o seu objetivo? Será que as coisas começaram a mudar depois de um certo tempo, ou...

TD: Conseguimos o nosso objetivo, e de uma forma irônica ela falhou. A ficção científica, em nossa cultura, é basicamente destinada a crianças ou adultos jovens, como eles dizem, e uma certa dose de ficção científica tem que atender as necessidades emocionais e intelectuais de jovens de 13, 14, 15 anos. Se ele não conseguir fazê-lo como um gênero, então não vai ter seu lugar no mercado. Então inevitavelmente, o povo que inventa e escreve para Star Trek ou fantasia de capa e espada e feitiçaria abastecem  esse público, e o público sempre se renova. Não é o mesmo público - as pessoas crescem e entram na idade da ficção científica, então vivem através dela e em seguida, eles abandonam a ficção científica, e uma nova geração toma o seu lugar.

Bem, se isso é a verdade, então alguns escritores não são, por temperamento, adequados para escrever para esse público, não vão ser bem-vindos ou bem-sucedidos na ficção científica. Assim, alguns escritores de ficção científica saltam fora - Ursula o fez - ou encontram um nicho para ele, como Silverberg, com os  livros Majipoor depois que ele havia feito New Wave. Quero dizer, foi definitivamente um retrocesso, e isso foi feito para poder ganhar dinheiro. Ele era um escritor, um profissional, e ele tinha que ir onde o público estava.

Outras pessoas acham novas audiências no resto da cultura. Eu o fiz, de certa forma, embora os romances de terror sejam um deslocamento lateral - é um público diferente e, presumivelmente, um público mais velho, e é um público diferente culturalmente. As necessidades emocionais que você está fornecendo são diferentes. Além disso, todos esses gêneros estão deslocando-se em termos de audiência ao longo do tempo. A ficção científica encolheu sensivelmente após a New Wave. Há menos revistas para se publicar. Esta sempre foi a maneira que um escritor novo e jovem fazer-se conhecido, e que agora está mais difícil. Eu estava na Readercon, em Boston, e você olha para fora para a audiência - é chocante a quantidade de velhos em geral. Claro, Readercon visa o público leitor, ao invés da audiência televisiva que parece ser o foco da maioria das convenções de ficção científica.


DH: Você acha que isso é inerente ao gênero, ou é mais um resultado das demandas de comercialização e publicação de nossa cultura?

TD: Nunca foi uma necessidade estética, você poderia sempre escrever ficção para adultos, a questão é, você pode ganhar a vida escrevendo isso? Se você escreve ficção muito boa, e é ficção científica, normalmente você pode encontrar um lugar para publicá-la, a menos que você escreva uma espécie peculiar de romance que cria a sua própria audiência especial no âmbito da ficção científica. Estou pensando em R.A. Lafferty, que escreveu como se fosse Piers Anthony escrevendo para adultos, simplesmente não há público fora da FC para essa combinação particular, é um sabor que só existe dentro da Ficção Científica. Eu suponho que há alguns escritores como esses, que são tão sui generis que só podem ser publicado dentro dos muros do gueto.

Philip K. Dick... não poderia ter seu trabalho publicado no mainstream, ele tinha uma dificuldade enorme em conseguir que a sua boa FC fosse publicada. Fez o que precisava fazer para sobreviver por tempo suficiente para tornar-se reconhecido. Ele pensou bem em seu auge criativo, mas a admiração de seus pares não era suficiente para colocar uma refeição na sua mesa. Ele tinha muitas responsabilidades, e eu não acho que ele tratou de todas lá muito bem, havia uma pressão constante sobre ele.


DH: Você mencionou o gueto da Ficção Científica. Quantas vezes você encontrou estes muros?

TD: Os esnobes? Muitas vezes. Há um certo tipo de acadêmico que conta com esse tipo de defesa, mas isso se tornou coisa do passado, os acadêmicos hoje são mais cuidadosos em suas 'esnobices' do que eram, digamos, 20 anos atrás. O esnobismo mais eficaz é simplesmente não ler as pessoas que você esnoba, e não escrever sobre eles, e não ir nas cerimônias de seus prêmios e tudo mais. O gueto ainda é muito eficaz nesse sentido, em que as portas para publicações são fechadas para escritores de ficção científica. No entanto, existem bem poucas pessoas de FC que batem nestas portas. Então parece haver um consenso geral de que vivemos em dois mundos diferentes, e só se casar com a nossa própria espécie.




[continua...]